Dia Mundial de Combate à AIDS: "Causos" de Sergio Viula



Por Sergio Viula


No dia 1 de dezembro, o mundo inteiro fala sobre a prevenção ao HIV. Trata-se do Dia Mundial de Combate à AIDS.  Justamente o dia dessa postagem. A maioria fala apenas de camisinha, testagem, coquetel e temas correlatos. E isso é fundamental. Mas, hoje, decidi falar sobre gente. Claro que vou começar falando sobre o vírus e algumas informações úteis, mas depois vou contar alguns "causos" que aconteceram comigo ou com gente de meu círculo íntimo. :)

Primeiramente, gostaria de chamar atenção para a estigmatização. O vírus HIV não é melhor nem pior do que qualquer outro que possa levar à morte. A diferença do HIV é que ele não causa uma doença específica. Ele simplesmente é um penetra que se comporta como se fosse um "generoso anfitrião". Em outras palavras, ele abre as portas do corpo que o hospeda para todo e qualquer microrganismo patogênico (gerador de doenças) ou permite a multiplicação daqueles que já se encontram no organismo, mas que nunca se manifestaram porque viviam controlados por um complexo aparato de defesa chamado sistema imunológico. É justamente esse sistema que é afetado. Daí, o nome do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), ou seja, o vírus que debilita gravemente nossa imunologia. 

A pergunta que muita gente se faz: 
É seguro transar com alguém que já tenha o vírus HIV?

Depende. 

1) Todas as relações devem ser feitas com camisinha. E no caso da pessoa HIV+, a camisinha protegerá tanto o parceiro como a própria pessoa que é portadora do vírus. O que quero dizer é o seguinte: o parceiro não-portador fica protegido contra a transmissão do HIV, e o parceiro que é portador fica protegido contra uma série de invasores que podem transformar sua vida num tormento.

2) Se a pessoa estiver se medicando e tiver atingido carga viral indetectável, deixa de haver risco de contágio. Mas, ela precisa estar com a carga viral abaixo do nível de detecção há pelo menos seis meses, continuar fazendo o uso dos antirretrovirais corretamente e não ter nenhuma DST (doença sexualmente transmissível).

Por isso, a testagem é tão importante. Tudo começa com o conhecimento do seu estado sorológico, isto é, se o indivíduo é portador ou não do vírus. Jurar para si mesmo que está tudo bem ou passar a vida inteira acreditando que tem, mas que é melhor não saber, são posturas incoerentes, insensatas e até mesmo autodestrutivas. 

Onde ser testado?

Atualmente, o teste pode ser feito em poucos minutos. O Grupo Pela Vidda tem um artigo interessante sobre isso. Eles também dão uma lista de centros de testagem no Rio de Janeiro. Veja aqui.

Para encontrar os endereços dos Centros de Testagem Anônima em QUALQUER ESTADO do Brasil, acesse: 
http://www.aids.gov.br/endereco_localizacao/listagem

Faça o teste. É gratuito, seguro, sigiloso. Se não tiver o vírus, você ficará tranquilo. E se tiver, poderá se cuidar para viver melhor, proteger seu organismo. E como bônus, você ainda protegerá seu parceiro ou sua parceira, seja no singular ou no plural. ;)

Alguns "causos" reais

A maioria das pessoas já transou com alguém HIV sem saber. Você provavelmente não é exceção, mesmo que não o admita. Em alguns casos, o próprio marido ou esposa são portadores e nem sabem. Esse foi o caso de um querido amigo, pastor evangélico, que contraiu HIV por transfusão de sangue, porque era hemofílico. Como no começo da epidemia, não havia o controle que há hoje na qualidade do sangue transfundido, ele foi infectado e transmitiu o vírus à esposa. Detalhe: ambos atuavam numa Assembleia de Deus. Passaram a vida toda servindo ao deus em que criam. Morreram depois de alguns anos em decorrência das doenças oportunistas.

Alguém pode dizer: ah, mas ele era hemofílico; não teve culpa. Eis a grande idiotice de quem fala da vida sem pensar no que diz: não há culpados ou inocentes. Somente se houver um deus todo-poderoso, poderá alguém falar em culpados. Porque esse, sim, poderia ter evitado o surgimento do vírus, para início de conversa. Mas, não há. O vírus é fruto de mutações genéticas. E estas estão ocorrendo o tempo todo na natureza. Ele não foi o primeiro e nem será o último. Agora, uma coisa é certa: fé em deus não é garantia de coisa alguma. Eles confiaram em deus, que nunca os protegeu do contágio e nem os curou, apesar de todos os jejuns, orações, subidas ao monte, etc. Então, não falemos sobre culpados e inocentes, a menos que tenhamos coragem de ir até o final desse raciocínio besta.

