Balanço da primeira semana dos Jogos do Rio 2016: A Olimpíada com mais pessoas LGBT se destacando

Por Sergio Viula
Com material de várias fontes (ver créditos)


Mascotes oficiais dos Jogos do Rio 2016
O coração com as cores do arco-íris foi por minha conta. ^^



São 11 mil atletas participando dos Jogos Olímpicos, mas os Jogos do Rio 2016 já são responsáveis pela quebra de um recorde inusitado: o número de atletas olímpicos declaradamente gays, lésbicas ou bissexuais é o maior na história das Olimpíadas.

É o que afirma o site esportivo americano Outsports, voltado à comunidade LGBT, em levantamento feito em parceria com o historiador Tony Scupham-Bilton.

O veículo lista 49 atletas da Rio-2016 que já "saíram do armário", além de três treinadores. Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, eram 23 segundo o site. (Folha de São Paulo)

O número de atletas assumidamente LGBTQ – 43 no total – é o maior da história. Um deles, o britânico Tom Daley ganhou a medalha de bronze no salto sincronizado na segunda-feira. A judoca Rafaela Silva, o primeiro ouro do Brasil, também é lésbica. E, pela primeira vez na história, duas atletas estão casadas: as também britânicas Kate Richardson-Walsh e Helen Richardson-Walsh. Na noite da cerimônia de abertura, cinco dos ciclistas que puxavam as delegações dos países eram transexuais, incluindo a famosa modelo Lea T, que abriu caminho para os atletas brasileiros. (El País)

Abaixo, 13 atletas gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros que se destacaram. Existem outros 30 participando dos Jogos.


1. O inglês Tom Daley (salto ornamental) - gay.


2. A brasileira Mayssa Pessoa (handebol) - bissexual.




3. A inglesa Nicola Adams (boxe) - bissexual.




4. O britânico Tom Bosworth (marcha atlética) - gay.




5. O brasileiro Ian Matos (salto ornamental) - gay.




6. A holandesa Maartje Paumen (hóquei de campo) - lésbica.




7. O holandês Edward Gal (hipismo) - gay.




8. A americana Seimone Augustus (basquete) - lésbica.




9. O finlandês Ari-Pekka Liukkonen (natação) - gay.




10. A australiana Michelle Heyman (futebol) - lésbica.




11. A americana Jillion Potter (rúgbi) - lésbica.




12. O americano Chris Mosier (triatlo) - transgênero.




13. A brasileira Rafaela Silva (judô) - lésbica.





Mais detalhes sobre esses atletas no Huffington.



Outra marca dos jogos do Rio é a participação do casal britânico Helen Richardson-Walsh e Kate Richardson-Walsh, no hóquei sobre grama. Elas são o primeiro casal homoafetivo, que se casou oficialmente, e vai participar da Olimpíada em uma mesma seleção.




A americana Elena Delle Donne saiu do armário há pouco.


Dois dias antes dos Jogos Olímpicos começarem, a jogadora de basquete dos Estados Unidos Elena Delle Donne disse publicamente pela primeira vez que era homossexual. Depois de se assumir, ela conta ter recebido muito apoio das companheiras de seleção.


"É incrível que tantas mulheres na nossa liga sintam-se confortáveis em se assumir e falar sobre assuntos que poderiam ser difíceis", disse a jogadora, que está otimista não apenas com o desempenho do basquete feminino dos Estados Unidos, mas também com futuro: "Eu espero e sinto que nossa sociedade está caminhando na direção certa".

A foto  do beijo de Isadora Cerullo (de casaco) e da namorada Marjorie Enya rodou o mundo 


Simbólico

O casal tem dois anos de namoro e começou a relação depois que Isadora entrou para a seleção de rugby. Marjorie, de 28 anos, era gerente no time, cargo que também ocupa no Comitê Rio 2016. Ela cuida de serviços do esporte nas arenas do rugby, do pentatlo moderno e do futebol de sete paralímpico. Tão perto da namorada em todos os dias de competição, Marjorie não desperdiçou a oportunidade de fazer um pedido marcante.

