Juntos e sozinhos - A epidemia da solidão gay


Juntos e sozinhos - A epidemia da solidão gay

Traduzido por Sergio Viula
Para o www.foradoarmario.net
Originalmente, "Together alone - The Epidemic of
Gay Loneliness"
Escrito por Michael Hobbes


“Eu costumava ficar tão empolgado quando a metanfetamina passava".

Esse é meu amigo Jeremy.

"Quando você a tem", diz ele, "você tem que continuar usando.  Quando acaba, é tipo: 'Ah, que bom, eu posso voltar à minha vida agora.' Eu costumava ficar acordado o final de semana inteiro, e ir a essas festas de sexo, e depois me sentir como merda até a quarta-feira. Há aproximadamente dois anos, eu passei a usar cocaína porque eu podia trabalhar no dia seguinte."

Jeremy está me contando isso de cima da cama do hospital, seis andares acima de Seattle. Ele não me fala sobre as exatas circunstâncias da super dosagem, mas somente que um estranho chamou uma ambulância e que ele já acordou aqui.

Jeremy não é o amigo com quem eu esperaria ter essa conversa. Até algumas semanas atrás, eu não tinha ideia de que ele consumisse qualquer coisa mais pesada que alguns Martinis. Ele é barbeado, inteligente, livre de glúten, o tipo de cara que pode exibir uma camisa de trabalho não importando qual seja o dia da semana. Na primeira vez que nos encontramos, ele me perguntou se eu  conhecia um bom lugar para fazer CrossFit. Hoje, quando eu pergunto a ele como tem sido no hospital, a primeira coisa que ele diz é que eles não têm Wi-Fi, que ele está atrasado com seus e-mails.

"As drogas foram uma combinação de tédio e solidão" - diz ele. "Eu costumava chegar em casa do trabalho exausto numa sexta-feira, à noite, e pensava: "E agora?" Então, eu ligava para algum entregador de metanfetamina e checava a Internet para ver se havia festas acontecendo. Era isso ou assistir um filme sozinho."

[Esse não é seu nome verdadeiro. Somente alguns dos nomes de homens gays nesse artigo são reais.]

Jeremy não é meu único amigo gay lutando com isso. Existe o Malcolm, que pouco sai de casa, exceto para o trabalho por conta de sua terrível ansiedade. Existe o Jared, cuja depressão e dismorfia corporal foram resumindo sua vida social continuamente a mim, à academia e à pegação na Internet. E havia o Christian, o segundo cara que eu beijei, que se matou aos 32 anos, duas semanas depois que seu namorado terminou com ele. Christian foi a uma festa, alugou um tanque de gás hélio, começou a inalar a substância, e depois enviou uma mensagem de texto pedindo que seu ex-namorado viesse visitá-lo, só para ter certeza de que este encontraria o corpo.

Por anos, notei a divergência entre meus amigos heterossexuais e meus amigos gays. Enquanto metade do meu círculo social vai desaparecendo imersos em relacionamentos, filhos e subúrbios, a outra metade tem se lutado em meio ao isolamento e à ansiedade, às drogas pesadas e ao sexo arriscado.

Nada disso se encaixa na narrativa que me contaram e que eu tenho contado a mim mesmo. Assim como eu, Jeremy não cresceu sendo vítima de bullying por seus colegas ou rejeitado pela família. Ele não se lembra de jamais ter sido chamado de viado. Ele foi criado num subúrbio da Costa Oeste por uma mãe lésbica. "Ela se assumiu para mim quando eu tinha 12 anos" - diz ele. "E apenas duas frases adiante, ela me disse que sabia que eu era gay. Eu mal sabia disso naquele momento."


Essa é uma foto minha com a minha família quando eu tinha 9 anos. Meus pais ainda dizem que não tinham ideia de que eu fosse gay. Eles eram gentis.


Jeremy e eu temos 34 anos. Em nosso tempo de vida, a comunidade gay fez mais progresso em termos de aceitação legal e social do que qualquer outro grupo demográfico na história. Tão recente quanto minha adolescência, o casamento gay era apenas uma aspiração distante, algo que os jornais ainda colocavam entre assustadoras aspas. Agora, ele foi consagrado na letra da lei pela Suprema Corte. O apoio público ao casamento gay saltou de 27% em 1996 para 61% em 2016. Na cultura pop, fomos de "Cruising" a "Queer Eye" e a "Moonlight". Personagens gays hoje em dia são tão senso comum que até podem ter defeitos.

Contudo, mesmo celebrando a escala e a rapidez dessas mudanças, os índices de depressão, solidão e uso abusivo de substâncias psicotrópicas na comunidade gay ainda permanecem estacionados no mesmo lugar por décadas. Pessoas gays são, dependendo da pesquisa, duas a dez vezes mais tendentes a tirar suas próprias vidas do que pessoas heterossexuais. Somos duas vezes mais propensos a termos um grave episódio de depressão. E de acordo com a última epidemia vivida, o trauma parece se concentrar entre os homens. Durante uma pesquisa entre homens gays que chegaram recentemente a Nova York, 3/4 sofriam de ansiedade ou depressão, abusavam de drogas ou álcool ou mantinham relações sexuais arriscadas — ou alguma combinação das três. Apesar de toda a conversa sobre "famílias escolhidas", os homens gays têm menos amigos do que as pessoas heterossexuais ou as mulheres lésbicas. Numa pesquisa de cuidadores nas clínicas de HIV, um entrevistado disse aos pesquisadores: "Não é uma questão deles não saberem como salvar suas vidas. É uma questão deles saberem se suas vidas são dignas de serem salvas."

Não vou fingir que serei objetivo sobre qualquer coisa nesse âmbito. Sou um perpétuo homem gay solteiro que foi criado numa cidade azul claro por pais filiados ao PFLAG (N.T.: PFLAG é a primeira organização americana a unir famílias e aliados das pessoas que são lésbicas, gay, bissexuais, transgêneras e queer). Nunca conheci alguém que tenha morrido de AIDS, nunca experimentei discriminação direta, e saí do armário num mundo no qual o casamento, uma propriedade e um golden retriever não eram apenas viáveis, mas esperados. Eu também estive dentro e fora de terapia mais vezes do que baixei e deletei o Grindr.

