Gêmeos e sexualidade - Drauzio Varella explica

Por Sergio Viula



Ontem, uma amiga minha me perguntou sobre gêmeos univitelinos, isto é, aqueles conhecidos como gêmeos idênticos. Ela queria saber se é fato que quando um dos gêmeos é gay, o outro será gay também. Expliquei que não é bem assim. Não é uma invariável. Até porque poderíamos fazer o raciocínio inverso: Se um deles for heterossexual o outro sempre será? Além disso, essa pergunta, como posta pela maioria das pessoas, ignora que não se trata de ser somente gay ou hétero, pois a bissexualidade também é uma possibilidade - e talvez uma das mais frequentes... vai saber! Isso quer dizer que poderíamos nos perguntar também o seguinte: Se entre gêmeos idênticos, um for bissexual, o outro também será?

Fato é que existe de tudo um pouco. Podemos supor que há gêmeos em que um é hétero e outro gay (ou lésbica), os dois são gays, os dois são héteros, um é bissexual e o outro é hétero, um é bissexual e o outro é gay... Tarefa difícil é colher todos esses exemplos por aí, até porque muita gente prefere não expor sua sexualidade de modo algum.

Por essas e outras razões, muita gente homofóbica e ansiosa para demonstrar que a homossexualidade é apenas uma "opção" pessoal (nada mais distante da verdade do que isso!), costuma pegar os casos em que um irmão é gay e o outro é hétero para dizer que, sendo assim, isso não tem nada de genético. São IGNORANTES - para dizer o mínimo! Estão ansiosos para arrumar uma desculpa para continuarem sendo babacas sem serem vistos como tais.

Outras pessoas, pegam os casos de irmãos gêmeos em que os dois são gays para dizer: Tá vendo! É totalmente genético. Isso também não é verdade, pois nada é só genético ou - como explica o Dr. Drauzio Varella - não depende apenas da estrutura dos genes.

Brilhante como sempre, o Dr. Drauzio faz uma claríssima exposição sobre isso no texto que copio ao final desse post. O artigo vem do site dele, que é maravilhoso e devia ser conhecido por todos os interessados em ciência, especialmente com aqueles que valorizam um enfoque humanista quando se trata de medicina: https://drauziovarella.com.br/

Dr. Drauzio Varella explica que papel a genética desempenha na determinação da orientação sexual de uma pessoa - nesse caso, dos gêmeos. As novas descobertas mantém a importância da genética no desenvolvimento da sexualidade e da orientação do desejo sexual, mas esclarecem que não é tudo tão preto no branco ou branco no preto como muita gente ainda pensa.


GENTE REAL NO MUNDO VIRTUAL




O canal Põe na Roda apresentou dois pares de irmãos gêmeos e como eles saíram do armário um para o outro. É muito interessante e super bem humorado, como tudo que o Põe na Roda faz. Assistam:





Nesse outro vídeo, os irmãos gays (gays fraternos, ou seja, não idênticos) saem do armário para o pai pelo telefone e recebem uma resposta extraordinariamente amorosa. Eles já tinham um canal no YouTube super badalado, mas depois disso foram até entrevistados por Ellen Degeneres.






Aqui, vocês vão ver dois irmãos gêmeos fraternos (não idênticos) - um já assumido e o outro ainda no armário. O irmão que a família ainda não sabia ser gay vai sair do armário nesse vídeo. Veja como foi. 





Esses gêmeos saíram do armário um para o outro e depois os dois para a mãe:





Nesse vídeo, os gêmeos contam sua experiência de "sair do armário". O vídeo é inglês e não tem legendas em português, mas o que eles dizem, basicamente, é que eles foram criados numa região tradicionalmente dominada por igrejas tradicionais. Levou um tempo até que um saísse do armário para o outro. E isso aconteceu por causa de uma olhada que um deles deu para um cara, e o outro sacou que aquele era o mesmo jeito que ele olhava para um cara que o atraísse - o que desencadeou a conversa entre os dois.





Esses gays jamaicanos falam sobre como é difícil crescer como gay e viver fora do armário na Jamaica (sem legendas):






Gêmeas lésbicas brasileiras no canal HBW:





Essas irmãs gêmeas e bissexuais são entrevistas no Tyra Banks Show (sem legendas):







Não poderiam faltar essas duas figuras maravilhosas: Pepê e Neném!!! Amo essas duas! Aqui, elas falam com Marília Gabriela, inclusive sobre sua sexualidade. Maravilhosas!





E, sim, existem gêmeos que apresentam diferentes orientações sexuais, como é o caso das duas irmãs abaixo. Uma está entrevistando a outra sobre como é ter uma irmã lésbicas. Obviamente, porque a outra é heterossexual (sem legenda).




