Indicação de clérigo gay para o bispado anglicano causa polêmica

Conservadores reclamam, mas renovação avança: tem bispo e bispa homoafetivos e padre transgênero na Igreja Anglicana.


Publicado pela BBC em
3 de setembro de 2016 



Traduzido e adaptado por
Sergio Viula







De acordo com a BBC, um grupo anglicano conservador (Gafcon) afirma que designar um homem gay como bispo de Grantham foi um erro.

O homem a quem eles se referem é o Bispo Nicholas Chamberlain, que, na última sexta-feira, disse que é gay e que está em um relacionamento.

Ele foi consagrado no ano passado pelo Arcebispo da Cantuária, Justin Welby. O arcebispo disse já saber da sexualidade do bispo na época.

O Bispo Chamberlain disse à BBC News: "Somos todos o povo de Deus juntos... Espero que você seja capaz de entender."

Ele também disse que entendia e vivia pelas diretrizes da Igreja, as quais determinam que clérigos gays permaneçam celibatários.

A BBC registra as palavras do Bispo Chamberlain a respeito da consternação que sua indicação tem causado: "Eu nunca pensei que estaria na primeira página de um jornal ou mesmo nos noticiários dessa maneira, porque minha sexualidade é parte de quem eu sou, e não o meu todo", acrescentou ele.

Perguntado sobre aqueles que se sentiam desconfortáveis com sua indicação como bispo, ele disse à BBC: "Eu entendo muito bem e respeito seus sentimentos e convicções e espero que entendam que somos todos juntos o povo de Deus."

O bispo também disse que sempre foi assumido sobre sua sexualidade, mesmo antes de se tornar bispo.

Mas o Gafcon, um grupo que inclui anglicanos conservadores ao redor do mundo, disse que houve um "elemento secreto" em sua designação.

Uma declaração do Gafcon afirma que as notícias sobre o Bispo Chamberlain "exacerbariam" as divisões dentro da Igreja da Inglaterra e do mundo anglicano mais amplo.
A declaração foi assinada pelo Rev. Peter Jensen, que é o secretário-geral do grupo, e Canon Andy Lines, que é o presidente da força-tarefa do Gafcon' no Reino Unido.

Canon Lines disse ao site do BBC News que ele considerava a Bíblia sua "autoridade suprema" e que ela mesma listava uma série de comportamentos, entre os quais a prática homossexual, os quais "requerem arrependimento".

Ao mesmo tempo que admitia que o celibato no caso de atração pelo mesmo sexo não requeria tal arrependimento, ele descreveu a indicação do Bispo Chamberlain como "infeliz" para a Igreja em termos da percepção pública que ela criou.

Lines disse que se o Bispo Chamberlain estava morando sob o mesmo teto que seu parceiro, isso criaria a percepção de um casamento, mas ele reconheceu não saber detalhes sobre a vida do bispo.

A sexualidade do Bispo Chamberlain foi publicamente desvelada numa entrevista para o The Guardian, e alguns dizem que ele teria dado a entrevista, porque sua vida privada seria exposta por um jornal de domingo.

Ele disse ao The Guardian que tem vivido com seu parceiro por muitos anos, acrescentando: "É fiel, amoroso; somos mentalmente parecidos, gostamos da companhia um do outro e dividimos nossas vidas."

A Casa dos Bispos publicou uma diretriz sobre relacionamentos gays que diz que "relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo frequentemente incorporam mutualidade e fidelidade genuínas".

Mas a diretriz adiciona: "Casar com alguém do mesmo sexo, todavia, divergiria claramente do ensino da Igreja da Inglaterra."

A diretriz diz, em particular, que "não seria conduta apropriada para alguém na ordem sagrada entrar num casamento com alguém do mesmo sexo."

A Igreja também ensina que "o relacionamento sexual, como uma expressão de fiel intimidade, pertence propriamente ao casamento, exclusivamente."

Todavia, esses sentimentos não têm sido seguidos na comunhão anglicana como um todo.


