A estupidez humana é insuperável mesmo

Por Sergio Viula




Esse final de 2016 tem sido um período de insuperável estupidez em diversas partes do globo e nos mais variados níveis. 

Quando eu penso que já vi o suficiente e que agora as pessoas podem mudar o script e começar a agir e falar como se fossem inteligentes de fato, acabo me deparando com a mais nova versão da velha estupidez humana aqui e ali.

Por exemplo, desde que me conheço por gente, o povo da Colômbia vem sofrendo com os conflitos entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo. Nenhum dos dois lados jamais demonstrou disposição para colocar fim ao conflito. Nada de concessões, quaisquer que fossem. Dos dois lados, prevalecia a lógica do "nós ou eles". 

O presidente Juan Manuel Santos, porém, conseguiu capitanear um acordo de paz sem precedentes. E os revolucionários aceitaram. O que dificilmente se poderia esperar era que a população decidisse dizer não à paz, mas disse. E o fez durante um plebiscito realizado no mês de outubro. O acordo poria fim a 52 anos de conflito - uma guerra civil que custou mais de 220 mil vidas. 

Quando ouvi isso, eu disse: O quê? Isso é brincadeira. Não pode ser verdade. Como é que os mais prejudicados por essa guerra civil podem dizer não à paz? Não era pegadinha. 

Felizmente, apesar da vitória da imbecilidade nas urnas, os dois lados do conflito dizem que estão abertos à paz, mas como lidarão com isso, é difícil prever.


Presidente da Colômbia e líder das FARC celebrando o acordo de paz.
Leia mais em: O Globo

Nesse mês de outubro, um outro absurdo foi legitimado através do voto popular. Um bispo, representante de uma organização religiosa que é suspeita de graves crimes fiscais, para dizer o mínimo, foi eleito prefeito da segunda maior cidade do Brasil: O Rio de Janeiro.

Sobre as suspeitas de crime, vale lembrar os anos de 2010, 2011 e 2016, só para citar três.

Em 2010, a Igreja Universal foi acusada de crime financeiro por envio ilegal de divisas para o exterior. O valor chegava a 400 milhões de reais, segundo o Estadão

Em 2011, o Ministério Público Federal de São Paulo apresentou acusação contra a organização de Edir Macedo por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O caso foi noticiado pela revista Veja.

Agora, em 2016, a Folha de São Paulo publicou a seguinte notícia:

Um ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus acusa a entidade de ter mantido um esquema ilegal para operar milhões de dólares no exterior por pelo menos sete anos.

O dinheiro, segundo a versão dele, teria sido utilizado para financiar a instituição e sua emissora de TV, a Rede Record, na Europa.

Alfredo Paulo Filho, 49, afirma ter sido responsável pela Universal em Portugal entre 2002 e 2009 e um dos principais auxiliares do bispo Edir Macedo, fundador da igreja, por mais de dez anos.

Antes disso, diz que coordenou trabalhos da igreja em Estados como São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Segundo o ex-bispo, a cúpula da Universal criou uma rota para fazer remessas ilegais de dinheiro, ao menos duas vezes por ano, da África para a Europa.

Os dólares, diz, vinham de uma campanha da igreja em Angola, a Fogueira Santa, e cerca de US$ 5 milhões eram despachados por viagem.

O ex-bispo relata ter participado do esquema e afirma que os milhões de dólares chegavam à Europa em um jato particular, depois de terem sido levados, de carro, de Angola até a África do Sul. (Leia mais na Folha de São Paulo)

Apesar de tudo isso, mais de 59% dos eleitores do Rio de Janeiro, foram estúpidos o bastante, para colocarem um dos maiores patrimônios culturais, históricos e turísticos do país nas mãos do sobrinho de Macedo, que se gaba de ter sido mi$$ionário na África - a mesma África que está sendo investigada como rota dessa evasão e lavagem de dinheiro.

Curiosamente, Malafaia, que na eleição para governador, combateu vorazmente o bispo, tornou-se um de seus maiores aliados quando este concorreu para prefeito este ano. Certamente, os dois têm muito em comum. O que me espanta é o que o Rio de Janeiro diz de si mesmo com tal escolha: trata-se de um deslumbrante cenário para atores de baixíssimo nível. E por atores, refiro-me a esses patifes, seus seguidores e eleitores.


Malafaia e Crivella trocando carícias

Eu poderia até pensar que países considerados desenvolvidos estivessem imunes a esse tipo de fenômeno, mas não. Afinal, se uma cidade cosmopolitana como o Rio de Janeiro pode eleger um bispo fundamentalista como Crivella, e com ele abrir as portas do cofre para seu tio e para pessoas como Garotinho e sua turma, além de Malafaia e outros exploradores da fé e promotores de segregação, por que não poderiam os Estados Unidos fazer algo semelhantemente estúpido com tanta gente fundamentalista por lá também?

