Destaques e apontamentos nesse 28 de junho, Dia Orgulho LGBT



Por Sergio Viula

O dia 28 de junho é o dia oficial do Orgulho LGBT no calendário internacional. Também é o dia em que celebro cada ano meu fora do armário, finalmente! 

E digo "finalmente" porque a jornada até a emancipação foi longa. Compartilhei essa jornada no livro Em busca de mim mesmo, onde faço mais do que apenas narrar e aprofundo muitas coisas que nas entrevistas que já dei por aí não tenho espaço suficiente para abordar. É que livro é bem diferente de entrevista ou artigo, ainda mais quando escrito na primeira pessoa.



E lá se vão 14 anos fora do armário!!!!

Rio quando lembro que muita gente dizia que eu não duraria seis meses, talvez um ano, fora do domínio daquele fundamentalismo que eles acreditam ser a mais pura verdade sobre tudo. Diziam que eu voltaria arrependido para a igreja e... blá, blá, blá... ZEUS ME LIVRE! kkkkkkkk Fundamentalismos, totalitarismos, doutrinas abrangentes, NUNCA MAIS! 

Quem te viu e quem te vê, Sergio Viula!!!! Quem viu não sabe como é bom agora, e quem me vê agora não sabe como era complicado então.

Celebro, portanto, meu próprio orgulho de ser quem sou e de estar onde estou. Porém, gostaria de fazer alguns destaques e apontamentos sobre o que a comunidade LGBT já pode celebrar e o que ainda demanda mobilização.


Paradas do Orgulho LGBT





Um das mais legítimas e poderosas manifestações pela visibilidade das pessoas LGBT, seus direitos, seus amores, seu humor, suas lutas, sua cultura e por ai vai é a Parada do Orgulho LGBT!

As paradas atuais são herança direta da revolta de Stonewall, um grito que representou o grito dos LGBT do mundo todo, resultando num movimento internacional de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros por liberdade e reconhecimento. 

Apesar de ter sido realizada pela primeira vez nos EUA, a Parada do Orgulho LGBT encontra sua maior e mais vibrante edição em paragens muito distantes de San Francisco ou de New York. Ela se faz a maior do mundo na cidade de São Paulo. E completou seus 21 aninhos nesse ano de 2017 em plena vitalidade - 3 milhões de pessoas tomaram a Paulista e as ruas adjacentes num movimento vibrante que teve como tema o Estado laico como espaço para todos e onde nenhuma religião é lei.

Contudo, muitas outras cidades brasileiras também realizam Paradas do Orgulho LGBT todos os anos, sejam capitais ou cidades interioranas. E todas são extremamente importantes em seu contexto mais imediato e no contexto nacional e internacional como um todo.

Veja no site do canal Vice como foi a primeira Parada do Orgulho LGBT, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1997. 

Infelizmente, é justamente no Rio de Janeiro, o berço da Parada no Brasil, que as maiores dificuldades estão surgindo. Além de termos um prefeito que é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho de Edir Macedo - o que já é ruim o suficiente para uma cidade cosmopolita como essa -, parece que a ONG responsável pela Parada do Orgulho LGBT que é realizada em Copacabana, o Grupo Arco-Íris, não conseguiu ainda se desvencilhar da dependência do poder público no que diz respeito ao financiamento da Parada do Rio. 

Enquanto isso, a APOGLBT, que é a associação responsável pela Parada de São Paulo, já conseguiu parcerias importantes para patrocínio, como é o caso da Skol, do Uber e do Doritos, além de apoio por parte da Microsoft, Accor Hotels e Skokka, e de apoio institucional por parte do Governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura da Cidade de São Paulo.

São Paulo avança, o Rio patina, e o Grupo Arco-Íris nem sequer consegue manter um site com informações detalhadas e atualizadas sobre a Parada do Rio. Basta comparar o site da APOGLBT e o site do Arco-Íris... Isso para não falar no Twitter e Facebook de ambos. A primeira é onipresente em todos eles, enquanto o segundo anda mais sumido que umbigo de freira.

É bem verdade que o Arco-Íris ainda amarga dívidas com edições anteriores da Parada de Copacabana, mas a questão que fica é: 

Como é que a segunda maior cidade do Brasil, que também é a maior atração turística do país, não consegue hospedar uma Parada do Orgulho LGBT em frente a uma das praias mais famosas do mundo sem depender dos fundamentalmente que infestam a prefeitura da cidade? 

