"Cura gay": Carta ao Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Sr. Paulo Pimenta



Rio de Janeiro, 19 de abril de 2015

Ao  Sr. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Sr. Paulo Pimenta,

Meu nome é Sergio Viula, carioca, 46 anos, professor, divorciado depois de 14 anos de casado e pai de dois filhos, graduado em teologia pelo Seminário Teológico Betel, instituição que atua na formação de pastores, missionários e outros ministros evangélicos há décadas, em filosofia pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e mestrando em letras (linguística) nesta mesma instituição. 

Como é do conhecimento de muitos, participei ativamente de um grupo de “cura” para homossexuais – o MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia), iniciado por João Luiz Santolin, Liane França e eu, em 1997, quando fizemos nossa primeira abordagem com material produzido pelo MOSES durante a Parada LGBT de Copacabana. O objetivo dessa organização era transformar homossexuais em heterossexuais ou convencê-los a viver no “celibato”. A aparência era de que havia muita psicologia envolvida nisso tudo, quando – na verdade – o que se fazia era revestir dogmas religiosos produtores de culpa, medo e outras neuroses com linguagem psicologizada.

Alguns auto-designados “psicólogos cristãos” pretendem forçar esses dogmas religiosos sobre a ciência da psicologia humana e manipular pessoas confusas ou perseguidas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Uma das pessoas mais atuantes nesse sentido é a Dra. Rozangela Justino, psicóloga a quem conheci nos tempos em que frequentava o Seminário Teológico Betel, no bairro do Rocha, Rio de Janeiro. Dra. Rozangela Justino costumava dar palestras em seminários sobre “homossexualismo” (sic) promovidos pelo MOSES e pregar em cultos que se realizavam na Igreja Batista da Esperança, na Av. Visconde de Inhaúma, 37 -  Centro do Rio de Janeiro. A mensagem era sempre a mesma: “homossexualismo” (sic) é pecado, é perversão do plano de Deus para a sexualidade humana e pode ser transformado. Aí entrava um híbrido de linguagem psicológica e conteúdo cristão. Infelizmente, muita gente levava mais a sério o trabalho do MOSES por causa dos “psicólogos cristãos” envolvidos. A Igreja Batista da Esperança mudou de pastor e este cancelou esse tipo de evento naquelas paragens. Depois que foi disciplinada pelo Conselho Federal de Psicologia, a Dra. Justino se afastou do cenário público, mas a Dra. Marisa Lobo parece ter decidido preencher essa lacuna. Com esta senhora, nunca travei qualquer contato pessoal, mas já vi muitos absurdos  publicados via Twitter, Facebook e por meio de seu blog pessoal.

Ao mesmo tempo em que fui um dos fundadores deste grupo, eu era - antes de qualquer coisa - uma vítima dessa mentalidade imposta por pregações homofóbicas sobre pecado e condenação que a psicologia não corrobora, mas que é defendida com unhas e dentes por esses chamados “psicólogos cristãos” – o que me custou muito sofrimento pessoal. Acreditando que fosse minha obrigação seguir as orientações dos pregadores e desses “profissionais”, acabei me casando com uma moça da igreja, com quem vivi por 14 anos, tendo gerado uma filha e um filho (ambos maiores de idade agora). 

Apesar do aparente “sucesso” do casamento, eu me consumia internamente por não assumir minha orientação sexual e viver de acordo com a mesma. E foi assim que eu passei 18 anos na igreja, sendo que 6 desses anos foram dedicados ao MOSES, cuja primeira atividade foi realizada por mim e mais duas pessoas – ainda em caráter oficioso – na Praia de Copacabana, durante a Parada do Orgulho LGBT de 1997, e se tratava de proselitismo, com distribuição de panfletos apresentando a organização. Meu envolvimento com o MOSES foi de 1997 até 2003.  O site UOL publicou uma entrevista comigo que pode ser útil para uma visão mais ampla sobre esse tema da suposta “cura gay” e dos ditos “ex-gays”.

Durante todo o meu tempo de igreja, eu ouvi pregadores difamando minha orientação sexual, minha afetividade, minha sexualidade, mas foi durante esses seis anos trabalhando com o MOSES que meu sofrimento atingiu o ápice. Foram horas de aconselhamento, oração, leitura de material religioso (com linguagem “psicologizada”) a respeito do que eles insistem em chamar de “homossexualismo”, bem como participação em congressos, seminários, cruzadas até mesmo durante eventos LGBT, etc.

