O MARQUÊS DE SADE: RELIGIÃO (A Filosofia na Alcova - 1795)

A RELIGIÃO
Segundo o Marquês de Sade em A Filosofia na Alcova (1795)

Marquês de Sade: Mais do que um homem que amava a sensualidade, um pensador corajoso que enfrentou a superstição cristã em sua sociedade e defendeu a República.

Eu venho vos oferecer grandes ideias; elas serão ouvidas e sobre elas se refletirá. Ainda que todas não agradem, algumas, ao menos, ficarão e eu terei contribuído para o progresso humano e estarei contente. Não o escondo; é com tristeza que vejo a lentidão com que caminhamos, e com inquietude percebo que estamos na véspera de fracassar mais uma vez. Pensam que este fim será atingido quando nos tiverem dado leis ideais? Não o acrediteis. Que faríamos nós das leis sem a religião? Precisamos de um culto, e de um culto feito para o caráter de um republicano; porém bem diferente daquele que houve em Roma. Num século em que estamos tão convencidos de que a religião deve se apoiar sobre a moral e não a moral sobre a religião, precisamos de uma religião que se eleve sobre os costumes, que seja um desenvolvimento seu, uma consequência necessária e que possa, elevando a alma, sustentá-la perpetuamente à altura desta liberdade preciosa que é hoje seu único ídolo. Ora, eu vos pergunto se é possível supor que a religião de um escravo de Tito ou de um vil histrião da Judéia possa convir a uma nação livre e guerreira que acaba de se regenerar? Não, meus compatriotas, não, vós não o acreditais. Se desgraçadamente, o francês mergulhasse ainda uma vez nas trevas do cristianismo, o orgulho, a tirania, o despotismo dos padres, de um lado, - vícios aliás sempre renovados nesta horda impura - e a baixeza, as insignificâncias, as chatices dos dogmas e dos mistérios desta indigna e enganosa religião, de outro, embotando a energia de sua alma republicana levá-lo-iam, imediatamente, a submeter-se de novo ao jugo que sua energia acaba de quebrar.

Dominando consciências e manipulando mentes

Não nos esqueçamos de que essa pueril religião era uma das melhores armas nas mãos de nossos tiranos: um de seus primeiros dogmas era: "Dar a César o que é de César"; mas nós destronamos César e não queremos mais dar-lhe coisa alguma. Franceses, seria vã presunção acreditar que espírito de um clero juramentado fosse diverso do de um clero refratário. Há vícios de constituição que não se corrigem. Em menos de dez anos, através da religião cristã, de sua superstição, de seus preconceitos, vossos padres, a despeito dos juramentos, a despeito da pobreza, retomariam sobre as almas o antigo domínio; eles vos escravizariam de novo aos reis, pois que o poder dos reis e o da religião são uma e mesma coisa e, então, vosso edifício republicano se desmoronaria por falta de bases.

O mito de deus e do diabo: dualismo que embaça a realidade

Ó vós que empunhais a foice, desferi o golpe de misericórdia na árvore da superstição; não vos contenteis com podar os ramos, desenraizai de uma vez uma planta cujos efeitos são tão contagiosos. Convencei-vos perfeitamente de que vosso sistema de liberdade e de igualdade contraria demasiado os ministros dos altares de Cristo, para que possa existir um só deles que o adote de boa fé ou não procure abalá-lo se consegue readquirir qualquer domínio sobre as consciências. Qual o padre que, comparando o estado atual com o que gozava antigamente, não fará tudo o que de si depender para recobrar a confiança e autoridade perdidas? E quantos seres Fracos e pusilânimes não se tornarão novamente escravos desse coroinha ambicioso? Por que não imaginar que tais inconvenientes não podem renascer? Na infância da igreja cristã os padres não estavam exatamente na situação em que hoje estão? Vós vistes até onde chegaram. Quem, entretanto, os conduziu até lá? Não teriam sido os meios que a sua própria religião lhes fornece? Cara, se vós não proibis absolutamente esta religião, os que a pregam, dispondo sempre dos mesmos meios, atingirão sem dificuldade os mesmos resultados.