AGORA, UM POUCO DE CIÊNCIA


Dr. Drauzio Varella



HOMOSSEXUALIDADE, DNA E A IGNORÂNCIA

Drauzio Varella

NAS DUAS ÚLTIMAS DÉCADAS, ACUMULAMOS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS SUFICIENTES PARA AFIRMAR QUE A HOMOSSEXUALIDADE ESTÁ LONGE DE SER MERA QUESTÃO DE ESCOLHA PESSOAL OU ESTILO DE VIDA.


“Quem quiser gostar de mim, eu sou assim,” diz o samba de Wilson Baptista.

A homossexualidade tem forte componente genético. Diversos estudos com gêmeos univitelinos demostraram que, quando um deles é homossexual, a probabilidade de o outro também o ser varia de 20% a 50%, ainda que separados quando bebês e criados por famílias estranhas.

Nas duas últimas décadas, acumulamos evidências científicas suficientes para afirmar que a homossexualidade está longe de ser mera questão de escolha pessoal ou estilo de vida. É condição enraizada na biologia humana.

Nunca houve nem existirá sociedade em que a homossexualidade esteja ausente. O estudo mais completo até hoje, realizado por Bailey e colaboradores da Austrália, mostrou que 8% das mulheres e dos homens são homossexuais.

Em 1993, o geneticista Dean Harner propôs um caminho para a identificação dos “genes gay”, sequências de DNA que estariam localizadas no cromossomo X (região Xq28). A descrição virou manchete de jornal, mas não pôde ser confirmada por outros pesquisadores, requisito fundamental para adquirir validade científica.

O fato de que 20% a 50% dos gêmeos univitelinos apresentam concordância da homossexualidade ressalta a influência genética, mas deixa evidente que a simples identidade de genes não justifica todos os casos.

Em 2012, William Rice propôs que a epigenética explicaria com mais clareza a orientação sexual. Damos o nome de epigenéticas às alterações químicas do DNA que modificam a atividade dos genes sem, no entanto, alterar-lhes a estrutura química.

Durante o desenvolvimento, os cromossomos podem sofrer reações químicas, que não afetam propriamente os genes, mas podem “ativá-los” ou “desligá-los”. O exemplo mais conhecido é a metilação, processo em que um radical metila (CH3) se fixa a uma região específica do DNA, formando o que chamamos de epimarca.

Como algumas epimarcas são silenciadas nos óvulos e espermatozoides, enquanto outras podem ser transmitidas aos descendentes, Rice propôs que epimarcas ancoradas junto aos genes responsáveis pela sensibilidade à testosterona podem conduzir à homossexualidade, quando transmitidas do pai para a filha ou da mãe para o filho.

Especificamente, ainda no ventre materno, epimarcas que afetam a resposta às ações da testosterona produzida pelos testículos ou ovários fetais, são capazes de masculinizar o cérebro de meninas ou afeminar o dos meninos, conduzindo, mais tarde, à atração homossexual.

O grupo de Eric Vilain, um dos mais conceituados nessa área, estudou 37 pares de gêmeos idênticos discordantes (apenas um homossexual) e 10 pares concordantes.

A avaliação de 140 mil regiões do DNA desses gêmeos permitiu identificar cinco delas em que os padrões de metilação guardavam relação direta com a orientação sexual em 70% dos casos.

Por que razão alguns gêmeos idênticos terminam com padrões distintos de metilação?

Segundo Rice, epimarcas podem ser apagadas num irmão e persistir no outro. Vilain concorda: diferenças sutis no ambiente intrauterino, ditadas pela circulação do sangue e a posição espacial de cada feto, seriam as causas mais prováveis.

A antiga visão do sexo como um binário, condicionado pelos cromossomos XX ou XY, está definitivamente ultrapassada. Ela é incapaz de explicar a diversidade de orientações sexuais existente nos seres humanos, nos demais mamíferos e até nas aves.

Transmitidas de pais para filhos, epimarcas específicas nas regiões do DNA ligadas às reações dos tecidos fetais à testosterona oferecem bases mais sólidas, inclusive para entender os casos de bebês com órgãos sexuais ambíguos e das pessoas que julgam haver nascido em corpos que não condizem com sua individualidade sexual.

A homossexualidade é um fenômeno de natureza tão biológica quanto a heterossexualidade. Esperar que uma pessoa homossexual não sinta atração por outra do mesmo sexo, é pretensão tão descabida quanto convencer heterossexuais a não desejar o sexo oposto.


Os que assumem o papel de guardiões da família e da palavra de Deus para negar às mulheres e homens homossexuais os direitos mais elementares, não são apenas sádicos, preconceituosos e ditatoriais, são ignorantes.



Publicado em 19/11/2015.

Revisado em 30/03/2017.

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