"Não foi uma coisa que eu planejei meses atrás, mas, para nossa história como casal, os Jogos Olímpicos são muito significativos. É simbólico no nosso relacionamento. A gente tinha que ter feito, porque é um pedido de casamento e uma forma de dizer que tenho muito orgulho de ser quem sou e muito orgulho de ela ser quem é", conta Marjorie, que fez um laço amarelo no dedo da namorada antes de dar um longo e apaixonado beijo diante das câmeras.

Com a repercussão do vídeo, ela espera que outras lésbicas, especialmente as mais jovens, vejam que é possível ser feliz sendo elas mesmas, apesar do preconceito. "A gente existe, e por mais que o mundo não seja o lugar ideal e tenha muita coisa ainda por fazer, nunca fui tão feliz na minha vida".

Mais informações sobre esses atletas na EBC.


Os atletas brasileiros que são LGBT 
(MDeMulher):


Rafaela Silva - judô

INSTAGRAM/RAFAELASILVAA

Rafaela e a namorada Thamara Cezar. As duas estão juntas há três anos.

Larissa França - vôlei de praia

FACEBOOK/LILI MAESTRINI FRANÇA

Desde 2013, Larissa (à direita na foto) é casada com Liliane Maestrini, que também é jogadora de vôlei de praia. 

Isadora Cerullo - rugby

ALEXANDER HASSENSTEIN/STAFF/GETTY IMAGES
Na última segunda-feira (8), Izzy foi pedida em casamento pela namorada Marjorie Enya, que é voluntária nos Jogos. A atleta foi pega de surpresa, ao final da cerimônia de premiação do rugby feminino. 

Mayssa Pessoa - handball

FACEBOOK/MAYSSA PESSOA
A goleira da nossa seleção feminina de handball (à esquerda na foto) é bissexual e namora com a modelo canadense Nikki Shumaker.

Julia Vasconcelos - taekwondo

INSTAGRAM/JULIATKD
A lutadora, que compete na categoria até 57kg, é assumidamente lésbica.

Ian Matos - saltos ornamentais

FACEBOOK/IAN MATOS
Ian assumiu-se publicamente em 2014. "Nós aprendemos a ser racistas, homofóbicos e machistas. Dá para desaprender também, as pessoas vão quebrando preconceitos com o tempo", disse ele em entrevista ao Globo Esporte. 



O MASCOTE GAY





O mascote gay, criado no final do ano passado, virou atração na Olimpíada. Ele percorre as principais ruas do centro da cidade olímpica em um fusca “conversível” ano 1982, com uma decoração diferente, que chama a atenção de quem passa, feita exclusiva para os Jogos. (Estadão)




O BEIJO GAY SOB A LUZ DO FOGO OLÍMPICO (Ipanema)




O beijo foi dado na sexta-feira, dia 05 de agosto, quando a tocha passava pelo bairro de Ipanema e entrou para a história das Olimpíadas como o primeiro beijo entre homens já dado na passagem da tocha pela cidade anfitriã.

Pelo menos três transexuais carregaram a tocha olímpica: a primeira foi Bianca Lins, professora de português, o outro foi Jordhan Lessa, guarda municipal da cidade do Rio de Janeiro e a terceira foi a Laerte Coutinho, cartunista.

Bianca Lins, transexual.

Jordhan Lessa, transexual.

Laerte Coutinho, transexual




HISTÓRIA LGBT NAS OLÍMPIADAS


Historicamente, há uma evolução. Tony Scupham-Bilton é um historiador especialmente dedicado à cultura LGBT e mantém o blog “Queer Story Files”. No último mês, ele divulgou um levantamento apontando que só 257 atletas, na história centenária das Olimpíadas, se assumiram gays. O Rio, portanto, recebe sozinho quase 20% desse montante, um número recorde na comparação com qualquer outra edição. 

O aumento dificilmente pode ser creditado ao país-sede. Embora tenha uma legislação avançada em termos de direitos LGBT, o Brasil não é considerado um dos lugares mais seguros para homossexuais. Primeira e mais importante ONG da área no país, o Grupo Gay da Bahia dá conta de que um membro da comunidade LGBT é agredido no país a cada 28 horas e que há um aumento da homofobia nos últimos anos.