“O casamento igualitário e as mudanças no sistema legal foram um aprimoramento para alguns homens gays" — diz Christopher Stults, um pesquisador na Universidade de Nova York que pesquisa as diferenças na saúde mental entre homens gays e homens heterossexuais. "Mas para muitas outras pessoas, foi uma decepção. Tipo, nós temos esse status legal, e ainda assim resta algo insatisfeito."

Esse sentimento de vazio, todavia, não é apenas um fenômeno americano. Nos Países Baixos, onde o casamento gay é legal desde 2001, os homens gays continuam três vezes mais propensos a sofrer algum tipo de desordem do humor do que os homens heterossexuais, e 10 vezes mais tendentes a se envolver em "auto-mutilação suicida." Na Suécia, que tem celebrado uniões civis desde 1995 e o casamento pleno desde 2009, homens casados com homens apresentam um índice de suicídio três vezes maior do que o de homens casados com mulheres.

Todas essas insuportáveis estatísticas levam à mesma conclusão: Ainda é perigosamente isolacionista passar a vida como um homem atraído por outros homens. A boa notícia, porém, é que epidemiologistas e cientistas sociais estão mais perto do que nunca de entenderem todas as razões pelas quais isso ocorre.




QUER RECONHEÇAMOS ISSO OU NÃO, NOSSOS CORPOS TRAZEM O ARMÁRIO CONOSCO PARA DENTRO DA FASE ADULTA.



Travis Salway, um pesquisador do Centro BC para Controle de Doenças em Vancouver, passou os últimos cinco anos tentando entender por que homens gays continuam se matando.

"A característica definidora dos homens gays costumava ser a solidão do armário" - diz ele. "Mas agora você tem milhões de homens gays que saíram do armário e continuam sentindo o mesmo isolamento."

Estávamos almoçando num bar do tipo"hole-in-the-wall" que faz noodles. Era novembro, e o cara chegou usando jeans, galochas e uma aliança de casamento.

"Gay casado, hein?" — digo eu.

"Monogâmico, até" — diz ele. "Eu acho que eles nos darão a chave da cidade."

Salway cresceu em Celina, Ohio, uma cidadezinha que gira em torno de uma fábrica enferrujada e que talvez tenha 10.000 habitantes  o tipo de lugar, diz ele, onde o casamento competia com a faculdade para as pessoas com 21 anos de idade. Ele foi alvo de bullying por ser gay antes que sequer soubesse quem era. "Eu era efeminado e cantava no coro."  diz ele. "Isso era suficiente." Então, ele era cuidadoso. Ele teve uma namorada por quase todo o ensino médio, e tentava evitar os garotos — tanto romanticamente como platonicamente — até que ele pudesse dar o fora de lá.

Lá pelo fim dos anos 2.000, ele era um assistente social e epidemiologista e, como eu, sentia-se chocado com a crescente distância entre seus amigos heterossexuais e gays. Ele começou a se perguntar se a história que ele sempre ouvira sobre homens gays e saúde mental não estaria incompleta.

Quando a disparidade veio a lume nas décadas de 50 e 60, os médicos pensaram que ela fosse um sintoma da homossexualidade em si mesma, apenas uma das muitas manifestações do que era, naquele tempo, conhecido como "inversão sexual". À medida que o movimento dos direitos gays ganhou força, porém, a homossexualidade desapareceu do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais e a explicação passou a ser a de trauma. Os homens gays estavam sendo expulsos de suas próprias famílias, suas vidas amorosas eram ilegais. Claro que eles apresentavam alarmantes índices de suicídio e depressão. "Essa era a ideia que eu tinha também" — diz Salway — "que o suicídio gay era resultado de uma era passada, ou que ele estava concentrado entre adolescentes que não enxergavam qualquer outra saída.”

E, então, ele viu outras informações. O problema não era apenas suicídio, não estava apenas afligindo adolescentes, e não estava acontecendo apenas em áreas manchadas pela homofobia. Ele descobriu que homens gays em toda parte, em qualquer idade, apresentam índices mais altos de doença cardiovascular, câncer, incontinência, disfunção erétil, alergias e asma — dê o nome, e nós o teremos. No Canadá, Salway acabou descobrindo, havia mais homens gays morrendo de suicídio do que de AIDS, e isso por muitos anos. (Esse pode ser o caso nos EUA também, diz ele, mas ninguém se importou em estudá-lo.)

"Vemos homens gays que nunca foram sexualmente ou fisicamente atacados com sintomas de estresse pós-traumático semelhantes aos de pessoas que estiveram em situações de combate ou que foram estupradas," diz Alex Keuroghlian, um psiquiatra no Centro para Pesquisa Populacional em Saúde LGBT do Instituto Fenway.

Os homens gays, como diz Keuroghlian, “preparam-se para enfrentar rejeição.” Estamos constantemente escaneando situações sociais para identificarmos maneiras pelas quais poderíamos não nos encaixar nelas. Lutamos para nos afirmarmos. Repetimos nossos fracassos sociais numa volta."

A coisa mais estranha sobre esses sintomas, porém, é que a maioria de nós não os vê como sintomas de modo algum. Desde que investigou os dados, Salway começou a entrevistar homens gays que tentaram suicídio e sobreviveram.

“Quando você pergunta a eles por que eles tentaram se matar" — diz ele — " a maioria deles não menciona nada sobre serem gays." Em vez disso, diz ele, esses homens lhe dizem que tiveram problemas de relacionamento, problemas com a carreira, problemas financeiros. "Eles não sentem que sua sexualidade seja o aspecto mais saliente de suas vidas. E, todavia, eles estão numa escala de magnitude mais propensa a se matar.”




