Cadeirante e gay assumido, Pedro Fernandes fala ao Blog Fora do Armário.


Pedro Azevedo Fernandes, nosso entrevistado.

Por Sergio Viula



Conheci Pedro através das redes sociais. Aliás, esse é um dos lados positivos das redes - aproximar pessoas que talvez não se encontrassem de outra maneira. Pedro Azevedo Fernandes é um jovem petropolitano (cidade da região serrana do estado do Rio de Janeiro), ator formado, que também estuda marketing na Unopar e trabalha. Pedro é especial em muitos sentidos, mas existem duas características dele que valem o destaque aqui, visto que motivaram essa entrevista para o Blog Fora do Armário: Pedro é cadeirante e gay. 

O Blog Fora do Armário gosta de dar voz a pessoas da comunidade gay, sejam elas líderes do movimento LGBT ou membros dessa comunidade que possam nos ensinar algo ou que precisem de apoio. Pedro se enquadra na categoria dos que podem nos ensinar algo. 

Fora do Armário: Qual é o maior desafio para uma pessoa cadeirante na cidade onde você mora?

Pedro Fernandes: O maior desafio é a mobilidade urbana. Vivo numa cidade histórica, tombada pelo Patrimônio Histórico, e com isso enfrento algumas dificuldades na minha cidade. Mas isso está mudando. É um trabalho de conscientização feito pouco a pouco.

Em relação ao mercado de trabalho, é a mesma coisa. Ainda há muito preconceito com pessoas com deficiência que queiram atuar na televisão ou no teatro. É uma barreira que a gente enfrenta e que tem que ser vencida.

Fora do Armário: Quando foi que você se percebeu gay e qual foi a reação dos seus pais?


Pedro Fernandes:  Eu me descobri gay com 12 anos de idade e me assumi com 15. Teve esse espaço de tempo até eu me aceitar. Tive minha primeira experiência com 12 anos, e foi uma experiência de beijo... nem foi de sexo. Sexo mesmo foi com meu primeiro namorado, aos 21.

Para meus pais, foi difícil até eles assimilarem essa informação, entenderem, e serem capazes de respeitar. Uma coisa que eu sempre digo é que eu brigo para ser respeitado, não para ser aceito. Minha mãe tem muito medo até hoje. Ela é aquela mãezona mesmo. Ela tem medo que eu sofra preconceito por ser membro de duas minorias.

Terminei meu relacionamento com meu namorado há pouco tempo, mas continuamos próximos. Minha mãe adora ele. Ela consegue me entender, me enxergar como eu sou verdadeiramente.

Em relação aos amigos, eu nunca liguei para isso, sabe? Porque quem é meu amigo de verdade vai gostar de mim como eu sou. Então, se alguém se afastou de mim por esse motivo, eu nem percebi, porque eu estava tão bem com a aceitação da minha família que a aceitação dos amigos passou a ser consequência. Quem gostar de mim vai gostar de mim do jeito que eu sou.


Fora do Armário: Você disse que terminou há pouco com seu namorado. Quanto tempo vocês namoraram?

Pedro Fernandes: O nosso relacionamento durou quatro anos. Terminamos, mas ele continua sendo meu amigo. Ele me ajuda no dia-a-dia. A parceria continua – sempre! – a todo vapor. Eu tenho muita gratidão a ele porque ele me mostrou uma visão de mundo que eu não tinha. A minha visão de mundo se ampliou, e poder estar num relacionamento de verdade, que vai além do sexo, é ótimo. A gente se conheceu através de um amigo. Ele é do Espírito Santo. Ele me conheceu, a gente começou a conversar em outubro, e em novembro, ele já estava aqui, e a gente começou a namorar. Ele é uma pessoa encantadora. Não deu certo depois de um tempo, mas a amizade continua. 

Fora do Armário: Quais são os desafios para alguém que é gay e tem necessidades especiais dentro da comunidade gay?

Pedro Fernandes: O maior problema é a vaidade. Aquela coisa de "eu tenho que ter um namorado melhor que o seu, mais bonito que o seu, mais forte que o seu, mais rico que o seu". Então, eu acho que a maior dificuldade que alguém enfrenta no 'mundo gay' é ter alguma deficiência, alguma necessidade que exija um comprometimento do outro no relacionamento.

