Jovem ex-testemunha de Jeová e gay fala sobre sua emancipação

Maurício Graziano em 2011 

Maurício é um jovem nascido do amor entre um suíço, filho de italianos, e uma brasileira. Foi ensinado na religião de seus pais, Testemunhas de Jeová. Cresceu na Suíça, mas nunca perdeu a conexão com o Brasil, onde sua avó materna mora até hoje. Tive o privilégio de conhecê-lo em 2014. Ele havia deixado o Salão do Reino das Testemunhas de Jeová havia pouco tempo e pudemos trocar boas ideias sobre religião e emancipação. Ele leu Em Busca de Mim Mesmo. Disse que gostou, emprestou para a avó, e comprou outro para dar de presente. Logo em seguida, voltou para a Suíça, mas esteve no Brasil novamente há pouco tempo.

Jovem, inteligente e comunicativo, Maurício fala muito bem a língua portuguesa, mas sente-se mais à vontade para conversar em inglês. Ele carinhosamente concedeu ao Blog Fora do Armário a entrevista que você lerá abaixo:

Fora do Armário: Mauricio, você foi testemunha de Jeová, certo? Quando você nasceu sua família já pertencia à organização?

Maurício: Certo. Meus Pais se conheceram e se casaram dentro da organização. Meu pai nasceu na Suíça, de pais italianos, e minha mãe é carioca. Se conheceram na Assembleia Internacional das TJ no Rio de Janeiro e se casaram em 1992. Quando eu nasci, em 1994, aqui na Suíça, a minha família já fazia parte da organização.

Fora do Armário: Conte-nos sobre sua experiência no Salão do Reino.

Maurício: Desde infante, fui levado ao Salão do Reino pelos meus pais. A reunião costumava ser segunda-feira, à noite; sexta-feira, à noite; e domingo, pela manhã. Em 2009 a organização decidiu reduzir as reuniões para duas reuniões por semana. Porém, a segunda-feira tinha que ser reservada para estudar em família.

Como criança sempre tive amiguinhos no Salão do Reino. A gente brincava antes da reunião começar e depois dela terminar. Amizades fora da organização não são recomendadas e só surgiram depois que eu comecei a frequentar o jardim de infância, mas continuavam sendo muito limitadas. Nos cinco anos do meu ensino fundamental, o meu melhor amiguinho foi um menino que fazia parte da minha congregação. 

Como criança era muito chato ter que me vestir formalmente, ir para o Salão do Reino, e me sentar por aproximadamente duas horas calado, quando eu não entendia nenhuma palavra. Mas acredito que foi muito enriquecedor para o meu vocabulário (risos).

A primeira atração pelo mesmo sexo da qual eu ainda me lembro foi em 2001 (eu tinha 7 anos), quando ganhei um CD do cantor Italiano Tiziano Ferro. Gostava tanto da foto dele naquela capa que fantasiava sobre beija-lo. Por sentir-me muito culpado, contei para minha mãe. Ela me disse que eu tinha que orar para Jeová, e ele ia me ajudar a lutar contra isso.

Às vezes me pergunto quando foi que ficou claro para mim o que que é a homossexualidade. Não lembro direito, mas se nessa época já via essa fantasia como algo errado, então acho que eu já estava bem doutrinado.

Decidi "dedicar minha vida" à organização em 2011 e fui batizado em julho do mesmo ano. Pensava que para mim aquela era a verdade e que não existia outra, então eu me sentia como se não tivesse nada a perder.


Em 2012, conheci uma garota que pertence à organização e mantivemos contato. Eu gostava muito dela, mas de uma forma muito platônica, e depois de algumas semanas começamos a nos encontrar com mais frequência. Quando ela mostrou interesse, achei uma boa oportunidade para conhecê-la também, porque minha intenção ainda era viver uma uma vida dentro do armário. 


Mas, assim que ela exprimiu os sentimentos afetivos dela, eu caí numa fase depressiva, e um dia, ao voltar do trabalho, contei para os meus pais e me assumi gay. Eles falaram que a decisão era minha: escolher entre a aprovação de Deus ou viver uma "vida homossexual". Por mais um tempo, fiquei dentro da organização.