O termo que os pesquisadores usam para explicar esse fenômeno é "estresse de minoria". Em sua forma mais direta, é muito simples: Ser um membro de um grupo marginalizado requer esforço extra. Quando você é a única mulher numa reunião de negócios, ou o único negro no dormitório de sua faculdade, você tem que pensar num nível no qual a maior parte dos membros da maioria não pensa. Se você enfrentar seu chefe, ou fracassar em fazê-lo, será que você estará agindo conforme os estereótipos das mulheres no local de trabalho? Se você não se sair bem num teste, será que as pessoas vão pensar que é por causa da sua raça? Ainda que você não experimente estigma descarado, a simples consideração dessas possibilidades cobra seu preço ao longo do tempo.

Para pessoas gays, o efeito é maximizado pelo fato de que o status de nossa minoria é ocultado. Não apenas temos que fazer todo esse trabalho extra e responder a todas essas perguntas internas quando temos 12 anos, mas também temos que lidar com isso sem podermos falar com nossos amigos e pais sobre o assunto.

John Pachankis, um pesquisador sobre estresse em Yale, diz que o verdadeiro estrago é feito por volta dos cinco anos quando a pessoa se encontra num ponto entre compreender a própria sexualidade e começar a contar a outras pessoas sobre ela. Mesmo os relativamente pequenos "estressores" desse período têm um efeito exteriorizado — não porque eles sejam diretamente traumáticos, mas porque começamos a antecipá-los. "Ninguém precisa chamá-lo de estranho para que você ajuste seu comportamento a fim de evitar ser chamado assim", diz Salway.

James, agora um homem de 20 anos quase totalmente fora do armário, disse-me que na sétima série, quando ele era um garoto de 12 anos enrustido, uma colega de turma perguntou-lhe o que ele achava de uma outra garota. "Bem, ela parece um homem" — disse ele sem pensar — "então, sim, talvez eu tivesse sexo com ela." 

Ele diz que entrou imediatamente em pânico. "Eu fiquei tipo, será que alguém captou isso? Será que eles disseram a outras pessoas que falei aquilo daquele modo?"

Foi assim que eu passei minha adolescência também: sendo cuidadoso, escorregadio, reforçando e super compensando. Uma vez, num parque aquático, um dos meus amigos do final do ensino fundamental me pegou observando-o enquanto eu o esperava deslizar pelo tobogã. "Camarada, você acabou de me dar uma olhada?" — perguntou ele. Eu consegui disfarçar com algo como: "Desculpe, você não é o meu tipo". Então, eu passei semanas depois disso preocupado com o que ele estaria pensando sobre mim. Mas ele nunca tocou no assunto de novo. Todo o bullying aconteceu na minha cabeça.

"O trauma para os homens gays deve-se à sua natureza prolongada" — diz William Elder, um psicólogo e pesquisador de trauma sexual. "Se você experimentar um episódio traumático, você  tem o tipo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático que pode ser resolvido num período de quatro a seis meses de terapia. Mas se você experimenta anos e anos de pequenos "estressores" - pequenas coisas que te fazem pensar: 'Será que aquilo foi por causa da minha sexualidade?' - ele pode se tornar ainda pior."





"Eu via essas famílias tradicionais na TV" - diz James. "Ao mesmo tempo, eu assistia uma tonelada de pornografia gay... Então, eu pensava que aquelas era as minhas duas opções."



Ou, como diz Elder, estar no armário é como se alguém te socasse levemente no braço vez após vez. No começo, é incômodo. Depois de um tempo, é irritante. Chega o momento em que isso é tudo o que ocupa seu pensamento.

E então o estresse de lidar com isso todos os dias começa a aparecer no seu corpo.

Crescer sendo gay, ao que parece, é ruim para você de muitas maneiras semelhantes às de crescer em extrema pobreza. Um estudo de 2015 descobriu que pessoas gays produzem menos cortisol, o hormônio que regula o estresse. Seus sistemas estavam  tão constantemente ativados na adolescência que eles acabaram tão lerdos quanto os adultos, diz Katie McLaughlin, uma das co-autoras do estudo. Em 2014, pesquisadores compararam adolescentes gays com adolescentes heterossexuais quanto ao risco cardiovascular. Eles descobriram que crianças gays não são as únicas que tinham algum número de "episódios estressantes na vida" (i.e. pessoas heterossexuais têm problemas também), mas aqueles episódios pelos quais elas passaram infligiram mais dano sobre seus sistemas nervosos.

Annesa Flentje, uma pesquisadora de estresse na Universidade da Califórnia, São Francisco, se especializou no efeito do estresse de minoria sobre o comportamento do gene. Todos aqueles pequenos socos combinam-se com adaptações a eles, diz ela, e tornam-se "maneiras automáticas de pensar que nunca são desafiadas ou desligadas, mesmo 30 anos mais tarde." Quer reconheçamos isso ou não, nossos corpos carregam o armário conosco para dentro da fase adulta. “Não temos as ferramentas para processar o estresse enquanto crianças, e não reconhecemos isso como um trauma enquanto adultos", diz John, um ex-consultor que deixou seu emprego há dois anos para trabalhar com cerâmica e liderar passeios de aventura nas [montanhas de] Adirondacks. “Nossa reação interna é a de lidar com as coisas agora do modo como lidávamos com elas enquanto éramos crianças."

Mesmo Salway, que devotou sua carreira a compreender o estresse de minoria, diz que existem dias em que ele se sente desconfortável em passear em Vancouver com seu parceiro. Ninguém jamais os atacou, mas eles já foram xingados por alguns babacas em público. Isso não precisa acontecer muitas vezes antes que você comece a esperar que aconteça, antes que seu coração comece a bater um pouco mais rápido quando você vê um carro se aproximando.

Mas o estresse de minoria não explica plenamente porque homens gays apresentam uma variedade tão grande de problemas de saúde. Porque enquanto o primeiro round de danos acontece antes que saiamos do armário, o segundo, e talvez mais grave, vem em seguida.