Controle mental e comportamental: odiosos objetivos e resultados da crença religiosa

Aniquilai pois para sempre tudo o que pode destruir um dia vossa obra. Lembrei-vos que o fruto de vossos trabalhos, estando reservados para vossos netos, é de vosso, dever, depende de vossa probidade, não deixar subsistir esses germes perigosos que poderia fazê-los mergulhar de novo no caos do qual com tanto esforço saímos. Já começam a se dissipar nossos preconceitos, o povo começa a abjurar os abusos católicos; ele próprio suprimiu os templos e ídolos. Convencionou-se que o casamento não é mais do que um ato civil, os confessionários quebrados alimentam as ladeiras públicas; os pretensos fiéis, desertando do banquete apostólico, deixam para os ratos os deuses de farinha. Não pareis, franceses. Toda a Europa, já com uma das mãos na venda que lhe cerra os olhos, espera de vós que a ajudeis a arrancá-la. Apressai-vos: não deixais que a "Santa Roma", que se agita em todos os sentidos para reprimir vossa energia, tenha tempo sequer para conservar alguns prosélitos. Golpeai decididamente sua cabeça orgulhosa e vivaz e que, em menos de dois meses, a árvore da liberdade, sombreando os destroços do trono de São Pedro, cubra com seus ramos vitoriosos todos esses desprezíveis ídolos do cristianismo, elevados, vergonhosamente, sobre as cinzas dos Catões e dos Brutos.

Era pão e vinho. Hoje poderia ser coca-cola e sanduíche. Tolice levada a sério.

Eu vos repito, franceses: a Europa espera que vós a liberteis uma só vez, do cetro e do turíbulo. Lembrai-vos de que lhes é impossível livrá-la da tirania real sem que a façais quebrar, ao mesmo tempo, os freios da superstição religiosa; os liames que as unem são tão íntimos que, se deixardes subsistir uma delas, vós recaireis imediatamente sobre o domínio da que negligenciardes de destruir. Não é diante de um ser imaginário ou de um vil impostor que um republicano deve se inclinar; seus únicos deuses devem ser agora a "coragem" e a "liberdade". Roma desapareceu desde que lá se pregou o cristianismo e a França estará perdida se aqui o reverenciam ainda.

Transubstanciação: quimera entre religião egipcia e judaísmo para formar um dos pilares do catolicismo

Examinemos com atenção os dogmas absurdos, os mistérios assustadores, as cerimônias monstruosas, a moral impossível dessa desagradável religião e ver-se-á se ela pode convir a uma República. Podeis acreditar, de boa fé, que eu me deixasse dominar pela opinião de um homem que eu acabasse de ver aos pés de um imbecil sacerdote de Jesus? Não, absolutamente; esse homem, irremediavelmente vil, estará sempre ligado às atrocidades do antigo regime e, desde que se submete às cretinices de uma religião tão vulgar como a que tínhamos a loucura de aceitar, não poderá mais, nem me ditar leis nem me esclarecer. Não o vejo senão como um escravo dos preconceitos e da superstição.

Inquisição:  estratégia para se livrar dos que aspiravam a liberdade e enriquecer a igreja com o confisco de seus bens.

