A Campanha da Fraternidade 2018 e a violência contra as pessoas LGBTs



Por Edson Amaro*


          Começo este texto afirmando que sou ateu e entendo como dever moral de todos e todas que se afirmam ateus e ateias a defesa da liberdade de expressão: ninguém mais do que nós, a mais detestada das minorias, deve zelar por ela, em respeito a todos os ateus e ateias que antes de nós pagaram um preço caro por dizer o que pensavam.



          Isto posto, afirmo também que sou professor de Língua Portuguesa da rede estadual do Rio de Janeiro e entendo, como Paulo Freire, aquele educador do qual tanta gente fala mal sem nunca ter lido seus livros, que a Educação não deve apenas ser a transferência de conhecimentos pré-determinados de professor para aluno, mas deve também preparar os indivíduos para o exercício da cidadania. Isso mesmo diz a Constituição Federal, aquele livro que todos deveriam ter em casa para ser constantemente consultado, no artigo 205.

          Por saber que é meu dever preparar os jovens que me são confiados para o exercício da cidadania, nas minhas aulas não digo que “vovô viu a uva” para ensinar sujeito e predicado, mas digo que “Florence Nightingale criou o primeiro curso de Enfermagem”, valorizando o papel da mulher na História.

          Uso textos variados em minhas aulas de Gramática, desde poemas a artigos da Constituição. No período da Quaresma, gosto de usar parágrafos do texto-base da Campanha da Fraternidade.

          Para quem, como eu, não é católico, vou explicar o que é a Campanha da Fraternidade. A Quaresma é o período que começa na Quarta-Feira de Cinzas (sim, é por causa da Quarta-Feira de Cinzas que existe o Carnaval, última grande festa da carne antes da Quaresma) até o Domingo de Ramos, época em que a Igreja Católica deseja que os fiéis se preparem espiritualmente para o evento mais importante do Cristianismo: a celebração da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Pois bem: desde 1964, acontece no Brasil, por iniciativa da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil –, a Campanha da Fraternidade. De 1964 a 1972, embalada pelas discussões do Concílio Vaticano II, os temas da Campanha visavam a vida interna da Igreja, do clero e do rebanho. A partir de 1973, começaram a ser discutidos temas sociais, como a fome, o direito ao trabalho, à moradia, à Educação, à Saúde e outros temas. No Domingo de Ramos, o dinheiro recolhido na missa é entregue a uma instituição religiosa chamada Cáritas, que o destinará, segundo afirma a Igreja, a projetos sociais relacionados ao tema da Campanha e o total de dinheiro arrecadado em cada diocese é explicitado no livro da Campanha do ano seguinte. Assim, em 2017, quando o tema da campanha foram os biomas brasileiros e a preservação da biodiversidade, a diocese de Mossoró, no RN, arrecadou R$ 16.718,05; a de Nova Friburgo, no RJ, R$ 31. 727,75; a Arquidiocese Militar do Brasil, no DF, R$ 5.907, 57 e assim por diante.

          Gosto de usar os textos da Campanha da Fraternidade em sala de aula porque eles tratam de problemas sociais numa linguagem que qualquer pessoa plenamente alfabetizada consegue compreender. Invejo mesmo a maneira clara e objetiva que os bispos e sua equipe sabem usar para explicar para qualquer pessoa temas complexos. Várias vezes telefonei para a sede da CNBB em Brasília elogiando os textos da Campanha da Fraternidade. Mas, como aprendi na Faculdade de Letras, os textos, assim como as moedas, têm duas faces: o que é dito e o que não é dito. Há temas tabus que a CNBB costumeiramente omite. Por exemplo, em 2012, quando o tema foi Saúde, o texto-base fala na página 38 dos esforços do governo brasileiro contra a epidemia do HIV, comemora a redução da transmissão vertical do HIV (de mãe para filho), mas não diz uma palavra sobre os rios de dinheiro que o Estado tem gasto por décadas na distribuição gratuita de preservativos, medida mais que necessária, porém a Igreja prefere fazer de conta que os anticoncepcionais não existem. E eu, que sei muito bem que boa parte dos adolescentes jogam a virgindade fora na primeira oportunidade, gosto de lembrá-los que todo mundo pode pegar quantos preservativos quiser em qualquer UPA sem dar satisfação a ninguém.

          A razão de escrever o presente texto para o blog do amigo Sergio Viula é que o tema da Campanha da Fraternidade de 2018 é a violência. O que me impressionou é o fato de que, nas páginas 23 e 24 do texto-base, a CNBB discuta “A cultura da violência”. Transcrevo aqui três parágrafos da página 24 (que número marcante o dessa página!):

         “49. A violência cultural é estreitamente ligada às construções simbólicas que, coletivamente, grupos sociais adotam como explicações válidas sobre a realidade em que vivem e opera de diferentes maneiras: naturaliza as desigualdades, inverte relações de causa e efeito, reduz ao silêncio as contradições da sociedade.

         50. Há cultura da violência quando, em uma sociedade, vão sendo tomadas decisões que inviabilizam a construção da justiça e da igualde e, por isso, o nascimento e a afirmação da paz e da fraternidade.

