Orgulho trans: BART SANTOS da campanha EU SEM CAMISA já foi operado!

Por Sergio Viula

Bart Santos no Instituto de Cirurgia do Lago - Brasília-DF


O Blog Fora do Armário apoiou a campanha EU SEM CAMISA, lançada por Bart Santos, inicialmente chamado Di Santos. O nome mudou quando Bart conseguiu sua carteira de nome social. Agora, já operado, ele concede essa linda entrevista ao Blog Fora do Armário, apenas um dia depois da operação. A entrevista só publicada agora a pedido dele mesmo, porque ele preferia estar de volta ao lar antes da publicação. 

Todos os que apoiaram o Bart podem celebrar om ele essa vitória agora. E quem não pôde colaborar ou não soube da campanha pode e deve se inspirar também.

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Depois da entrevista, leia as postagens da campanha antes da operação:


Eu sem camisa: Di Santos, um homem transexual e sua luta

EU SEM CAMISA

Conheça um pouco mais da intimidade do jovem trans Di Santos e sua esposa Cacau


Falta pouco: Reta final para a Campanha Eu sem Camisa de Bart Santos.




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Bart Santos no Instituto de Cirurgia do Lago - Brasília-DF



Fora do Armário: Qual era sua previsão de custo inicial e quanto custou no final das contas?

Bart Santos: Inicialmente, a previsão era de 14 mil reais e no final das contas saiu por 7 mil e 800 reais. Um pouco mais do que isso, na verdade, porque tive que incluir a cinta compressora que tem que ser usada depois da cirurgia.  A redução no custo foi graças à descoberta do Dr. Erick Campaneira, muito recomendado pela comunidade trans. Ele cobra um valor bem abaixo do mercado. Geralmente vai de 12 mil, 13 mil até 20 mil (como foi o caso do Tammy, mas que pode ter incluído mais algum procedimento, tipo lipoaspiração).

Fora do Armário: A Vakinha online foi fundamental, mas não foi a única fonte de recurso?

Bart SantosA Vakkinha online foi fundamental, porque foi a primeira ideia, mas ela não foi a única fonte, porque no decorrer do tempo, outras ideias foram surgindo. Ideias de amigos. Ideias de Sergio Viula e outros amigos, até mesmo com postagens que eu fui fazendo e vídeos que você foi fazendo, Sergio. Em todas as chamadas no seu Facebook, você colocava o link para a Vakkinha. Em seguida, foi o Enilson, que teve a ideia de fazer um leilão virtual com todos os CDs e DVDs vintage que ele tinha. E isso deu um baita impulso para a campanha, porque ele tinha um material muito bom que chamou a atenção de muita gente. E aí, foram se envolvendo pessoas conhecidas dele e outras pessoas desconhecidas. Chegamos a arrecadar quase 5 mil reais só nesse leilão que o Enilson fez. Além disso, vendi vários objetos pessoais, inclusive eletrodomésticos para compor o valor necessário. Foi um esforço muito grande. E eu não teria conseguido se Kakau, minha esposa, não concordasse com tudo isso. Então, basicamente, foram essas ideias que foram lançadas e que deram muito certo e fizeram a campanha decolar, dando o resultado que deu agora.

Fora do Armário: Quanto vc conseguiu arrecadar nela e quais foram os outros meios?

Bart SantosBem, na Vakkinha, eu consegui arrecadar mais de 3 mil reais, quase 4 mil. Foram 3.770 reais para ser mais exato. E todo o resto foi adquirido através do Enilson que tirou do próprio bolso dele, além do que já tínhamos conseguido através do leilão que ele fez. Ele também foi a uma reunião casual de amigos, alguma atividade de caridade para outra causa, e o Enilson conseguiu arrecadar ainda 500 reais para a campanha EU SEM CAMISA. Teve também uma professora minha que me doou. E foi isso: a maioria das pessoas que doaram foi de pessoas que nem me conheciam mesmo. Pessoas do Facebook. Pessoas do círculo de amigos do Sergio Viula. E acabou sendo algo bem abrangente mesmo.

Fora do Armário: Como vc conheceu o cirurgião?