"VOCÊ VAI DA CASA DA SUA MÃE A UMA BOATE GAY ONDE MUITAS PESSOAS USAM DROGAS E SE SENTE TIPO: ESSA É MINHA COMUNIDADE? ELA MAIS SE PARECE UMA SELVA DE FODAS."



Ninguém jamais disse a Adam para não agir de modo efeminado. Mas ele, como eu, e como a maioria de nós, aprendeu isso de alguma maneira.

"Eu nunca me preocupei que minha família fosse homofóbica", diz ele. "Eu costumava fazer me enrolar num cobertor como se fosse um vestido e dançar no quintal. Meus pais achavam isso bonitinho, então eles gravavam isso em vídeo e mostravam para os meus avós. Enquanto todos eles assistiam a fita, eu me escondia atrás do sofá porque me sentia envergonhado. Eu devia ter seis ou sete anos."

Antes mesmo de chegar ao ensino médio, Adam havia aprendido a lidar com seus maneirismos tão bem que ninguém suspeitava que ele fosse gay. Mas, diz ele, "Eu não podia confiar em ninguém porque eu tinha essa coisa que eu reprimia. Eu tinha que atuar no mundo como um agente solitário."

Ele saiu do armário aos 16, então com o ensino médio terminado, e se mudou para São Francisco e começou a trabalhar com prevenção ao HIV. Mas o sentimento de distância de outras pessoas não foi embora. Então, ele tratou disso, diz ele, "com muito, muito sexo. É o nosso recurso mais acessível dentro da comunidade gay. Você se convence que se está fazendo sexo com alguém, você está tendo um momento íntimo. Isso acaba sendo uma muleta."

Ele trabalhou longas horas. Costumava chegar em casa exausto, fumava um pouco de maconha, enchia uma taça com vinho tinto, então começava a escanear aplicativos de encontros para convidar alguém para casa. "Assim que eu fechava a porta sobre o último cara, eu pensava: Esse não atingiu o alvo, então eu procurava por outro."

Isso continuou por anos. No último Dia de Ação de Graças, ele estava de volta à casa dos pais e sentia uma necessidade compulsiva de sexo porque estava completamente estressado. Quando finalmente encontrou um cara na vizinhança que estava disposto a trepar, ele correu para o quarto dos seus pais e começou a vasculhar suas gavetas para ver se eles tinham algum Viagra.

"Então, esse foi o momento do fundo do poço?" — perguntei.

"Aquele foi o terceiro ou quarto, sim" — diz ele.

Adam agora está num programa de 12 passos para viciados em sexo. Já se passaram seis semanas desde que ele fez sexo. Antes disso, o período mais longo que ele ficou sem sexo foi de três ou quatro dias.

“Há pessoas que fazem muito sexo porque é divertido, e isso está bem. Mas eu continuava tentando torcê-lo como um pano úmido para tirar alguma coisa dele que não estava lá — suporte social, ou companheirismo. Era uma maneira de não lidar com minha própria vida. E eu continuava negando que isso fosse um problema porque sempre disse a mim mesmo: 'Eu saí do armário, fui morar em São Francisco, estou pronto, eu fiz o que tinha que fazer como uma pessoa gay'."

Por décadas, isso foi o que pensaram os psicólogos também: que todos os estágios-chave na formação da identidade de homens gays conduzissem à saída do armário, que uma vez fizéssemos isso, todos nos sentiríamos finalmente confortáveis conosco mesmo, poderíamos construir uma vida dentro de uma comunidade de pessoas que tivessem passado pelas mesmas coisas. Mas ao longo dos 10 últimos anos, o que os pesquisadores descobriram foi que o esforço para nos encaixarmos só se torna mais intenso. Um estudo publicado em 2015 descobriu que os índices de ansiedade e depressão foram maiores em homens que haviam se assumido recentemente do que em homens ainda no armário.

"É como se você emergisse do armário esperando ser uma borboleta e a comunidade gay simplesmente estapeasse o idealismo para fora de você", diz Adam. Quando ele se assumiu pela primeira vez, diz ele, "Eu fui para West Hollywood porque eu pensava que era ali que meu povo estava. Mas foi realmente horrível. Ela é feita de adultos gays, e não é muito amistosa para com garotos gays. Você vai da casa da sua mãe a uma boate gay onde muitas pessoas usam drogas, e se pergunta: "Essa é minha comunidade? Parece mais uma selva de fodas."




“Eu saí do armário quando eu tinha 17 anos, e não via um lugar para mim mesmo na cena gay" — diz Paul, um desenvolvedor de software. "Eu queria me apaixonar como eu via acontecer com pessoas heterossexuais nos cinemas. Mas eu só me sentia um pedaço de carne. Ficou tão ruim que eu costumava ir a uma mercearia que ficava a 40 minutos da minha casa, em vez de ir a uma outra que ficava a apenas 10 minutos, só porque eu tinha medo de andar pela rua gay."

A palavra que ouço de Paulo e de todos é "re-traumatizado." Você cresce com essa solidão, acumulando toda essa bagagem, e então chega no Castro ou em Chelsea ou Boystown pensando que finalmente será aceito como você é. E então você percebe que todos aqui têm bagagem também. De repente, não é a sua homossexualidade que o faz ser rejeitado. É seu peso, sua renda, sua raça. "As crianças vítimas de bullying da sua juventude", diz Paul, "cresceram para ser tornarem bullies elas mesmas.”

"Homens gays em particular não são simplesmente muito legais uns com os outros", diz John, o guia de passeios de aventura. "Na cultura pop, drag queens são conhecidas por seus 'coiós' e todo aquele kkk. Mas a mesquinhez é quase patológica. Todos nós estivemos profundamente confusos ou mentimos para nós mesmos por um bom período de nossa adolescência. Mas não é confortável para nós mostrar isso a outras pessoas. Então nós mostramos a outras pessoas o que o mundo nos mostra, ou seja mesquinhez."