Depois de 14 anos casado com a mãe dos meus filhos, cheguei à conclusão de que não adiantava mais lutar contra mim mesmo. O ódio que nutri contra minha sexualidade era fruto do que ouvira desde cedo por parte de pessoas mal resolvidas ou envenenadas por pensamentos homofóbicos. Decidi, então, ser eu mesmo e ser feliz. Mais do que aceitar minha orientação sexual, eu cheguei à conclusão de que devia celebrar a vida amando, crescendo, produzindo e me realizando de acordo com minha sexualidade e minha identidade. Decidi conversar com minha então esposa, com pastores que eram colegas de ministério, com as lideranças do MOSES e de outras organizações com as quais trabalhava. Obviamente, foi um momento doloroso, porque todos queriam que eu recuasse em minha decisão de assumir o controle da minha vida, mas para mim foi uma verdadeira libertação. Posso dizer que também foi a libertação de minha ex-esposa que finalmente poderia refazer sua vida ao lado de alguém com quem ela pudesse ser feliz; Eu, sem aquilo que os fundamentalistas insistem em chamar de pecado e que agora também querem chamar de doença, com a conivência da lei. Ela, não mais casada com alguém que não estava completamente feliz naquela relação.

Felizmente, graças à minha tenacidade e vontade de superar tudo isso, consegui refazer minha vida, mas não sem um custo emocional e financeiro altíssimo. Depois de alguns anos, meus pais se reaproximaram. Meus filhos sempre me apoiaram. Conversamos francamente sobre tudo isso desde que minha filha tinha 12 e meu filho, quase isso – cada um a seu tempo. Meu filho tem agora 20 anos e minha filha 23.

Ter ficado livre do controle mental exercido por esses “fiscais da sexualidade alheia” abriu-me inúmeras portas existenciais onde antes eu só via paredes. Falo sobre tudo isso com muito mais profundidade no meu livro “Em Busca de Mim Mesmo”, que é um relato biográfico para além do meramente pessoal. É um livro que nasce da vontade de dizer que ninguém precisa submeter-se a esse tipo de sofrimento existencial por ser gay, lésbica, bissexual, transexual, travesti ou seja qualquer uma das inúmeras variações de gênero. Afinal, equilíbrio emocional sem amor próprio não existe. E o que essas pretensas “terapias” fazem é promover o ódio a si mesmo.

Por isso, considero extremamente danoso que o Deputado Federal Marcos Feliciano queira associar uma das mais importantes Casas Legislativas do Brasil a essa falácia de “terapias ex-gays” (ver mais no meu podcast A Falácias da Reversão Sexual). E disso dão testemunho diversas outras organizações que encerraram suas atividades recentemente por considerarem inúteis e danosos tais procedimentos.

Cito duas grandes organizações internacionais das quais muitos desses movimentos no Brasil importaram ideias: Exodus International e Love in Action, ambas nos EUA. Interessante que ambas tenham sido encerradas alguns anos depois que eu fiz minha primeira denúncia pública sobre o engodo e os danos que tais organizações promovem com as chamadas “terapias ex-gays” ou “cura gay”. Favor conferir referências sugeridas ao final desta carta.

Sergio Viula
Teólogo (ex-pastor batista), Filósofo, Autor e Blogueiro
Celulares: XXXXXXXXXX (só na carta entregue em mãos)

Mais informações sobre Em Busca de Mim Mesmo (versão impressa esgotada, mas o livro continua disponível em e-book).





Referências sugeridas:


As Falácias da Reversão Sexual (podcast): https://www.youtube.com/watch?v=yiSNLQZfPfI 
 
Exodus International:
Carta aberta do presidente da Exodus sobre os danos das “terapias ex-gays” - http://www.foradoarmario.net/2013/06/alan-chambers-presidente-da-exodus.html


Líder da Exodus reafirma que "Cura Gay" não existe: http://www.foradoarmario.net/2012/08/lider-da-exodus-reafirma-que-cura-gay.html
 
Love in Action:
Líder da homofóbica organização Love in Action sai do armário: http://www.foradoarmario.net/2011/10/lider-da-homofobica-organizacao-love-in.html

Comentários

  1. Gostaria muito de poder conversar com você, seria possível isso ? Aguardo R..

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    1. Diego, me adiciona no FB e fala comigo por mensagem direta: https://www.facebook.com/sergio.viula

      Abração,
      Sergio

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