Bart SantosO Dr. Carpaneda, eu conheci através dos grupos, das comunidades, porque nesses grupos, existem muitas fotos de resultados de operações como essa que eu fiz. E as pessoas falam do médico, do trabalho que eles fizeram, como foi, e a gente pode ver o resultado na pessoa. E foi através disso que eu conheci o Dr. Carpaneda. E, além de ser o preço mais em conta, o resultado que ele obtinha era realmente melhor. E por ter uma clientela muito grande, ele consegue fazer um preço mais barato. Em Brasília, conversando comigo antes da cirurgia, ele disse que fazia muita operação de mastectomia. No meu caso, a operação se chama mamoplastia masculinizadora. Pra minha sorte, o mais em conta também era o melhor. Pelo que eu entendi, a cirurgia levou umas três horas. Eu cheguei ao hospital às 8 horas da manhã de terça, 02/08/16, e saí às 8 horas do dia seguinte. Permaneci 24 horas apenas no hospital. Tive que assinar papéis, tirar fotos, vestir a roupa do hospital, fazer os preparativos, ser avaliado pelo médico. Pude conversar sobre todas dúvidas que eu ainda pudesse ter. Depois, voltei para o quarto, tomei anestesia e dormi profundamente. Só acordei depois da cirurgia e meio tonto por causa da anestesia. A primeira vez que eu tentei levantar, o Enilson me ajudou, mas na segunda vez, eu já estava totalmente refeito e pude me movimentar sozinho.

Fora do Armário: Sentiu dor no dia seguinte?

Bart SantosEu pensei que fosse sentir mais dor, mas não senti muitas dores como pensei que fosse sentir. O que senti foi mais uma pressão no peitoral. Agora, quando mexo os braços, sinto uma dorzinha, mas nada demais. Tem remédio para aliviar. Está tudo bem.

Fora do Armário: Qual foi a sensação de viajar de avião pela primeira vez e com essa expectativa na cabeça? Havia mais medo do avião ou do cirurgião?

Bart SantosApesar de ser a primeira vez, eu não senti medo. Achei bonito, achei legal. A sensação de que eu estava parado me deixava meio ansioso, mas o voo foi rápido. Foram duas horas e pouco do Pará até Brasília. Eu senti um pouco de frio quando cheguei a Brasília por falta de costume com o frio.
  
Fora do Armário: Qual foi a sensação de ver o peito reto depois da cirurgia?

Bart SantosA sensação foi única! A sensação de ver o peito reto. O médico tirou a cinta, eu olhei e pensei: CARACA! Está tudo sequinho, tudo direitinho. E o corte como eu tinha pedido a ele. Ficou simétrico. Claro que ainda está com aspecto inchado, mas adorei a estética. Fiquei parado diante do espelho só de toalha e pensei: Agora, sim, estou com corpo de homem. Tudo certo. Meus ombros largos e agora o peito de homem compondo perfeitamente. Agora, eu me vejo fazendo coisas simples, mas que fazem toda a diferença para mim: andar sem camisa, por exemplo. Eu olho no espelho agora e vejo só a camisa, assim... reta - tudo o que eu sempre quis. Então, para mim, no meu caso, é a melhor sensação que eu já tive na vida: poder olhar para mim mesmo e ver um homem completo.

Bart Santos operado no Instituto de Cirurgia do Lago - Brasília-DF


Fora do Armário: Quais são os procedimentos agora no pós-cirúrgico em casa?

Bart SantosOs procedimentos pós-cirúrgicos mais básicos são: não fazer esforço agora, daqui a um mês posso voltar para a academia, na semana seguinte à operação, posso ir para a faculdade. Com relação à medicamentos, o médico disse que será necessário apenas analgésico (remédio para dor), nada mais.

Fora do Armário: Como sua esposa se sentiu ao ver vc depois da cirurgia?

Bart SantosQuando Kakau me viu, ela ficou sem palavras. Ela ficou de boca aberta mesmo: "Caramba! Não acredito no que estou vendo." Ela ficou super feliz em me ver feliz. Até mesmo a nossa vida de casal vai melhor por causa disso. É um grande passo na minha vida e na nossa vida de casal. Ela ficou admirada e me chamando de lindo. Ela toda apaixonada. E eu todo feliz - meu amor estava ali comigo, do meu lado, e eu não tinha como estar mais feliz.


