Combatendo a transfobia nossa de cada dia: um caso em sala de aula

Para falar de gênero, inclusive para combater a transfobia, não se precisa de um palanque glamouroso. Basta inteligência, coragem e boa vontade.



Por Sergio Viula

Adolescentes podem ser seres adoráveis (ou não). Felizmente, eu tenho sido muito sortudo no que diz respeito ao convívio com essa galerinha em sala de aula. Meus alunos são uns fofinhos e minhas alunas são umas fofinhas. Porém, por mais que eles procurem se desvincular do rótulo de preconceituosos, acabam re
produzindo preconceitos quando menos esperam... E quem de nós não? De vez em quando, todo mundo dá umas escorregadas, inclusive eu. Não adianta tentar justificar essas 'derrapadas'. O negócio é assumir o erro e corrigi-lo. 

Um caso ocorrido essa semana

Estávamos aprendendo a responder perguntas geralmente feitas por oficiais de imigração no aeroporto. Esse tipo de conhecimento é útil quando viajam para o exterior. E muitos deles já viajaram ou ainda viajarão no futuro. Então, o interesse pelo tema é geral. Uma das coisas que eles têm que ser capazes de fazer ao final da aula é perguntar - como se fossem agentes da imigração - e responder as perguntas como se fossem turistas ou imigrantes. Nenhum problema até aí, exceto por causa de um item ou outro de vocabulário não muito transparente.

Depois de tudo entendido, decidi rever as perguntas a partir dos itens no formulário de imigração, ou seja, de cada palavra-chave no cartão, tais como "name", "age", "nationality", etc. Havia um espaço para o seguinte item:

"Sex - (  ) Male  (  ) Female"

Ao passar por esse item, eu disse que não era preciso perguntar isso e por motivos óbvios. O agente apenas marca a opção mais apropriada de acordo com o que ele percebe da pessoa diante dele. 

Foi o suficiente para que se desencadeasse um falatório em português (!!!). Não foi a primeira vez. As piadinhas feitas por alguns meninos e uma menina foram feitas em forma de perguntas, tais como: 

"Óbvio? Sei, não, hein, professor?!" 
"Será que é mesmo o que parece?"
"E se não for...?"

Parei tudo imediatamente, mandei meu inglês para a LONDON BRIDGE QUE CAIU (kkkkkk) e disse o seguinte: 

- Ah, não! Podem parar! Será possível que toda vez que a gente fizer um exercício desse tipo vai rolar esse tipo de brincadeira. Gente, por favor, vamos parar com essa transfobia. Sim, porque esse tipo de piadinha recorrente só reflete o que vocês pensam das pessoas transgênero. 

Vocês querem me dizer que se eu fosse um agente de imigração e uma mulher se apresentasse diante de mim, seria correto perguntar a ela: "Qual é o seu sexo?" Que diferença isso faria? Ele provavelmente me diria "Feminino, é claro. O senhor é cego?" O que vocês acham que eu faria? Acham que eu mandaria que ela tirasse a roupa para confirmar alguma coisa? E vocês acham mesmo que faz diferença se alguém tem um órgão ou outro quando se trata de reconhecer essa pessoa como sendo do gênero masculino ou feminino? 

E se fosse diferente? Imaginem que um homem se apresentasse, seria certo perguntar qual é o sexo dele? Por favor, minha gente, vamos respeitar a intimidade e a dignidade das pessoas. 

Agora, se alguém tiver uma perfomance de gênero (o modo como se vestem ou se comportam) que não seja facilmente identificada como masculina ou feminina, é simples. Façam a seguinte pergunta: "Qual é o seu nome?" E não me refiro somente ao nome na identidade, que ainda pode não ter sido alterado. Eu me refiro ao nome com o qual a pessoa se identifica no dia-a-dia. Se for feminino, trate a pessoa no feminino. Se for masculino, trate a pessoa no masculino. Agora, se o nome tiver gênero neutro ou unissex, pergunte como a pessoa prefere ser tratada - no masculino ou no feminino? Mas faça isso num tom gentil que demonstre verdadeiro interesse em agir corretamente.

Vocês entenderam?

Eles já tinham parado de fazer zoeira havia muito tempo e agora estavam prestando a mais completa atenção, e disseram quase unanimemente:

"Yes."

Eu respondi.

"Great! So, let's keep on with the dialogue at the immigration officer's desk."

E eles seguiram com o diálogo - um aluno perguntando e o outro respondendo. Depois, inverteram os papeis e repetiram a atividade. Foi um sucesso! Mas nada foi melhor do que esse momento de "DES-envenenando" que esses adolescentes tiveram a oportunidade de vivenciar a respeito do que é ser humano em todos os gêneros. E eles que já são mais fofos do que a média serão maiores e melhores ainda por causa disso. ^^




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