Crentes na Parada do Orgulho LGBT em São Paulo?

Foto publicada no site da revista EXAME.



Por Sergio Viula


Logo que a gente fala em ódio, vem à mente a figura de algum fundamentalista vociferando contra tudo o que não esteja sob o domínio do seu voraz cajado, que mais se parece com um aspirador de notas, moedas e qualquer coisa que signifique riqueza. Mas, felizmente, a maioria das pessoas com alguma crença rejeita esses fanáticos e cada vez mais gente percebe o risco que eles representam quando seguidos cegamente.

Infelizmente, porém, muitos evangélicos ou pessoas que simpatizam com essa crença ficam divididos entre a ideia de não reprovar esses pregadores publicamente, temendo pecar contra Deus por falar de seus "ungidos", e a mais completa rejeição de tais atitudes e palavras, por entenderem que estas não condizem com o espírito do Evangelho. Jesus nunca disse uma palavra sobre os homossexuais. E lembrem-se que homens e mulheres que amavam pessoas do mesmo sexo perambulavam pelo mundo greco-romano - o mesmo em que Jesus mesmo nasceu, cresceu e pregou. Essa não parece ter sido uma questão para Jesus. Já os vendilhões do templo, os dogmáticos hipócritas, os que coavam um mosquito e engoliam um camelo - coisas que esses pregadores fazem o tempo todo - esses, sim, foram alvo de sua mais rigorosa reprovação.

Pessoalmente, adoro ir às Paradas do Orgulho LGBT, mesmo que não fique até o final. Vejo essas manifestações como excelentes meios de resistência, principalmente porque o faz com alegria e bom humor.

E os LGBT-fóbicos entendem isso muito bem. Tanto que difamam as paradas o quanto podem. Eu mesmo, em 1997 alguns anos depois, fiz incursões nas Paradas do Orgulho LGBT de Copacabana, Rio de Janeiro. Na primeira, fomos eu, João Luiz Santolin e Liane França, os três fundadores do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia). Olhando para trás hoje, vejo quanta imbecilidade estava envolvida nesse meu ato. Tudo o que as pessoas LGBT e as pessoas que não são LGBT presentes às Paradas desejam é celebrar a diversidade e dizer: "estamos aqui e não vamos desaparecer", "nosso amor não é menor que qualquer outro", "nossos direitos têm sido violados, mas vamos trabalhar para corrigir isso", "o mundo será melhor quando todos forem respeitados em seu direito de ser e de amar", etc.

Hoje em dia, totalmente assumido (mais fora do armário, impossível), vou às paradas como membro da comunidade LGBT e como militante através dos meus canais e das ações que promovo e/ou apoio.

Soube que alguns crentes foram à Parada LGBT de São Paulo neste domingo (07/06/15) pedir desculpas à comunidade LGBT pelas agressões promovidas por pastores e crentes. Penso que, apesar de simpática, à primeira vista, essa ação deve ser vista com uma saudável dose de desconfiança. Explico:

Não vejo qualquer sentido em que se "peça perdão" por pregadores homofóbicos e transfóbicos, enquanto estes continuarem ocupando os púlpitos para dizerem as mesmas barbaridades, sem serem disciplinados por suas próprias convenções denominacionais por causa disso. E não apenas isso, mas muitas dessas pessoas que dizem 'desculpem-nos" votam nesses fundamentalistas que infestam o Congresso com o que há de pior em nossa sociedade. Como é que um pedido de "desculpas" assim pode fazer qualquer diferença prática? Essa me parece apenas mais uma estratégia de marketing igrejeiro.

Além disso, proponho a seguinte hipótese: digamos que eu fosse a uma dessas igrejas "arrependidas" com meu namorado, e nos sentássemos juntos no templo, e ouvíssemos a pregação enquanto eu colocasse um braço ao redor do ombro dele, exatamente como muitos outros casais fazem, e na hora da ceia, decidíssemos tomar o pão e o vinho, será que não seríamos discriminados por sermos gays e nos relacionarmos afetivamente um com outro? Quase 100% de certeza que sim. Sabem que não faz isso? As igrejas que são realmente inclusivas. Essas não apenas aceitam a participação de casais homoafetivos ou de pessoas transexuais e seus/suas parceiros/parceiras, mas os encorajam a participar. Qualquer coisa menos que isso é mera demagogia e discurso falacioso.

