Sobre o cartoon do Charlie Hebdo com o menino sírio - por Sergio Viula





Atualizando o caso:

Um desenho no jornal satírico Charlie Hebdo sugerindo que Alan Kurdi, o garoto sírio de três anos de idade, encontrado morto numa praia turca no ano passado, cresceria para ser um assediador sexual causou raiva nas redes sociais na quinta-feira, 14/01/16, informa a agência Reuters.


O cartoon descreve dois homens correndo atrás de uma mulher apavorada com a seguinte legenda: "O que teria sido do jovem Alan se ele tivesse crescido? Um apalpador de corpos na Alemanha."
Ataques sexuais contra mulheres na cidade de Colônia e em outras cidades alemãs na véspera de ano novo, muitos deles atribuídos a imigrantes, geraram mais de 600 queixas criminais e causaram constrangimentos às políticas sobre refugiados da chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Mais de um milhão entraram na Alemanha no ano passado, mais do que em qualquer outro país da Europa. (grifo meu)


O cartoon foi publicado uma semana depois do aniversário dos ataques aos escritórios do Charlie Hebdo em Paris, que mataram 12 pessoas em janeiro de 2015. A fase "Je suis Charlie" ("Eu sou Charlie"), foi amplamente adotada por apoiadores online.

Desta vez, muitas pessoas nas mídias sociais disseram que o cartoon foi ofensivo, enquanto outras argumentaram que Charlie Hebdo estava mantendo seu tom usualmente provocativo para provocar debates sobre as atitudes dos europeus para com a crise migratória.


A imagem de Alan deitado de bruços numa praia turca em setembro passado correu o mundo e provocou uma onda de solidariedade para com o clamor dos refugiados que escavam da guerra e da pobreza no Oriente Médio e na África.
Fonte:  Agência Reuters.
 

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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO


Há muitas questões envolvidas aqui. De saída, quero deixar claro que não pretendo esgotá-las. Gostaria, porém, de destacar alguns pontos:
 
1. Na minha opinião, o cartoon foi de mau gosto, porque atribui aos imigrantes, de modo geral, uma destino irrevogável. A partir de uma espécie de profecia na base do faz-de-conta, o jornal faz diversas assunções a respeito dos homens muçulmanos. Entre elas, a seguinte: 

Se o menino vivesse, ele teria um só destino: ser homem heterossexual assediador de mulheres como muitos dos seus pares muçulmanos que, por décadas, foram doutrinados no pensamento de que toda mulher ocidental é puta e que as putas não merecem respeito - dois equívocos que fazem parte do senso comum entre os seguidores de Maomé. As mulheres ocidentais, que eles consideram poder apalpar e assediar com cantadas horrorosas, seriam facilmente estupradas ou apedrejadas em muitos países dominados pela mentalidade islâmica. Isso é fato. Mas, daí a dizer que o menino seria inevitavelmente assim e sugerir que talvez essa morte evitasse que a sociedade tivesse mais um desses imbecis, vai um abismo enorme. 

Só para provocar reflexão: 

E se o menino fosse gay e crescesse para se apaixonar por outro homem? Nesse caso, talvez sua própria comunidade quisesse exterminá-lo como já aconteceu em abrigos para imigrantes, onde homens gays correram graves riscos de vida, sendo preservados por ação governamental. Mas nem mesmo isso poderia ser tomado por garantido. Fica só a sugestão.
 
2. O menino se afogou em consequência de conflitos com os quais ele nunca contribuiu, porque nem sequer teve tempo para assumir posicionamentos a respeito deles. Foi mais uma vítima das inúmeras formas de violência que seguem acontecendo no mundo. Ele não foi a única criança morta. Muitas morreram em condições semelhantes, mas ele tornou-se uma espécie de representante de todos esses seres humanos indefesos e injustiçados, que mal sabem falar sua própria língua e morrem sem qualquer possibilidade de autodefesa. Por isso, considero ofensivo fazerem tais conexões entre essa criança injustiçada e os abusadores muçulmanos que assediaram essas mais de 600 mulheres somente nos festejos de ano novo. O debate poderia ter sido provocado de outros modos, mesmo que absolutamente satíricos, mas isso não justifica qualquer forma de violência e não devíamos insuflá-la. Já existem loucos demais por aí querendo apenas um motivo para explodirem seus corpos e arrastarem uma multidão com eles.



A matéria está em inglês, mas não encontrei equivalente em português ou legendado. A Alemanha está tentando silenciar qualquer voz que faça conexão entre os imigrantes e os abusos contra as mulheres. Isso tem seu lado bom: preservar os imigrantes que não fazem essas e outras barbaridades, mas tem seu lado mal: silencia, de certa maneira, as mulheres que sofreram os abusos. Um quebra-cabeças difícil de montar.

 

3. Apesar do mal gosto do cartoon, isso não muda o absurdo dos ataques terroristas. Aquele episódio de destruição fundamentalista contra os cartunistas do Charlie Hebdo continua sendo emblemático do que significa o barbarismo do fanatismo religioso - esse mesmo que continua com os dois pés fincados no quinto século d.C., praticamente sem modificação desde então. Em alguns aspectos, esse fanatismo é capaz de coisas ainda piores hoje, porque se Maomé atacava com cavalos, camelos e espadas naquele tempo, hoje seus seguidores mais extremistas atacam com aviões, carros bomba e armas de fogo de longo alcance, grosso calibre e autonomia para dezenas de tiros sem troca de cartucho.