Um outro caso que me deixou muito triste foi o de um outro pastor amigo meu, também pentecostal, mas de uma dessas igrejas menores que surgem em qualquer salão disponível em bairros da periferia. Ele contraiu o HIV de uma linda mocinha que o procurava para aconselhamento. Ela era portadora. Os dois transaram e ela transmitiu o vírus para ele. Como sei disso? O próprio pai dela confirmou que ela era portadora quando o pastor a procurou para pedir que ela também se testasse. Essa foi uma atitude muito humana dele. Ele só não imaginava que ela já soubesse. Depois de ser infectado, ele passou o vírus para a esposa. Os dois viveram mais alguns anos. Porém, devido à precariedade dos tratamentos da época, morreram num período relativamente curto. Primeiro, ele. Depois, ela. Saldo dessa tragédia: duas filhas órfãs.

Observem que esses dois casos emblemáticos envolvem gente da igreja. Os dois eram pastores, casados, heterossexuais. Um pegou por transfusão; o outro por relação sexual. Nos dois casos, as parceiras, que jamais podiam acreditar que um casamento tão "abençoado" pudesse lhes oferecer risco, acabaram infectadas e mortas.

Os dois casais eram amigos meus daqueles tempos em que eu também era crente.

Agora, falemos de "causos" mais recentes.

Quero deixar uma coisa bem clara: eu nunca faço inventário da vida sexual ou da condição sorológica alheia antes de ir para a cama com o "caboclo". Também não me submeto a nenhuma sabatina antes de uma relação sexual. De qualquer modo, o que isso garantiria? É como aquele estúpido juramento diante do juiz e do juri: "Juro dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade". O que isso garante? O que tenho em mente é que devo usar camisinha em todas as relações, e ponto final.

Se já fiz sexo sem camisinha?

Sim, especialmente quando era adolescente. Ainda não se falava em AIDS. A epidemia começou quando eu tinha 15 anos. E minha primeira relação sexual foi aos 12. Felizmente, nunca tive qualquer problema, porque as pessoas com quem tive contato ainda estavam geograficamente longe dos primeiros focos de contágio, mas isso mudou rapidamente, e assim que ouvi falar de AIDS, passei a transar sempre com camisinha, exceto em dois casos e não por muito tempo.

Em duas relações estáveis que eu tive, nas quais os meus parceiros e eu estávamos comprovadamente isentos do vírus (exames com resultado "negativo" - o que significa "sem HIV"), fiz sexo algumas vezes sem camisinha, mas numa delas, logo voltamos a usar, porque existe sempre o risco de que qualquer dos dois venha a ter relações extraconjugais e se expor ao vírus.  Fora esses dois relacionamentos, eu NUNCA transei sem camisinha, fosse num relacionamento estável ou eventual. 

Felizmente, não contraí e nem transmiti nada para aqueles dois parceiros. Estávamos saudáveis na época, mas volto a dizer que não foi pela arte da adivinhação, e, sim, pela testagem para HIV com resultado negativo, isto é, sem o vírus. Mesmo assim, não convém correr o risco de ser traído e acabar contaminado ou de trair e contaminar. Então, a receita é: sexo só com camisinha, mesmo que seja com o anjo Gabriel.

De todas as relações que eu já tive, apenas duas delas eram comprovadamente HIV+, isto é, somente dois parceiros sabiam que tinham o vírus e me contaram. 

Um deles se cuidava muito bem e era assintomático (não tinha qualquer sintoma) - o que os médicos chamam de portador saudável. Não tinha a síndrome propriamente dita. Isso se devia ao tratamento, que ele seguia rigorosamente. Ficamos juntos por pouco tempo. Se não me engano, foi por pouco mais de um mês. Não rolou aquela química necessária para uma relação mais longa. De qualquer modo, considero esse cara uma das pessoas mais especiais que eu conheço. Ele tem um caráter lindo! Infelizmente, contraiu o vírus de um parceiro a quem ele amava e a quem foi fiel até a morte. O parceiro "galinhava" por aí e contraiu o vírus. Sem saber que era portador, passou para esse meu amigo e ex-namorado. 