Já sabia que depois de me formar em farmácia, eu não quereria mais morar na Suíça. Morar no Rio com meus parentes ainda não era uma opção, porque eles não pertenciam à organização, e viver com eles significaria um alto risco de eu perder meus princípios e eventualmente abandonar a organização. Porém, no início de 2012, eu conheci um grupo de Testemunhas de Jeová num ônibus turístico em Roma. Eles também eram turistas, missionários que se mudaram dos EUA e Canadá para o México, porque a organização precisava de pessoas que falassem inglês para divulgar a Palavra lá. Estava considerando me mudar para o México para sustentar a obra. 


Então, em outubro de 2012, visitei o México por duas semanas e estava determinado a me mudar depois da minha formatura. 

Assim que voltei, conheci pela Internet (ainda tinha 18 anos na época e uma visão sobre relacionamentos bem distorcida) um homem que, assim como eu, é um fã dedicado da Madonna e comecei a conversar com ele. Com o tempo, o contato ficou muito mais frequente. A gente se falava muito. Tinha dias em que eu acordava 1 hora antes do trabalho para conversar com ele pelo Skype, e me apaixonei por ele. Sonhava em viver em Los Angeles com ele depois de me formar.  


Mas tudo isso pra mim era um peso, porque eu estava vivendo uma vida dupla. Sabia que nunca ia poder dar-lhe o amor e a atenção que ele merecia. 

Pensei em escrever uma carta assinada e abandonar a organização de vez, mas acho que para os meus pais teria sido um choque e muito mais pesado para "aceitar" (coisa que até hoje não aconteceu). Começou mais uma fase muito difícil pra mim.

Fora do Armário: Em que ano você deixou a Sociedade Torre de Vigia?

Maurício:  Deixei a Sociedade em Março de 2013. Em fevereiro de 2013, tinha viajado sozinho para visitar um amigo e conheci um homem com o qual decidi me relacionar. Quando voltei para casa recebi uma visita dos anciãos da congregação e fui questionado. Não tinha escondido a minha viagem "mundana" e tinha publicado fotos dela nas redes sociais, coisa que chamou a atenção deles. 

Contei tudo: que não tinha mais vontade de continuar, que sou gay e também confessei o meu "pecado".
Sede das TJ nos EUA: Sociedade Torre de Vigia
Sete dias depois fui chamado para responder a uma comissão judicativa, um tipo de tribunal religioso. Lá, ficou decidido que eu seria desassociado, ou seja, excomungado da congregação, porque não tinha me arrependido do pecado.

Foi ao mesmo tempo um choque e um grande alívio. Uma parte da minha mente me dizia que eu nunca ia ser feliz fora da organização, mas por outro lado, eu sabia que todas as possibilidades estavam agora abertas para mim e que poderia fazer o que quisesse.


Fora do Armário: Qual foi a reação dos seus pais, parentes e amigos TJ? 

Maurício: Meus pais ficaram devastados e não entendiam o porque de todo isso. Tivemos muitas discussões e momentos difíceis, porque, a partir daquele momento, cada um queria fazer a sua opinião valer, tanto eu como eles.
 
Os outros parentes e amigos simplesmente cortaram relações comigo imediatamente.

Fora do Armário: Quando você começou a pensar em deixar a organização, você recebeu apoio de outros TJ que saíram também ou fez essa transição sozinho? Como se sentiu nesse período?
Maurício: No início comecei a visitar sites "apóstatas", tais como jwfacts.org, taze.co, jwsurvey.org e aawa.co.

Quando entrei em contato com minha tia que não é TJ, contei a situação pra ela e ela me deu o contato de um amigo dela que também deixou a organização por conta da sexualidade. Graças a ele, ficou claro pra mim que a vida e a felicidade não acabam depois de largar a organização. Pelo contrário, começam de verdade. Essa foi uma fonte de esperança pra mim. Hoje em dia ainda o vejo como um bom irmão e sou grato pelas coisas que ele me ensinou.

Porém, só procurei esse apoio um mês antes de deixar a congregação. Antes disso, os pensamentos sobre deixar a organização vinham da leitura do material "apóstata".

Fora do Armário: Qual é a visão da Sociedade Torre de Vigia sobre a homossexualidade? O que você acha dessa visão?