Todo homem gay que eu conheço carrega um arquivo com todas as coisas ruins que outros homens gays disseram ou fizeram a eles. Eu cheguei a um encontro uma vez e o cara imediatamente se levantou, disse que eu era mais baixo do que parecia nas minhas fotos e saiu. Alex, um instrutor de ginástica em Seattle, ouviu de um cara do seu time de nado: "Eu vou ignorar sua face se você me foder sem um preservativo." Martin, um britânico morando em Portland, ganhou talvez uns cinco quilos desde que se mudou para lá e recebeu uma mensagem pelo Grindr — no dia de natal — que dizia: "Você costumava ser tão sexy. É uma pena que tenha estragado tudo.”

Para outros grupos minoritários, viver em uma comunidade com pessoas como elas está ligado a índices mais baixos de ansiedade e depressão. Ajuda estar perto de pessoas que instintivamente entendem você. Mas para nós, o efeito é o oposto. Vários estudos descobriram que viver em vizinhanças gays pressupõe índices de sexo arriscado e uso de metanfetamina, além de menos tempo gasto em outras atividades comunitárias, tais como trabalho voluntário ou prática de esportes. Um estudo de 2009 sugeriu que homens gays que estiveram mais conectados à comunidade gay ficaram menos satisfeitos com seus relacionamentos românticos.

"Homens gays e bissexuais falam sobre a comunidade gay como uma fonte significativa de estresse em suas vidas" - diz Pachankis. a razão fundamental para isso, diz ele, é que "discriminação intragrupal" causa mais estrago para a sua psique do que ser rejeitado por membros da maioria. É fácil ignorar, revirar os olhos e levantar o dedo do meio para pessoas heterossexuais que não gostem de você porque, seja lá como for, você não precisa da aprovação delas mesmo no final das contas. Rejeição por outras pessoas gays, porém, é como perder sua única maneira de fazer amigos e encontrar amor. Ser jogado para escanteio por seu próprio povo dói mais porque você precisa mais deles.

Os pesquisadores com os quais eu conversei explicaram que homens gays infligem esse tipo de dano uns sobre os outros por duas razões principais. A primeira, e a que eu ouvi mais frequentemente, é que homens gays são cruéis uns com os outros porque, basicamente, são homens. 

"Os desafios da masculinidade são maximizados numa comunidade de homens" - diz Pachankis. "A masculinidade é precária. Ela tem que ser constantemente promulgada, ou defendida, ou reunida. Vemos nesses estudos o seguinte: Ameace a masculinidade entre homens e então observe as coisas tolas que eles fazem. Eles exibem posturas mais agressivas, começam a falar em riscos financeiros, querem socar coisas."

Isso ajuda a explicar o estigma difuso contra caras femininos na comunidade gay. De acordo com Dane Whicker, um psicólogo clínico e pesquisador na Universidade de Duke, a maioria dos homens gays relata que é seu desejo namorar alguém masculino, e que eles mesmos também gostariam de agir de modo mais masculino. Talvez isso seja porque, historicamente, homens masculinos têm conseguido se misturar mais na sociedade heterossexual. Ou talvez seja homofobia internalizada: Homens femininos são ainda estereotipados como passivos, o parceiro receptivo no sexo anal.

Um estudo longitudinal de dois anos de duração descobriu que quanto mais tempo os homens estavam fora do armário, mais propensos ficavam se tornarem versáteis ou ativos. Pesquisadores dizem que esse tipo de treinamento, deliberadamente tentando parecer mais masculinos e assumindo um papel sexual diferente, é apenas mais uma das muitas maneiras pelas quais os homens gays pressionam uns aos outros para obterem "capital sexual", o equivalente de ir à academia ou fazer as sobrancelhas. 

"A única razão pela qual eu comecei a malhar foi para que eu parecesse com um verossímil ativo" — diz Martin. Quando se assumiu pela primeira vez, ele estava convencido de que era magrelo demais, efeminado demais, que os passivos pensariam que ele era um deles. "Então, eu comecei a representar todo esse comportamento hiper masculinizado. Meu namorado percebeu recentemente que eu ainda desço minha voz uma oitava quando peço bebidas. Isso é o que sobrou dos meus primeiros anos fora do armário, quando eu achava que tinha que falar com essa voz do Batman encenado por Christian Bale para conseguir encontros."

Grant, um garoto de 21 anos de idade que cresceu em Long Island e agora vive em Hell’s Kitchen, diz que costumava se sentir envergonhado sobre o modo como se posicionava de pé  — mãos na cintura, uma perna levemente dobrada como uma Rockette (N.T.: Rockette se refere a uma companhia de dança composta por mulheres). Então, em seu segundo ano, ele começou a observar seus professores homens a fim de captar suas posições padrões, permanecendo deliberadamente com os pés afastados quando ficava de pé, mantendo os braços estendidos na lateral.

Essas normas de masculinidade cobram um preço de todos, mesmo de seus perpetradores. Homens gays femininos estão em maior risco de suicídio, solidão e doenças mentais. Homens gays masculinos, por sua vez, são mais ansiosos, têm mais risco de fazer sexo arriscado e de usar drogas e tabaco com maior frequência. Um estudo que investigava por que viver na comunidade gay aumentaria a depressão descobriu que o efeito só aparece em homens gays masculinos.

A segunda razão pela qual a comunidade gay atua como 'estressor' especial sobre seus membros não tem a ver com por que rejeitamos uns aos outros, mas a como o fazemos.

Nos últimos 10 anos, espaços gays tradicionais — bares, boates, saunas — começaram a desaparecer, e foram sendo substituídos pelas redes sociais. Pelo menos 70 por cento dos homens gays agora usam aplicativos de pegação como Grindr e Scruff para se conhecerem uns aos outros. Em 2000, cerca de 20 por cento dos casais gays havia se conhecido online. Até 2010, chegaram a 70 por cento. Enquanto isso, a fatia de casais gays que se conheceram através de amigos caiu de 30 por cento para 12 por cento.

