As pesquisas e a imprensa americana erraram, mas Michael Moore acertou. Veja por que Trump venceu.

Por Michael Moore
Traduzido e adaptado por Sergio Viula



Michael Moore escreveu um artigo que mais parece uma carta aberta a seus amigos, pontuando as razões pelas quais Donald Trump venceria e se tornaria o 45º presidente dos Estados Unidos. Ele acertou na mosca! 


Enquanto as pesquisas e a imprensa apontavam para Hilary Clinton, Donald Trump continuava cativando apoio em diversas regiões dos Estados Unidos onde os votos geralmente decidem as eleições, em função do tamanho de seu colegiado.

Ele começa dizendo o seguinte:

"Lamento ser o portador de más notícias, mas eu acertei na mosca quando disse a vocês no verão passado que Donald Trump seria o candidato republicano à presidência. E agora eu tenho notícias ainda mais terríveis e deprimentes para vocês: Donald Trump vai ganhar em novembro. Esse miserável, ignorante, palhaço perigoso em tempo parcial e sociopata em tempo integral, vai ser nosso próximo presidente. Presidente Trump. Vamos, digam as palavras, porque vocês as dirão pelos próximos quatro anos: 'Presidente Trump'."

Michael Moore, que é autor do livro "Cara, Cadê o Meu País", que fala sobres escâdalos e suspeitas gravíssimas na administração George Bush (filho), especialmente no que concerne ao ataque às Torres Gêmeas, e é conhecido por ser um crítico 
ácido do nacionalismo cego de boa parte dos americanos e de suas lideranças. 

Sobre sua previsão a respeito de Trump, Moore diz o seguinte:

"Nunca na minha vida eu quis estar errado mais do que quero agora."

Em sua carta, ele alerta seus amigos para o fato de que eles estão vivendo numa bolha com eco onde todos estão convencidos de que os americanos não elegerão um idiota como presidente. Ele alerta: "Vocês têm que sair dessa bolha agora. Vocês precisam parar de viver em negação e encarar a verdade que vocês sabem, bem lá no fundo, é muito, muito real.

Depois de explicar como tentamos usar uma estranha lógica que geralmente cria uma sensação de esperança, porque procura ver as coisas como se fossem melhores do que são de fato, Moore procura esclarecer que não se trata de rendição.

"Não me entendam mal. Eu tenho grande esperança no país onde vivo. As coisas estão melhores. A esquerda ganhou as batalhas culturais. Gays e lésbicas podem se casar. A maioria dos americanos agora toma uma posição liberal em praticamente todas as questões colocadas diante deles em pesquisas de opinião: pagamento igual para homens e mulheres 
 sim. O aborto deveria ser legalizado – sim. Leis ambientalistas mais fortes – sim. Mais controle de armas – sim. Legalizar a maconha – sim. Uma grande mudança aconteceu – simplesmente, pergunte ao socialista que ganhou 22 estados esse ano. E não há dúvida na minha mente de que se as pessoas pudessem votar a partir de seus sofás através de seus consoles de X-box ou PlayStation, Hillary venceria fácil."

Moore sabe do que está falando. Os EUA já foram tão mesquinhos quanto alguns dos países mais atrasados em termos de liberdades civis no mundo de hoje, mas ele chama atenção para o fato de que a lógica das eleições não funciona dessa maneira nos Estados Unidos. 

As pessoas que vivem em áreas pobres, negras ou hispânicas esperam mais tempo na fila e tudo coopera para que não coloquem a cédula na urna  denuncia ele. E acrescenta:

"Então, na maioria das eleições é difícil conseguir que ao menos 50% deles apareçam para votar. E aí jaz o problema para novembro – quem vai ter os eleitores mais motivados, mais inspirados para aparecerem e votarem? Você sabe a resposta a essa pergunta."

Em seguida, Moore oferece 5 razões pelas quais Trump ganharia as eleições (e ganhou mesmo!):

1. A matemática do centro-oeste ou "o Brexit do nosso cinturão de poeira"

Moore acreditava que Trump ganharia na região dos Grandes Lagos (Michigan, Ohio, Pennsylvania e Wisconsin), os quais eram tradicionalmente democratas (partido de Hillary) e não republicanos (partido de Trump). E a razão era a matemática da economia, uma vez que o apoio dos Clinton ao NAFTA (A aliança dos Países do Atlântico Norte) teria realmente colaborado para enfraquecer a economia na região, e bastou que Trump prometesse rever esses acordos e forçar empresas como a Apple a pararem de produzir na China e voltarem a produzir ali para que o republicano ganhasse apoio.

2. O último bastião do raivoso homem branco

"Nossos últimos 240 anos de administração dominada por homens nos Estados Unidos está chegando ao fim. Uma mulher está ao ponto de assumir o controle! Como isso pôde acontecer? (...) Havia sinais de aviso, mas nós os ignoramos. Nixon, o traidor de gênero, impôs o Title IX sobre nós, a lei que dizia que garotas na escola deviam ter chances iguais em esportes patrocinados. Depois, deixaram-nas voar em jatos comerciais. Antes que percebêssemos, Beyoncé despontava no campo no Super Bowl (nosso jogo!) esse ano com um exército de mulheres negras, punhos erguidos, declarando que nossa dominação estava doravante encerrada! Ai, a humanidade!"