Maurício: "A Bíblia não fala diretamente dos fatores biológicos envolvidos nos desejos homossexuais, embora reconheça que todos nós nascemos com a tendência de ir contra os mandamentos de Deus. (Romanos 7:21-25) Mas, em vez de focalizar a causa dos desejos homossexuais, a Bíblia simplesmente proíbe as práticas homossexuais." (http://www.jw.org/pt/ensinos-biblicos/perguntas/biblia-diz-sobre-homossexualidade/#?insight[search_id]=9900c557-647b-4da2-8300-a6dfeab715de&insight[search_result_index]=1 [site oficial da Sociedade Torre de Vigia])

Um Testemunha de Jeová homossexual dedicado tem duas escolhas: ou continua solteira para o resto da vida ou se casa com uma pessoa de sexo diferente do seu.


Um homossexual nunca vai poder viver um Amor verdadeiro dentro da congregação.

Essa visão é a mesma visão que a maioria das religiões cristãs têm. Como não acredito que a Bíblia seja um livro inspirado por alguma entidade espiritual, não tenho uma opinião sobre essa visão. Ela é simplesmente tão irrelevante pra mim quanto qualquer outra doutrina bíblica.

Fora do Armário: Como é vista pela congregação do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová a pessoa que abandona a organização?
 

Maurício: O Corpo Governante proíbe o contato dos membros da congregação com qualquer pessoa que foi batizada na organização e depois abandonou a congregação ou foi excomungada.

Qualquer pessoa que não concorda plenamente com os ensinamentos e as doutrinas do Corpo Governante é considerada apóstata.

"
Suponha que um médico lhe recomendasse evitar contato com alguém que está infectado com uma mortífera doença contagiosa. Você entenderia as palavras do médico, e você seguiria estritamente o seu conselho. Bem, os apóstatas estão "mentalmente doentes", e tentam contaminar outros com seus ensinamentos desleais. Jeová, o Grande Médico, nos diz que devemos evitar o contato com os apóstatas." (Edição de Estudo da Sentinela, 15 de Julho de 2011 pág. 16)

Fora do Armário: Comparando o tempo em que você viveu nesse círculo religioso - e dentro do armário - com o momento que você vive agora, quais foram os ganhos do ponto de vista pessoal ao deixar a organização? Houve perdas? Se tivesse que fazer essa transição para fora do armário e do Salão do Reino de novo, faria algo diferente? 
 


Maurício: Ganhei uma liberdade pessoal que nunca tinha tido antes. Foi uma emancipação completa. 

Cinco meses depois de deixar a organização, fui pro Rio de Janeiro e passei 15 meses lá. Foi uma experiência maravilhosa. Tive uma família que me aceitou do jeito que eu sou, e experimentei muito mais liberdade pessoal. Consegui desconstruir o preconceito em relação aos LGBTs conhecendo muitos LGBTs maravilhosos que hoje em dia são ótimos amigos.
 
Tive o meu primeiro relacionamento maravilhoso. Hoje, apesar de não sermos mais namorados, somos ótimos amigos.

Não consigo pensar em nenhuma perda que tive deixando a organização, por que as coisas que parecem ser perdidas na verdade nunca existiram. Por exemplo: várias pessoas cortaram o contato comigo depois de deixar a organização.

 
Uma pessoa desassociada poderia lamentar que perdeu amizades. Mas pra mim, isso não tem nada ver com amizade. Não foi um Amor incondicional. Durou enquanto tínhamos as mesmas visões sobre a vida e sobre deus; assim que isso mudou, a amizade se dissolveu. Não lamento.

Se tivesse que fazer essa transição de novo, faria muito mais cedo. Diria bem cedo para as pessoas e para os meus pais que sou gay, lutaria muito mais contra o preconceito, contra as doutrinas com as quais não concordo. Não teria me batizado.


Fora do Armário: Que mensagem ou conselho você deixaria para as pessoas LGBT que vivem no armário? 


Acho que não tem nada que uma pessoa possa dizer para alguém que vive dentro do armário que vá fazer a pessoa mudar o pensamento ou que possa dar a coragem para sair. É um processo interior, pessoal e que acontece dentro da própria pessoa. 