Meu outro namorado que tinha o vírus era paciente sintomático, ou seja, já tinha alguns traços da síndrome. Eu sabia desde o início. Ficamos juntos por quase um ano, mas ele era irresponsável demais e muito instável emocionalmente. Incentivei-o a fazer o tratamento e cheguei a ir com ele ao hospital em vários momentos até que ele estivesse devidamente encaminhado. Gostava muito dele - sinceramente, muito mais do que outros com quem tive a oportunidade de me relacionar - mas ele tinha um comportamento tão autodestrutivo que achei melhor seguir meu caminho e deixá-o seguir o dele. As pessoas fazem as escolhas delas. Eu faço as minhas. Quando elas são compatíveis, a gente anda junto. Quando não não, o mundo é grande o suficiente para nós dois. ;)

Infelizmente, esse cara foi contaminado logo na primeira relação sexual, porque transou sem camisinha com um cara bem mais velho e portador. Ele só tinha 17 anos quando aconteceu o contágio. E para piorar, a família ainda era homofóbica. Provavelmente, essa homofobia tenha sido o impedimento para conversas que poderiam ter garantido sua proteção. Nada pior do que viver sem poder carregar uma camisinha na mochila, porque os pais poderiam ter um ataque de nervos se a encontrassem. A homofobia mata de muitas maneiras, principalmente a homofobia parental. Felizmente, ele continua vivo e curtindo a vida por aí. Espero que esteja se protegendo (para seu próprio bem). A responsabilidade no tocante ao uso da camisinha é sempre pessoal. Não espere que o outro tenha uma e sugira o uso. Faça isso você mesmo.   

Além desses dois casos, não saberia dizer nada sobre o estado de saúde das pessoas com quem me relacionei. Acredito que você também não. Mas, uma coisa posso garantir: a camisinha protege de fato. Tenho convivido com a epidemia de AIDS há 31 anos e NUNCA fui infectado pelo HIV e nem tive qualquer tipo de DST. E olha que um namorado meu contraiu o vírus da sífilis uma vez. Ele poderia ter contraído o HIV do mesmo jeito, mas, felizmente, foi só o da sífilis. Mas, não se engane: se não for tratada, ela mata também. Quando eu percebi, falei com ele, fomos ao hospital e ele foi diagnosticado no terceiro estágio. Mais um pouco, ele poderia ter ficado com sequelas gravíssimas. Foi medicado com várias injeções diárias até ficar bom. Por que foi que eu não peguei? CAMISINHA! E por que foi que eu cuidei? Porque AMAVA. Esse cara foi meu namorado por quase dois anos.

Em todos os casos que eu citei acima - só os que eu conheço pessoalmente -, as pessoas transaram sem camisinha, exceto no caso do hemofílico, mas vale lembrar que ele só contaminou a esposa, porque também transavam sem camisinha. Ora, se a pessoa é hemofílica e sabe que está exposta a uma série de possíveis doenças, por que não assumir a responsabilidade pela proteção mútua, uma vez que ela pode contrair algum patogênico pela transfusão e passar para o parceiro ou para a parceira?

Claro que nunca teremos um mundo em que 100% das pessoas fazem sexo 100% das vezes com camisinha. Mas, eu mantenho uma coisa em mente: excluindo as vezes em que, no passado, também transei sem camisinha  - no começo por não saber coisa alguma sobre AIDS e DST (adolescência sem internet), e depois por estar ciente, por meio de exames, que eu e meu parceiro não tínhamos o vírus - NÃO farei sexo com NINGUÉM sem camisinha. E isso é o melhor que posso fazer por mim, pelo meu parceiro e pelo combate à epidemia no mundo.

E outra coisa que é muito importante: a vida não para por causa do HIV. Pessoas que são portadoras podem se cuidar e chegar a níveis indetectáveis de carga viral. Isso é possível e excelente, mas significa que seja fácil. A vida é mais tranquila sem filas de hospital.  Por isso, é melhor não ter. Mas se tiver, é melhor se cuidar. 