Bart e Kakau depois da operação. Enilson, que tanto contribuiu com a realização desse sonho é esse lindo à direita.


Fora do Armário: Quais são os sonhos e projetos daqui para frente?

Bart SantosBom, meus sonhos e projetos daqui para frente é complementar o que eu já fiz: mudar meu nome, porque eu tenho uma carteira que me permite usar o nome social, mas eu quero mudar na identidade do registro civil mesmo. Esse vai ser meu próximo passo. Eu já utilizo Bart na faculdade e onde quer que eu vá, tipo estágios, etc. Eu já uso o nome que é meu na carteira social, mas eu quero na identidade, até mesmo para casamento e tudo. Eu também quero dar continuidade à minha carreira acadêmica. Eu vou começar agora a atuar na iniciação científica como estudante pesquisador. Então, são dois sonhos que se realizam quase ao mesmo tempo: o da operação e o acadêmico.

Fora do Armário: O que vc diria às pessoas que colaboraram?

Bart SantosPrimeiramente, eu diria obrigado, porque a maioria não me conhece pessoalmente. A maioria conheceu um pouquinho da minha história nos seus vídeos e nas postagens aqui do blog. Nem todo mundo doa, mas as pessoas que doaram eu vejo como amigos de fato, porque elas demonstraram solidariedade. São pessoas que se identificam, se solidarizam. Tipo, Enilson, que diz que adora ver gente feliz. E assim como o Sergio Viula, ele não me conheci pessoalmente. Eu digo obrigado, sem dúvida alguma, porque todas essas pessoas fizeram parte da realização de um grande sonho na minha vida.


Fora do Armário: O que diria à comunidade trans, especialmente aos homens trans?

Bart SantosO que eu tenho a dizer às pessoas trans é que não é fácil conseguir algo dessa magnitude. Do mesmo modo que eu recebi muito apoio, eu também recebi muitos puxões de orelha, principalmente das pessoas trans. Então, não é algo fácil. Você tem que ter consciência de que pode conseguir ou não, porque, no meu caso, eu tive que me expor, colocar cada centavo que eu fui arrecadando diante do público que foi doando. O Enilson, além de meu principal doador, se tornou o administrador desse caixa. No início, eu ouvi de muita gente que podia ser mentira, um golpe, mas eu fui em frente. Então, o importante é saber levar, saber com quem você está lidando. Desistir jamais. Pode ser rápido? Pode. Pode levar mais tempo do que o meu? Pode. O importante é nunca desistir.

Eu não tenho o nome de todas as pessoas, mas eu criei um grupo para tentar colocar todo mundo que doou lá, mas muitas preferiram não se identificar, mesmo entrando em contato por e-mail com os doadores da Vakkinha. Mando meu muito obrigado a todas elas.

Acho muito importante destacar a confiança que o Enilson depositou em mim, porque ele nos deixou hospedados na casa dele. Muitas vezes, ele foi trabalhar, enquanto Kakau e eu ficamos desfrutando do conforto da casa dele. Isso poupou muito dinheiro de hospedagem. Se não fosse isso, talvez ainda não tivesse acontecido a operação. 

Fora do Armário: Quando a entrevista estava pronta para a publicação, o Bart me pediu que me não deixasse de incluir o seguinte trecho, escrito por ele mesmo, apesar de operado. Toda a entrevista foi feita por meio de gravação de voz, mas esse trecho, ele mesmo o escreveu e enviou como anexo. Eu, Sergio Viula, administrador do blog fico muito feliz em receber esse carinho e garanto que é recíproco. Não sei o que aconteceu na configuração do universo para que nos encontrássemos. Não sei por que a sensibilização do meu coração foi tão imediata e intensa

Sinto muito, porém, que muitas pessoas que eu conheço, inclusive militantes de carreira, que têm muito mais recursos do que eu, não tenham tirado um centavo do bolso e nem se dado o trabalho de compartilhar o material a campanha. Claro que nunca podemos fazer tudo por todos, mas o valor mínimo de contribuição era de 5 reais. Dificilmente alguém não teria cinco reais para doar. 