Moore diz que isso é apenas uma pequena amostra do que vai na cabeça dos machos brancos em extinção. Na cabeça deles, depois das feminazi, seriam os gays dominando a Casa Branca. Em seguida, os transgêneros. À essa altura, os animais já teriam direitos equivalentes aos humanos e um hamster seria eleito para dirigir o país. Isso tem que parar!

3. O problema Hillary. 

"Podemos falar honestamente, só entre nós?" E antes que eu o faça, deixem-me declarar que eu, de fato, de fato mesmo, gosto da Hillary – muito – e eu acho que ela tem ouvido coisas muito ruins que não merecia ouvir. Mas o voto dela a favor da guerra no Iraque me fez prometer que eu nunca votaria nela de novo. Em nome de evitar que um proto-fascista venha a ser o comandante-em-chefe, estou quebrando essa promessa. Eu tristemente acredito que Clinton vai arrumar um jeito de nos colocar em algum tipo de ação militar. Ela é um falcão, à direita de Obama [nota: Obama reduziu drasticamente os contingentes militares no Oriente Médio]. Mas o dedo psicopata de Trump estará sobre O Botão, e é isso aí. Feito."

Moore chama atenção para o problema de fato. E este é Hillary, não Trump. "Ela é imensamente impopular — quase 70% de todos os eleitores acreditam que ela seja indigna de confiança e desonesta. Ela representa a velha política, aquela que não acredita em nada que não possa elegê-la. Por isso, ela luta contra o casamento homoafetivo num momento, e no próximo ela está oficiando um casamento gay. 

As mulheres jovens estão entre seus maiores detratores, o que deve doer, considerando os sacrifícios e batalhas que Hillary e outras mulheres de sua geração fizeram para que a geração mais jovem nunca tivesse que ouvir as Barbara Bushes do mundo dizer a elas que apenas se calassem e fossem fazer alguns biscoitos. Mas essas crianças não gostam dela, e não passa um dia sem que um milhar delas me diga que não votarão nela.

4. Os votos deprimidos de Sanders. 

Moore explica que não havia dúvida de que os eleitores de Sanders votariam em Hillary, mas esse voto seria um voto deprimido, ou seja, daquele tipo em que o cara vota na Hillary, mas não conquista outros eleitores para ela e não leva a família ou os amigos para votarem nela. É um voto triste que não contagia outras pessoas.

5. O efeito Jesse Ventura. 

Finalmente, não subestime a habilidade do eleitorado ser maldoso. E nem duvidem que milhões adorem se ver como anarquistas logo que as cortinas das urnas se fecham e eles ficam sozinhos na cabine de votação - alerta Moore. 

"É um dos poucos lugares que sobram na sociedade onde não há câmeras de segurança, escuta eletrônica, cônjuges, filhos, chefes, policiais, não há sequer limite para o tempo. Você pode demorar quanto quiser lá e ninguém pode fazer nada. Você pode apertar o botão e votar num partido, ou você pode escrever Mickey Mouse e Pato Donald. Não há regras. E por causa disso, e da raiva que tantos sentem contra o sistema político, milhões vão votar em Trump não porque concordam com ele, não porque gostam de sua intolerância, mas apenas porque eles podem. Apenas porque isso vai enlouquecer papai e mamãe. Como acontece quando você está na beira das cataratas do Niagara e sua mente se pergunta por um momento como seria ultrapassar aquela coisa, um monte de gente vai adorar estar na posição do mestre de marionetes e se eleger Trump só para ver como seria. Lembram-se da década de 90, quando o povo de Minnesota elegeu um lutador profissional como governador deles? Eles não o fizeram porque fossem estúpidos ou pensassem que Jesse Ventura fosse algum tipo de homem de estado ou político intelectual. Eles o fizeram simplesmente porque podiam. Minnesota é um dos estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente que tem um senso de humor mórbido — e votar em Ventura foi a versão deles para uma piada prática contra um sistema político doente. Isso vai acontecer de novo com Trump."

Antes de encerrar, Moore diz que ao voltar de um hotel depois de participar de um programa especial de Bill Maher sobre a Convenção Republicana (a de Trump) na HBO, um homem o parou e disse: "Mike, temos que votar no Trump. Nós TEMOS que sacudir as coisas". 

Isso confirma o que Moore colocou acima: "Sacudir as coisas", vejam só. Trump faria isso, talvez só isso mesmo, mas como diz Moore, "uma boa parte do eleitorado adoraria se sentar nas arquibancadas e assistir esse reality show".

MICHAEL MOORE ACERTOU. VEJA O MAPA DOS RESULTADOS NA ELEIÇÃO NESTA TERÇA, 08 DE NOVEMBRO DE 2016:

O vermelho foi onde Trump ganhou


O texto de Michael Moore pode ser encontrado na íntegra aqui: http://michaelmoore.com/trumpwillwin/

Michael Moore

Michael Francis Moore (Flint, 23 de abril de 1954) é um cineasta documentarista e escritor americano, conhecido pela sua postura crítica, sobretudo em relação à violência armada da sociedade americana, às grandes corporações, às desigualdades econômicas e sociais, e à hipocrisia dos políticos, tendo sido particularmente crítico a George W. Bush e à invasão do Iraque.

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