Veja como foi esse final de semana no SSEX BBOX


Parte da equipe que organizou e/ou executou o [SSEX BBOX]


Por Sergio Viula

As fotos que você verá abaixo referem-se apenas à noite de sábado e manhã/tarde de domingo do [SSEX BBOX]. Teve muito.mais do que isso.


De acordo com o Pró Bertucci, produtor do evento, cerca de 100 pessoas estiveram diretamente envolvidas com mesas, intervenções artísticas e outras atrações do projeto.


Minha irmã Katia Viula esteve no evento desde terça-feira e só voltará para o Rio nesta segunda, 23/11/15. Infelizmente, eu só pude ir no sábado e voltar no domingo, mas valeu MUITO a pena.


Não posso deixar de compartilhar com os leitores desse blog e simpatizantes da causa que a grandeza do projeto não corresponde aos recursos. O 
[SSEX BBOX] ainda está arrecadando contribuições através do Catarse (um site de vaquinhas online) para pagar todas as despesas.


Acho justo dizer que até mesmo alguns convidados contribuíram. E por quê? Porque não se trata de um show com direito a cachê, mas de troca de ideias, militância, desconstrução do velho para construir o novo. Portanto, se você considera esse projeto relevante para as discussões e as lutas LGBTQIA, colabore hoje mesmo por aqui: https://www.catarse.me/pt/ssexbbox Toda ajuda será valiosa para que nada fique pendente do ponto de vista financeiro do projeto. Deste modo, ano que vem poderemos ter um evento ainda melhor, se é que é possível melhorar tanto assim, porque esse foi bom demais! ^^


O encerramento foi especialmente tocante. Os microfones ficaram abertos ao público. Dez pessoas falaram por livre e espontânea vontade sobre o que estavam levando para casa e o que gostariam que acontecesse na conferência do ano que vem. Alguns depoimentos foram especialmente tocantes e nos levaram às lágrimas. Algumas pessoas também deram sugestões que farão a conferência do ano que vem ainda mais fantástica.


Veja algumas das fotos das pessoas maravilhosas com quem tive o privilégio de conversar em um dos finais de semana mais queer da minha vida. :)


Obs: algumas dessas fotos foram publicadas em post anterior a esse, mas achei melhor colocar todas aqui: as mais recentes e as anteriores. Olha só... ^^



Buck Angel

Alexandra, Beto, Indianara e Tatiana Lionço

Beto de Jesus

PRI Bertucci, Beto, Indianara, Tatiana Lionço

João Nery

Beto e Katia 

                      Malonna Queenie

  Pri Bertucci

Magô Tonhon

Dois amigos da produção/Buck Angel e Laerte
Laerte

Mesa 15: Sexualidade, cultura e religião

      Pri, Pablito, Tatiana e Viviany Beleboni

   Galera da mesa: Pablito, Tatiana e Viviany

Viviany Beleboni e Daniela Sea

Magô Tonhon, co-produtora

      Grupo Les Queens: rap e hip hop para cantar a mulher, a negra e a lésbica. Muitas vezes, a mesma mulher.

Buck Angel e Miss Ian Librarian

Buck Angel e Kátia Viula


ANTES DE ENCERRAR ESSE POST,
ALGUMAS IDEIAS QUE ESTÃO PIPOCANDO NA CABEÇA DESSE BLOGUEIRO:

1. Cada indivíduo constrói sua subjetividade numa dinâmica relacional com o outro. Essas relações podem causar tristeza ou alegria. Para alguns, as tristezas são mais numerosas e até mais intensas do que para outros, mas é preciso que o próprio indivíduo comece a estabelecer novas relações de força com as pessoas ao se redor e com o mundo no qual está inserido (Foucault).  É fundamental deixar de lado os afetos tristes (Espinosa) e cultivar os afetos alegres, porque a alegria nos fortalece, enquanto a tristeza nos enfraquece. Indo mais longe, é preciso que nos apoderemos de tudo o que perpassa a nossa existência e experiência para transformar em poder: vontade de potência (Nietzsche). Não basta manter-se no próprio ser; é preciso expandir-se;

2. Não existe um bloco homogêneo sob a famosa e ultradiversa - mas nunca suficiente - sigla LGBTQIA (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, queer, intersexuais e assexuais). Não existe homogeneidade sequer sob cada letra dessa sigla. Nenhum padrão de subjetividade pode ser localizado. Não há universalidades aqui. Por exemplo, as subjetividades lésbicas são tantas quantas são as mulheres lésbicas perpassadas por diversos outros marcadores que também não podem ser universalizados. As subjetividades gays são tantas quantos são os homens gays com seus infinitos marcadores sociais. E essa é a realidade para cada pessoa que se identifica como L, G, B ou T.  Como disse Carol Queen, durante uma conversa no bar do Hostel SP011, na noite de sábado: são 7 bilhões de orientações sexuais e 7 bilhões de identidades de gênero. Ninguém é igual a ninguém e nem representa o outro perfeita ou plenamente. Nós mesmos não seremos amanhã os sujeitos que somos hoje.  Nossas subjetividades são mais fluidas do que imaginamos. Sempre negociadas, sempre mudando;

