Uma conversa com o namorado e um post sobre a vida

Norma Bengell


Ontem eu assistia uma matéria sobre a atriz Norma Bengell no canal Globonews e fiquei pensando em coisas como: juventude, oportunidades, envelhecimento, recordações, desaparecimento.


Como muitos o sabem, a atriz Norma Bengell foi a primeira brasileira a fazer uma cena de nu frontal no cinema nacional. A cena foi exibida no filme “Os Cafajestes” (1962). Por um lado, ela foi sucesso de bilheteria por seu talento e beleza. Por outro, foi alvo de perseguição por parte da igreja por sua ousadia e sensualidade.




Norma Bengell faleceu em 09 de outubro de 2013, vítima de um câncer de pulmão, aos 78 anos. 

Antes disso, ela ficou dependente de uma cadeira de rodas por causa de duas quedas em casa que lhe renderam uma grave lesão na coluna.


Vendo a beleza jovem de Norma e o pouco que dela ficou com a passagem do tempo, mas celebrando as realizações que ela foi capaz de acumular ao longo desse mesmo tempo devorador, não posso deixar de me perguntar se os jovens sabem que estão apenas de passagem pela juventude e se os velhos entendem que não têm tempo a perder. Não que isso deva se tornar motivo de angústia, pois cada dia deve ser vivido conforme nossas possibilidades e as oportunidades que encontramos ou somos capazes de criar.


O que realmente me aborrece é ver como deixamos que outras pessoas controlem nossas vidas; como deixamos que as interpretações, prioridades, ambições e recalques de outros nos limitem; ou como ficamos dominados por uma busca perfeccionista a partir de padrões arbitrariamente estabelecidos e que pouco ou nada têm a ver com nossas subjetividades, suas possibilidades e objetivos.


Hoje, conversando com Marcos, meu namorado, fiquei sabendo do caso de uma senhora que ele atendeu ontem durante o estágio da faculdade de enfermagem. 

A senhora foi resgatada de casa, depois de três dias caída no chão. Ela estava absolutamente imunda: fezes, urina, unhas que faziam caracóis de tão grandes e cheias de fungos, a pele dominada por sujeira que, tão arraigada, não pôde ser removida completamente no primeiro banho. Foram necessários dois só para tirar o pior. Houvessem os enfermeiros feito mais esforços, poderiam ter aberto feridas e – como ele mesmo disse – facilitado infecções. O cabelo estava igualmente infestado de fungos e tão endurecido que formava um tipo macabro de dreadlocks.


A senhora tem um excelente plano de saúde. E isso é outro mistério. Quem seria responsável por ela? 

Outra pergunta: por que será que ela tinha ossos calcificados de modo irregular, como se tivessem sido fraturados sem nunca terem sido devidamente engessados?


Sabe-se que ela tem um marido, mas que ele sofre de demência. Tem também um filho, portador da Síndrome de Down, ou seja, três pessoas extremamente limitadas e vulneráveis.

Tudo isso só me grita aos ouvidos que somos os únicos responsáveis por nós mesmos, e que quando não podemos mais cuidar de nossas próprias vidas, estamos perdidos, a menos que as instituições funcionem e as pessoas sejam minimamente humanistas.


Humanismo foi o que Marcos e sua equipe demonstraram. Eles não apenas fizeram seu trabalho, mas foram além: demonstraram envolvimento e compaixão.


Uma das médicas responsáveis foi pessoalmente à farmácia e comprou tudo que se usa para a higiene de bebês. O objetivo era dar a essa senhora um tratamento mais carinhoso, mais suave, que correspondesse à sua fragilidade.


Quando ouvi isso essa manhã, pensei:


Bombeiros, policiais, enfermeiros, médicos e outros profissionais que trabalham com um sentimento de com-paixão (de sofrer com) e com ideais humanistas irrestritos são os únicos “anjos” que realmente existem. Fiquei orgulhoso de ter um tão perto de mim.


A pergunta que não quer calar é: 

Até quando você vai deixar que os outros lhe digam como viver seus sonhos, realizar sua biografia, gozar as alegrias que seu corpo e essa projeção dele a que chamamos de mente são capazes de lhe proporcionar (ainda)?


Nada é mais precioso que a vida e a liberdade, mas elas acabam. Viva tudo o que há para viver, cuidando o melhor que puder de seu futuro, mas lembre-se: não controlamos a nós mesmos nem o que está ao nosso redor tanto quanto gostaríamos de crer.



Aliás, por falar em terceira idade, duas senhoras têm chamado minha atenção, especialmente por viverem um amor que só fez amadurecer ao longo dos anos: as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Essas duas deusas do teatro e da TV (Fernanda também do cinema) representam um casal de lésbicas na novela Babilônia e estão fazendo história: são o primeiro casal lésbico que continua se amando e sendo fiel na terceira idade numa novela brasileira. Na vida real, isso é mais frequente do que se imagina, tanto entre mulheres como entre homens.






Que todos nós morreremos é certo. Que alguns de nós envelhecerão, também é certo (infelizmente, nem todos – alguns morrerão antes disso). O que interessa é: como viveremos enquanto desfrutarmos do privilégio de respirar, sentir, pensar? 

Meu lema é:


Viva, ame, goze, cresça, expanda-se em todas as direções que desejar enquanto houver vida. E sempre que puder tornar a vida mais leve e menos dolorosa para alguém, faça isso. 

A humanidade já deveria ter entendido que nessa selva que é a vida, o melhor lema ainda é dos Três Mosqueteiros, os heróis do romance do francês Alexandre Dumas (1844): “Um por todos, todos por um.”

  


Norma Bengell

Norma Bengell

Norma Bengell

Norma Bengell


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NOTA: Claro que haverá investigação para se apurar responsabilidades no abandono dessa senhora que eu mencionei no artigo por meses a fio, além dos três dias caída dentro de casa sem socorro.

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