Para nos convencermos desta verdade lancemos os olhos sobre o pequeno número de indivíduos que permanecem fiéis ao culto insensato de nossos pais, e veremos então se são todos eles inimigos irreconciliáveis do atual sistema; veremos se não é em seu seio que se enumera toda esta casta, justamente desprezada, dos realistas e aristocratas. Que o escravo de um bandido coroado se dobre, se deseja, aos pés de um ídolo de barro; um tal objeto é feito para sua alma de lama: quem pode servir aos reis pode adorar aos deuses. Mas nós, Franceses, nós, meus compatriotas, humilharmo-nos rasteiramente sob freios tão desprezíveis! Não! Antes morrer mil vezes do que nos escravizar de novo. Se acharmos que é necessário um culto, imitemos o dos romanos: as ações, as paixões, os heróis, eis os seus respeitáveis objetos. Tais ídolos elevaram a alma, eletrizavam-na. Faziam mais, comunicavam-lhe as virtudes dos seres respeitados. O adorador de Minerva desejava ser prudente. A coragem residia no coração daquele que era visto ajoelhar-se aos pés de Marte. Nenhum dos deuses desses grandes homens era privado de energia; todos transmitiam o fogo que os abrasava a alma de quem os venerava. E como havia a esperança de ser um dia adorado como um Deus, cada um aspirava tomar-se, pelo menos, tão grande como aquele que tomava por modelo. Que vemos, pelo contrário, nos deuses vãos do cristianismo? Que vos oferece, pergunto-vos, esta religião imbecil¹? O vulgar impostor de Nazaré faz nascer, porventura, grandes ideais? Sua vil e enfadonha mãe, a impudica Maria, vos inspira alguma virtude? Encontrais entre os santos, que guarnecem seu Eliseu, algum modelo de grandeza, de heroísmo ou de virtude? É tão verdadeiro que esta estúpida religião não se harmoniza com as grandes ideias que nenhum artista pode empregar seus atributos nos momentos que eleva. Na própria Roma a maioria dos enfeites e ornamentos do Palácio dos papas inspira-se no paganismo, e, enquanto o mundo subsistir, só ele ilumina a mente dos grandes homens.


(1) Se alguém examinar com atenção esta religião, verificará que suas características originam se, em parte, da ferocidade e da inocência doe judeus e, em parte, da indiferença e da confusão dos gentios. Em lugar de se apropriar do que os povos da antiguidade podem oferece de tom, os aparecem haver formado sua religião da mistura dos vícios que em toda parte encontraram

Isis e Maria: Plágio descarado

Seria, por outro lado, no teísmo puro, que nós viríamos a encontrar mais motivos de grandeza e elevação? Será que a adoção de uma quimera, dando à nossa alma esse grau de energia essencial às virtudes republicanas, levará o homem a desejá-las e a praticá-las? Não o acreditemos; abandonemos este fantasma e, presentemente, o ateísmo é o único sistema daqueles que sabem raciocinar. À medida que o homem se foi esclarecendo, começou a perceber que o movimento, sendo inerente à matéria, o agente necessário deste movimento não passaria de um ser ilusório e que, se tudo que existia devesse, por essência, estar em movimento, o motor inicial seria inútil. Sentiu, também, o homem, que este Deus quimérico, prudentemente inventado pelos primeiros legisladores, não passava entre suas mãos de mais um meio para aprisioná-lo e que, reservando-se o direito de fazer falar este fantasma saberiam sempre fazê-lo dizer unicamente aquilo que lhes conviesse, em apoio das leis ridículas que nos escravizavam. Licurgo, Numa, Moisés, Jesus Cristo, Maomé, todos estes grandes patifes, todos estes déspotas de nossas ideias, souberam associar as divindades que fabricavam à própria e desmesurada ambição e, certos de dominar os povos com a sanção destes deuses tiveram, como sabemos, a constante preocupação de só interrogá-los na ocasião própria e de fazê-los responder exclusivamente o que julgassem poder servi-los.

Ignore as tolices religiosas

Confundamos, pois, hoje, no mesmo desprezo, não só o Deus vão que certos impostores pregam, como todas as sutilezas religiosas que decorrem de sua ridícula adoção. Os homens livres não se deixam mais embair com brinquedos como este. Que a extinção total dos cultos conste pois dos princípios que propagamos por toda a Europa. Não nos contentemos em quebrar os cetros; pulverizemos para sempre os ídolos. Entre a superstição e a realeza só houve, sempre, um passo¹. Isto tem sido assim, pois uma das principais cláusulas da sagração dos reis foi, sempre, a manutenção da religião dominante como uma das bases políticas para a sustentação do trono. Mas já que abatemos este trono, já que o destruímos, felizmente, para sempre, não receemos extirpar também tudo aquilo que constituía seu apoio.