Geralmente, quando você ouve sobre a chocante primazia dos aplicativos de pegação na vida gay — Grindr, o mais popular, diz que seu usuário médio passa 90 minutos por dia conectado — é geralmente em alguma história de pânico na mídia sobre assassinos e homofóbicos utilizando esses aplicativos em busca de vítimas, ou sobre alguma cena problemática de sexo ininterrupto sob o efeito de drogas  (o chamado "chemsex") que tem se espalhado por Londres e Nova York. E sim, esses são problemas de fato. Mas o efeito real desses aplicativos é mais discreto, menos marcado, e de uma certa maneira, mais profundo: Para muitos de nós, eles se tornaram uma maneira primordial de interagirmos com outras pessoas gays.




"É tão mais fácil encontrar pessoas para uma transa no Grindr do que ir a um bar pessoalmente"  diz Adam. "Especialmente se você acabou de se mudar para uma nova cidade, é tão fácil deixar esses aplicativos de encontros se tornarem sua vida social. É mais difícil procurar por situações sociais onde você talvez tenha que fazer mais esforços."

"Eu tenho momentos quando quero me sentir desejado e então eu entro no Grindr" — diz Paul. "Faço o upload de uma foto sem camisa e começo a receber essas mensagens me dizendo que eu sou sexy. Parece bom naquele momento, mas não sai nada disso, e aquelas mensagens param de chegar depois de alguns dias. É como se eu se eu estivesse só me coçando por causa de uma irritação, mas trata-se de sarna. Ela simplesmente vai se espalhar."

A pior coisa sobre os aplicativos, porém, e por que eles são relevantes para a disparidade na saúde entre homens gays e homens heterossexuais, não é somente que o fato de que nós os usamos muito. É que eles são quase perfeitamente planejados para ressaltar nossas crenças negativas sobre nós mesmos. Nas entrevistas que Elder, o pesquisador de estresse pós-traumático, conduziu com homens gays em 2015, ele descobriu que 90 por cento deles disseram ter desejado um parceiro que fosse alto, jovem, branco, musculoso e masculino. Uma vez que a grande maioria de nós dificilmente nos encaixamos em qualquer um desses critérios, muito menos todos os cinco, o que os aplicativos de encontro fazem é somente nos fornecer uma maneira eficiente de nos sentirmos feios.

Paul diz que ele fica "eletrificado pela expectativa de rejeição" assim que ele abre esses aplicativos. John, o ex-consultor, tem 27 anos, 1m85cm de altura e tem um abdômen tanquinho que pode ser visto através de um suéter de lã. E até mesmo ele diz que a maioria de suas mensagens não obtém respostas, que ele passa provavelmente 10 horas conversando com pessoas no aplicativo para cada hora que ele gasta num cafezinho ou numa transa.

É pior para homens gays de cor. Vincent, que dirige sessões de aconselhamento com homens negros e latinos através do Departamento de Saúde Pública de São Francisco, diz que os aplicativos dão às minorias raciais duas formas de feedback: Rejeitado ("Desculpe, não curto caras negros") e fetichistas ("Oi, eu curto muito caras negros"). Paihan, um imigrante taiwanês em Seattle, mostrou-me sua caixa de entrada no Grindr. Está, como a minha, cheia de olás que ele enviou sem resposta. Uma das poucas mensagens que ele recebeu simplesmente diz:  "Asiááááááático..."

Nada disso é novo, é claro. Walt Odets, um psicólogo que tem escrito sobre o isolamento social desde os anos 80, diz que homens gays costumavam ficar perturbados nas saunas da mesma maneira que se sentem perturbados no Grindr agora. A diferença que ele vê encontra-se entre seus pacientes mais jovens: "Se alguém rejeitou você numa sauna, você ainda pode conversar com ele depois. Talvez você acabe fazendo um amigo no meio de tudo isso, ou pelo menos extraia alguma coisa que seja uma experiência social positiva. Nos aplicativos, você acaba sendo ignorado se alguém não o enxerga como uma conquista sexual ou romântica." Os homens gays que eu entrevistei falaram sobre os aplicativos de encontros da mesma maneira que  as pessoas heterossexuais falam do Comcast: É chato, mas o que você vai fazer? "Você tem que usar os aplicativos nas cidades menores" — diz Michael Moore, um psicólogo em Yale. "Eles servem ao propósito de um bar gay. Mas o lado negativo é que eles colocam todo o seu preconceito para fora ali."

O que os aplicativos reforçam, ou talvez apenas aceleram, é a versão adulta do que Pachankis chama de Melhor Garotinho no Mundo das Hipóteses. Enquanto crianças, o fato de crescer no armário nos torna mais propensos a nos concentrarmos em nosso valor pessoal, em tudo o que o mundo exterior espera que sejamos — bons em esportes, bons na escola, o que seja. Como adultos, as normas sociais dentro de nossa própria comunidade nos pressionam a nos concentrarmos nos nosso valor próprio ainda mais — na nossa aparência, nossa masculinidade, nossa performance sexual. Mas então, mesmo que consigamos competir ali, mesmo que atinjamos o padrão masculino-dominante-ativo que estamos buscando, qualquer que seja ele, tudo que realmente conseguimos é nos condicionar a sermos devastados quando inevitavelmente perdermos esse padrão.

"Nós frequentemente vivemos nossas vidas através dos olhos dos outros", diz Alan Down, um psicólogo e autor de The Velvet Rage, um livro sobre homens gays que lutam com a vergonha e a validação social. "Nós queremos um homem após o outro, mais músculos, mais status, qualquer coisa que nos traga validação fugaz. Então acordamos aos 40 anos, exaustos, e nos perguntamos: Isso é tudo? E, então, chega a depressão."






