Carta aberta à comunidade queer (e ao mundo hétero no qual vivemos) - pelos editores do Queer Voices

Publicado originalmente em inglês no Queer Voices.
Traduzido por Sergio Viula





Carta aberta à comunidade queer 
(e ao mundo hétero no qual vivemos):




Essa carta é endereçada a todas as pessoas 'queer' por aí que estão com raiva, chocadas, amedrontadas, deprimidas, nervosas, ansiosas, apavoradas, e em lágrimas; ela é endereçada àqueles que se encontram incapazes de funcionar normalmente à luz dos eventos recentes; ela é para amigos, familiares, e outros queridos afetados [por tudo isso]; ela é para as 49 vítimas do massacre em Orlando assim como os muitos que foram mantidos reféns, feridos, traumatizados e/ou hospitalizados.


Essa carta é escrita em primeiro lugar para a comunidade 'queer', mas pessoas heterossexuais cisgêneras deveriam lê-la também, pois se esse acontecimento nos ensinou alguma coisa, foi que o mundo heterossexual tem muito a aprender. Para todas as pessoas 'não-queer' por aí: esse massacre não é sobre vocês. Não se apropriem dessa tragédia. Não a usem como meios. Não aleguem propriedade sobre ela. Não demonstrem apoio superficial, mas eduquem-se e envolvam-se -- nesse momento, seu silêncio fala alto.


Estamos entristecidos e furiosos (mas tristes, não chocados) pelo massacre homofóbico que ocorreu em Orlando no final de semana passado. Como se o acontecimento trágico na Pulse não fosse apavorante o suficiente, muito da cobertura da mídia só tornou a situação pior. Inicialmente, foi noticiado apenas como um tiroteio numa boate. Depois, foi noticiado que esse era o maior tiroteio em massa na história dos Estados Unidos. A cobertura inicial enfatizou a religião do atirador, seu lugar numa lista de vigilância contra terroristas anteriormente, e sua última declaração de lealdade a uma organização terrorista. Logo, tudo passou a ser sobre o Islã; virou um ato de terrorismo; virou um crime de ódio. Depois, o foco mudou para o controle de armas. com pessoas criticando o governo por recusar-se a limitar o acesso às armas, especialmente à luz do espantoso número de mortos em tiroteios em massa só nesse ano.


Mas na realidade, não é sobre religião, não é sobre armas, não é sobre boates. É sobre ser 'queer'. É sobre ódio. O tiroteio foi mais do que tudo um crime de ódio, mas não contra o álcool, ou contra os americanos, ou contra o cristianismo; foi um crime de ódio contra pessoas 'queer', pessoas 'queer' e trans de cor, especialmente. A Pulse é uma boate gay que estava promovendo uma noite latina com um elenco de mulheres trans agendadas para se apresentarem. A mídia principal está escolhendo ignorar muitos fatos pertinentes. Eles estão embraquecendo, apagando a realidade 'queer' e trans dos acontecimentos, e escondendo a natureza do ódio. Divulgadores de notícias e políticos não estão contando a história toda; em vez disso, eles estão usando a tragédia como um acontecimento político, como um trampolim para endossos, legislação e campanhas eleitorais.


Nada disso é sobre eles. Tudo isso é sobre as vítimas -- e elas não podem ser faladas no abstrato, ou ter a maior parte de suas identidades e vidas ignorada. Precisamos fazer vigílias por elas; precisamos chorar por elas; precisamos lembrá-las; precisamos dizer seus nomes:

  • Stanley Almodovar III, 23 anos de idade 
  • Amanda Alvear, 25 anos de idade 
  • Oscar A Aracena-Montero, 26 anos de idade 
  • Rodolfo Ayala-Ayala, 33 anos de idade 
  • Antonio Davon Brown, 29 anos de idade 
  • Darryl Roman Burt II, 29 anos de idade 
  • Angel L. Candelario-Padro, 28 anos de idade 
  • Juan Chevez-Martinez, 25 anos de idade 
  • Luis Daniel Conde, 39 anos de idade 
  • Cory James Connell, 21 anos de idade 
  • Tevin Eugene Crosby, 25 anos de idade 
  • Deonka Deidra Drayton, 32 anos de idade 
  • Simon Adrian Carrillo Fernandez, 31 anos de idade 
  • Leroy Valentin Fernandez, 25 anos de idade 
  • Mercedez Marisol Flores, 26 anos de idade 
  • Peter O. Gonzalez-Cruz, 22 anos de idade 
  • Juan Ramon Guerrero, 22 anos de idade 
  • Paul Terrell Henry, 41 anos de idade 
  • Frank Hernandez, 27 anos de idade 
  • Miguel Angel Honorato, 30 anos de idade 
  • Javier Jorge-Reyes, 40 anos de idade 
  • Jason Benjamin Josaphat, 19 anos de idade 
  • Eddie Jamoldroy Justice, 30 anos de idade 
  • Anthony Luis Laureanodisla, 25 anos de idade 
  • Christopher Andrew Leinonen, 32 anos de idade 
  • Alejandro Barrios Martinez, 21 anos de idade 
  • Brenda Lee Marquez McCool, 49 anos de idade 
  • Gilberto Ramon Silva Menendez, 25 anos de idade 
  • Kimberly Morris, 37 anos de idade 
  • Akyra Monet Murray, 18 anos de idade 
  • Luis Omar Ocasio-Capo, 20 anos de idade 
  • Geraldo A. Ortiz-Jimenez, 25 anos de idade 
  • Eric Ivan Ortiz-Rivera, 36 anos de idade 
  • Joel Rayon Paniagua, 32 anos de idade 
  • Jean Carlos Mendez Perez, 35 anos de idade 
  • Enrique L. Rios, Jr., 25 anos de idade 
  • Jean C. Nives Rodriguez, 27 anos de idade 
  • Xavier Emmanuel Serrano Rosado, 35 anos de idade 
  • Christopher Joseph Sanfeliz, 24 anos de idade 
  • Yilmary Rodriguez Solivan, 24 anos de idade 
  • Edward Sotomayor Jr., 34 anos de idade 
  • Shane Evan Tomlinson, 33 anos de idade 
  • Martin Benitez Torres, 33 anos de idade 
  • Jonathan Antonio Camuy Vega, 24 anos de idade 
  • Juan P. Rivera Velazquez, 37 anos de idade 
  • Luis S. Vielma, 22 anos de idade 
  • Franky Jimmy Dejesus Velazquez, 50 anos de idade 
  • Luis Daniel Wilson-Leon, 37 anos de idade 
  • Jerald Arthur Wright, 31 anos de idade 