1. Acompanhai a história de todos os povos: vós vereis que nunca nenhum deles trocou o primitivo governo por um governo monárquico senão em consequência do próprio embrutecimento ou superstição vereis sempre os reis apoiarem a religião e a religião a sagrar os reis. E conhecida a história do intendente e do cozinheiro: Passai-me a pimenta, que eu lhe passarei a manteiga. Desgraçado gênero humano, estareis sempre destinado a ocupar o lugar do patrão destes velhacos.

Sagração de Filipe Augusto II - França

Sim, cidadãos, a religião é incoerente com o sistema da liberdade, vós já o percebeste. Nunca um homem livre se curvará diante dos deuses do cristianismo, nunca os seus dogmas, seus ritos, seus mistérios ou sua moral convirão a um republicano. Ainda um esforço! Se é que trabalhais para destruir todos os preconceitos, não deixes que subsista nenhum, pois que basta um só para fazer retomar todos. E como poderíamos ter dúvidas sobre seu retomo se aquele que deixais viver é, positivamente, o berço, a origem, de todos os outros! Deixemos de acreditar que a religião possa ser útil ao homem. Tenhamos boas leis e poderemos dispensar, perfeitamente, a religião. Mas, e se for necessária uma para o povo; se ela o distrai e o contém? Ora bem; deem-nos neste caso a única que convêm a homens livres, deem-nos os deuses do paganismo. Adoraremos de boa vontade Júpiter, Hércules ou Palas, mas não queremos mais saber do fabuloso autor dum universo que se move a si mesmo, não queremos mais saber de um Deus sem extensão e que, entretanto, enche tudo com sua imensidade, dum Deus todo poderoso e que nunca executa os seus desejos, dum ser soberanamente bom que só cria a descontentes, dum ser amigo da ordem e em cujo domínio tudo é desordem. Não, não mais queremos um Deus que desorganiza e que é o pai da confusão, e que conduz o homem mesmo quando este pratica horrores. Um Deus como este faz-nos tremer de indignação e nós deixamos para. Sempre no esquecimento donde o infame Robespierre quis tirá-lo²

De deus, o que persiste é apenas a ideia de um fantasma

(2) Todas as religiões coincidem no exaltar a sabedoria e o poder da divindade, mas desde o momento que elas nos expõem sua conduta nós só encontramos nela a imprudência a fraqueza e loucura. Deus, diz-se, criou o mundo por si mesmo e, entretanto até agora não conseguiu fazer-se adorar convenientemente por suas criaturas Deus nos faz adorá-lo e nós passamos os dias a nos rir dele. Afinal que pobre coitado que é este Deus...