NOSSA DISTÂNCIA DO CONVENCIONAL É TAMBÉM A FONTE DE NOSSA ESPERTEZA, NOSSA RESILIÊNCIA, NOSSA EMPATIA, NOSSOS TALENTOS SUPERIORES PARA A MODA E A DANÇA E O KARAOKÊ.


Perry Halkitis, um professor da Universidade de Nova York, tem estudado a lacuna de saúde entre pessoas gays e pessoas heterossexuais desde o início dos anos 90. Ele publicou quatro livros sobre a cultura gay e entrevistou homens morrendo de HIV, recuperando-se de festas regadas à droga e lutando para planejar seus próprios casamentos.

É por isso que há dois anos, seu sobrinho James, 18 anos, apareceu tremendo diante de sua porta. O garoto acomodou Halkitis e seu marido no sofá e anunciou que era gay. "Nós lhe dissemos: Parabéns, seu cartão de membro e um pacote de boas-vindas estão no outro cômodo" — relembra Halkitis. "Mas ele estava nervoso demais para captar a piada."

James cresceu em Queens, membro de uma liberal, afetuosa e grande família. Ele frequentou a escola pública com outros meninos abertamente gays. "E ainda assim" — diz Halkitis — "havia um tumulto emocional. Ele sabia racionalmente que tudo ficaria bem, mas estar no armário não é racional, é emocional."

Ao longo dos anos, James convenceu a si mesmo de que nunca sairia do armário. Ele não queria atenção, ou ter que enfrentar perguntas que ele não saberia responder. Sua sexualidade não fazia sentido para ele  — como poderia explicá-la para outras pessoas? "Na TV, eu via essas famílias tradicionais" — me diz ele. "Ao mesmo tempo, eu assistia uma tonelada de pornografia gay, onde todo mundo era super malhado, e solteiro, e fazia sexo o tempo todo. Então, pensei que aquelas fossem minhas duas opções: esse conto de fadas que eu nunca poderia ter, ou essa vida gay na qual inexistia o romance."

James recorda o exato momento em que ele decidiu entrar no armário. Ele devia ter 10 ou 11 anos e tinha sido arrastado para férias em Long Island por seus pais. "Eu olhava em redor para toda a nossa família, e as crianças correndo em volta, e pensava: 'Eu nunca terei isso', e começava a chorar."

Eu compreendo, no momento em que ele diz isso, que ele está descrevendo a mesma revelação que eu tive em sua idade, o mesmo lamento. O de James foi em 2007. O meu foi em 1992. Halkitis diz que o dele foi em 1977. Surpreso de que alguém da idade do seu sobrinho pudesse ter a mesma experiência que ele teve, Halkitis decidiu que seu próximo projeto de livro seria sobre o trauma do armário.

"Mesmo agora, mesmo na cidade de Nova York, mesmo com pais que aceitam, o processo de sair do armário é desafiador" — diz Halkitis. "Talvez sempre o será."

Então, o que devemos fazer a respeito disso? Quando pensamos em legislação sobre o casamento ou proibições ao crime de ódio, tendemos a pensar nelas como proteções aos nossos direitos. O que é menos compreendido é que leis literalmente afetam nossa saúde.

Um dos estudos mais impressionantes que eu encontrei descreve o pico de ansiedade e depressão entre homens gays em 2004 e 2005, os mesmos anos em que 14 estados aprovaram emendas constitucionais definindo o casamento como sendo entre um homem e uma mulher. Homens gays naqueles estados apresentaram 37 por cento de aumento em desordens de humor, um aumento de 42 por cento em alcoolismo e um aumento de 248 por cento em desordens de ansiedade generalizadas.

A coisa mais deslumbrante sobre esses números é que os direitos legais das pessoas gays vivendo naqueles estados não mudou materialmente. Não podíamos nos casar em Michigan antes da emenda ser aprovada, e não podemos nos casar em Michigan depois que ela foi aprovada. As leis eram simbólicas. Elas eram o jeito da maioria informar às pessoas gays que estas não eram desejadas. Pior ainda, os índices de ansiedade e depressão não pularam apenas nos estados que aprovaram essas emendas constitucionais. Eles aumentaram (ainda que menos dramaticamente) entre pessoas gays por todo o país. A campanha para nos fazer sofrer funcionou.

Agora cruze isso com o fato de que nosso país recentemente elegeu um Demogorgon (N.T.: monstro) laranja cuja administração está pública e ansiosamente tentando reverter cada ganho conquistado pela comunidade gay nos últimos 20 anos. A mensagem que é enviada às pessoas gays  — especialmente os mais jovens, que apenas começaram a lidar com suas identidades — não podia ser mais clara e mais aterrorizante.

Qualquer discussão de saúde mental gay tem que começar com o que acontece nas escolas. Apesar do progresso que está sendo feito em torno delas, as instituições educacionais americanas continuam a ser lugares perigosos para crianças, cheios de aspirantes aos clubinhos de garotos, professores indiferentes e políticas retrógradas. Emily Greytak, a diretora de uma pesquisa para a organização anti-bullying GLSEN, contou-me que de 2005 a 2015, o percentual de adolescentes que disseram ter sofrido bullying por sua orientação sexual não caiu de modo algum. Somente em torno de 30 por cento dos distritos escolares do país têm políticas anti-bullying que mencionam especificamente crianças LGBTQ, e milhares de outras em outros distritos têm políticas que proíbem professores de falar sobre homossexualidade de modo positivo.

Essas restrições tornam tão mais difícil para as crianças lidarem com o estresse de minoria. Mas, felizmente, isso não requer que cada professor e cada adolescente marrento aceite as pessoas gays da noite para o dia. Nos últimos quatro anos, Nicholas Heck, um pesquisador na Universidade Marquette, tem oferecido apoio a grupos voltados para crianças gays nas escolas de ensino médio. Ele caminha entre elas durante interações com seus colegas de turma, seus professores e seus pais, e tenta ajudá-las a separar essa imensa variedade de estresse do tipo que elas sofrem por causa de sua sexualidade. Uma de suas crianças, por exemplo, estava sob pressão. Seus pais lhe queriam bem — eles só estavam tentando encorajá-la a entrar num campo onde ela pudesse encontrar menos homofóbicos — mas ela já estava muito ansiosa: Se o garoto desistisse de um noivo, seria isso o mesmo que se render ao estigma? Se ele aderisse à arte e ainda sofresse bullying, será que ele poderia falar com seus pais sobre isso?