A gente sofre um pouquinho, mas eu acredito que não seja por maldade ou medo da parte de outros gays, mas devido ao fato de que as pessoas, em geral, não sabem lidar com quem tem alguma deficiência. Acho que falta informação, material para orientar. Cada deficiência demanda um cuidado específico. Mas eu também penso que não é qualquer pessoa que está preparada para ter um relacionamento com alguém que tenha necessidades especiais. Você tem que entrar no universo daquela pessoa. Não é fácil. Não é como namorar com um andante. Você vai precisar entender que terá que se privar de algumas coisas, se adaptar, ou modificar, mas se a pessoa estiver disposta a isso, a relação vai valer muito a pena. Ela vai aprender muita coisa. Vai ser uma troca entre dois mundos diferentes. Mas ainda falta muita informação. Por exemplo, essa entrevista que eu estou dando aqui para você já vai servir de material para quando uma pessoa se deparar com ela, poder dizer: “É, não é tão difícil assim.”

Eu preciso, por exemplo, de ajuda para ir ao banheiro, para trocar de roupa, para me locomover. Um relacionamento precisa incluir tudo isso, mas não pode cair na mesmice, porque um namorado não é um enfermeiro, um cuidador. Por isso, eu acho que a maioria das pessoas tem medo do novo, do desconhecido. 

Fora do Armário: Como é sua atuação em relação à homossexualidade e às pessoas com necessidades especiais? Você já foi a alguma Parada LGBT?

Pedro Fernandes:  Eu sou bastante militante, sim, nas duas causas. Nas causas das minorias, digamos assim. Sou militante mesmo e gostaria de seguir carreira na política e defender essas duas bandeiras. Na verdade, tenho três bandeiras: a das pessoas com deficiência, a dos LGBT, e a dos artistas. Essas são as três bandeiras que eu levo comigo.

Com relação à Parada LGBT, eu ainda não fui a nenhuma, mas foi por falta de oportunidade mesmo. Eu não tive quem me acompanhasse ou onde ficar. Eu sou muito favorável às Paradas LGBT, apesar de achar que elas têm se tornado um carnaval para muitos. Mas, creio que elas não perderam seu viés político. Elas ainda estão aí para dizer que nós existimos e temos o direito de ser felizes. Eu pretendo ir à Parada de São Paulo no ano que vem ou mesmo à Parada do Rio.


Fora do Armário: Qual é a sua meta para os próximos 10 anos?

Pedro Fernandes: A minha meta é seguir carreira na vida pública, me formar agora na faculdade marketing e, de repente, fazer mais uma faculdade, apesar de não saber ainda qual vai ser.

Gostaria de me tornar uma representatividade da pessoa com deficiência, da pessoa LGBT, e do artista, principalmente aqui na minha cidade, que é uma cidade muito conservadora e que precisa dessa representatividade.

Penso em lançar um livro contando os detalhes da minha história, até para servir de material, uma vez que existe muito pouco material sobre isso.

Também gostaria de fazer um filme com o mesmo teor e participar de alguma novela. São esses os desejos que eu tenho.

Fora do Armário: Que recado você deixaria para os leitores do Blog Fora do Armário?

Pedro Fernandes: Eu acredito que só a arte e a educação podem mudar o mundo. Esses dois segmentos andam muito separados - coisa que não deveria acontecer –, uma vez que esses dois segmentos dialogam muito entre si.

Então, eu peço a todo mundo que acredite no poder da educação e no poder da arte, e que caminhem junto com a gente na busca por esse mundo ideal.

Precisamos buscar a igualdade e construir um Estado laico. E o Estado laico só vai se concretizar quando a educação não receber influência religiosa alguma e quando a arte não sofrer censura ou influência religiosa alguma. A educação e a arte são as duas ferramentas capazes de modificar a nossa sociedade, a nossa visão de mundo. 


PING PONG COM PEDRO FERNANDES:




Hobby preferido?
Cantar.

Livro de cabeceira?
De teatro.

Filme Preferido?
A dona da história.

O que mais te atrai num homem?
Um bom papo.

O que te faria desistir de um homem?
Atitudes preconceituosas.

Pessoa que você mais admira?
Como artista, Fernanda Montenegro. Na vida, minha mãe.

Sua melhor memória?
Minha primeira aula de teatro.

Seu maior desejo?
Deixar um legado por onde eu passar.

Amar é...
Se doar ao outro sem esperar nada em troca.

Sexo é...
Importante e saudável.

O melhor do Brasil?
Sua cultura.

O pior do Brasil?
O preconceito contra sua própria cultura e contra seu povo.

Como seria o relacionamento ideal?
Um relacionamento equilibrado.

Pedro numa frase:
Uma mente colorida tentando colorir esse mundo cinza.

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