Onde estão os militantes, a própria ONG Arco-Íris e outras importantes ONGs LGBT do Brasil nesse momento em que Crivella desmonta tudo o que foi construído na administração Eduardo Paes, sob a coordenação de Carlos Tufvesson na Coordenadoria da Diversidade Sexual do Rio (Capital), e que Pezão destrói o que foi realizado na administração Cabral, sob a superintendência de Cláudio Nascimento, no Rio sem Homofobia (Estado)? Cadê vocês, monas?

Por essas e outras, parabéns à comunidade LGBT, ativistas e ONGs LGBT de cidades menores que as capitais Rio e São Paulo, pois ainda que tendo contingente populacional e de recursos financeiros bem menores, realizam suas Paradas com muito orgulho, alegria e informação. Vocês são um exemplo de resiliência! Mesmo que não obtenham a publicidade que SP e RJ costumam ter, vocês são fundamentais para a promoção da inclusão e da igualdade em meio à diversidade dos sujeitos. 


Cinema




Todos os anos, eu participo do Rio Festival de Gênero e Sexualidade no Cinema. Esse ano, o evento será realizado nos dias 06 a 16 de junho. A programação já está disponível no site deles. As cidades mais gay-friendly do mundo costumam hospedar excelentes festivais de cinema e o Rio de Janeiro está de parabéns, pelo menos nesse quesito, por ter o seu também. Mas isso só acontece porque os organizadores do festival não ficam dependendo da (má) vontade política do prefeito ou do governador e de seus asseclas. 

O diretor do Rio Festival de Gênero e Sexualidade no Cinema é Alexandre Mello. Saiba mais sobre ele e seu trabalho nessa entrevista exclusiva que ele concedeu ao Blog Fora do Armário no ano passado. Imperdível! AQUI.

O maior festival do país, porém, é o MIX BRASIL, organizado por André Fischer, e que já está em sua 25ª edição (2017). Você pode saber mais sobre o festival na página deles no Facebook, mas tomo a iniciativa de adiantar a descrição sobre o festival. Veja abaixo:

O Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade é organizado anualmente desde 1993 pela Associação Cultural Mix Brasil que tem por objetivo promover o respeito e a livre expressão da diversidade sexual, buscando novas perspectivas para a compreensão da comunidade LGBT, distintas de preconceitos, fomentando a tolerância e respeito, promovendo a cidadania e o combate a toda e qualquer forma de discriminação.

Ainda sobre cinema, gostaria de incentivar todos, todas e todes a assistirem o filme Divinas Divas, que está em cartaz agora mesmo. Saiba mais sobre esse lindo filme que aborda a fase áurea dos grandes espetáculos de travestis e transexuais no teatro brasileiro, especialmente nos palcos do Teatro Rival. Veja mais AQUI.


Teatro


Muita coisa boa tem sido produzida em torno da temática LGBT no teatro. O Guia Folha (São Paulo) publicou uma lista com peças que estão sendo apresentadas precisamente nesse mês de junho em São Paulo. E é fantástico ver o conteúdo. Se puder assistir alguma delas, não perca. 

No Rio, esse ano, Andre e eu assistimos Gisberta no CCBB. Fiz um vídeo comentando o espetáculo. Você pode acessá-lo AQUI. 

Também assistimos o musical "YANK!" em sua estreia e tivemos a grata surpresa de vermos Fátima Bernardes na fila e na plateia. 

O espetáculo Gisberta foi tocante, emocionante, mexe com as nossas entranhas. YANK! foi mais leve em alguns aspectos, mas também mostra o drama de militares americanos gays e lésbicas na II Guerra Mundial. 

Nessa ocasião, também recebemos um panfleto chamado Rio Gay Life, que é o roteiro cultural voltado para temas LGBT na cidade do Rio. Esse foi o do mês de junho/2017. Confira AQUI.



Literatura






No campo da literatura, há muito o que celebrar e muito o que reclamar também (risos): Podemos celebrar a multiplicação de autores LGBT e títulos voltados para essa temática, mas podemos reclamar sobre a falta de investimento de grandes editoras no segmento. Já existem algumas iniciativas, mas ainda são muito tímidas. 

Outra coisa para celebrar foi o I Congresso Online de Literatura LGBT, que foi um sucesso, e foi realizado por Fabrício Viana. Tive o privilégio de ser convidado para falar e também pude ouvir vários colegas. Infelizmente, devido aos meus horários loucos de trabalho, eu não pude ouvir todas as falas. Essa foi uma iniciativa inédita no Brasil e espero que se repita com mais frequência. 