“Sempre há uma reação quando minorias vão atrás de seus direitos. Mais visibilidade pode trazer mais ataques já que as pessoas preferem reagir à moda antiga, mas com a visibilidade vem a força. Rafaela Silva ganhou o primeiro ouro do Brasil e tem uma namorada. Esse é um posicionamento muito forte”, disse Buzinski. (UOL)




PRIDE HOUSE (Casa do Orgulho [LGBT])


ASSISTA O VÍDEO: http://tv.uol/14wFU


Desde o início das Olimpíadas, o público LGBT e seus simpatizantes tem uma casa oficial para recebê-los no Rio de Janeiro. É a Pride House Rio, iniciativa já promovida em diversos locais ao redor do mundo e que, por conta dos jogos, agora aportou na cidade.



Até o dia 20 de agosto, a Pride House Rio oferece uma extensa agenda de atividades esportivas, lúdicas, palestras, talk-shows, feiras de artesanato e intervenções culturais. Apesar da sua importância nestes tempos de luta pelos direitos LGBT, a casa não conseguiu nenhuma ajuda oficial para sua organização.

"Tivemos vários contatos com o comitê organizador dos jogos. Eles tentaram incluir de alguma forma a Pride House dentro da programação oficial, mas as negociações não avançaram principalmente pelo fato de não terem recursos financeiros para ajudar", diz Érico dos Santos, CEO da Pride House Rio e presidente do Comitê Desportivo LGBT Brasil. 

A Pride House Rio só se tornou viável com a união e apoio de mais de dez entidades culturais e de promoção da diversidade, e está sediada na Casa Nem, polo de atividades culturais gerida por travestis e transexuais na Lapa.  (UOL)


UM JORNALISTA PISOU NA BOLA

A prática do 'outing' (tirar alguém do armário à força) pode ser muito eficaz e bem-vinda quando se trata de expor inimigos da comunidade LGBT que secretamente se relacionam com pessoas do mesmo sexo, mas publicamente se opõem a seus direitos. Nesse caso, é mesmo uma estratégia de militância e exposição da hipocrisia que alimenta as estruturas segregacionistas e até mesmo assassinas contra lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais, assexuais e queer nas sociedades em que ocorrem.

Porém, é uma coisa totalmente diferente expor pessoas LGBT que não assumem publicamente seus relacionamentos, porque vivem em países onde a homossexualidade e/ou a transexualidade continuam criminalizadas, ou seja, você pode ser preso e até morto só por ser lésbica, gay, bissexual, transgênero, intersexual, assexual ou queer.

Até esse ano (2016), 73 países ainda criminalizam a a homossexualidade. E destes, 13 aplicam penas de morte. (G1-Globo)

Por isso, a ação do jornalista britânico Nico Hines no site The Daily Beast foi tão reprovável e tão reprovada de fato. Ele colocou a vida dos atletas que ele 'tirou do armário' em risco não só de morte, mas de rejeição pelas famílias - o que pode implicar em muitas dores. O mundo não é todo inclusivo como muitos países da Europa. E nenhum desses atletas era um homofóbico ou transfóbico atacando a comunidade LGBT, enquanto transava clandestinamente com outras pessoas do mesmo sexo. São coisas bem diferentes.

Mesmo no Brasil, onde a homossexualidade não é crime e tem alguns direitos já garantidos, a matança continua. Até o momento desse post, 191 LGBTs haviam sido assassinados só em 2016. Por causa da gravidade da cena e do desconhecimento sobre isso internacionalmente, criei o blog "No Tears for Queers" (em inglês) para dar visibilidade aos horrendos crimes contra pessoas LGBT no Brasil: http://goqueer.blogspot.com.br/

Esse foi um balanço apenas do que aconteceu até o final da primeira semana dos jogos. Vem mais por aí.

Parabéns a todos e todas que fizeram a purpurina brilhar até mais que o ouro olímpico! (Sergio Viula)

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