Nós como uma comunidade precisamos ajudar a divulgar a verdadeira natureza do crime, sobre as vidas das vítimas, e sobre os efeitos que isso terá sobre toda a comunidade. Precisamos fazer o mundo entender que isso foi um ataque contra a nossa comunidade -- sobre uma comunidade que é repetidamente atacada, ameaçada, abusada, presa, estuprada pela maioria odiadora. Temos enfrentado -- e continuaremos a enfrentar -- mais ódio, intolerância, e atos de violência do que nossos companheiros cisgêneros heterossexuais. Não podemos esquecer as lições que nos foram ensinadas pelas bombas caseiras em Atlanta, Londres e outros lugares, a cruel tortura de Matthew Shepard, ou a severa realidade das repetidas blitz em Stonewall -- mais importante ainda, não podemos deixar o mundo se esquecer de toda a violência que já enfrentamos e as batalhas que lutamos.


Só porque uma legislação foi aprovada, não somos iguais; nós e nossos grupos de ativismo ainda temos muito pelo que lutar. Nós nunca fomos iguais, e leis abstratas não podem mudar o fato de que a sociedade nos trata como inferiores. Nós precismos informar ao mundo que não nos sentimos seguros; que nossos lares, nossos locais de trabalho, nossas escolas, nossas boates e nossos "lugares seguros" não nos oferecem proteção.


Não é que não nos sintamos "mais" seguros, pois a violência contra as pessoas 'queer' não é nada nova; nós todos temos sido assediados, atacados, sofrido bullying, ou sido ameaçados de alguma maneira. Só porque espancamentos contra pessoas 'queer', discriminação no trabalho, prisões por causa do uso de banheiros, e ataques sexuais devido a uma aparência ou vestimenta 'queer' são ocultadas nas coberturas midiáticas -- mais exemplos de censura homofóbica da mídia -- isso não significa que essas coisas acabaram. Apesar de termos feito progresso em direção aos direitos iguais (com um caminho longo a percorrer), ainda somos vítimas de uma mentalidade nós-versus-eles. Essa tragédia prova que estamos sendo fisicamente vitimados, que a despeito do que diga a imprensa, não estamos seguros. Mesmo que houvéssemos nos sentido seguros antes, à luz do que aconteceu em Orlando, como podem as pessoas 'queer' sentirem-se seguras? Como podemos não temer todo dia que possamos acabar sendo vítimas de um tiroteio em massa visando pessoas 'queer'?


Pior ainda, como podemos nos sentir confortáveis em nossos "espaços seguros", nossos locais de afinidade, nossos empregos, nossos lares, nossos banheiros, nossos centros LGBTQIA+, nossos santuários, nossas boates gays? Como poderíamos presumir que estamos fisicamente seguros enquanto frequentamos um evento do Orgulho LGBTQIA+? O cronômetro do massacre não foi coincidência. Assassinar um grupo de pessoas 'queer' durante o mês do orgulho é um ato extremamente odioso, propositadamente feito para inspirar medo nas pessoas 'queer' em toda parte, durante um tempo no qual espera-se que celebremos e festejemos nossas identidades 'queer'.


Mas o Orgulho vai continuar, e assim deve ser. Nós não devemos nos esconder em nossas casas, não devemos faltar às paradas, não devemos evitar as boates, não devemos interromper demonstrações públicas de afeição ('queer'), não devemos voltar a agir como heterossexuais ou vestir roupas "normais", não devemos desistir do Orgulho. Não podemos abrir mão de nossas identidades queer. Agora mais do que nunca, precisamos ser orgulhosos. Precisamos mostrar ao mundo que não desistiremos, que não seremos silenciados, e que somos fortes.


Então, por favor, vão às Paradas do Orgulho. Exibam suas lantejoulas e arco-íris e glitter e saltos altos. Marchem nas paradas. Tremulem suas bandeiras. Celebrem nos comícios. Ajudem a levantar dinheiro com os que constroem fundos. Frequentem as apresentações. Mais importante ainda, vão às boates, às danceterias, e às festas; fiquem na rua até tarde e façam seus corações dançarem. Em honra às vítimas do massacre em Orlando -- que eles descansem orgulhosamente -- mostrem que vocês são orgulhosos de serem 'queer' e que você se recusam a recuar.


Com esperança em nossos corações,

Christian & Derrick
dois 'queers' entristecidos


Christian J. Lewis
Editor-Chefe do Queer Voices
Contribuinte para com o The Huffington Post


Derrick De Lise
Publicador no Queer Voices
Contribuinte para com o The Huffington Post

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