O truque, diz Heck, é fazer com que essas crianças formulem essas perguntas abertamente, porque um dos sintomas característicos do estresse de minoria é a evasão. As crianças ouvem comentários depreciativos no corredor e então decidem caminhar por outro corredor, ou colocam seus fones de ouvido. Elas pedem ajuda a um professor e recebem um sacudir de ombros, então elas param de procurar por quaisquer adultos em busca de segurança. Mas as crianças do estudo, diz Heck, já estão começando a rejeitar a responsabilidade que elas costumavam assumir quando eram alvos de bullying. Elas estão aprendendo que mesmo que elas não possam mudar o ambiente em redor, elas podem parar de se culpar por isso.

Então, quanto às crianças, o alvo é localizar e prevenir o estresse de minoria. Mas o que pode ser feito por aqueles que já o internalizaram?

"Muito trabalho tem sido feito com a juventude queer, mas não há equivalente quando você já está nos seus 30 ou 40 anos" — disse-me Salway. "Eu nem sei onde você vai". O problema, diz ele é que temos construído estruturas inteiramente separadas em torno da doença mental, da prevenção ao HIV e ao abuso de substância, ainda que todas as evidências indiquem que não são três epidemias, mas uma só. As pessoas que se sentem rejeitadas são mais propensas a se auto-medicarem, o que as torna mais predispostas a ter relações sexuais de risco, o que as torna mais propensas a contrair o HIV, o que as torna mais passíveis de rejeição, e assim por diante.

Nos últimos cinco anos, à medida que evidências dessa interconectividade foram se acumulando, alguns psicólogos e epidemiologistas começaram a tratar a alienação entre homens gays como "sindêmicas": um conjunto de problemas de saúde, nenhum dos quais pode ser consertado sozinho.




Pachankis, o pesquisador de estresse, acaba de dirigir a primeira experiência randômica controlada do país em terapia cognitiva de comportamento via "afirmação gay". Depois de anos de evasão emocional, muitos homens gays "literalmente não sabem o que estão sentindo" — diz ele. O parceiro do cara diz "Eu amo você", e ele replica "Bem, eu amo panquecas". Esses homens rompem qualquer relacionamento com o cara que estão encontrando porque ele deixou uma escova de dentes na casa deles. Ou, como muitos caras com os quais eu conversei, eles fazem sexo sem proteção com alguém que nunca viram antes porque não sabem lidar com sua própria ansiedade.

Descolamento emocional desse tipo é onipresente, diz Pachankis, e muitos dos homens com os quais ele trabalha passam anos sem reconhecerem que as coisas que eles estão buscando — ter um corpo perfeito, produzir mais e melhor trabalho do que seus colegas, administrar as noites ideais de pegação de final de semana no Grindr — reforçam seu próprio medo de rejeição.

Simplesmente destacar esses padrões produziu enormes resultados: Os pacientes de Pachanki apresentaram índices reduzidos de ansiedade, depressão, uso de drogas e sexo sem camisinha em apenas três meses. Ele está expandindo o estudo agora para incluir mais cidades, mais participantes e um cronograma mais amplo.

Essas soluções são promissoras, mas elas ainda são imperfeitas. Não sei se algum dia veremos a lacuna de saúde mental entre pessoas heterossexuais e pessoas homossexuais ser fechada, pelo menos não totalmente. Sempre haverá mais crianças heterossexuais do que crianças gays, sempre estaremos isolados entre elas, e sempre cresceremos sozinhos em nossas famílias, escolas e cidades em algum nível. Mas talvez não seja tudo tão ruim. Nossa distância do convencional pode ser a fonte de algo que nos prejudica, mas também é a fonte para nossa esperteza, nossa resiliência, nossa empatia, nossos talentos superiores para a moda, e a dança, e o karaokê. Temos que reconhecer que enquanto lutamos por leis melhores e ambientes melhores, descobrimos como ser melhores uns para com os outros.

Eu continuo pensando em algo que Paul, o desenvolvedor de software, me disse: "Como pessoas gays, sempre dissemos a nós mesmos que quando a epidemia de AIDS acabasse, estaríamos bem. Depois foi que quando pudêssemos nos casar, estaríamos bem. Agora pensamos que quando o bullying acabar, estaremos bem. Continuamos esperando o momento quando sentiremos que não somos diferentes de outras pessoas. Mas o fato é que somos diferentes. Isso é diferente. É tempo de aceitarmos isso e trabalharmos com isso."




CRÉDITOS:

HISTÓRIA - MICHAEL HOBBES
Michael contribui como editor e produtor do Highline.

DIREÇÃO CRIATIVA E DESIGN - SANDRA GARCIA
Sandra é a diretora criativa do Highline.

DESENVOLVIMENTO E DESIGN - GLADEYE
Gladeye é uma agência neo-zelandesa digital de design.

PHOTOS:
Imagem de capa: PG/Magnum Photos. Imagens internas: cortesia de Michael Hobbes; Carl De Keyzer/Magnum Photos; Michael Christopher Brown/Magnum Photos; Hulton Archive/Getty Images; Thomas Hoepker/Magnum Photos; Brian Finke; Peter Marlow/Magnum Photos; Jerome Sessini/Magnum Photos; Donna Ferrato; Jim Goldberg/Magnum Photos.

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO POR
HUFFPOST - HIGHLINE: "Together alone - The Epidemic of
Gay Loneliness"

TRADUÇÃO PARA O BLOG FORA DO ARMÁRIO (www.foradoarmario.net) POR SERGIO VIULA

Comentários