3. Muitas das dores vividas pelos indivíduos nos embates travados para se colocarem como se desejam e como se sentem deixam "feridas" na alma. Mas foi possível perceber pelo depoimento de algumas pessoas no encerramento que essas "feridas" podem ser tratadas com um "remédio" muito eficaz: a abertura para o outro num ambiente de liberdade desprovido de juízos de valor sobre como se performa o próprio gênero e como se usufrui do próprio corpo ou corpo alheio, quando este voluntariamente se entrega ao seu. Mas não foi só desse tipo de dor que alguns foram aliviados. Há mais injustiças entre os seres humanos do que se pode imaginar, mas o que um humano fere, outro humano cura. Ou, pelo menos, alivia;

4. Durante a mesa 15, da qual participei, e que era sobre sexualidade, cultura e religiosidade, falamos (eu, Tatiana Lionço e Viviany Beleboni) sobre diversos aspectos desse tema trino. ^^ As falas abordaram religiões monoteístas, espiritualidade não institucionalizada, fundamentalismo, ateísmo, gênero e orientação sexual, sempre num viés libertário e em contraposição à mentalidade uniformizante e sufocante que muitas religiões, principalmente as igrejas católicas e evangélicas, nutrem. Gostei de ouvir Viviany, que se identifica como travesti, um mulherão que não perde nada para modelos e atrizes deslumbrantes, falar sobre o que significa para ela identificar-se com o gênero feminino e curtir ter pênis. Aproveitei para chamar atenção do público para o caráter revolucionário, em termos dos binarismos heterossexistas, que subjaz a essa existência/subjetividade/discurso de Viviany. O mesmo acontece com Buck Angel, que é um baita dum homem lindo e poderoso que se orgulha de ter vagina. Em outras palavras, no meio do corpo feminino de Viviany e do corpo masculino de Buck Angel, encontra-se o inusitado por dentro e por fora. Imaginem, por exemplo, se Viviany e Buck decidissem ter um filho. Viviany fecundaria Buck, que, por sua vez, geraria o filho e o daria à luz, a partir de um corpo absolutamente masculino em sua compleição externa, mas com segredos que nem os deuses desconfiam. Os heteronormativos piram; 

5. Quando nos dirigíamos para o aeroporto, a fim de voltarmos para casa, encontramos um morador de rua sexodiverso e belamente queer. Ele era negro, magro, provavelmente com seus mais de 40 ou mais, e desfilava pela calçada entre uma lata de lixo e outra, sempre verificando se ali havia alguma coisa que pudesse ter valor. Envolvido por um cachecol ao redor do pescoço, trajando uma saia curta e uma blusinha, aquela pessoa de barba e cabelos encaracolados completava o figurino com uma bolsa a tira-colo. Pensei que a diferença mais gritante entre ele e outros queer que eu vi no [SSEX BBOX] era a classe social: ele era mendigo.  E justamente por isso, admirei ainda mais a grandeza daquela figura que era obrigada a "colocar a cara no sol". Não podia se esconder, porque, muito provavelmente, nem mesmo de uma casa, ele dispunha. Falando em vulnerabilidades e possibilidades de existência, quem mais vulnerável do que aquelx queer? No entanto, elx parecia estar vivendo a construção de si mesmx, a despeito do que dissessem ou pensassem os outros. O ser humano é mesmo incrivelmente complexo e diverso. E isso para muito além do minúsculo mundinho das escrituras judaicas do "macho e fêmea os criou". Está mais para macho e/ou fêmea eu me torno ou até mesmo alguma outra coisa para além disso, como muito bem disse Beto de Jesus: "Macho/e/fêmea já parece pouco demais para mim."

Bem, ano que vem deve ter outra conferência, mas provavelmente haverá eventos intermediários aquecendo os tamborins. Fique ligadx. ;)



Para quem ficou curioso pelo livro Em Busca de Mim Mesmo, fica a dica:  http://www.amazon.com/Em-Busca-Mim-Mesmo-Portuguese-ebook/dp/B00ATT2VRM/ref=asap_bc?ie=UTF8




Comentários

  1. Belo resumo desta semana que foi muito intensa. Foi um balsamo de alegria e aprendizado. Acho que saímos todos com a cabeça fervilhando.
    Neusely

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