Coando um mosquito e engolindo um camelo: a ataque a Viviany Belaboni



Por Sergio Viula

Curiosamente, pelo menos no Brasil, as pessoas costumam dar muito valor a bobagens e pouquíssimo valor ao que é realmente relevante. Talvez seja típico dos fúteis e hipócritas de todas as épocas, visto que nos tempos de Jesus, ele mesmo denunciava os fariseus e saduceus que coavam um mosquito e engoliam um camelo. O contexto era simples de entender: os fariseus e saduceus eram capazes de castigar alguém que simplesmente acendesse fogo em casa no sábado, alegando que a pessoa havia desrespeitado o dia sagrado do descanso, mas não perdiam tempo em tirar um boi que caísse  num poço. Claro que a lógica do capital já determinava a "legitimidade" da exceção, enquanto a lógica da vingança determinava a "legitimidade" da punição. Pior ainda, criticavam Jesus por fazer bem aos seres humanos no sábado. Ou seja, o boi do fariseu tinha mais valia do que a vida de um conterrâneo seu. Não é muito diferente hoje. E ironicamente uma transexual incorpora tudo isso de repente.

Viviany Belaboni causou comoção nas redes sociais, na grande mídia e no congresso (entre deputados e senadores que não podem se gabar de um QI muito avantajado e menos ainda de qualquer noção de boa fé) ao realizar um dos protestos mais formidáveis de todos os tempos - e me refiro às centenas, talvez milhares de paradas do orgulho LGBT realizadas ao redor do globo desde o final da década de 1960 - Viviany tocou numa chaga aberta: a violência e assassinato de centenas de LGBT por ódio à diversidade.

Viviany, que é atriz, performou uma crucificação, numa perfeita metáfora da injustiça que pessoas transexuais, travestis, bissexuais, gays e lésbicas vêm sofrendo nos últimos anos a olhos vistos. Não que não tenham sido vítimas de terríveis brutalidades antes, inclusive com a conivência de uma diabólica tríade constituída pela igreja, pelo Estado e pela psiquiatria de outrora, mas agora a violência acontece na rua, em casa, em estabelecimentos comerciais, em áreas de lazer e em áreas onde existe um silêncio tácito para com aqueles que os fariseus e saduceus dos nossos tempos consideram "anormais".

A revista Super Interessante, da Editora Abril, publicou matéria online falando sobre isso. O título era bastante sugestivo: O recorde que não queremos ter: somos o país que mais mata transexuais (publicada em 25/06/15). Acesse-a aqui:
http://super.abril.com.br/comportamento/o-recorde-que-nao-queremos-ter-somos-o-pais-que-mais-mata-transexuais

Pois bem, Viviany Belaboni quase passou a fazer parte dessa macabra estatística no último dia 08 de agosto, sábado, numa rua de São Paulo. Ela estava caminhando e ouvindo música com fones de ouvido, quando dois rapazes começaram a xinga-la e a dizer que ela era um demônio, e que os pastores estavam certos, e que ela devia morrer. Vale lembrar que pastores fizeram campanhas de difamação contra Viviany nas redes sociais, nos púlpitos das igrejas e até no Congresso. Feliciano, Magno Malta e outros pediram até investigação contra a atriz. Tanto que ela está movendo processos por difamação contra Feliciano e outros da mesma estirpe.

Viviany foi espancada e cortada no braço e no rosto em vários pontos. Não morreu por pouco. E isso na maior cidade do Brasil, num lugar onde é mais fácil encontrar dinheiro no chão do que um metro quadrado desabitado.

Felizmente, Viviany sobreviveu. Porém, o episódio deixa clara a relação entre o discurso de ódio, especialmente aquele feito com tema religioso ou por gente religiosa e a violência praticada na rua contra as pessoas que são identificadas como LGBT.

Viviany merece todo o apoio. No entanto, dentre aqueles que falaram tanto contra aquela cena de teatro na Parada de São Paulo, onde o sangue e os pregos eram de mentirinha, não vi um sequer se levantar para falar contra a violência que sangra e mata de verdade.

