Eu sem camisa: Di Santos, um homem transexual e sua luta

ATUALIZAÇÃO EM 20/03/16: 

DI SANTOS AGORA É BART SANTOS. DOCUMENTOS SENDO RENOVADOS. 

PARABÉNS, BART!!!

NOVA ATUALIZAÇÃO: BART FOI BEM-SUCEDIDO EM SUA OPERAÇÃO. VEJA O RESULTADO A CAMPANHA E DE MUITA FORÇA DE VONTADE: AQUI.

                                         Di Santos


Por Sergio Viula


Fora do Armário: Di, quando foi que você começou a compreender que sua identidade de gênero não era aquela que lhe foi atribuída pelas pessoas ao seu redor?

Di Santos: Desde criança, entre 9 e 10 anos comecei a perceber que eu era diferente. Antes disso eu só brincava com coisas de menino, fazia coisas de menino e tinha jeito de menino, mas até então eu não sabia o que significavam todas essas características.

Fora do Armário: Quando foi que você começou a fazer a transição do feminino para o masculino?

Di Santos: Iniciei minha transição aos 17 anos. Nesse período comecei a realmente vestir, ainda que discretamente, roupas e acessórios mais masculinos, devido minha mãe de criação, com quem morei por quase toda a minha vida, ser religiosa e meu pai, também de criação, ser bastante conservador. 

Fora do Armário: Como sua família e amigos mais próximos reagiram? Você trabalhava ou estudava, como foi a reação dos colegas?

Di Santos: Meus pais de criação, com quem morei quase a vida toda, repudiavam qualquer roupa masculina. O meu jeito masculino eles nunca puderam mudar, mas nas roupas interferiram bastante e por isso foi uma transição difícil. Quando cheguei ao ápice e joguei tudo pra cima, eles romperam comigo, principalmente quando cortei os cabelos e comprei tudo o que eu tinha vontade.  Nessa época tive o apoio da minha mãe biológica, que na verdade, sempre me apoiou e foi a melhor pessoa desse mundo como é até hoje. Meus amigos acharam uma transformação muito radical, apesar de sempre saberem a verdade, mas acho que o impacto de me ver completamente mudado fisicamente fez com que eles ficassem tão assustados quanto a maioria das pessoas. Foram poucos os que acharam normal. Na época eu não estava trabalhando, mas um mês após a transição total fui chamado para uma entrevista de estágio, onde as candidatas eram 100% mulheres e femininas, e para a minha surpresa, eu fui o único selecionado e contratado.

Fora do Armário: Você lançou a campanha Eu Sem Camisa, inclusive com uma vaquinha online para arrecadar recursos para sua operação. Conte-nos que operação será essa e em que será utilizado o dinheiro arrecadado.

Di Santos: A cirurgia a ser realizada é a de mamoplastia redutora, que consiste, basicamente, em reduzir as mamas e assim ser feita a modelagem de um peitoral masculino. Um exemplo é o que vemos no ator Thammy, o qual realizou essa mesma cirurgia e obteve um resultado perfeito. O valor que eu estou pedindo na campanha cobre despesas como passagens de avião (pois farei a cirurgia em SP), consulta, exames, hospedagem, a própria cirurgia, remédios e o colete que se usa após a cirurgia. 


Fora do Armário: Quais são as maiores dificuldades para um homem transexual como você em sua cidade?

Di Santos: As maiores dificuldades ainda estão na convivência com as pessoas. Por incrível que pareça, se você diz à alguém aqui de Belém que você é transexual, elas não entendem. E por mais que você explique e desenhe, ainda assim parece ser um bicho de sete cabeças. Eu entro no banheiro masculino e ninguém percebe, é normal, mas se eu entro em um banheiro feminino, todo mundo para, olha e fazem comentários.  

Fora do Armário: Você tem uma rede de amigos transexuais? 

Di Santos: Por incrível que pareça, não. Na verdade não tenho amigos transexuais. Aqui a maioria dos meus amigos são gays, lésbicas ou héteros. Em Belém, em geral, o público é ainda mais gay e lésbico mesmo.

Fora do Armário: Você namora? Está solteiro? Já teve compromisso com alguém? Como você se coloca em termos de orientação sexual?

Di Santos: Estou namorando, ou melhor, quase casado. Moro com a minha namorada um pouco mais de um ano e é o meu primeiro relacionamento nesse nível. Só falta a aliança praticamente, porque a convivência é de casados mesmo. Quanto à minha orientação sexual desde sempre eu soube que era exclusivo para o público feminino. Eu sou um homem hétero, essa é a definição na qual me encaixo.

Fora do Armário: O que você diria às pessoas transexuais que ainda não se sentem à vontade para fazer a transição?

Di Santos: Eu diria que ser paciente é a melhor solução. Se você não tem certeza, então não adianta se precipitar. Viva a sua vida e use as oportunidades para se descobrir e a certeza virá com o tempo. 

Fora do Armário: Para encerrar, você gostaria de dizer alguma ao público do Blog Fora do Armário?

Di Santos: Sim! Quero agradecer pela oportunidade de estar sendo lido por um público tão esclarecido e culto como esse. Não se fala sobre sexualidade com tanta firmeza, nem se discute esse assunto com facilidade. É preciso ser humano, leitor, escritor ou alguma coisa desse gênero tão belo para que cheguemos a esse nível de tolerância e compreensão. Fico grato por essa janela que se abriu hoje, devido ao tamanho de humanidade que me recebeu de braços abertos chamado Sergio Viula.

Di Santos em foto do seu perfil no Facebook


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