Franceses, substituamos este indigno fantasma pelas imponentes figuras que fizeram de Roma a dominadora do universo; tratemos todos os ídolos cristãos como fizemos com os dos reis. Nós recolocamos os emblemas da liberdade sobre as bases que sustinham antigamente os tiranos; reergamos igualmente a efígie dos grandes homens sobre os pedestais destes vadios que o cristianismo adora.³ Cessemos de temer os efeitos do ateísmo em nossas mulheres. Os próprios camponeses não sentiram a necessidade de aniquilar o culto católico, tão contraditório com os verdadeiros princípios da liberdade? Não assistiram eles, sem nenhum medo ou dor, a destruição de seus altares e presbitérios? Podeis acreditar que eles renunciarão igualmente a este Deus ridículo. As estátuas de Marte, de Minerva e da Liberdade serão colocadas nos lugares de destaque de suas habitações. Celebrar-se-á todos os anos uma festa e, nela, será entregue uma coroa cívica ao cidadão que mais tiver merecido o reconhecimento da pátria. A entrada de um bosque solitário, Vênus, Hímen e o Amor, erguidos sob um templo agreste, receberão a homenagem dos amantes; ali a beleza coroará a constância pela mão das graças. Não será suficiente apenas amar para merecer esta coroa, será preciso ter sabido ser digno de ser amado. Heroísmo, talento, humanidade, grandeza de alma, um civismo a toda prova, eis os títulos que o amante será obrigado a colocar aos pés de sua adorada. Eles valerão pelos títulos do nascimento e da riqueza que um orgulho imbecil exigia antigamente. Pelo menos algumas virtudes brotarão deste culto enquanto que apenas crimes surgem daquele que tivemos a fraqueza de praticar. Ele se aliará com a liberdade que servimos, ele a animará, sustentá-la-á, abrasá-la-á, ao passo que o teísmo é, pela sua essência e natureza, o mais mortal dos inimigos da liberdade


(3) tratam-se aqui, daqueles homens cuja reputação é reconhecida desde muito tempo.

Deuses romanos: força, grandeza, beleza, libido - o que há de melhor nos seres humanos

Correu por acaso, uma só gota de sangue quando os ídolos pagãos foram destruídos no Baixo-Império? A revolução preparada pela estupidez dum povo tomado novamente escravo operou-se sem o menor obstáculo. Como poderemos temer que a obra da filosofia seja mais difícil que a do despotismo? São apenas os padres que mantêm ainda aos pés de seu quimérico Deus este povo que vós tendes tanto medo de esclarecer. Afastai-o deles e o véu tombará naturalmente. Acreditai que este povo, muito mais sábio do que pensais, libertado dos ferros da tirania, sê-lo-á imediatamente dos da superstição. Vós o temeis sem este freio? Que extravagância! Ah, acreditai-me, cidadãos; aquele que o gládio material das leis não retêm, não cera retido pelo medo moral dos suplícios do infamo, de que se mofa desde a infância. Vosso teísmo, em uma palavra, fez cometer muitos crimes mas não impediu nenhum, jamais. Se é verdade que as paixões cegam, que elas fazem erguer-se um véu sobre nossos olhos, que nos escondem os perigos de que se cercam, como poderemos supor que aquilo que está longe de nós, como as punições anunciadas pelo vosso Deus, possa dissipar esta nuvem que o próprio gládio da lei, sempre suspenso sobre as paixões, não consegue desfazer? Se fica pois provado que este freio suplementar, imposto pela ideia de um Deus, resulta inútil, se está demonstrado que ele é mesmo perigoso pelos seus outros efeitos, eu pergunto: para que poderá ele servir e que razões poderiam valer para prolongar-lhe a existência? Dir-me-ão que o tempo não está ainda maduro para que consolidemos nossa revolução com tal brilho. Ah, meus concidadãos; o caminho que percorremos desde 89 foi muito mais difícil do que o que nos resta completar e nós precisaremos trabalhar muito menos a opinião, neste sentido, do que fizemos naquele período, desde a tomada da Bastilha. Acreditemos que um povo, bastante sábio, bastante corajoso para conduzir um monarca imprudente do cume de suas grandezas aos pés do cadafalso, que em tão poucos anos soube vencer tantos preconceitos, quebrar tantos freios ridículos, sê-lo-á bastante para imolar à prosperidade da república um fantasma muito mais ilusório ainda do que poderia ser o de um rei. Frangi, vós desferireis os primeiro golpes: vossa educação nacional fará o resto. Mas trabalhai prontamente, esta é uma de vossas tarefas mais importantes. Que ela tenha sobretudo por base esta moral essencial, tão negligenciada na educação religiosa. Substitui as imbecilidades teístas, com que fatigais os jovens órgãos de vossas crianças, por excelentes princípios sociais. Que, em lugar de aprender a recitar preces fúteis, que se orgulharão de ter esquecido, aos dezesseis anos, elas estejam instruídas em seus deveres para com a sociedade. Ensinai-lhes a admirar aquelas virtudes de que lhes faláveis antigamente e que, dispensando vossas fábulas religiosas, bastam-lhe para sua felicidade pessoal. Fazei que eles percebam que esta felicidade consiste em fazer os outros tão felizes quanto nós mesmos desejamos ser. Se assentais estas verdades sobre essa quimera cristã, como antigamente tínheis a loucura, de fazer, vossos alunos se apercebendo da futilidade das bases, botarão abaixo o edifício todo e se tonarão verdadeiros celerados somente por acreditar que a religião os proibia de sê-lo. Fazendo-os sentir, ao contrário, a necessidade da virtude, unicamente porque a sua própria felicidade depende dela, eles serão honestos por egoísmo e, como este domina todos os homens, ela estará assentada em bases solidíssimas. Que se evite, pois, com o maior cuidado, misturar qualquer fábula religiosa a esta educação nacional. Não esqueçamos nunca que são homens livres que desejamos formar e não vis admiradores de um Deus qualquer. Que um filósofo simples instrua estes novos alunos sobre a sublime incognoscibilidade da natureza; que ele lhes prove que o conhecimento de um Deus, muitas vezes perigoso aos homens, nunca serviu à sua felicidade e que eles não serão mais felizes, admitindo como causa do que não compreendem, algo que eles compreendem ainda menos; que é muito menos importante compreende. A natureza do que respeitar-lhes as leis e saber utilizá-las a seu favor; que estas leis são tão sábias quanto simples; que estão inscritas no coração de todos os homens e que basta interrogar este coração para perceber-lhes o sentido. Se eles desejarem, de qualquer maneira, que vós faleis de um criador, respondei-lhes que, tendo sido as coisas sempre aquilo que são, não tendo nunca tido começo e não devendo jamais ter fim, é tão inútil quando impossível ao homem remontar a uma origem imaginária, que nada explicaria e nada acrescentaria. Dizei-lhes que é impossível aos homens terem ideias verdadeiras sobre um ser que não age sobre nenhum de nossos sentidos.

