Está difícil para todo mundo

 Cena da série Glee: Kurt e Blaine


Está difícil para todo mundo


Essa semana foi rica em encontros significativos e reflexões sobre relacionamentos amorosos. Vou começar pelo final, ou seja, esse domingo, que já vai terminando.

Tive o privilégio de encontrar com Gustavo e Paulinho num quiosque quase em frente ao hotel Sofitel. Gustavo é um amigo de longa data que eu só conhecia virtualmente. Ele me acompanha desde o comecinho do blog Fora do Armário. Lembra-se do Formspring, ou nem ouviu falar? Pois é, ele me seguia lá e fazia perguntas muito legais. Tanto que tem pergunta dele lá no livro Em Busca de Mim Mesmo, numa seção só para perguntas e respostas. Aliás, Gustavo foi um dos primeiros leitores desse livro. Depois, leu também Crônicas de um Casamento Duplamente Gay, e me confidenciou que a leitura o estimulou a formalizar legalmente sua união de 18 anos. Precisamente hoje, eles fizeram um ano de casamento civil.

Nosso encontro durou uma hora e meia e foi extremamente agradável. Conversamos muito e demos boas risadas. Gustavo e Paulo são um exemplo de relacionamento bem-sucedido.

Um dos pontos de nossa conversa foi exatamente sobre como é difícil duas pessoas se unirem sob o mesmo teto. Eu falava sobre um relacionamento que tive recentemente, no qual o ex-namorado se empolgou muito no começo, mas depois esfriou, enquanto, comigo, pessoalmente, foi diferente: não estava tão entusiasmado no início, mas depois fiquei bastante envolvido. Teria sido um amor platônico por parte dele? Amor platônico é aquele em que o objeto amado deixa de ser objeto do amor tão logo o amante o possua. Talvez. Fato é que na hora doeu um pouco, provavelmente por causa da decepção, mas depois as coisas voltaram ao normal – entenda-se por 'normal' essa ilusão que a gente cria para designar o cotidiano sem grandes sustos ou surpresas.

No meio desse papo, Paulo compartilha uma ideia: “acho que quanto mais a gente envelhece solteiro, mais curte viver sozinho, e mais difícil fica morarmos com outra pessoa”.

Concordo pronta e plenamente. Completei dizendo: é muito bom dormir à hora que a gente bem entende, fazer comida se quiser, lavar louça quando desejar, mesmo que seja à uma hora da manhã, porque não há ninguém que se incomode com a luz, com o movimento, etc.

Por outro lado, pode fazer falta dormir colado, de vez em quando, com alguém que a gente ame, mas viver junto com outra pessoa não é só isso. Os problemas têm que ser resolvidos antes do café para não saírem brigados e o reencontro no final do dia se tornar ainda mais estressante. E isso exige compromisso, benevolência e aquele desejo de fazer dar certo, atitudes que só funcionam se operarem na mutualidade, na mais absoluta cumplicidade. Dedicação unilateral não funciona.

Outro encontro que rendeu bom papo foi com uma jornalista holandesa ontem (sábado), depois do trabalho. Sandra me perguntou sobre vários assuntos, mas uma coisa interessante para esse post foi a seguinte:

Está mais difícil para os gays ou para as mulheres? É mais fácil encontrar um parceiro sendo gay ou sendo mulher?

Minha resposta foi maior do que vou comentar aqui, mas, resumindo, as dificuldades são semelhantes para gays e mulheres heterossexuais, talvez para qualquer outro grupo (lésbicas, bissexuais, transexuais, etc.): Gente que te quer, mas a quem você não quer; gente que você deseja, mas que não te dá a menor bola; gente que combina em termos de personalidade, mas não tem química na cama; gente que super combina na cama, mas não faz eco em nada mais. E por aí vai.

Sem contar que, do mesmo jeito que tem gente que não me atrai em nada, há quem não sinta a menor atração por mim. Isso vale para todo mundo, cada um a seu modo. É uma questão de gosto mesmo, de tesão, de química. Além disso, precisamos entender que há certas pessoas que estão fora do nosso alcance, assim como estamos além do alcance de outras, mas só percebemos a dureza dessa realidade quando nos é negado aquilo que desejamos. O problema é que não notamos essa dura realidade quando são os outros que recebem a nossa negativa, ainda que silenciosa.

Além disso, as mulheres, devido à repressão sexual a que sempre foram submetidas, supõem que devam fazer “jogo duro” na hora em que o “boy” insinua ou propõe francamente que transem, enquanto os gays, por serem homens, e gozarem de mais liberdades em função de seu gênero masculino, mesmo que socialmente reprimidos, em função de sua orientação sexual, não se importam de transar logo no primeiro encontro. E pode ser que nem troquem telefones. Já as mulheres são geralmente mais difíceis de conquistar. Há, porém, uma diferença tremenda aqui: os homens que gostam de mulheres se orgulharão de apresenta-las aos amigos e aos familiares, assumindo um compromisso, desde que gostem da parceira, mas muitos gays ainda vivem no armário, e não se sentem livres para assumir compromissos. Outros já estão fora dele, só que sem o apoio da família, e isso faz com que muitos fiquem só no flerte, ou na primeira transa, sem avançar para a próxima etapa: a do namoro. Menos ainda para a etapa seguinte a essa: a do casamento.  Então, se alguns gays transam mais do que algumas mulheres, isso pode ser devido à facilidade com que os homens se entregam ao ato sexual, mas também à dificuldade que muitos gays enfrentam para assumirem relacionamentos estáveis publicamente.