Até foto fazendo piada com isso para mobilizar os indiferentes foi publicada na timeline desse blogueiro: FOTO

Também não vi tanta mobilização de pessoas trans. Muitas vezes, ouço pessoas trans dizerem que gays e lésbicas são transfóbicos. Talvez, muitos o sejam o tempo todo ou todos o sejam em alguns momentos, mas suspeito que muitos gays e lésbicas sejam injustiçados com esse rótulo. Por que será que Bart foi até mesmo hostilizado por algumas delas ou alguns deles? Ele não comentou isso na entrevista, mas eu o sei por acompanhar a luta dele de perto. Pessoas trans sabem, por experiência própria, o que é lutar para fazer essas modificações corporais e quantas dificuldades se apresentam. A justificativa de algumas talvez seja a de que estão lutando por suas próprias causas, mas essa desculpa, por mais que tenha bases verdadeiras, não basta, porque eu também poderia estar lutando só pelas minhas causas pessoais e meus amigos gays (a maioria dos contribuintes) e minhas amigas lésbicas (também contribuintes) e meus amigos e amigas heterossexuais (também contribuintes) poderiam ter dito a mesma coisa: não é problema meu e eu já tenho os meus para resolver. Sei de amigo meu (gay) que está desempregado e ajudou. E não foi só um caso. 

Então, tudo o que eu tenho a dizer diante do que Bart acaba de me pedir para anexar a entrevista é que não sei como eu vim parar no meio dessa campanha e nem por que me engajei a esse ponto. Só tenho um palpite para explicar isso e ele se chama solidariedade, ou seja, aquele tipo de amor que age sobre a dor do outro como se fosse sua, mesmo que vocês jamais tenham se encontrado pessoalmente. 


Bart Santos logo depois de operado, ainda com curativos. Excelente resultado!


Bart Santos (o anexo enviado por escrito)Primeiramente deixa eu te agradecer, porque foi exatamente assim que tudo começou e é assim que hoje tudo termina. Você começou com uma entrevista, depois um vídeo e me deixou visível para todos. Hoje, graças a você eu recebi a confiança e as doações necessárias para alcançar meu objetivo.

Sergio, na boa: EU TE AMO!!!!!

Um dia vou falar isso pessoalmente, vou beijar você pessoalmente assim como fiz com o Enilson, quando o vi de perto, mas por enquanto, quero que você saiba que tudo o que você fez até aqui salvou a vida de alguém. Meu muito obrigado. E por favor, coloque esse meu agradecimento na entrevista.

Beijos e estou aqui para o que você precisar.

Fora do Armário: Obrigado, Bart. E fica aqui meu encorajamento a todas as pessoas trans: Não desistam dos seus sonhos, não se isolem, criem pontes entre vocês mesmas e mesmos e a comunidade transgênero de um modo geral e toda a comunidade LGB, na medida do possível. Não existem heróis. Eu não sou herói. Ninguém é herói porque apoia o próximo em suas lutas. Basta ser HUMANO - aquele humano que não se esgota apenas na ideia de humanidade, que nos é comum a todos, mas de humanismo que é um modo de pensar, sentir e viver.

Beijo, Bart Santos. Eu e Andre te amamos e amamos Kakau. Ainda vamos trocar abraços e beijos pessoalmente.



CONTRIBUINTES IDENTIFICADOS. OUTROS NÃO SE IDENTIFICARAM. A TODOS, OBRIGADO. ESTES SÃO OS QUE ESTÃO NO GRUPO DO FACEBOOK:




FORA DO ARMÁRIO Dandara Pinheiro.
FORA DO ARMÁRIO Carlos Alberto.
FORA DO ARMÁRIO Sulane Bruno.
FORA DO ARMÁRIO Emerson Mendes.
FORA DO ARMÁRIO Danilo Carreiro.
FORA DO ARMÁRIO Ana Patrícia Ferreira.
FORA DO ARMÁRIO Antonio DPaula.
FORA DO ARMÁRIO Ryanne Botelho.

E também Ariano Torto (Hassan) via Whatsapp e conta bancária.


Comentários

  1. Apesar de não conhece-lo pessoalmente e não poder ajudar financeiramente, fico muito feliz em saber deu tudo certo. O sorriso do Bart é um simbolo de esperança para muitos. Seja sempre feliz Bart. abraços.

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  2. Obrigado, Vander. Tá valendo, queridão.

    Abração,
    Sergio Viula

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