Dentre as editoras que publicam material com temática LGBT, destaco três que considero muito interessantes e bastante variadas. Já houve outras, mas algumas deixaram de operar pelos mais diversos motivos. Confira as três a seguir:

ORGÁSTICA

METANOIA

VIRA LETRA


Fotografia




Além das exposições de fotos que são realizadas como obra de arte e como estratégia de resgate de memória, um novo segmento está surgindo com a proposta de celebrar o amor e orgulho LGBT. O site Hypeness publicou matéria recentemente sobre uma empresa chamada GATARIA, uma inciativa que visa registrar em fotos alguns dos momentos mais especiais ou simplesmente cotidianos de pessoas LGBT. Confira o texto e as lindas fotos AQUI. 

Ainda no âmbito da fotografia, mas com outra proposta, a Parada de Brasília organizou uma exposição fotográfica com temática LGBT neste ano. A amostra dialogava com LGBT e religiosidade. Aliás, sobre esse tema, você pode também querer ler essa série de posts que abordam as principais religiões presentes no Brasil sob um viés LGBT: AQUI.

Televisão




A TV está cada vez mais inclusiva, ainda que nem todos os canais da mesma maneira, é claro. 

O Netflix lançou o documentário Laerte-se, que aborda a vida da cartunista Laerte. 

O Canal Brasil preparou extensa programação com temática LGBT para comemorar o mês do Orgulho. Destaco aqui o filme "Meu nome é Jacque", que Andre e eu assistimos no Odeon, e que é maravilhoso!

Quanto à TV aberta, o destaque vai, sem sombra de dúvida, para a novela "A força do querer", de Glória Perez, que vem abordando a transgeneridade como nenhuma outra novela jamais o fez. E a abordagem leva em conta as sutilezas da travestilidade e transexualidade, através de personagens diferentes na novela. 

Que venham outras iniciativas, porque ficar escravo de reedições mal feitas do suposto êxodo mosaico em horário nobre não dá, meu bem. Parabéns para a Rede Globo nesse quesito. 

Turismo





Cada vez mais, as empresas de turismo estão de olho no viajante LGBT.  O site Viagens Cinematográficas publicou recentemente um guia sobre como atender o turista LGBT. Vale muito a pena dar uma olhada. São dicas ótimas para quem presta serviço a turistas, mas também são úteis para turistas que possam ter dúvidas sobre a legitimidade de suas demandas. Confiram AQUI.

O Rio de Janeiro tem um potencial enorme para o turismo LGBT, que nada mais é do que oferecer ao turista, seja ele/ela gay, lésbica, bissexual ou transgênero, opções interessantes de hospedagem, gastronomia, entretenimento noturno e diurno e opções culturais que dialoguem com temas relacionados à comunidade LGBT. Mais do que tudo, é preciso garantir uma atmosfera LGBT-friendly, pois sem isso, todo o restante perde o sentido.

Segundo a OMT (Organização Mundial de Turismo), existem 35 milhões de viajantes LGBT rodando pelo mundo e um em cada três deles já se sentiu ameaçado por causa de sua sexualidade ou de sua identidade de gênero em viagem ou estadia. Um caso citado pela OMT como exemplo de boas práticas é a cidade de Viena. Veja por quê AQUI.


Educação




Muita controvérsia tem sido causada por fundamentalistas e outros conservadores que flertam com o fascismo - ou que o assumem descaradamente - por causa da inclusão de qualquer discussão não heteronormativa com viés de sexualidade ou de gênero. Entretanto, é constitucional que se trate todos os cidadãos com dignidade e respeito, independentemente de suas características pessoais. Não só isso, é necessário que eles sejam plenamente incluídos. 

Uma das grandes vitórias no enfrentamento das manobras preconceituosas e discriminatórias desses inimigos da inclusão e do respeito pela diversidade sexual e de gênero vem da Procuradoria Geral da República, na pessoa do Dr. Rodrigo Janot, que tem reiteradamente contestado decisões de municípios e estados no tocante à retirada e até proibição desses temas em sala de aula. O STF concedeu uma liminar favorável à petição do Procurador Geral da República e o município em questão teve que recuar. Veja mais sobre isso nesse vídeo AQUI

Leia também esse texto urgentíssimo: "Educar para a diversidade, inclusve sexual e de gênero".