Claro que muitos gays estão se casando. Muitas lésbicas, bissexuais e transexuais também. Mas não se pode ignorar que o número dos solteiros que sonham com a chance de assumir um compromisso   mas têm medo da família e dos amigos é astronômico.

Aí, meu amigo Edson Amaro me fala sobre algo que já vinha ocupando meus pensamentos há algum tempo – que as redes sociais estão cheias de garotos de 18, 19 anos em busca de diversão sexual, sem passar disso, e dificilmente passaria, levando-se em conta a idade, a maturidade e (falta de) independência que caracterizam essa faixa etária. É preciso ressaltar que isso não é ruim. Pelo contrário, é bom que eles vivenciem sua sexualidade com toda liberdade, conforme desejarem. O problema é que quando somos mais velhos, geralmente queremos mais que isso.

Eu, particularmente, não me encaixo mais em certos ambientes, apesar de frequenta-los quando me dá vontade. Refiro-me àquelas festas ou boates lotadas de garotos e garotas – todos com os mesmos cortes de cabelo, tatuagens semelhantes, piercings nos mesmos lugares, roupas em estilos semelhantes, que pretendem ser alternativas, mas naquele ambiente, vestindo corpos tão semelhantes, nem podem mais ser consideradas originais. Acho tudo isso uma gracinha, mas não é mais a minha noção de diversão. Talvez isso me ocorra agora como resultado típico do amadurecimento que o tempo, sempre indomável, acaba promovendo.

Quando vejo um grisalho bonito, bem tratado, andando na rua ou viajando no mesmo transporte que eu, fico me vigiando para não fixar o olhar e causar algum constrangimento. Afinal, é bom ser desejado, mas é chato ser invadido. Se eu acho lindos certos grisalhos (observe o determinante “certos”, não todos), por que será, então, que meus relacionamentos contam tantos homens mais jovens que eu? Talvez porque eles tenham algum fetiche com homens mais velhos, ao mesmo tempo em que eu não me importo de “ficar” com alguém mais novo, mas a verdade é que não é fácil encontrar caras da minha idade que não estejam casados ou que não tenham sido vacinados contra qualquer coisa que, de longe, lembre compromisso. Gente velha, inclusive eu, têm muitas manias próprias.  Começo a me convencer de que as oportunidades serão cada vez menores daqui para frente, principalmente porque os caras mais velhos que só querem diversão costumam desejar carnes jovens e tenras. Talvez seja uma questão de probabilidade que o desencontro seja cada vez mais comum.

Aliás, desencontro é o que acontece com todo mundo, seja homo, hétero ou bi. E não adianta ficar se enganando com a aparente facilitação das redes sociais. Essa coisa de curtir foto, adicionar ao círculo de amigos, pedir número de whatsapp, pedir Skype, e outras banalidades não satisfaz plenamente, talvez nem superficialmente. Nada mais chato que sexo virtual. Eu, particularmente, não curto. Claro que se funciona para outras pessoas, nada há de errado nisso. Façam. Mas eu, pessoalmente, quero gente de carne e osso.

Outra coisa importante a sublinhar é que as lindas histórias de amor que vemos nas redes sociais não são perfeitas, ainda que sejam muito satisfatórias, mas para cada relação que vinga e frutifica, existem dezenas, talvez centenas, de outras que murcham antes mesmo de produzirem as primeiras flores. 

Então, não se abata. Procure tirar de si mesmo e das oportunidades que a vida lhe traz o maior prazer possível, mesmo que seja de uma xícara de café. E nunca, jamais, em tempo algum, anule-se por causa de quem quer que seja. Não aceite relações abusivas, violentas, vampirescas. Ser capacho do outro não é missão de ninguém, mesmo que disso dependa a sua vida ou a dele(a). Ao tomar distância de um relacionamento doentio, você vai descobrir que pode viver muito melhor sozinho(a). E talvez o outro ou a outra também. Solteirice não é castigo. Castigo é viver um inferno todo dia.

Só não caia no oposto disso: desprezar quem te ama de verdade e desperdiçar uma oportunidade linda de ser feliz. Ah, e talvez a melhor maneira de envelhecer acompanhado seja investir numa relação duradoura desde cedo, mas nem isso é garantido. E quem disse que seria fácil?





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Comentários

  1. Oi
    Vc não me conhece muito, só o vi pessoalmente duas vezes, uma por acaso na Caixa Cultural e outra em um debate em que vc participou sobre literatura com temática gay na Fnac do Barrashopping. Nem sei pq falei isso, haha. O que queria falar mesmo é que acabei de ler um texto seu no seu blog sobre relacionamentos. O que me fez pensar, sobre algo que já penso faz algum tempo, sobre a necessidade de ter um relacionamento. Eu estou solteiro e não sinto uma necessidade enorme de ter um relacionamento com alguém, não a qualquer custo. E não entendo como tem pessoas ficam em uma relação, que pode ser ruim, apenas para não se sentirem sozinhas. Algo que vc diz no texto. E outra coisa que vc diz no texto, e que é um acerto, é sobre ficar sozinho e se bastar. Algumas pessoas não encaram isso como viável, sair para um show, cinema, só. Como vc escreveu, é preciso uma adaptação para estar com o outro, e isso nem sempre compensa. Penso que talvez exista uma pressão da sociedade, por mais estranho que pareça, para que se tenha alguém, ser um casal, morrer juntos, o que pode acontecer ou não. E até me espanta que essa ideia prevaleça até hoje depois de tudo que aconteceu no mundo, inclusive entre nós gays, que desconstruímos tantas ideias e continuamos a desconstruir, e isso permanecer como um ideal imutável e importante. Acho que falei demais, e nem sei se tá fazendo muito sentido. Mas parabéns pelo texto, blog e vídeos.

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