"A reforma no ensino médio não muda nada" - MENTIRA.




Por Sergio Viula

Alguns jornais televisivos têm alardeado que a reforma no ensino médio não deixa filosofia, sociologia, artes e educação física de fora, porque esses conteúdos podem ser lecionados junto com história e literatura, por exemplo. Isso, porém, é uma cortina de fumaça.

Eles dizem: "Numa aula, o professor de história pode falar sobre filosofia".

Ou ainda: "Numa aula, o professor de português pode analisar um texto filosófico". 

Só que o que eles ignoram é que o professor de português vai analisar o texto do ponto de vista da língua portuguesa, da interpretação de texto, do estilo, da composição frásica daquele texto, nada tendo a ver com o pensamento aprofundado de um filósofo em relação a um texto filosófico. 

A mesma coisa funciona no caso da aula de história, pois do mesmo jeito que um filósofo pode comentar alguma coisa sobre história sem ser um historiador, um professor de história pode comentar alguma coisa sobre filosofia em ser filósofo. Isso, porém, tem implicações sérias para o conhecimento. Eu posso dar um texto de filosofia sem fazer uma abordagem filosófica ou dar um texto de história sem fazer uma análise histórica. 

Por exemplo, eu posso falar sobre Sócrates e seu pensamento historicamente, sem aprofundar nada sobre seus conceitos, sem falar sobre as implicações daquele pensamento em termos do que a filosofia vem construindo ao longo dos séculos em relação a diversos campos do conhecimento. 

Mais um exemplo nesse sentido: Eu posso falar sobre empirismo sem aprofundar coisa alguma a respeito dessa escola filosófica. Eu posso falar sobre racionalismo sem maiores desdobramentos do ponto de vista da filosofia. Eu posso simplesmente dizer como surgiu o pensamento empirista e o pensamento racionalista, quais foram as consequências para o pensamento ocidental, como eles se apresentam hoje, mas não necessariamente refazer o percurso com uma atitude filosófica para com aquele pensamento, a fim de entender como ele foi construído e de que maneira nós também podemos fazer a nossa própria filosofia. Afinal, a filosofia não está restrita a Sócrates e Platão. Ela é contemporânea também. E há filósofos fantásticos hoje, vivos e ainda trabalhando questões sérias para a nossa existência, tais como a democracia, que é muito comum na área da filosofia política, ou a economia, ou comportamento, ou a ciência. Então, não é a mesma coisa. Nunca será a mesma coisa.

É como um  professor de matemática dando aula de física. Ele pode entender muito bem as operações matemáticas envolvidas numa fórmula de física - o que não significa que ele seja um físico. 

Um matemático não trabalha diretamente com pesquisa física. Por exemplo, com energia nuclear, com construção civil, com redes elétricas. Um matemático pode até entender muito bem os cálculos e prover o físico com as operações que sejam úteis, oferecer uma perspectiva matemática, lógica, que seja útil à elaboração de uma determinada fórmula ou procedimento, mas é o físico que vai ser capaz de produzir conhecimento físico utilizando aquela matemática, assim como outros saberes, sejam eles da química, da biologia, etc. Então, o físico não é um expert em nenhuma delas, mas ele pode dialogar com todas elas. 

O nome desse relacionamento entre os diversos campos do saber é interdisciplinaridade, que é uma forma de encadeamento entre as diversas disciplinas. Em muitos pontos, elas se encontram, mas nenhuma delas substitui a outra. Nenhuma delas mesmo.

A dança dialoga com a música, mas um dançarino não é um músico. Ele pode até ser os dois, mas ele vai ter que trabalhar nas duas áreas para desenvolver as duas habilidades. Ele não vai ser um músico simplesmente porque é um dançarino que utiliza a música para dançar.

Outra coisa que muita gente parece ignorar: Muitos professores ficarão desempregados por causa dessa decisão. Se as escolas particulares não são obrigadas a colocar aquela matéria na grade, elas não contratarão aqueles professores. E as escolas públicas também não. Só que as escolas particulares costumam criar ações extra-classe que podem, em última análise, fomentar o interesse do aluno em buscar esses conhecimentos. 