4. Não posso falar por todos os que adotaram o "Eu sou Charlie". Não sei o que se passava pela cabeça de cada um, mas posso falar por mim mesmo. E a quem quiser levar em conta o que penso, meu mais sincero "obrigado". A quem preferir nem considerar o que tenho a dizer, espero que esteja de posse de todos os ângulos dessa situação para realmente não precisar sequer ouvir outras vozes. Muito bem, eu fui um dos que adotaram o slogan solidário "Eu sou Charlie" no Facebook. Mas o que é que eu queria dizer com isso. afinal de contas?

A) Primeiro, que sou contra todo tipo de violência;

B) Segundo que sou a favor da liberdade de expressão e de imprensa, inclusive para os satíricos;

C) Terceiro, que quando houver abuso dessa liberdade ou de quaisquer outras, não se pode suprimi-las ou reagir a elas com violência. Nada justifica o terrorismo e outras formas menos dramáticas de violência. A mesma democracia que provê os meios para o exercício das liberdades civis também provê os meios para exigir reparação por qualquer dano a terceiros. Além disso, existe a possibilidade de boicote e de debate. Não há qualquer justificativa para atos de violência contra pessoas ou instituições pelo uso de suas liberdades, mas há recursos poderosos e eficientes garantidos pelas instituições democrático-republicanas. Aprendamos a utilizá-los;
 

D) Minha solidariedade e empatia para com o Charlie Hebdo no momento do atentado terrorista tinha o propósito de chamar atenção para o seguintes binarismos conflitantes e autoexcludentes. Claro que abraço os primeiros e rejeito os segundos em cada uma das contraposições abaixo:

D1) Liberdade de expressão VERSUS controle religioso e/ou estatal das expressões de pensamento pelas mais diversas vias e com os mais diversos conteúdos;

D2) Valorização do ser humano acima de qualquer dogma VERSUS a absolutização 
do dogma, inclusive ao custo de vidas humanas; 

D3) Direitos humanos são inegociáveis VERSUS a sacralidade de certas ideias não pode ser sequer questionada, mesmo que estas sejam a base para a manutenção de muitas estruturas iníquas e violadoras de direitos humanos básicos.

5. O fato de me solidarizar com o Charlie Hebdo naquele momento não era um cheque em branco. Não significava que tudo e qualquer coisa que eles fizessem dali em diante contaria incondicionalmente com meu apoio nem mesmo que eu tivesse apoiado tudo o que eles haviam feito/dito antes. Minha solidariedade devia-se essencialmente ao fato de que o ataque ao Charlie Hebdo por fundamentalistas islâmicos era tão execrável quanto o ataque de extremistas da mesma estirpe contra a imagem de Buda no Afeganistão, que, graças aos cientistas, poderão ser recuperadas. O mesmo posso dizer do ataque contra o Museu do Cairo, quando extremistas muçulmanos decapitaram cerca de 30 múmias e danificaram objetos que haviam pertencido a Tutankhamon. Semana passada, vários homens-bomba atacaram uma área comercial de Bangladesh frequentada por estrangeiros, fazendo com que o governo agora caçasse cerca de 2.000 homens-bomba em potencial no país. 

Todos esses ataques são tão execráveis quanto o ataque ao Charlie Hebdo, salvaguardadas as diferenças entre o ataque a um patrimônio cultural e o massacre de seres humanos, mas é justamente contra a lógica que promove tudo isso que o jornal satírico se coloca de modo tão contundente e, muitas vezes, até inapropriado, como no caso da charge do menino sírio afogado e os apalpadores de mulheres. 

Eu poderia continuar citando vários casos que ilustram o barbarismo desses extremistas muçulmanos movidos pela lógica do "nós contra todo mundo até a decapitação do último herege".


Casamento e pedofilia em países muçulmanos. Quem defenderá essas crianças? 

 

6. Muitos imigrantes querem se integrar à Europa e desfrutar da atmosfera de liberdade que indubitavelmente é maior ali, pelo menos para o cidadão europeu de nascimento. Mas mesmo sendo estrangeiros e estando submetidos a vários constrangimentos, aparentemente haverá mais possibilidades para eles ali do que em seus países de origem, nos quais, mesmo sendo cidadãos por nascimento, não gozavam de qualquer possibilidade de divergir sem serem presos, torturados ou mortos. No entanto, existem imigrantes querendo criar "ilhas de fanatismo religioso" nos países para onde migraram. De acordo com a lógica desses 'espaços sociais criados à revelia' dos costumes locais, as mulheres continuam sendo objetos a serem utilizados e trocados em negociações entre os patriarcas de suas famílias, homossexuais continuam correndo risco de morte por serem gays, dissidentes do islamismo continuam sendo considerados blasfemos e punidos com rigor, e possíveis ateus são execrados como sendo a própria encarnação de satanás. Ironicamente, um casal gay alemão abrigou 24 imigrantes e tem encorajado outras pessoas a fazerem o mesmo.

