Incesto materno como "cura gay"?

O amor não é crime


A reporter Lizzie Dearden, em uma matéria feita para o The Independent, importante jornal britânico, fala sobre a situação dos homossexuais indianos em famílias extremamente hostis.

Ironicamente, a Índia foi dominada pelos ingleses entre 1788 e 1914 - o que deixou um saldo simultaneamente positivo e negativo, com proporções diferentes, é claro, para ambos os países a partir de suas interações políticas, econômicas e culturais.

Entre os ganhos para a Índia, podemos citar a democracia, o sistema republicano, o incremento da ciência e da tecnologia, as noções de direitos humanos, apesar destas ainda precisarem ser ampliadas exponencialmente.

Entre as perdas para a nação de Gandhi, podemos destacar a incorporação de muitos dos conteúdos moralistas vitorianos da Inglaterra do século 19, incluindo a pretensão do Império Britânico, com o apoio da Igreja Anglicana de antanho, de controlar as relações entre os indivíduos, inclusive em relações consensuais entre quatro paredes.

A cama que era assunto de Estado e de Igreja na terra dos invasores viria a ser semelhantemente problematizada na terra dos invadidos a partir da "colonização" (leia-se dominação). Terra do mesmo povo que nos deu o Kama Sutra.

Os ingleses deixaram lá uma lei ridícula, da qual eles mesmos já se livraram nas poderosas ilhas da Rainha Elizabeth. Agora, essa lei do tempo do Império Britânico inferniza a vida das pessoas homossexuais na Índia.  E aqui não cabe falar de LGBT indiscriminadamente, porque as transexuais e os transexuais indianos foram reconhecidos pela Suprema Corte da Índia como o terceiro sexo no ano passado. Se essa designação como terceiro sexo procede ou não procede é outra história. O que importa, pragmaticamente falando, é que transexuais passaram a ter seus direitos reconhecidos, enquanto os homossexuais continuaram sendo vistos como criminosos simplesmente por serem quem são e amarem a quem amam.

Portanto, a Inglaterra avançou, enquanto a Índia recuou no que diz respeito ao reconhecimento dos direitos das pessoas homossexuais. Na antiga "ex-metrópole", o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com outros direitos dele advindos, já foi reconhecido, contando inclusive com declarações favoráveis da própria Rainha Elizabeth e com o esforço pessoal do Primeiro Ministro David Cameron. Na contramão dessa evolução no direito civil, a poderosa Índia, ex-colônia que foi influenciada pelo mesmo tipo de moralismo que destruiu a vida do escritor Oscar Wilde e do pai da computação Alan Turing, restabeleceu as leis que punem o cidadão gay indiano com base nos ultrapassados moldes jurídicos vitorianos. Uma verdadeira contradição com a construção da república indiana.

Voltando à matéria do The Independent que ensejou esse post, o que chama atenção é o absurdo de tentar "curar" a homossexualidade de mulheres e homens através do abuso sexual. O tal "estupro corretivo", que foi muito praticado na África do Sul contra mulheres lésbicas, encontrou uma variante extraordinariamente chocante na Índia, porque agora não se trata de uma gangue de imbecis que pensam que sem pênis (preferencialmente o deles) mulher alguma tem direito ao orgasmo - o que já é terrível. Agora, a coisa é mais chocante por se tratar da mãe de um garoto gay que o violou com pretensões semelhantes, segundo a produtora de um documentário sobre o tema. Deepthi Tadanki teria sido informada sobre esse caso em Bangalore durante sua pesquisa para o documentário.

“Membros da família forçaram um garoto gay a ter sexo com sua mãe, numa tentativa de transforma-lo em 'heterossexual'", disse ela ao Times of India.

O filme dela, Satyavati, segue uma história fictícia de uma garota que é estuprada pelo tio depois que os pais passam a suspeitar de seu relacionamento com colegas lésbicas que compartilhavam uma casa.

Pessoas LGBT e ativistas têm protestado contra a discriminação e o preconceito contra as pessoas gays na Índia.
 
Um grupo chamado Coletivo LGBT (LGBT Collective) no sul de Telangana registrou até agora 15 estupros "corretivos" nos últimos cinco anos.

"Temos certeza que existem muitos outros casos, mas eles não são reportados", disse Vyjayanti Mogli ao Times of India.

"Soubemos dos casos, não porque eles denunciaram o estupro, mas porque eles buscaram ajuda para fugirem de suas casas."

A lei esquizofrenicamente vitoriana que a Suprema Corte da Índia reinstaurou diz em sua Seção 377 do Código Penal Indiano que "intercurso carnal contra a ordem da natureza com qualquer homem, mulher ou animal" está proibido. A própria redação do texto dessa lei remete à linguagem eclesiástica tipicamente homofóbica dos tempos do Império Britânico, influenciado por um anglicanismo bem distante do atual. Por isso, sugiro a leitura desse post "De onde vem o ódio de cristãos fundamentalistas contra homossexuais?" Você vai ver que esse ódio é tudo, menos natural. Também verá que a homossexualidade, assim como a heterossexualidade foram ideologizadas em função dos interesses do poder eclesiástico hegemônico de outrora, mas que ainda têm algum eco na mentalidade e no discurso de muitos atualmente.

Quanto ao amor entre pessoas do mesmo sexo, a "ofensa" é punível com até 10 anos de cadeia, apesar de nenhuma condenação ter sido registrada nos anos recentes. Resta saber se o restabelecimento dessa lei não vai estimular denúncias que levem a tal suplício.

Enquanto isso, os homossexuais indianos continuam lutando por seus direitos. Felizmente, muitas pessoas que não são homossexuais têm se unido a essa batalha política e cultural, reforçando as fileiras dos que exigem o respeito a seus direitos básicos como seres humanos.

Veja também: Novela Indiana apresenta romance gay pela primeira vez.

Cartas de Gandhi expõem sua intimidade, inclusive sua homossexualidade.

A pergunta que fica:

Como se pode considerar o amor consensual, espontâneo, livre, prazeroso, inofensivo entre duas pessoas do mesmo sexo um problema, enquanto o estupro, a violência sexual, o incesto forçado é visto como algo saudável ou promotor de algum bem? Que gente louca é essa? Mais ainda: quanto dessa loucura pode estar em você mesmo sem que você perceba? Sim, porque cada vez que você coloca qualquer "mas", "porém", "contudo", "todavia" ao se referir à dignidade e aos direitos à liberdade e à felicidade das pessoas gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneras, você está trabalhando com a lógica que demoniza, criminaliza, patologiza e hierarquiza as pessoas e suas relações a partir de normas arbitrárias e injustas que fazem parecer muito natural um determinado tipo de relação e/ou identidade e antinaturais todas as outras. Seja inclemente contra seus próprios preconceitos. Submeta-os à completa revisão. Abandone-os o mais rápido possível. Substitua-os por pensamentos, palavras e ações irrestritamente humanistas.

Como já disse Einstein, é triste uma época em que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito. Mais triste ainda é ver o preconceito destruindo vidas que poderiam ser felizes, frutíferas e prósperas se fossem apenas deixadas em paz.

Comentários

  1. Que tipo de sociedade reprime o amor e incentiva o crime?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe suas impressões sobre este post aqui. Fique à vontade para dizer o que pensar. Todos os comentários serão lidos, respondidos e publicados, exceto quando estimularem preconceito ou fizerem pouco caso do sofrimento humano.