E se você também for um Truman?


A primeira vez que eu vi "O show de Truman. O show da vida" foi há muito tempo. Só não foi numa galáxia, muito, muito distante (risos). 

Obviamente, fiz várias conexões entre seu enredo e a vida "real". Na verdade, a questão já começa por aí: Real, até que ponto? Real para quem? Cada olho constitui um mundo diferente que parece muito real para aquele que assim o enxerga. Então, o que eu vejo sobre mim e sobre o que há a meu redor não é a mesma coisa que o outro vê a meu respeito e a respeito do que há à minha volta. E isso também funciona para todos os "vice-versas" que você puder imaginar.

Na verdade, o enredo do filme trabalha com a noção de que tudo pode virar show de TV, e de que tudo o que pode ser assistido, gerando audiências cada vez mais fiéis, pode ser transformado em dinheiro cada vez mais abundante nas contas de todos os envolvidos na produção e transmissão do show. Um bom ponto de partida para pensarmos o mundo da mídia e do entretenimento, inclusive o jornalismo: quanto mais sensacionalista ou comovente, mais vende, mais gera renda para os que exploram os "fatos". Será que "a verdade" é realmente um fim a ser perseguido no jornalismo? Bem, é preciso que pareça ser. Não precisa ser de fato.

Mas, o que me trouxe de volta ao filme essa semana foi um comentário do meu amigo Israel Russo do Mundo de Is. Ele viu o filme e ficou fascinado. Ele notou vários pontos em comum com as técnicas de manipulação da "realidade" que muitos líderes religiosos fazem e com a qual arrastam milhões de pessoas e de dólares. Concordei com ele, claro. Ele inclusive me pediu que falasse sobre isso quando tivesse um tempinho. Decidi falar hoje.

O que acontece com Truman? O produtor do reality show "emprega" um menino recém-nascido como protagonista do programa. Tudo na vida dele é fake (falso, inventado, criado para parecer real sem ser), só que ele não sabe disso. Ele vive num mundo perfeito, onde tudo é programado. Até o sol e a chuva aparecem quando o produtor determina, a partir de truques de estúdio. O bairro dele é um cenário. Os colegas de trabalho, familiares, vizinhos, amigos, enfim, são todos atores coadjuvantes e figurantes. Ele está absolutamente convencido de que o mundo ao seu redor é real e perfeito. O problema é que existe uma restrição. Ele não pode se aventurar no mar. E para garantir que não o fizesse, um acidente foi simulado para que ele acreditasse que estava se afogando, tendo sido salvo por muita sorte.

Encurtando para não entregar tudo a respeito do filme, Truman vive uma farsa e tem que escolher entre sair dela e enfrentar o "mundo real" ou ficar nela e continuar vivendo num mundo controlado em cada detalhe, como um pássaro na gaiola que tem tudo, mas não pode voar livremente. E se não pode voar livremente, o pássaro não pode conhecer e usufruir de sua "passarice" em todos os sentidos. Não é exatamente isso que acontece nas seguintes situações? Cito duas, mas outras poderiam ser pensadas:

1. Você vive no armário. Se sair dele, ganha a liberdade, mas também pode perder alguns aparentes "mimos", concedidos apenas aos que se submetem à farsa de parecer algo que não são vivendo uma "harmonia" que não existe;
 
2. Você é religioso e já sacrificou muito pelo deus em que você crê, mas percebe que é muito provável que tudo isso não passe de imaginação. Você está investindo o melhor que tem numa futura existência que é tão imaginária quanto Hogwarts em Harry Potter, só que sem um décimo da diversão. Você se assume cético, agnóstico ou ateu e enfrenta a vida com racionalidade e amor à vida, imbuído de compaixão pelos que compartilham o mesmo planeta que você, ou continua praticando os ritos e repetindo os mantras da fé para não perder a aparente "harmonia" que desfruta em casa e em sua agremiação religiosa?

De que vale continuar com o show quando você já percebeu que tem muita gente se "divertindo" às suas custas sem que você possa viver o que realmente deseja viver? De novo, para onde vai toda aquela sua "passarice" ansiosa para alçar voo? 

Saber-se sujeitado a sistemas de coerção, de controle, de repressão, de manipulação sem sequer oferecer resistência a essa sujeição, ou seja, sem tentar emancipar-se, sem querer correr o risco de viver tudo o que você pode viver (para mais ou para menos) longe do vampirismo desses sistemas, é uma das maiores misérias existenciais do meu ponto de vista.

Toda aparente bondade das pessoas e sistemas que parecem garantir que suas "necessidades" sejam satisfeitas, sob a condição de que você siga o script (veja que Truman não tinha um script para chamar de seu), não tem qualquer relação com bondade, compaixão ou respeito por sua dignidade como pessoa, mas é parte do jogo de sujeição e manipulação. Assim como no filme em apreço, se você reconhecer a farsa e se recusar a continuar nela, eles serão os primeiros a desligar as câmeras, apagar as luzes e abandonar o setting de filmagem. São os primeiros a dizer que você não tem mais serventia, valor, préstimo. Você deixará de ser a galinha dos ovos de ouro para esses sistemas, que agenciam as famílias, as organizações religiosas, as escolas, entre outros, mas terá a oportunidade de alçar voos fantásticos - uma das muitas coisas que as galinhas - com todo respeito a essas ovíparas - nunca poderão fazer.

A questão é: você quer mesmo ficar livre de tudo isso? 

Há mais de 12 anos, eu derrubei as paredes do "estúdio"e assumi o roteiro da minha própria vida. Existem inúmeros fatores surpresa que podem alterar o curso das coisas, ora para mais alegria, ora para mais tristeza, mas lá no "reality show" dos meus armários, eu também estava sujeito a diversos fatores surpresa, mas nunca disponível para as maiores alegrias - a de poder fazer o que eu achar melhor, em vez seguir uma cartilha religiosa que ditava tudo - desde o que assistir na TV até a quem e como amar na cama. Felizmente, o sol fajuto do estúdio se foi. O sol de verdade é melhor, mas como tudo na vida, tem mais de dois lados. Sem problema, já inventaram chapéu, sombrinha, protetor solar, etc. ;) Vale a pena viver o mais perto possível daquilo que corresponde às nossas mais legítimas aspirações.

Muitas leituras da vida a partir desse filme podem ser feitas. Essas aqui foram as que os meus olhos privilegiaram. Fica a provocação, então.

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