E foi o que aconteceu.

Entre uma mulher capacitada, experiente e disposta a trabalhar para que o país se desenvolvesse, respeitando a diversidade que lhe é característica, e um homem que mais parece um pirralho mimado, mal-educado, preconceituoso, segregacionista e sem a menor noção do que é ocupar um cargo público, os americanos elegeram este e não aquela. Para fazer justiça ao cidadão eleitor, é importante que se diga que Hillary ganhou em número de votos válidos, mas em função do sistema eleitoral americano, que trabalha com delegados e não com o número absoluto de votos nas urnas, venceu Trump. 

A vitória desse racista, misógino, homofóbico, racista, xenofóbico, entre outros adjetivos que brotam de suas próprias falas discriminadoras, lançou o país em conflitos que já duram três dias desde o anúncio de sua vitória (no momento desse post).

Trump: golpes financeiros, abusos sexuais, criação de uma universidade falsa, lesando centenas de alunos são apenas algumas das falcatruas do novo presidente americano.

Quem diria que depois de tantos avanços nos EUA, a estupidez ainda se faria carne e habitaria entre nós na figura de um presidente como Trump?

Se por lá, a vontade da maioria não elegeu Trump. Por aqui, a vontade da maioria foi nitidamente desrespeitada no que diz respeito a uma presidente democraticamente eleita. 

Michel Temer, um vice-presidente que dificilmente seria eleito para o cargo de presidente no Brasil, decidiu aproveitar a perseguição de Eduardo Cunha contra a presidente Dilma por vingança, uma vez que Dilma havia posto fim à mamata do deputado em Furnas muito antes dele ser presidente da Câmara. Cunha, que presidia aquela Casa e podia acatar um requerimento de abertura de processo de impedimento, era do mesmo partido que Temer e os dois sabiam que precisavam apoiar um ao outro se quisessem sobreviver. Tanto que agora que o objetivo foi alcançado, Temer foi convocado por Cunha para ser testemunha de defesa dele no processo da Lava-Jato que o pôs na cadeia por evadir milhões para Suíça. 

O processo de impedimento que garantiu a cadeira da presidência a Temer foi tão bem articulado entre a Câmara e o Senado, que docilmente poderia ser revertido. Deputados corruptos insatisfeitos com a linha dura de Dilma contra seus esquemas e desmandos, mancomunados com a grande mídia, a quem Dilma também não alimentava com as 'benesses' que essas mega-organizações ansiavam receber, entre elas a Rede Globo, cujo contrato de concessão seria renovado um ano depois do impedimento, conseguiram o que queriam: Dilma foi impedida, mesmo sem comprovação de crime de responsabilidade. Temer ocupou a cadeira que vampirescamente ansiava em ocupar, mas o Brasil está pagando a conta desse golpe.

Muita gente ingenuamente pensava que as coisas melhorariam sem Dilma. Pioraram. Programas sociais sendo desarticulados. O país continua imobilizado do ponto de vista econômico. Quando a gasolina caiu de preço nas refinarias, a imprensa festejou dizendo que baixaria no posto. Foi o contrário, subiu! Não apenas isso, mas Temer apresentou a PEC do congelamento de gastos por 20 anos - o que significará a sabotagem do sistema público de educação, segurança e saúde  - áreas básicas para a vida da esmagadora maioria dos cidadãos do país.

Temer mexeu no financiamento universitário. Teremos menos médicos daqui a poucos anos. Só para mencionar um dos muitos profissionais essenciais à nossa sobrevivência e qualidade de vida.

Nesse momento, o Congresso articula a sabotagem da Lava-Jato através de Projeto de Leniência, que é a garantia de que os deputados, senadores e outros políticos envolvidos em corrupção não serão punidos. E já tem representantes da grande mídia fazendo o deixa-disso com os juízes do Paraná, agora que seus amiguinhos do PSDB e do PMDB são a bola da vez. Uma das queridinhas do Globonews dá o tom desses demagogos tendenciosos.

Tudo isso é assustador, mas muito disso não depende diretamente de um indivíduo ou mesmo de um grupo social. É o resultado de uma configuração ampla e intrincada que envolve muita ignorância por parte de uns e muita esperteza por parte de outros, muito poder e muita vulnerabilidade, alianças e rompimentos, e por aí vai. Porém, quando se trata de uma pessoa fazendo mal a si mesma a olhos vistos, isso é ainda mais impressionante. 

