A 'via crucis' da 22ª Parada do Orgulho LGBT de Copacabana

Parada de Copacabana 2016 - Fonte: GGB


Resistência, persistência e criatividade: O esforço para garantir a realização da 22ª Parada do Orgulho LGBT de Copacabana


Por Sergio Viula
Com informações de Julio Moreira (Grupo Arco-Íris)








Julio Moreira é um jovem guerreiro que desde muito cedo vem trabalhando em prol dos direitos LGBT no Rio de Janeiro. Na manhã desta quarta-feira, ele concedeu uma entrevista ao Blog Fora do Armário. O assunto foi a Parada do Orgulho LGBT e os desafios que o Grupo Arco-Íris, organização responsável pela Parada de Copacabana, tem enfrentado no governo Pezão e na administração Crivella. 

De acordo com Julio, que é diretor sociocultural do Grupo Arco-Íris, ONG presidida por Almir França, a Parada do Orgulho LGBT do Rio será realizada no dia 19 de novembro de 2017 em Copacabana, sendo antecedida por uma semana de atividades relacionadas à diversidade LGBT, que vai do dia 13 de novembro, segunda-feira, até o dia 19, ou seja, o domingo da Parada propriamente dita.

Sobre a possibilidade do evento internacionalmente conhecido ser incluído no calendário oficial da cidade, Julio Moreira diz que não houve sinalização positiva concreta da prefeitura até agora, porém os Vereadores Laura Carneiro e Marcelo Arar apresentaram - na última legislatura - um projeto de lei com o objetivo de colocar a Parada de Copacabana como evento oficial no calendário municipal. Se virar lei, o evento passará a ter direito ao financiamento público pela prefeitura, uma vez que um decreto do próprio prefeito Marcelo Crivella diz que sua administração só financiará eventos que constem no calendário oficial da cidade. 

É inegável a importância da Parada de Copacabana para a cidade, visto que, além de ser uma importante ação da sociedade civil, especialmente dos movimentos e da comunidade LGBT, ela também atrai recursos para a cidade. Tanto assim que o Ministério da Cultura e o Ministério do Turismo, em parceria com o Estado e com o Município do Rio de Janeiro, vão apoiar eventos que atraiam divisas para aquelas instâncias público-administrativas. Por isso, as Paradas de Copacabana e de Madureira já serão alvos desse investimento em 2018.

Julio disse que os organizadores pretendem fixar a data da Parada LGBT de Copacabana no último domingo de junho a partir do ano que vem, mas isso ainda depende da captação de recursos junto ao empresariado. Ele explica que há negociações em andamento. Entre as entidades que estão ajudando na articulação junto às empresas que podem vir a ser patrocinadoras, estão a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro e o Rio Convention Bureau.

Nesse meio tempo, o Grupo Arco-Íris pretende mobilizar a sociedade, especialmente a comunidade LGBT, através de uma ação de financiamento coletivo a ser divulgada até semana que vem. 

O objetivo dessa campanha de financiamento coletivo é arrecadar recursos suficientes para garantir uma estrutura mínima para a Parada de Copacabana esse ano. O grupo também espera poder respirar um pouco, visto que as dívidas que o Estado do Rio de Janeiro ainda não quitou com ele em relação às Paradas dos anos de 2015 e 2016 têm colocado em xeque a própria existência da organização.

Sobre as propaladas ações pela diversidade que a prefeitura aparentemente começou a fazer e divulgar nas redes sociais, Julio chama atenção para a contradição que já se instala na própria abordagem da administração Crivella junto aos organizadores das diversas Paradas LGBT realizadas na cidade do Rio. Segundo ele, a prefeitura tentou agrupar todos os eventos no mês de outubro e controlar suas administrações. 

"[A prefeitura] fala: 'Eu vou te ajudar de alguma forma, só não tem recurso aqui, mas eu vou te ajudar de alguma forma'. Depois, ela vai utilizando os mecanismos que a própria sociedade civil vem desenvolvendo, que são os projetos nos quais a gente já atua, tipo ações de empregabilidade e empreendedorismo para a população LGBT. A prefeitura oferece um espaço para a realização do evento e ela joga isso no Facebook, na mídia, como se fosse uma ação dela, quando na verdade, não é... É dos movimentos sociais." - destaca Moreira.

Julio acrescenta ainda que a prefeitura recusou apoio financeiro para a Parada de Copacabana, alegando falta de recursos. Quando os organizadores solicitaram pelo menos o apoio estrutural, a resposta também foi negativa. Mas, em seguida, a prefeitura propôs o que ela mesma chama de "caderno de encargos", através do qual ela assumiria a captação de recursos junto ao empresariado em nome da Parada de Copacabana, mas incluiria outros eventos no pacote.  

O problema é que esse acordo faria uso da enorme visibilidade da Parada LGBT de Copacabana para financiar outras agendas, que, segundo Julio, deveriam ser bancadas com recursos próprios da administração municipal ou de outras formas de captação - até porque as negociações com empresários para a Parada de Copacabana já estavam em andamento sem qualquer intermediação da prefeitura. 

No final das contas, essa proposta do Município não era satisfatória, ainda que configurasse alguma forma de apoio. A oferta, porém, era muito menor que a demanda do movimento, enquanto que, em contrapartida, a capitalização da prefeitura em termos de autopropaganda seria desproporcional ao apoio efetivamente dado.

Além disso, resta ainda receber um percentual do valor que deveria ter sido pago desde o ano passado, referente à Parada de 2016 e ainda resquício da administração Eduardo Paes. Quando o projeto é apresentado, a prefeitura paga uma parte e depois de realizado, ela paga a segunda parte. Segundo Julio, não é um valor tão grande, mas ajudaria a pagar algumas contas com estrutura. A administração Crivella não libera esse pagamento, que já havia sido aprovado e que é dívida, e não justifica por que não o faz.

Como se vê, o quadro é nebuloso e sombrio para a comunidade LGBT no Município e no Estado do Rio de Janeiro, e esse é mais um motivo para nos mobilizarmos. 

O Blog Fora do Armário divulgará os detalhes dessa campanha de financiamento público a ser divulgada pelo Arco-Íris nos próximos dias. Fique atento(a) e contribua. Afinal, a Parada é NOSSA!





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