Luiz Mott: Salvador vai ganhar o 1º abrigo para LGBTs

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Por Jornal A Tarde
Via Luiz Mott no Facebook
Publicado no Facebook em 26/11/17



Salvador vai ganhar o 1º abrigo para LGBTs

Em fase final de reforma, a Casa A funcionará como lar de passagem para LGBTs vítimas de violência familiar

Reportagem por Alessandra Lori - Ag. A TARDE

Esqueça as ferragens e vigas de concreto. A primeira casa de acolhimento para a comunidade Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) da Bahia, a Casa A, é estruturada sobre pilares mais duráveis e resistentes: amor, amizade e afeto.

Localizado na Rua Primeiro Barreiro, em Monte Serrat, o local será inaugurado em fevereiro de 2018 com capacidade de abrigar, de forma temporária, 18 pessoas vítimas de violência e em situação de abandono em função da orientação sexual e identidade de gênero. A iniciativa é do Instituto Adé Bahia.

Ainda em reforma, o imóvel possui cerca de 300 m², três quartos, três salas e cinco banheiros. Todos os gestores da Casa A integram a comunidade LGBT e carregam, na bagagem, histórias de preconceito e exclusão por conta da orientação sexual. A ideia é que o espaço funcione como um lar de passagem, onde as vítimas poderão ficar de três a quatro meses. Todos terão assistência jurídica e acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais.

Os acolhidos vão participar de cursos de informática, idiomas, empreendedorismo, orientação profissional, oficinas de música, grafite, dança e artes plásticas.

“Vai ser um espaço onde essas pessoas encontrarão carinho, apoio e as ferramentas necessárias para que possam andar com as próprias pernas. A depender da gravidade da situação, alguns poderão ficar mais de quatro meses. Faremos um trabalho de reinserção no mercado de trabalho e tentaremos um diálogo com os familiares”, explica o presidente da Casa A, Lucas Madureira. Para ser acolhidas temporariamente, as pessoas, maiores de 18 anos, serão avaliadas segundo critérios de vulnerabilidade.

O presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, acredita que ações práticas como a Casa A são importantes devido à grande quantidade de LGBTs nas ruas, expostos à violência, exploração sexual e ao crime. “Esse ambiente de acolhimento também deve ser relacional. Isso melhora a autoestima, a dignidade”, diz.

Já o coordenador das políticas para cidadania LGBT da cidade de Salvador, Vida Bruno, destaca o papel de iniciativas como esta. “As políticas para a cidadania LGBT vêm sendo desenvolvidas de maneira célere pela prefeitura, mas precisamos das organizações não governamentais”, disse. Segundo a Secretaria de Reparação (Semur), o Centro Municipal de Referência LGBT realiza cerca de 60 atendimentos/mês.

História de afeto

Quando soube por meio da irmã, que é professora, sobre o relato de um aluno que era agredido e violentado sexualmente pelo pai, Ícaro Ceita, conselheiro da Casa A, sabia que era a hora de sair da teoria para ações práticas. Inspirado na Casa 1, em São Paulo, referência de casa de acolhimento LGBT, Ícaro resolveu tirar a Casa A do papel. Foi então que viajou à capital paulista com a vice-presidente Rafaela Garcez para conhecer a experiência de lá.

Apaixonado pelo projeto, confessa que pensou em desistir quando se deu conta da gravidade das histórias. “Na Casa 1, em cinco meses, houve cinco tentativas de suicídio e casos de automutilação”, conta. Quando voltou a Salvador, Ícaro resolveu usar a casa da avó, já desocupada há algum tempo, para a causa nobre. Junto com os amigos e colaboradores, gastou cerca de R$ 50 mil com a reforma. Agora, faz mutirões solidários para obter mais recursos.

A iniciativa servirá de alento para jovens como Cássio Batista**, uma das centenas de vítimas de violência familiar devido à orientação sexual. Em casa, era agredido verbal e fisicamente pelo pai e o irmão por ser homossexual. “Meu pai sempre foi agressivo comigo”, conta. Na rua onde mora, foi hostilizado. No corpo, guarda marcas de violência do pai. Apoio e segurança só encontra nos amigos mais próximos e nos professores. E agora vai encontrar abrigo e esperança na Casa A.

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