Carlos Tufvesson foi processado por causa de um panfleto da Riotur e fala sobre CEDS-Rio e outras coisas na administração Crivella

Carlos Tufvesson - fonte da Foto aqui.


Por Sergio Viula


Preocupado com a atual conjuntura política do Rio, o Blog Fora do Armário procurou o ex-coordenador da CEDS-Rio, o estilista e ativista LGBT Carlos Tufvesson, para falar sobre os desafios que a administração Crivella coloca diante de nós. 

O quadro é o de uma cidade com vocação e características cosmopolitas, dona de uma pluralidade cultural fenomenal, habitada por gente das mais variadas cores, com afiliações religiosas as mais diversas, e conhecida por sua diversidade sexual e de gênero, sendo administrada por um prefeito fundamentalista que mistura crenças religiosas com políticas públicas.

Além de cometer a improbidade de não entregar as chaves da cidade ao Momo no carnaval 2017, como manda o protocolo, Crivella evita qualquer sinalização positiva para a comunidade LGBT e para as grupos religiosos que não se coadunam com a visão da igreja-império que seu tio Edir Macedo construiu ao longo dos últimos anos. 

Perguntado sobre a decisão de Crivella de não apoiar a Parada LGBT esse ano, apesar de ser ela o terceiro maior evento anual do Rio, Tufvesson ressalta exatamente o que colocamos acima: 

"É uma questão de visão sobre nossa cidade sobre nossa cultura. sobre o DNA carioca. Não é só em relação a Parada, pois seria até menos grave, mas a administração como um todo possui uma visão paroquiana que não tem a ver com nós, cariocas, que amamos essa cidade!"

Mas se a Parada é protesto-celebração, Tufvesson destaca que não temos muito o que comemorar, visto que as políticas públicas que vinham sendo construídas até a assunção de Crivella ao cargo de prefeito vêm sendo sistematicamente apagadas. Tufvesson ressalta exatamente isso:

"A Parada não pode refletir uma maquiagem diante do apagão de políticas públicas que estamos vivendo no Rio. Confesso que o clima festivo diante do momento trágico me soa fora da realidade."

O ex-coordenador da CEDS-Rio critica o silenciamento dos movimentos sociais, que parecem se calar sob o pretexto de obter financiamento para suas atividades:

"Se 'o custo' de ter uma parada com trios e DJs' é esse silêncio cúmplice, absolutamente em desacordo com a razão da existência do movimento social, é mais digno que ela [a Parada] seja realizada como marcha mesmo, com todos nós marchando e um surdo na frente. É um momento de luto e me soa uma alienação sair de maneira festiva na Atlântica diante do quadro que todos nós militantes sabemos que está acontecendo. Temos responsabilidade e um histórico a zelar!"

Perguntado sobre o sucateamento das políticas públicas no Estado e na Prefeitura, Tufvesson afirma que o fim do Rio sem Homofobia (Estado) e do Rio sem Preconceito (Prefeitura) o tem levado a refletir muito sobre "a fragilidade de nossas políticas públicas". E lamenta: "Nós, no Rio, sempre fomos modelo de gestão no país, e de um mês pro outro, tudo desaparece." 
Mas, como em toda crise, também existem oportunidades. 

Tufvesson diz que vê tudo isso como "a oportunidade de renascimento do movimento social, que antigamente ia as ruas e levava seus pleitos a sociedade." 

Ele diz que "já tem tempo demais que não fazemos isso e esse espaço foi ocupado especialmente pela distorção de nossas demandas." Ou seja, para Tufvesson a ausência desse combate cedeu espaço à distorção de demandas que eram prioritárias para a comunidade LGBT carioca e fluminense.

Como não vi nenhuma grande mobilização em torno do Dia do Orgulho LGBT, precisamente neste 28 de junho, quarta-feira, perguntei se Tufvesson sabia de algum movimento em torno dessa data. Ele respondeu que é uma pena que a pauta LGBT esteja se misturando com o momento crítico que o Brasil enfrenta diante do panorama de crise política, especialmente relacionado ao governo Temer. 

Tufvesson diz que viu uma convocatória para uma marcha "Stonewall/fora temer", mas vê isso com preocupação:

"Entendo que ninguém pode estar satisfeito com a presidência da república, mas entendo também que essa data deveria ser respeitada para que reivindicássemos a nossa agenda que, infelizmente, encontra pouco espaço e visibilidade."