         51. Diferentemente da violência direta que pode ser mais facilmente identificada e da violência estrutural da qual se veem traços mais ou menos definidos, a violência cultural pode ser mais esquiva. Esconde-se em meio a crenças legítimas, a formas de pensamento e de linguagem. Por exemplo, na forma como se constroem as relações sociais no Brasil, entende-se comumente que a desigualdade é algo natural. Sob esse ponto de vista, tende-se a tratar, sob argumentos diversos, alguns sujeitos sociais como se fossem naturalmente inferiores: mulheres, jovens, idosos, trabalhadores, negros, índios, pessoas com diferentes orientações sexuais, imigrantes, migrantes. Não parece casual que essas identidades sejam alvos frequentes de atos violentos.”

          O texto estaria perfeito se a CNBB reconhecesse que a Igreja Católica, juntamente com suas irmãs pentecostais, tem praticado a cultura da violência contra a comunidade LGBT, criticando empresas e artistas que colocam outras formas de amor na mídia e demonizando educadores que, como eu, se recusam a fazer de conta que toda a humanidade é heterossexual. A primeira vez que ouvi falar em “ideologia de gênero” foi numa audiência pública em 2015 na Câmara Municipal de São Gonçalo, onde me senti como Galileu Galilei diante da Inquisição: armou-se um circo de horrores orquestrado por padres e pastores, mancomunados com vereadores demagogos, para dizer que havia uma conspiração mundial contra a família por parte da militância LGBT. Eu, corajosamente, emiti mais ou menos o seguinte discurso: “Em primeiro lugar, vocês querem uma escola mentirosa, uma escola que finja que todo mundo é heterossexual e eu não vou sustentar essa mentira. Em segundo lugar, é desonesto dizer que o governo do PT, governo esse ao qual tenho feito oposição, é contra a religião, pois o mesmo governo que deu às travestis o direito de usar o nome social no ENEM é o mesmo governo que garantiu a judeus e adventistas o direito de fazer a prova depois do por do Sol de sábado. Então se temos aqui que escolher entre uma escola que não obedece à Bíblia, ao reconhecer o nome social de estudantes transexuais, e uma escola que desobedece ao Ministério da Educação, é melhor desobedecer á Bíblia, porque a Bíblia é para quem crê e o Ministério da Educação é para todos. Além do mais, não sei em nome de que deus vocês querem impor seus ditames, pois a humanidade já adorou mais de 2000 deuses, o seu é só mais um. Um outro deus é Oxumaré, transexual por excelência, que muda de sexo a cada seis meses. Por que o seu deus seria melhor que ele? Aliás, quero que me esclareçam o mistério de em dez anos de Magistério, eu ter tido apenas uma aluna travesti: faltam travestis nesta cidade ou a escola é hostil a essas pessoas?”

         O ódio contra mim e contra as poucas pessoas que, como eu, diziam a verdade, contaminava o ar da sala e tivemos que sair da Câmara escoltados pelos seguranças, que nos protegeram contra o ódio dessa gente que tinha o nome de Cristo nos lábios.

          Foi nesse dia que conheci minha amiga Thalia Carvalho, seguidora de Chico Xavier. Costumo dizer que ela é a pessoa que conheço que tem mais fé. Thalia é uma travesti, que sobrevive honestamente como cabeleireira. E como eu, ateu, posso dizer que ela é a pessoa que conheço que tem mais fé? Li a Bíblia inteira. Sei que, na Epístola de São Tiago, que “a fé sem obras está morta”. (São Tiago 2: 17) Li no Evangelho Segundo São Mateus, capítulo 18, vs 5, Que Jesus disse que quem recebesse uma criança em seu nome estaria recebendo a ele. Pois essa obra Thalia fez: não recebeu apenas uma criança em sua casa, mas adotou três meninos e cuida deles, apesar das dificuldades de ser uma trabalhadora informal e do peso do preconceito sobre ela. Quantas das pessoas que se dizem cristãs e desprezam as travestis fariam o esforço que ela faz em prol dessas crianças? Quantas levaram para casa os filhos de outrem? E quem pode dizer que essas quatro pessoas que vivem juntas e se amam não são uma família? Na Parábola das Ovelhas e dos Cabritos, registrada no capítulo 25 do mesmo Evangelho de Mateus, dos vs 31 a 46, Jesus diz que quer ser visto nas pessoas mais humildes da sociedade. E é isso que Thalia faz todos os dias com os seus três filhos: ela realmente vê em cada um deles um pequeno Jesus e crê que Jesus está ao seu lado para ampará-la na missão de cuidar deles.

          Admitam, religiosos, que vocês alimentam a cultura da violência contra as pessoas LGBTs. Calcem as sandálias de São Francisco e convertam-se. De nada adiantou proibir Galileu de ensinar que a Terra gira em torno do Sol: o tempo lhe deu razão e o papa João Paulo II teve de admitir o erro da Igreja. Hoje vocês se esforçam inutilmente para tapar o Sol com a peneira mas chegará o dia em que o Vaticano terá de pedir perdão à comunidade LGBT.


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*Edson Amaro é professor de Língua Portuguesa, ator, poeta e tradutor. Publicou, pela editora Buriti, sua tradução do romance “Valperga”, de Mary Shelley e, pela editora Fragmentos, seu primeiro livro de poemas, “Ouro Preto e Outras Viagens”.

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