Comemorando o Dia da Visibilidade Lésbica 2015 com a primeira entrevista de Kátia Viula, a irmã lésbica do ex-pastor que acreditava em "cura gay"... É babado!


O Dia da Visibilidade Lésbica é 29 de agosto (hoje). Estamos no ano de 2015, mas essa é a primeira entrevista publicada com Katia Viula. O Blog Fora do Armário se sente muito honrado em poder publicá-la e espera que os leitores curtam.


Katia Viula e Sergio Viula com Marisa LGBT num sarau muito purpurinado

Sim, de três filhos, nossos pais tiveram dois homoafetivos... "tá dominado... tá tudo dominado..." hehehehe

Agora, minha leitora e leitor babadeiros, vejam o que essa sapinha cada vez mais sapeca tem a dizer. Beijo da biba veterana.   

Katia Viula e Sergio Viula na 6ª Caminhada da Visibilidade Lésbica em Copacabana


Fora do Armário: Como você lidou com sua sexualidade ao longo da vida? Você não se assumiu lésbica desde cedo. Conte-nos um pouco sobre isso.

Katia Viula: As convicções religiosas fundamentalistas que desenvolvi ao longo da vida me reprimiram sexualmente. Isso aconteceu devido à educação cristã machista e patriarcal que tive que educa as filhas desde cedo para reproduzir o papel social de dona de casa e mãe e não admite que a mulher tenha relações sexuais antes do casamento, nem mesmo com o namorado com quem pretende se casar.

Fora do Armário: Você é irmã do Sergio Viula, que completa 12 anos fora do armário nesse ano. Por que foi que ele nunca falou sobre ter uma irmã lésbica nas inúmeras entrevistas que já concedeu, ou mesmo no blog, ou no livro Em busca de mim mesmo? O que mudou agora?

Katia Viula: Porque eu só mergulhei na minha homossexualidade há quase dez anos e, quando o fiz, mantive-me no armário, só saindo definitivamente para as redes sociais no ano passado.



Como segui rigorosamente a orientação de me manter virgem para o casamento, mesmo tendo namorado alguns rapazes da igreja, sem muito entusiasmo, cheguei aos 34 anos com dúvidas do que queria sexualmente. Por vezes cheguei até a pensar que fosse assexuada. E estar solteira não era ruim. Já que a minha única perspectiva, sendo uma cristã fundamentalista, era o casamento hétero e a submissão ao meu marido, o que não me agradava já que era independente financeiramente e já morava sozinha. Mas hoje, fora do armário vejo que o que me faltava era estímulo.

O meu objeto de desejo sexual não era a figura masculina, mas a feminina. E só fui ter consciência total disso, quando fui assediada algumas vezes até dentro da própria igreja por mulheres. Mas havia uma guerra interior dentro de mim que me impedia de ser eu mesma, de dar lugar à minha orientação sexual. Era a visão cristã fundamentalista que me ensinaram contra o que de fato eu sentia do ponto de vista sexual. Então, resisti até onde deu, mas aos 34 anos acabei me envolvendo com uma mulher que foi insistente. Por quase nove meses ela me cercou até que já envolvida emocionalmente acabei me entregando e vivendo uma história de quase 9 anos de relacionamento onde pude ser eu mesma e viver a minha sexualidade plenamente. E vi que de assexuada eu não tenho nada. Simplesmente era uma zebra no meio dos cavalos.

Em setembro faz 10 anos que me entreguei à minha homossexualidade, mas só saí do armário no ano passado depois de terminar o meu relacionamento que já não estava legal. E uma das coisas que foi ficando pesado para mim era justamente ter que parecer ser alguém que eu realmente não era em alguns momentos.   

Fora do Armário: Você teve um relacionamento duradouro, mas agora está solteira. Quais são os pontos fortes e fracos de ser casada e os de ser solteira, especialmente sendo lésbica?


Katia Viula: Sim. Estou solteira. Como disse, meu relacionamento durou quase 9 anos. Foi bom enquanto durou. Tem muita coisa boa da qual posso me lembrar. Só o fato da minha ex-companheira ter me tirado do armário, onde estava enclausurada, já é motivo de gratidão. Mesmo que fosse para viver a minha sexualidade plenamente por apenas um dia, já teria valido a pena.



Depois que terminei, cheguei a namorar, mas estou solteira no momento. Voltando à sua pergunta, em relação às diferenças entre estar casada ou solteira, há vantagens e desvantagens nas duas condições. Precisa-se de muita atitude e criatividade para não se cair na rotina em ambos os casos. Estar solteira não precisa significar estar solitária. E estar casada pode não ser sinônimo de se ter uma companheira de fato. Um(a) bom(a) amigo(a) pode ser mais presente e fiel que muito cônjuge. Então, na minha opinião, a diferença principal entre estar solteira e casada é que enquanto a solteira é dona do próprio nariz, vai aonde quer e faz o que quer sem ter que dar satisfação a ninguém, a casada - que preza por seu casamento e quer viver uma vida plena com a parceira  - não decide nada sozinha sem dar satisfação, comunicar e até pedir a opinião ou a aprovação da companheira.