Sobre as perspectivas para o Rio de Janeiro no tocante às demandas do segmento LGBT de sua população, Carlos Tufvesson não está otimista: 

"Sinceramente nunca vi uma ausência de perspectivas maior, por isso prego a renovação do movimento social pela resistência". E o cúmulo dos desmandos dessa prefeitura crivelliana não é só a ausência de políticas efetivas em prol da população LGBT, mas perseguição contra quem ousou promovê-las. Pasmem! A CEDS-Rio, sob a administração Crivella, processou seu ex-coordenador por causa de um catálogo da Riotur que mostrava um beijo homoafetivo numa propaganda sobre turismo gay-friendly no Rio. 

Perguntei a Tufvesson sobre esse terrível episódio e ele disse o seguinte:

"O Promotor de Justiça, como já era de se esperar, verificou que não havia qualquer irregularidade no catálogo feito pela Riotur e determinou o arquivamento da investigação. Mas é deprimente que, além de um desvio de função, um órgão LGBT, que existe como fruto de nossa luta há décadas, seja usado para ir ao Ministério Público alegando que um beijo entre dois homens e duas mulheres, ou seja a manifestação de afeto, seja considerado improbidade administrativa dizendo que são imagens 'inadequadas a administração pública'. Só faltou alegar que é abominação. Seu papel deveria ser exatamente o contrário. Isso é significativo do nosso momento em que muitas notas são plantadas sem o menor fundamento da verdade pela atual assessoria de imprensa da CEDS, que é especializada em 'clientes sub-celebridades'. Só descobri isso quando plantaram nota me caluniando num jornal de grande circulação. Ou seja, estão deliberadamente #enganandoaspessoas."

Da minha parte, a pergunta que me faço continuamente é: CADÊ O MOVIMENTO LGBT? CADÊ O GRUPO ARCO-ÍRIS? CADÊ A ABGLT? 

Se a Parada do Rio não acontecer pelos meios tradicionais, ou seja, organizada pelo Grupo Arco-Íris, saiamos todos, todas e todes pela Avenida Atlântica a pé e com megafones e cartazes, mas não nos calemos de modo algum!

O Blog Fora do Armário está aberto ao Movimento LGBT para esclarecimentos e convocações.




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ATUALIZAÇÃO EM 30/06/17

O GRUPO ARCO-ÍRIS PUBLICOU UMA NOTA DE REPÚDIO À PERSEGUIÇÃO PROMOVIDA CONTRA O ATIVISTA CARLOS TUFVESSON NA ATUAL ADMINISTRAÇÃO, A DO BISPO CRIVELLA.

LEIA AQUI:

http://www.foradoarmario.net/2017/06/grupo-arco-iris-publica-nota-de-repudio.html

Comentários

  1. Conheço Tufvesson há anos e sei do seu compromisso com as demandas da população LGBT, mas não se pode generalizar algumas afirmações tendo em vista os vários problemas vivenciados bem antes da atual gestão assumir. Desde a gestão César Maia os governos apoiaram as Paradas, mas nunca subiram no carro para saudar ou dizer a população "Olá viva a diversidade". Quanto ao fato da Marcha de ontem no Rio destacar o Fora Temer é o mínimo pois desde o golpe político em 2016 promovido pelo PMDB (vice na chapa) quem tem mais sentido na pele a perda de direitos somos nós LGBT, vide Estatuto da Família, o engavetamento do PL João Nery e tantos outros retrocessos. De fato o Movimento LGBT como todos os outros hoje são criminalizados por reconhecer os avanços de direitos durante os governos do PT. Concordo que o Movimento LGBT não tem que ser partidário, mas somos seres políticos, os setoriais LGBT dos partidos cresceram e não como se fazer ativismo sem denunciar as violações e as iniquidades. Sou ativista LGBT desde o inicio dos anos 90 iniciei no grupo Atobá. Infelizmente os grupos LGBT estão acabando pela ausência de políticas públicas fomentadoras de direitos humanos e de cidadania. A Parada no Rio é um marco desde 1995 com ou sem apoio, concordo que deva se repensar sobre o papel dos governos no apoio a organização. Para encerrar meu comentário ontem vários ativistas se reuniram na ALERJ em direção a Câmara Municipal e ergueram a bandeira do Arco Íris com várias manifestações e celebração ao Dia do Orgulho LGBT. O vereador David Miranda, inclusive conseguiu iluminar a Câmara com as cores do arco íris, mas a mídia só divulga o que interessa o release da manifestação foi divulgado amplamente, mas o dia do orgulho das "sapatões, dos viados, das travas e dos pecadores" não tem importância e é dessa forma que manipulam a opinião pública. Marcio Villard coordenador do Grupo Pela Vidda-RJ.

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    1. Obrigado, Marcio, por esse comentário super atencioso. É verdade. Não foi divulgado e eu também não fiquei sabendo da iluminação da Câmara. É uma pena, mas que bom que David Miranda está na luta.

      Vamos continuar lutando!

      Abração,
      Sergio

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