Lembro-me bem de ter visto gente que se identifica como LGBT dizendo coisas abomináveis contra Viviany e seu protesto - fariseus e saduceus que tiram um boi do poço num dia de sábado, mas são incapazes de fazer o bem ao próximo, mesmo quando esse bem é apenas não atirar mais bosta na Geni (ouvir a música de Chico Buarque pode fazer muito bem à saúde dessa gente).

Também vi transexuais enfurecidas, porque Viviany não apresenta um discurso afinado ao delas. O cisma aconteceu porque ela foi ao SuperPop, da Luciana Gimenez, e disse coisas que incomodam muito as transexuais que se sentem integral e invariavelmente identificadas com o gênero feminino. Seu discurso, de acordo com essas transexuais ultrafeministas se afina mais ao dos homossexuais do que ao delas. E eu pergunto: E daí? O que tem o cu com as calças? Não pode haver transexual diferente do que um determinado grupo pensa que ela já não representa nada mais para esse grupo, mesmo denunciando a violência feita contra ele?

De camarote, eu só pensava como são estúpidos e nada diferentes dos fundamentalistas, do ponto de vista da intolerância, aqueles que não são capazes de aceitar a existência de indivíduos que não se encaixam em suas pequenas formas existências. Ora bolas, nem todo gay é como X. Nem toda/todo trans é como Y. Nem toda/todo travesti é como K. Nem toda lésbica é como W. Nem toda/todo bissexual é como Z. Ninguém é igual a ninguém. E não têm valor APENAS aqueles que dizem exatamente cada palavrinha do meu discurso, sem tirar nem por. Isso é dogmatismo tão farisaico quanto aquele do tempo de Jesus. E não perde nada para o farisaísmo desses santarrões que dificilmente entrariam no Reino de Deus, não fossem estas outras fábulas.

Apoiei o protesto performático de Viviany Belaboni desde o começo. Nunca retirei uma só palavra do que disse. Agora, vejo na carne e na mente dela as marcas da violência de fundamentalistas e de transfóbicos de todos os tipos, e, pior ainda, das línguas maledicentes de LGBT atormentados por preocupações ultradogmáticas com o discurso de quem não segue a mesma escola que eles no que diz respeito à identidade de gênero, assim como de outros tantos LGBT também atormentados por fantasmas da religiosidade que nunca os abençoou, defendeu ou aceitou, mas pela qual morrem de amores e com a qual são capazes de unir vozes para trucidar aqueles que ousam se levantar contra ela para dizer "PAREM DE NOS PERSEGUIR, INJURIAR, AGREDIR  E MATAR."

Viviany, tenha força. Tenha coragem. Se houver qualquer possibilidade de reconhecer esses bandidos ou de conseguir imagens de câmeras ao redor do local, faça o que for possível, dentro da lei, para colocar esses bandidos na cadeia.

Um amigo meu, Edson Amaro, deixou um comentário numa postagem que fiz no Facebook que considero interessante que você leve em consideração:

Edson Amaro De Souza: O melhor que ela poderia fazer seria pedir asilo humanitário no Uruguai ou na Argentina, onde fundamentalistas não se criam. E de lá denunciar para o mundo o inferno que é essa ditadura teocrática que germina.




Ah, e para quem disse "bem feito"... Digo o que Jesus disse quando o crucificaram, e as mulheres choravam - sim, porque aquelas não diziam bem feito, quem o dizia era a turba influenciada pelos fariseus e saduceus: "Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco? (Lucas 23:31)

Se isso acontece a uma pessoa que faz uma performance que não desmerece em nada a religião de ninguém, mas chama atenção para a injustiça, coisa que toda religião devia combater, o que se fará, meu amigo religioso, aos que professam fé diferente da deles ou, meu querido ateu, aos que não professam fé alguma?

Lembre-se: cada vez que você se junta ao coro dos que odeiam a liberdade, a igualdade e a dignidade de todos os seres humanos, com suas semelhanças e diferenças, ou diz 'bem feito' para calúnias, difamações e agressões em nome da religião ou de qualquer outra crença, você abana o fogo para baixo do seu próprio rabo. Seja mais esperto do que isso, por favor.

E que venham mais Vivianys por aí!





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