Por outro lado, enquanto a solteira ganha no quesito liberdade, perde no quesito compartilhamento, companheirismo a duas. A solteira, na hora das dificuldades da vida, pode não ter alguém ao lado para apoiá-la. As pessoas casam, mudam de endereço, e tem muito(a) amigo(a) que só é legal nos momentos de oba-oba. É na dificuldade que a gente vê quem é quem.  Então, viver é uma arte!

Fora do Armário: Considera as mulheres lésbicas mais resolvidas que suas amigas heterossexuais?

Katia Viula: Não. Tem muita lésbica por aí que ainda não está resolvida. Algumas têm dificuldade de se aceitar, outras, medo de ser discriminadas ou perseguidas, por isso, vivem uma vida dupla. Algumas chegam a ter namorados para disfarçar. O machismo em torno da emancipação sexual feminina ainda é muito grande, e muitas lésbicas ainda são regidas por esta mentalidade, mesmo que inconscientemente. E tem muita lésbica que seduz a amiga, mas foge, desconversa na hora do sexo, exatamente como muitas héteros fazem com os carinhas que elas adoram seduzir, mas fogem na hora da transa, fazem de conta que não fizeram nada.

Nesse ponto, os homens são muito mais bem resolvidos, sejam héteros ou homossexuais. Eles não têm grilos em relação ao sexo. São capazes de separar muito bem sexo de amor. Não precisam amar para manter relações sexuais. São capazes de conhecer um cara ou uma garota, segundo a sua preferência sexual, e em seguida ir para um motel.

Neste ponto, as mulheres lésbicas ainda não estão em pé de igualdade com os homens héteros nem com os gays. Precisam se libertar de tabus. Precisam desconstruir o discurso machista que ouviram a vida toda que sexo é só para o casamento, que a mulher só poderia ter relações sexuais no casamento. 

Um exemplo do que estou falando é a pequena presença feminina em boates e bares LGBTs. Elas sempre são a minoria. Todas as vezes que vou, observo isso.

Outro exemplo, é que em agosto do ano passado houve uma passeata lésbica em Copacabana organizada pelo grupo Arco-íris para celebrar o mês da visibilidade lésbica, mas menos de 30 lésbicas assumidas compareceram, o que mostra que muitas vivem a sua lesbiandade de maneira velada.

Fora do Armário: Atualmente, você tem se dedicado a escrever poesias, alguns contos e comentários sobre homossexualidade e religiosidade, especialmente revendo e desafiando conceitos da ala fundamentalista do cristianismo. Fale mais sobre esses trabalhos. 



Katia Viula: Sim. Depois de tanto tempo calada, resolvi começar a falar e percebi que as redes sociais eram um caminho para o diálogo e para fazer uma militância contra a LGBTfobia, a misoginia e o fundamentalismo religioso seletivo hipócrita. Justamente para ajudar a tirar o segmento lésbico da invisibilidade e militar pelo amor nas suas múltiplas formas, resolvi escrever num estilo poético diariamente na minha página “Literatura LGBT por Katia Viula” que trata também dos vários segmentos LGBTs. Com esse mesmo propósito, publiquei site www.amazon.com.br os ebooks “DivaGay” com poesia LGBT, “Ela conta tudo...” com contos lésbicos e “Controversos: o contemporâneo em prosa e verso” com poesia que lida com temas transversais em torno da cidadania e que é muito bom para trabalhar com estudantes.

Visite: https://m.facebook.com/textoslgbt

Mas, para denunciar o fundamentalismo religioso imposto por muitas igrejas cristãs atuais e, ao mesmo tempo, oferecer uma alternativa religiosa para aqueles que sentem a necessidade de continuar vivendo numa perspectiva cristã, criei a página “Reflexões sobre o Cristianismo Genuíno” que faz uma reflexão sobre o cristianismo num viés inclusivo, comprometido com os direitos humanos como Cristo ensinou.


Fora do Armário: Lembro-me que no começo de sua fase assumida para a família, mas não totalmente pública, você demonstrava resistência em visitar igrejas cristãs inclusivas. Atualmente, você convive alegremente com o pessoal da Comunidade Betel, no Rio de Janeiro, que é uma congregação da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM). Neste domingo, 30 de agosto, você entregará a mensagem durante o culto. Fale sobre essa mudança.

Katia Viula: É verdade. Não fazia sentido estar num lugar onde a mensagem pregada ataca a minha própria identidade. Mas no momento em que comecei a ler a respeito do tema homossexualidade e cristianismo, numa perspectiva mais inclusiva, percebi que muito do que se prega por aí não tem sustentação bíblica e histórica.