Infelizmente ainda existem muitas pessoas que não tem a coragem de lutar contra o preconceito e assumir a homossexualidade, continuam vivendo uma vida de mentira. Mas que bom que tem muitas pessoas que acordam e enxergam que esconder a verdadeira identidade é um ato que derrota a pessoa por dentro, uma vida de sofrimento todos os dias. E eu tive que questionar as doutrinas para ver como tudo isso é injusto, que eu não posso ter a mesma liberdade de viver a minha identidade como têm as pessoas heterossexuais na organização. Depois disso, você vai juntando e juntando mais e mais força, e quando essa força é suficiente, você consegue dar o passo necessário para se libertar.
 

Acredito que esse seja o processo pelo qual a maioria das pessoas LGBT passa antes de se libertar. Mas a decisão de acordar tem que ser da pessoa mesmo, e essa decisão é muito mais difícil quando a pessoa é doutrinada.

Posso dizer com certeza absoluta que VALE A PENA todo o esforço e sofrimento. Viver a própria verdade/identidade não tem preço. Inclusive, esse é um dos motivos pelo qual eu dei essa entrevista tão abertamente: não tenho nada a esconder. Quero que as pessoas me amem pela pessoa que eu realmente sou, e essa história faz parte da minha vida, de quem eu sou hoje.

Esses sites fornecem mais informações sobre a Organização da Torre de Vigia:
http://www.jw.org (Site oficial da Sociedade Torre de Vigia)

Ex-testemunhas de Jeová:


Fora do Armário: Obrigado pela atenção e pelas respostas, Maurício. Certamente, serão palavras de estímulo e inspiração para muitas pessoas que leem esse blog ou que virão a lê-lo no futuro. Forte abraço, queridão.




Maurício Graziano em 2014, quando nos conhecemos. Noite fantástica da festa Pop Bitches com muitos hits de Madonna no TV Bar.

Comentários

  1. Sou ex-"estudante da Bíblia" dos TJs e parte da minha família é TJ ainda hoje. Sei como é difícil para uma TJ abandonar a "verdade",e sei como é difícil ser gay e TJ. Esse relato de experiência é uma ajuda e tanta para inúmeros gays TJs. Parabéns, Maurício, pela coragem! :)

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  2. Ficou mais gato quando saiu do armário =)

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  3. Eu tbm fui TJ quase a vida toda até os 22 anos. Abandonei a Torre de Vigia em 2011. O processo interno pelo q passei foi muito parecido com o da entrevista, embora no meu caso o drama tenha sido um pouco pior...

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  4. Muito bom. Conheci o Maurício na TV Bar e tive a oportunidade de estar com ele numa passeata contra a homofobia em Copacabana. Maurício é gente muito boa e não parece ter sido essa pessoa tão acorrentada por doutrinas desumanas. Que bom que mais um homossexual conseguiu sair praticamente ileso dessa atmosfera religiosa doentia! Seja muito feliz, Maurício! Um abraço.

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  5. Vivi quase a mesma história; minha mãe e meus irmaos são testemunhas de Jeová; e eu abandonei a religião aos 16 anos e não me arrependo sinceramente!; gosto da minha familia os respeito muito; mas aquela vida religiosa não é pra mim! Definitivamente!; e acho que o melhor que temos a fazer na vida é sermos nos mesmos.

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  6. Aguarde o juízo de Jeová agora...mais ainda a tempo.vlw

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    1. Obrigado por confirmar o que Maurício disse, Liquida. Mas pode crer: Jeová é tão perigoso quanto a sombra de sua própria imaginação apavorada pelas fábulas da STV e outras semelhantes.

      Livre-se dessas fábulas. Ainda há tempo. ;)

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    2. Quem tem que aguardar é você irmão, que se esconde no anonimato e julga no lugar Dele!

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  7. Eles tirarm o privilegio. Da minha mae e proibiu. Ela de morar comigo. So por que sou gay

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  8. Eles proibiram minha mae de morar comigo por eu ser homossexual é. Tao triste

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  9. Obrigado por deixar esse comentário tão pessoal, Vanusa. Não desanime. O problema não é vc, são eles. Essa é uma organização extremamente perigosa para a saúde mental de seus associados. Coragem e força para viver de bem consigo mesma. Beijos.

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  10. Por favor,como entro em contato com o Maurício?
    Aliás,ótimo post!

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    1. Manda seu contato para mim no sviula@hotmail.com que eu repasso. Vlw pelo comentário. Compartilha com a galera. Abraço.

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