Memória




Enquanto procurava mais informações sobre Memória LGBT, encontrei anúncio sobre um importante evento a ser realizado no Rio de Janeiro, sexta-feira. A informação vem do Portal do Instituto Brasileiro de Museus:


Jornada Republicana de junho discute Museu e Memória LGBT: A XXIV Jornada Republicana, do Museu da República/Ibram, no Rio de Janeiro (RJ), em sua edição de junho, irá abordar o tema Museu e Memória LGBT. O evento acontece no dia 30 de junho, às 18h, no Espaço Multimídia do Museu da República.

Esta edição pretende ampliar e compartilhar as experiências museológicas e a atuação dos profissionais do setor para tornar os museus espaços de afirmação e protagonismo LGBT. Participam do debate, Inês Gouveia, Jean Baptista, Jorge Luís Pinto Rodrigues (Caê) e Tony Boita.

A Jornada Republicana é um projeto mensal realizado pela equipe técnica do museu. Ela tem como objetivo discutir temas no âmbito da museologia e a contextualização com abordagens de interesse de toda a sociedade.

Mais informações pelo telefone (21) 2127.0341 ou na página do Museu da República.

Outra coisa interessantíssima é a revista Memória LGBT, que traz na edição atual o tema "Ser trans na favela". A capa mostra uma mulher trans e negra. Veja mais AQUI.

E apesar de não se fazer memória LGBT somente a partir dos registros de violência, uma vez que a história LGBT também é recheada de realizações fantásticas, é FUNDAMENTAL lembrarmos que até essa data, o Grupo Gay da Bahia (GGB) já registrou 190 assassinatos contra pessoas LGBT no Brasil só este ano - a maioria deles com requinte de crueldade. Não podemos esquecer dessas vítimas e precisamos exigir das autoridades e da sociedade mecanismos para prevenir e punir crimes de ódio contra as pessoas com base em sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Trabalho





Segundo o The Huffington Post, 61% dos trabalhadores brasileiros escondem sua orientação sexual no trabalho. Isso significa, entre outras coisas, que esses profissionais não se sentem seguros em seu ambiente de trabalho. A questão é tão séria que a ONU lançou um manual intitulado PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DE PESSOAS LGBT NO MUNDO DO TRABALHO.

Na contramão do enrustimento, a revista EXAME publicou (2015) uma matéria de capa com o título "Chefe, sou gay!" abordando esse assunto. O blog Fora do Armário comentou a matéria e sugeriu links para o ranking das empresas mais gay-friendly do mundo. Confira AQUI.


Direitos





O site Catraca Livre publicou excelente matéria com os direitos que são garantidos aos cidadãos LGBT no Brasil atualmente. Você pode acessar informações sobre casamento, adoção, reprodução assistida, registro parental e homofobia. Confira AQUI.

Apesar dessas conquistas, a luta continua sendo grande. Não bastassem as investidas dos inimigos da laicidade e da democracia, que tentam bloquear qualquer avanço em termos de criminalizar a LGBTfobia e educar para a diversidade, ainda existem aqueles que tentam fazer retroceder leis já garantidas que visam a combater a discriminação. Isso aconteceu no Rio de Janeiro, mas foi superado quando o governador Pezão sancionou a lei anti-discriminação em 2015. Agora, porém, testemunhamos outra tentativa desses fanáticos fundamentalistas em Brasília, que culminou com a retirada da lei que proíbe a discriminação em estabelecimentos comerciais. Veja a matéria publicada pelo G1 ontem, AQUI.

Enquanto, isso a resistência LGBT acontece dentro do próprio Congresso, infestado de fundamentalistas e de outros fascistas. É o caso do Dia Internacional de Combate à LGBTfobia, que contou com atividades abertas ao público. 

O evento foi promovido pelo Deputado Jean Wyllys e pela Deputada Érika Kokay, com apoio de aliados internos e externos ao Congresso Nacional. Veja como foi a programação e assista às falas de cada um dos participantes AQUI.

Como vemos, temos muito o que celebrar, mas muito pelo que lutar ainda. 

Façamos a diferença cada dia, onde quer que estejamos. Orgulho LGBT tem que estar na veia, minha gente! :)

Feliz DIA DO ORGULHO LGBT! 



LEIA TAMBÉM: O homem que amava mendigos

Você vai se emocionar com as histórias de amor, resistência e superação que atravessam a vida de Eduardo Nassau, herdeiro de empresas muito bem-sucedidas na Holanda e no Brasil. Tem muito mais do que sugere o título. É ler para ver. :)

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