Não podemos fechar os olhos a isso por causa do mau gosto do Charlie Hebdo. Não podemos dizer que o mau gosto do cartoon feito sobre o menino encontrado morto na praia da Turquia inverta tudo instantânea e acriticamente. Não mesmo.

Não aprovo o cartoon, mas não retiro meu apoio à liberdade de expressão, seja na pena e no papel do Charlie, seja na fala ou na escrita de qualquer outro. Isso não significa que não devamos confrontar esse tipo de produção duvidosa, mas isso tem que ser feito por outros meios que não o da violência.

Ao mesmo tempo que me solidarizo com a família desse menino nesse ponto, fico me perguntando por que esses mesmos muçulmanos não denunciam outras violências contra essas crianças, principalmente a violência doméstica, que é insuportável para qualquer padrão racional. Uma coisa não anula a outra, mas o silenciamento de qualquer uma delas é tendencioso, é hipócrita, e, humanisticamente falando, míope. É má-fé.

Encerrando, porque já me alonguei demais, digo apenas o seguinte:

A Europa tem que deixar de ser xenofóbica sem se tornar condescendente com aquilo que em qualquer cultura seja uma violação dos direitos humanos -- venha de seus próprios cidadãos ou de cidadãos de outras partes do mundo, seja em seu território ou em território alheio. E se os muçulmanos conseguirem conjugar suas crenças com as liberdades do secularismo e do humanismo que a Europa procura (e nem sempre consegue com perfeição) viabilizar, eles viverão em condições muito mais humanas e produtivas do que tudo o que seus governos fundamentalistas lhes ofereceram.

Não tenho a menor vontade de deixar o Brasil, apesar de todos os seus problemas, mas se eu tivesse que enfrentar algo semelhante ao que esses sírios enfrentaram em sua terra, eu adoraria ser recebido com dignidade na terra que eu escolhesse como refúgio. MAS -- um mas bem gigante -- eu teria que me adequar às regras do local, mesmo que, depois de adaptado, buscasse linhas de fuga das opressões que pudesse enfrentar ali. O que eu não poderia fazer era exigir que alemães, franceses, ingleses, etc. agissem como brasileiros só para que eu me sentisse melhor no lugar que me abrigou. Eu provavelmente teria que me tornar mais alemão, francês ou inglês, mesmo sem esquecer quem sou e de onde vim. Foi isso o que os imigrantes que vieram para o Brasil -- mesmo mantendo suas tradições -- fizeram. E quem viola os códigos locais responderá por isso, querendo ou não. 

Então, ao mesmo tempo que se respeita as liberdades desses imigrantes muçulmanos, espera-se que eles também incorporem os códigos de conduta locais e respeitem as diferenças com as quais eles provavelmente não estão acostumados. Do mesmo modo, a sociedade europeia e suas instituições devem evitar colocar mais pressão sobre quem já está tão oprimido.

Parece-me que essa era a provocação do Charlie Hebdo: Recebemos os imigrantes, mas como evitar que eles transformem a terra que os recebeu em algo parecido com aquela de onde fugiram? A escolha pelo menino sírio em conexão com os abusadores parece ter sido vista por eles como uma forma incontornável de chamar atenção para isso. De novo, o menino e sua família não necessariamente estavam conectados a esse estado de coisas só por serem imigrantes sírios.

De qualquer modo, LEMBREM-SE que Rivellino, o craque brasileiro que foi trabalhar no Qatar, teve que fugir do país depois de rejeitar a proposta do príncipe, que estava disposto a pagar quanto fosse por uma noite de amor com sua esposa (essa é a lógica de muitos desses muçulmanos vivendo na Europa - não todos, mas o suficiente para que mais de 600 mulheres na minúscula cidade de Colônia registrassem queixa na polícia (em pleno réveillon) contra assediadores, apalpadores de corpos ou de bundas, como queiram. Vale ressalvar aqui que a cidade de Colônia não é tão pequena assim, como bem disse meu amigo e querido leitor Tio Enilson. Mas, o que eu tenho em mente é uma comparação entre essa cidade de um milhão de habitantes e a minha (Rio de Janeiro). Claro que apenas uma parcela da população se reúne naquela praça - o que torna o número de ataques às mulheres ainda mais expressivo. O réveillon do Rio, por exemplo, reúne numa única praia -- sem contar os outros pontos de festejo espalhados pela cidade -- o equivalente a duas cidades inteiras de Colônia. E mesmo assim, nunca testemunhou nada parecido com isso.

Roberto Rivellino - ídolo dos anos 60
Veja o caso de Rivelino aqui no site da Fox Sports. Apesar do tom humorístico da matéria, a situação não foi nada engraçada ou inofensiva. Ele poderia ter sido preso e a mulher dele poderia ter sido tomada à força, mas ele teve a sorte de ser ajudado por amigos e alguns sheiks em sua fuga do país: http://www.foxsports.com.br/videos/157468739755-causo-rivellino-acerta-bolada-em-principe-que-queria-sua-esposa


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