E isso é o que vem acontecendo com esses desafios toscos que podem levar à morte ou à deficiência mental e/ou física chamados "choking" (asfixia). Qualquer que seja a explicação para esse comportamento, uma coisa fica muito clara para mim: estamos cercados de idiotas. E é possível que alguns dos que me leem aqui e pensam que os idiotas são apenas os outros sejam, na verdade, bastante idiotas para fazerem, aceitarem ou apoiarem diversas outras coisas igualmente perigosas

Por exemplo, conheço gente que não toparia o desafio do 'choking', mas votou em Crivella, ou que não votou em Crivella, mas acha que Trump era melhor que Hilary, ou que apoiou o golpe disfarçado de processo democrático no Brasil, ou que é idiota o suficiente para usar as redes sociais para espalhar ou apoiar o fascismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia, o racismo e por aí vai, mesmo sabendo que tem amigos e/ou parentes que são LGBT, negros, estrangeiros, etc.

Por que será que tanta gente vocifera dez mil ofensas contra quem dá seu cu de boa vontade a quem deseja comê-lo ou que agradecidamente come o de quem lhe dá livre e espontaneamente, mas aceita que um indivíduo tão idiota quanto ele exerça poder de morte sobre sua vida, sufocando-o até a morte ou quase morte? Vai trepar, otário! 



 Desafio do choking (asfixia)

Como pode alguém em sã consciência apoiar grupos de extermínio como esse que vem sendo investigado em Goiânia? O nome da operação policial que investiga esses exterminadores tem um nome super sugestivo: Sexto Mandamento. Se alguém se pergunta o que diz esse mandamento, ele diz "não matarás" - e não interessa quem. É não matar, e ponto.




Tenente-coronel Ricardo Rocha está entre alvos da operação da PF (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Fiquei ainda mais intrigado quando soube que os investigadores haviam descoberto que são comerciantes que financiam esses exterminadores. E para quê? Para eliminar moradores de rua e outros desafetos.


Ora, os moradores de rua são um dos grupos mais vulneráveis na pirâmide social. São os absolutamente desamparados. Ouvi no noticiário que mais de 100 cidadãos já haviam sido assassinados friamente por esses bandidos, entre os quais muitos são policiais militares, guardas municipais e policiais civis. Há algo de muito podre no mundo quando a população aceita ou tenta justificar a ação de criminosos com distintivo. Se matam seu vizinho, por que não você, estúpido? Não precisa ser muito esperto para chegar a essa conclusão. 


Francisco: o escorregadio



Aí, você pensa: talvez possamos encontrar alguma boa notícia na fala do Papa argentino, que alguns acreditam estar humanizando a Igreja Católica. Talvez, possamos festejar algum progresso ali, quem sabe? Talvez, graças a esse simpático argentino, a estupidez que acompanha o Vaticano há centenas de anos no que diz respeito à sexualidade humana e a dignidade das pessoas sexodiversas ou transgêneras esteja recuando e a racionalidade avançando, mas aí o Papa Francisquinho mesmo estraga tudo dizendo que é terrível que as crianças sejam ensinadas nas escolas que podem escolher seu gênero. 

Ora, terrível mesmo é que crianças sejam vítimas de violência em todos os sentidos por não se encaixarem nos padrões heteronormativos  e que não sejam protegidas contra isso nem na escola. 

O que esse senhor e seus companheiros de vestido procuram preservar são as estruturas da violência de gênero a custo da saúde e da vida dessas mesmas pessoas a quem deveriam defender.

Mas, aí um aluno meu salva meu dia. Foi quinta-feira. Eu estava com o começo de uma cistite que me custaria dois dias de cama e antibióticos para fazer a infecção recuar.  O simples ato de urinar tornou-se um tormento. A cistite está sendo tratada e já melhorou muito, mas foi aquele garoto de 16 para 17 anos que transformou o meu dia. Ele veio para a aula usando uma camisa preta com letras brancas garrafais que diziam o seguinte em inglês:
DIGA NÃO 

À XENOFOBIA
À HOMOFOBIA
AO SEXISMO
AO RACISMO

Parei a aula no meio de uma revisão, desci do tablado, apertei a mão dele diante de todos e disse: "Fulano, adorei sua camisa. Você renova minha esperança na humanidade. Quando a juventude junta vozes com os opressores, alguma coisa está muito errada no mundo. Obrigado por usar essa camisa. Estou orgulhoso de você."

Ele sorriu marotamente como se pensasse: Sabia que você ia gostar.

Eu sorri de volta e retomei a revisão, mas aquela imagem não saiu mais da minha mente. E espero que não tenha saído da cabeça de nenhum deles também. 




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