Coloco essa hipótese só para mostrar como as coisas têm que mudar efetivamente dentro dessas igrejas antes que elas venham aqui fora nos dizer "desculpem-nos". Mas, para a maioria das pessoas LGBT, isso não faz a menor diferença. Esses indivíduos estão ocupados demais para dar atenção às mesquinharias de gente que vive de mal com a vida.

Sugiro que essas pessoas, se estão realmente oferecendo a destra de comunhão, façam pressão a favor das pautas que promovam a igualdade e combatam efetivamente a LGBT-fobia. E que o façam publicamente em suas redes sociais, em seus círculos familiares e de amigos, em seus locais de trabalho, sempre que um político em campanha ou com mandato fizer ou disser algo que prejudique a comunidade LGBT, não colaborem (denunciem!!!) centros de recuperação que pegam travestis e transexuais e as humilham dizendo que vão transforma-las em homens de verdade (o mesmo fazem com gays, mas são ainda mais cruéis com as pessoas transgênero), e por aí vai. Com ações assim, demonstrarão genuíno envolvimento na construção de um mundo mais justo e melhor.

Muita gente me pergunta qual é a minha relação com o protestantismo hoje em dia, com o cristianismo de um modo geral. Minha resposta é que não mantenho qualquer relação com o protestantismo, exceto a do diálogo com aqueles que estão dispostos a construir um mundo mais humanista, o que inclui aquelas igrejas mais habituadas a pensar fora da "caixinha" dogmática, construída a partir de equívocos que já custaram vidas preciosas ao longo da história e nos dias atuais. A relação com essas igrejas é a da amizade e da troca de ideias. Nada mais que isso.

E tem sido assim desde que saí do armário. Havia militado no MOSES entre 1997 e 2003 e no evangelicalismo, de um modo geral, por 18 anos, 14 destes casado com uma mulher com quem tive dois filhos. Neste ano de 2015, completo 12 anos fora do armário. E tinha gente que dizia que minha saída do armário era só um surto passageiro. Dá para acreditar nisso?

Lembro de gente dizendo que eu não ficaria mais que seis meses fora daquilo que eu chamo hoje de "sistema opressor", mas doze anos já se passaram... e se meus planos de viver até os 90 se concretizarem, quero ter o prazer de experimentar muitas alegrias e também de fazer muita coisa para efetivamente para colaborar com o esclarecimento e a humanização daqueles com quem eu tiver contato.

Tenho certeza que verei coisas extraordinárias acontecendo nesse país e no mundo. De fato, já tenho visto. Quem fica muito focado nesses pregadores do ódio acaba deixando de ver a beleza das conquistas que estão sendo efetivadas em toda parte. Ao contrário do que muita gente, eles têm perdido em muitas frentes. E, honestamente, apesar da minha luta contra o obscurantismo ocupar uma boa parte do meu tempo, não deixo de curtir a vida - essa coisa linda que os pregadores da morte tanto difamam.
 

Penso que aí está o equilíbrio: não adianta combater o ódio se você mesmo não for capaz de amar. E eu tenho amado muito!

Alguns anos depois de sair do armário, casei-me com outro homem. Vivemos um total de sete anos juntos, apesar do casamento ter sido efetivado no cartório pouco antes da separação. Coisas da vida... Acho que estou mais do que tarimbado nessa coisa de casamento (risos). Sim, porque já estive num casamento heterossexual e num casamento homossexual, sucessivamente, e posso dizer que vida cotidiana é a mesma. Agora, afetivamente e sexualmente falando, sem dúvida, é infinitamente melhor estar com quem você deseja de fato do que tentar se adequar a normas ditadas por outros. Atualmente, namoro outro cara, porque a vida só acaba quando acaba.

E que sentido faria viver sob o comando de quem não dá conta nem de si quanto mais da minha vida, como é o caso desses dogmáticos paranoicos? Nada melhor do que ser você mesmo, doa a quem doer, desde que você respeite os direitos básicos de cada ser humano, como espera que respeitem os seus.

E foi pensando nisso que eu criei o Blog Fora do Armário (www.foradoarmario.net), que já passou dos 3 milhões de acessos. Também escrevi os livros Em Busca de Mim Mesmo e Crônicas de um Casamento Duplamente Gay, e vez por outra, faço vídeos para falar sobre coisas relacionadas aos interesses da comunidade LGBT.

Sou grato às pessoas que me acompanham e promovem ideias semelhantes, porque é dessa massa que se faz um mundo novo e melhor.

Concordo plenamente com a mensagem na placa que o jovem segura enquanto marcha na Parada do Orgulho LGBT (foto acima):

Meu amor vence o ódio. 

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