Nenhum sinal de deus em parte alguma

Todas nossas ideias são representações de objeto que nos impressionam. Como poderemos representar a ideia de Deus, que, evidentemente, é uma ideia sem objeto? Uma tal ideia, ajuntai, não será tão impossível como um efeito sem causa? Uma ideia sem protótipo pode ser outra coisa que uma simples quimera? Alguns doutores, continuareis, asseguram que a ideia de Deus é inata e que os homens já a possuem no ventre materno. Mas isto é falso, ajuntareis. Todo princípio é um juízo, todo juízo é o efeito de uma experiência e a experiência só se adquire exercitando os sentidos; donde se segue que os princípios religiosos não se fumam sobre nada e, portanto, não são inatos. Como se pode, continuareis, persuadir a seres razoáveis que a coisa mais difícil a compreender era a mais essencial para eles? É que os aterrorizaram, é que, quando se tem medo cessa-se de raciocinar; é que, quando chega a ser recomendado que se desconfie da razão e quando o cérebro é perturbado, crê-se em tudo e não se examine nada. A ignorância e o medo, dir-lhes-ei ainda, eis as duas bases de todas as religiões. A incerteza que domina o homem relativamente a Deus, eis precisamente o motivo que o prende ã sua religião. Nas trevas o homem tem medo, tanto física quando moralmente; torna-se habitual e transforma-se, mesmo, em necessidade: ele acreditará faltar alguma coisa se não tiver mais nada a esperar ou a temer; retomai, em seguida, à utilidade da moral: fornecei-lhes sobre este importante assunto mais exemplos que lições, mais provas que livros, e deles fareis bons cidadãos, bons guerreiros, bons pais e bons esposos; fareis deles homens tanto mais ligados à liberdade do próprio país quanto a ideia de servidão não poderá mais apresentar-se ao seu espírito, quando o terror religioso não perturbará seu gênio. Então, o verdadeiro patriotismo brilhará em todas as almas; reinará aí com toda sua força e com toda sua pureza, porque será o único sentimento dominante e nenhuma ideia estranha diminuir-lhe-á a energia. Então vossa Segunda geração estará garantida e vossa obra, consolidada por ela, tornar-se-á a lei do universo. Mas, se por medo ou pusilanimidade estes conselhos não forem ouvidos e se deixar subsistir as bases do edifício que se acredita ter destruído, que acontecerá? Reconstruir-se-á sobre estas bases e, sobre elas, se erguerão os mesmos colossos com a cruel diferença que, desta vez, eles serão cimentados tão fortemente que nem a vossa geração, nem as que a seguirem, conseguirão jamais destruí-los.