Mas, e a escola pública? Essa que mal consegue dar o conteúdo que tem que ser dado porque aloca 40 alunos numa sala de aula sem qualquer refrigeração. E são alunos que vêm com todos os tipos de problemas. 

Claro que alunos de escolas particulares também têm problemas. Tem um monte de gente doida em escola particular. Rica e doida. Mas, eles têm um comportamento diferente porque o próprio ambiente social onde eles vivem já coíbe manifestações mais agressivas.

Quanto às escolas públicas, especialmente as que estão em comunidades mais violentas, a situação é bem outra. Ali, tem de tudo. Tem gente muito boa e interessada em aprender e sair da pobreza, mas também tem filho de traficante, gente acostumada a resolver tudo à faca ou à bala, que ameaça professor com porrada na cara, fura pneu, quebra carro, ameaça sequestrar. Eu tenho caso na minha família de aposentadoria precoce por causa de violência na escola. Então, não é brincadeira. E o governo não está fazendo nada de fato para aprimorar o ensino médio com essas atitudes. Ele poderia ter tomado outras medidas, mas essas não vão aprimorar o ensino médio de fato. 

E outra coisa: Colocar matemática e português como as únicas disciplinas realmente obrigatórias é limitar demais, porque a vida não é feita só dessas duas linguagens, sim, porque matemática também é uma linguagem. A vida é feita de muito mais. Essas linguagens servem para descrever coisas ou operacionalizá-las, mas quais são essas coisas? Isso não vai ser dado? Isso não vai ser discutido? Ou vai ser discutido superficialmente aqui e ali pelo professor de outra disciplina?

Então, isso é muito sério. Estou muito indignado com tudo isso. Ontem, eu passei o dia bastante chateado. Bastou ouvir na TV que o Temer ia assinar essa merd@. Na verdade, eu já sabia que ele ia assinar isso mais cedo ou mais tarde, a despeito de todos os protestos feitos no ano passado. Afinal, ele é o cabeça por trás dessa porr@. 

Felizmente, há adolescentes que pensam diferente. Graças à boa educação que eles têm recebido, eu tenho alunos que discordam disso e que dizem se tivesse sido deixado a cargo deles decidir o que estudar como matéria optativa, eles não fariam praticamente nada ou só escolheriam o que mais gostavam quando entraram no ensino médio. Mas, segundo eles mesmos, foi ao longo dos períodos do ensino médio que eles foram vendo a importância e a seriedade de cada disciplina para a vida, de um modo geral, e para provas, os concursos, etc. Hoje, eles dizem que não abririam mão de nenhuma das matérias que tiveram que fazer por serem obrigatórias.

E detalhe: A maioria das pessoas está pensando em ENEM e Vestibular, que vão ser adequados a esse ensino merd@. Ninguém está pensando nos concursos de outras áreas, nas quais as empresas não vão dar moleza, porque elas vão querer que os candidatos tenham conhecimentos para além de matemática e português. Quero só ver como isso vai ser tratado, especialmente quando o aluno quiser estudar no exterior, fazer intercâmbio, etc. Tem muita coisa implicada aí, minha gente.

E a Rede Globo, entre outras, é uma tremenda duma mentirosa que fica convidando gente para ser entrevistada que só repete o mantra de que "vai ter esses conteúdos, sim", "vai continuar tendo os mesmos conteúdos", porque o professor da área tal pode falar sobre isso ou aquilo. NÃO É A MESMA COISA. E se fosse para ser a mesma coisa, por que uma proposta de mudança? Mudar para continuar igual? Antes fosse. Estão mudando para pior.



Comentários

  1. "Muitos professores ficarão desempregados por causa dessa decisão" e como consequência diminuirá a procura pela formação nessas áreas. Filosofia e sociologia estão fadadas ao fracasso.

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    1. Verdade, Marcia. É um descaso com todos, inclusive com as universidades que prepararam profissionais para essa área e com os profissionais que dedicaram seu tempo e outros recursos a essa formação. :(

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