Gene Robinson, bispo de New Hampshire - EUA.

Nos EUA, a eleição de Gene Robinson como Bispo da Diocese Episcopal de New Hampshire, em 2003, provocou furor entre os anglicanos conservadores ao redor do mundo, e contribuiu para o crescimento do movimento conservador Gafcon, mas o Bispo Robinson continua com seu ofício a despeito disso. E, de fato, um segundo bispo foi ordenado sendo alguns anos depois - a Reverenda Mary Glasspool.

De 2003 e 2010:   (Mary Glasspool) nos EUA o primeiro foi Gene Robinson.




De 2014: 



No Reino Unido, o Deão de Saint Albans, o Reverendo Jeffrey John entrou numa parceria civil em 2006.


Rev. Jeffrey John, que se retirou do processo seletivo para se tornar Bispo de Reading em 2003, depois de reação anti-gay por parte de tradicionalistas.



O Deão de Saint St Albans, o Reverendo Jeffrey John, retirou-se do processo seletivo para se tornar Bispo de Reading em 2003, depois de uma reação irada dos tradicionalistas anglicanos a respeito de sua sexualidade.

Um porta-voz da Igreja da Inglaterra disse: "Nicholas não enganou ninguém e tem sido aberto e verdadeiro quando questionado. O assunto não é secreto, apesar de ser privado como é o caso de todas as parcerias/relacionamentos."

O Rev. Sally Hitchiner, que é gay e dirige um grupo de apoio LGBT chamado Igreja Diversa (Diverse Church), disse à BBC que estava ansiosa pelo dia que a sexualidade de um bispo não seria uma história para a mídia.

"Ele está deixando muito claro que segue as diretrizes da Igreja da Inglaterra e que mantém o celibato. A maioria de nós na Igreja sabemos de pessoas que são gays em altos postos", disse ela.

As notícias sobre a designação do Bispo Nicholas Chamberlain vêm num momento extremamente relevante, uma vez que o Colegiado Episcopal da Igreja da Inglaterra se reunirá esse mês para o próximo estágio de discussões da Igreja sobre sexualidade.

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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO

No Brasil, existem várias igrejas consideradas inclusivas hoje em dia. Muitas delas correspondem ao adjetivo "inclusivas", mas várias delas ainda têm que avançar muito para merecerem essa qualificação. 

Coincidentemente, estou publicando esse post sobre a Igreja Anglicana um dia depois de ter estado com o pessoal de uma igreja radicalmente inclusiva no Rio de Janeiro - a ICM Betel (Igreja da Comunidade Metropolitana/Betel). Não era um culto, mas um jantar. E foi extremamente prazeroso ver tanta gente que crê reunida sem crise alguma pelo fato de ser gay, lésbica, bissexual, transgênero, etc. 

Pessoalmente, não tenho crença religiosa, mas tenho enorme carinho pela ICM Betel. Vivo sem qualquer vínculo com igrejas e similares do ponto de vista de membresia ou congregação, mas valorizo aquelas comunidades que promovem a paz, a igualdade e combatem o fundamentalismo e o conservadorismo com suas castrações existências absurdas, sendo uma das maiores delas o próprio celibato como imposição heteronormativa. 

Vale a pena conhecer essa obra. Já garanti o meu exemplar.

Na ocasião, dois livros foram lançados pela Editora Metanoia: DivaGay, escrito por Katia Viula, e Borboletas Tropicais - o caminho brasileiro das Igrejas da Comunidade Metropolitana. Detalhe: essa é uma edição bilingue. O livro é em português de um lado e em inglês do outro. 


No momento dessa postagem, o livro ainda não estava na loja online, mas a editora já está vendendo essa edição bilingue, que será limitada. Entre em contato com Léa ou Malu por aqui: http://metanoiaeditora.com/contato/

Comentários

  1. Obrigada por sua militância e carinho Sérgio Viula.

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    1. Obrigado, Lea! Vc é muito querida, menina guerreira!

      Beijos,
      Sergio

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