A conversão de Constantino (imperador romano e primeiro chefe universal da Igreja)


Que não se tenham dúvidas sobre serem as religiões a base do despotismo. O primeiro déspota foi um padre; o primeiro rei e o primeiro imperador de Roma, Numa e Augusto, associaram-se ambos ao sacerdócio; Constantino e Clóvis foram mais bispos que soberanos; Heliogábalo foi um sacerdote devasso. Em todos os tempos, em todos os séculos houve, entre o despotismo e a religião, uma tal conexão que fica mais que demonstrado que, ao destruir-se um, solapa-se o outro, pela simples razão de que o primeiro servirá sempre de lei ao segundo. Não proponho, entretanto, nem massacres, nem deportações; estes horrores estão bem longe de minha alma para que os ouse conceber sequer um minuto. Não, não assassinarei, não deportarei. Estas atrocidades, são próprias dos reis e dos celerados que os incitaram. Não será imitando-os que vós fareis que eles sejam execrados; não empregueis a força senão com os ídolos; usai o ridículo com que os servem. Os sarcasmos de Juliano fizeram mais mal à religião cristã que todos os suplícios de Nero. Sim, destruamos, destruamos para sempre toda ideia de Deus e transformemos seus sacerdotes em soldados; já alguns o são, e que permaneçam nesta ocupação tão nobre para um republicano. Mas que eles não nos falem mais nem desse ser quimérico nem de sua religião fabulosa, único objeto de nosso desprezo. Condenemos a ser vaiado, ridicularizado, coberto de lama em todas as esquinas das maiores cidades da França, o primeiro abençoado charlatão que nos vier falar ainda de Deus ou de religião: prisão perpétua será a pena para aquele que cair duas vezes no mesmo erro. Que as mais insultuosas blasfêmias, os livros mais ateus, sejam plenamente autorizados, a fim de extirpar do coração e da memória dos homens estes temíveis brinquedos de nossa infância. Que se organize um concurso para a obra mais capaz de esclarecer os europeus sobre uma matéria tão importante e que um prêmio considerável, conferido pela nação, seja a recompensa daquele que, tendo dito tudo, tudo demonstrado sobre esta matéria, não deixe mais nada para seus compatriotas que uma foice para aniquilar estes fantasmas e um coração pronto a odiá-los. Em seis meses tudo estará acabado; vosso infame Deus estará no nada e isto sem que deixemos de ser justos, ciumentos da estima alheia; sem que deixemos de temer o gládio das leis e de sermos honestos. Porque nos teremos apercebido de que o verdadeiro amigo da pátria não deve, como escravo dos reis, deixar-se conduzir por quimeras. Pois que não é, afinal, nem a frívola esperança de um mundo melhor, nem o receio de maiores males do que aqueles que nos envia a natureza, que devem conduzir um republicano, cujo único guia é a virtude, cujo único freio é o remorso.

Liberdade para ser feliz!


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