Um recado indispensável: se você é daqueles que vê uma pessoa portadora do HIV como alguém que quer contaminar todo mundo só porque já foi contaminado, você provavelmente não conhece muita gente com HIV ou talvez esteja trabalhando na lógica que você provavelmente adotaria se tivesse o vírus. Seja melhor do que isso, por favor. As pessoas que têm HIV têm sonhos, esperanças, medos, afetos e tesão como qualquer pessoa. Aliás, dificilmente alguém está 100% livre de parasitas ou deficiências, seja física ou mentalmente. E isso inclui você, bunitx. Por isso, a OMS (Organização Mundial de Saúde) define saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades."

E se eu acabo de me expor ao HIV?

É importante dizer também que existem procedimentos para a profilaxia pós-exposição, ou seja, um tratamento à base de remédios para quem foi exposto ao vírus, seja por violência sexual ou por descuido mesmo. 

Porém, esse tratamento tem efeitos colaterais e os postos que o oferecem criam muita burocracia na hora de aplica-lo para evitar que as pessoas troquem a camisinha (prevenção) pelo remédio (tratamento). 

Um amigo meu passou por gravíssimos constrangimentos um dia desses. Ele teve relação com um cara sem camisinha. Depois, ficou apavorado com a possibilidade de ter contraído HIV, porque não sabia se o cara era soropositivo ou não. 

Orientei o rapaz a procurar um CTA. Ele fez isso. Lá, ele foi informado de que tudo o que fariam por ele era a testagem (o que não prova que ele não tenha contraído o HIV, porque haviam passado menos de 48 da possível exposição, e você precisa de três meses, no mínimo, para detectar a presença do vírus), e o remédio só seria dado se o outro cara fosse lá fazer o exame e ficasse comprovado ele tinha HIV. São 28 dias de tratamento sem interrupção para a pessoa recém-exposta, mas a primeira dose tem que ser antes de 72 horas da infecção. Resumo da ópera: o outro rapaz não compareceu e ele não recebeu a medicação.

Então, como eu sempre digo, nada é tão simples quanto parece. No papel, tudo funciona idealmente. Na prática, se você ouvir um NÃO de um médico, já era. Não há nada que você possa fazer. Se der um ataque no consultório, ainda poderá acabar sedado e internado num hospício. 

Além disso, tudo o que você NÃO TEM é tempo, porque a profilaxia pós-exposição tem que ser feita em até 72 horas. Que tribunal vai lhe dar um mandado de segurança tão rapidamente? 

Outra coisa, rezar para não contrair o vírus é tão eficaz quanto rezar para curar a AIDS - não funciona. Lembrem-se dos meus amigos pastores "abençoados" agora vestindo um terno de madeira. Ora, todos vamos morrer. Ninguém viverá muito mais que cem anos, e isso se der a sorte de ser uma das pessoas mais velhas do mundo em seu tempo. Então, com ou sem vírus, você vai comer capim pela raiz, meu bem. A questão é: que qualidade de vida você quer ter até o dia em que bater as botas? Isso é o que está em questão. Então, viver sem dor é melhor, seja portador ou não do HIV.

Tendo dito tudo isso, só quero dizer mais uma coisa para fechar: transe, faça amor, goze dos prazeres do seu corpo e dos corpos que espontaneamente se entregarem ao seu. A vida é curta. Sexo é uma delícia. O amor torna tudo mais leve. Mas use camisinha, seja você portador do HIV ou não. Só isso. Vai ser alegria antes, durante e depois. E se você não é portador, sempre que fizer o teste, você terá o prazer de ouvir o que eu ouvi até hoje: Deu negativo. Oba! Mas se você já sabe que é positivo, fazendo uso dos recursos que a medicina lhe oferece, a cada verificação de carga viral, você ouvirá outro tipo de boa notícia: Indetectável. Viva!

A vida comporta várias possibilidades e as pessoas podem viver bem em todas elas, sejam casais soropositivos, casais soronegativos ou casais sorodiscordantes. Cuidem-se individualmente e cuidem-se mutuamente. Sejam felizes, meus amores, porque não há ninguém ou cá cuidando invisivelmente de vocês. Estamos por conta própria e podemos viver tudo o que há para viver.



Somebody to love

Considero a mensagem dessa música muito apropriada e amo Freddy Mercury, ícone eterno que foi atingido quando ninguém sequer suspeitava que o HIV já circulava por aí. Minha mais absoluta admiração por esse cara que quebrou paradigmas e continua inspirando gerações. 

Ouça e inspire-se:



Comentários

  1. Belissimo post, esclarecedor, emocional, parabens!

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  2. Obrigado por ter lido e comentado tão carinhosamente. Abração, querido.

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