Em outras palavras, esses pregadores fundamentalistas são desonestos, selecionam trechos do Velho Testamento, textos fora de contexto, só o que interessa com a finalidade de subjugar as mulheres e destruir os LGBTs. Não dá para compactuar com isso. Hoje eu entendo o Cristianismo como a libertação das leis do Velho Testamento.

Como a ICM Betel do Rio pensa muito parecido com o que eu penso hoje, prega um cristianismo de amor e compaixão, onde os direitos humanos são respeitados na sua pluralidade, sinto-me bem todas as vezes que vou lá.

Fora do Armário: Falando sobre pessoas que sofrem o silenciamento do armário em casa, entre amigos e em outros círculos, e levando em conta sua própria experiência, que dica você daria a essas pessoas?


Katia Viula: Posso dizer que é muito sofrido representar o que a gente não é. Quando ainda estava no armário por prudência e covardia ao mesmo tempo, me sentia oprimida, angustiada por não poder ser eu mesma. Mantive-me no armário, principalmente, por causa dos meus alunos adolescentes, pois não sabia como lidar com a exposição da minha homossexualidade a eles, e também por causa dos professores com quem trabalhava que se mostravam muito homofóbicos, às vezes até com piadinhas a respeito do tema. Porém, quando resolvi falar abertamente nas redes sociais a respeito da minha homossexualidade, senti um peso enorme saindo dos meus ombros e uma liberdade de ser eu mesma que não tem dinheiro que pague.



Descobri que os amigos verdadeiros não se afastam por isso. Os que se afastaram não eram amigos de verdade. Só amam o que acreditam. No momento em que você discorda da forma de pensar destes últimos, eles mostram quem realmente são.

Fora do Armário: É inevitável pensar no futuro, falar sobre projetos, sonhos ou ambições, porque o ser humano o Devir permeia os pensamentos humanos continuamente. Existem planos? Fale-nos sobre eles.

Katia Viula: No momento tenho me preocupado em conhecer gente, fazer novas amizades, ampliar o meu conhecimento com muita leitura a respeito da homossexualidade e do movimento feminista. Fazer um mestrado em sociologia é algo sobre o que comecei a pensar nos últimos dias. Também gostaria de fazer uma viagem para um país de língua inglesa para atualizar os meus conhecimentos da língua, estudar um tempo por lá.



Com relação à vida amorosa, ainda não bateu aquela química forte com ninguém depois que me separei. Cheguei a namorar, mas durou pouco. Porém estou fazendo novas amizades. Quem sabe?! No entanto, depois de quase 9 anos casada, onde vivi intensamente para dar certo, porque achei que era para a vida toda, só pretendo mergulhar de cabeça assim de novo, se rolar uma identificação maior, uma química forte, um desejo grande de compartilhar a vida e viver a dois.


Fora do Armário: Antes de terminar, gostaria de oferecer-lhe a oportunidade de falar o que achar que possa não ter sido dito, mas que vale a pena compartilhar. Fique à vontade.

Katia Viula: Aproveitando esse dia da visibilidade lésbica, convido minhas amigas lésbicas a desfrutar mais dos espaços que foram feitos especificamente para nós: festival de cinema gay, boates LGBTs, barzinhos, saraus de literatura lésbica, encontros com temática LGBT, Paradas LGBTs, passeatas LGBTs, etc. Vamos ocupar o espaço que é nosso! Vamos nos permitir mais! Vamos ser felizes!



E quem quiser ainda dá tempo, participe do Sarau de Literatura lésbica que vai acontecer hoje às 17h na Av. Pastor Martin Luther King Junior, 7410 – Irajá – RJ, na ICM Betel Rio, próximo ao metrô. A entrada é franca.

Fora do Armário: Obrigado pela entrevista, Katia Viula. Desejamos que os horizontes sempre sejam muito amplos diante de você. Felicidades! E muito orgulho de ser L-É-S-B-I-C-A, entre muitas outras coisas. ;)  Beijos do lado de Fora do Armário. ^^


Comentários

  1. Adorei a entrevista! Ótimo descobrir que a família de vocês tem dois casos. A família do meu namorado todos os filhos dos pais dele são gays.
    Parabéns Kátia por saber lhe dar com as igrejas inclusivas. Deve ser um ambiente que precisa de muita ajuda e muitos conselhos.
    Grato pela mensagem!

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    1. Que máximo, Thales. Obrigado pelo comentário.

      Abraços, querido.

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    2. Que bom que você gostou da entrevista, Thales Lopes. Com relação à ICM Betel RJ, igreja que visito de vez em quando, eles são ótimos. Aprendo mais com eles do que eles comigo. Vale a pena conhecer. É mais um espaço democrático que se abre para o diálogo com a multiplicidade humana, seja ela sexual, racial, social ou de qualquer outra ordem. Lá todos são aceitos e respeitados como são, inclusive os ateus. Um grande abraço.

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