Papa Francisco rebaixa Cardeal americano por causa de temas LGBT






Tradução: Sergio Viula para o Blog Fora do Armário



Esteve no noticiário. Agora foi confirmado. Desde semana passada, Raymond Leo Burke, o mais alto cardeal pelos Estados Unidos no Vaticano, foi oficialmente removido da Suprema Corte do Vaticano, e rebaixado para capelão dos Cavaleiros de Malta, onde ele reinará com muito menos responsabilidades. O cardeal ultraconservador e anti-gay, continuamente desafia a jurisdição do Papa Francisco e a nova atitude receptiva da Igreja Católica sobre a homossexualidade.

Que irônico saber que o cardeal rebaixado é dos Estados Unidos. O que isso diz a respeito da América (sic)? - que até mesmo a Igreja Católica e o papa estão a frente de vários legisladores anti-LGBT e extremistas nesse país.

Semanas depois de assumir o posto em 2013, o Papa Francisco perguntou:  'Quem sou eu para julgar?' referindo-se à comunidade LGBT. [Nota do tradutor: Foi, na verdade, quatro meses depois de sua posse, no final da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, enquanto dava uma entrevista coletiva durante seu voo de retorno]. Desde então, ele tem recebido grande apoio por sua visão progressista e, claro, grande oposição. Raymond Burke é um dos mais fortes oponentes ao Papa. Burke, 66 anos, acredita que a homossexualidade é "sempre e em todo lugar errada [e] maligna", e continuamente questionava a autoridade do Papa Francisco, agora com 77 anos.  Burke disse ao Buzzfeed em outubro:
“O papa não é livre para mudar os ensinamentos da igreja com relação à imoralidade dos atos homossexuais ou a indissolubilidade do casamento ou qualquer outra doutrina da fé.”
Aparentemente, o Papa é livre, ao menos, para encorajar a mudança. Essa é mais uma razão pela qual tantos livres pensadores na América, e em outros países amam o Papa Francisco.
Raymond Burke também é obstinadamente franco com relação à sua visão anti-escolha. Ele uma vez  protestou contra o bem conhecido defensor pró-escolha, Sheryl Crow, por se apresentar num concerto beneficente. Burke disse:
"Uma instituição católica apresentado um artista que promove o mal moral dá a impressão que a igreja é, de alguma forma, inconsistente em seu ensino."
Muitos de nós amamos essas novas "inconsistências" da Igreja Católica, Bruke denuncia. Eles representam um distanciamento mais do que na hora de dogmas arcaicos da religião que afastam muita gente da igreja.


Com uma mulher Liberal pró-escolha, eu não posso terminar esse diário, em boa consciência, sem expressar minha esperança de que o Papa Francisco estenderá abertamente seu esforços progressistas para defender os direitos reprodutivos das mulheres, bem como a posição da mulher na igreja. Um passo de cada vez. Enquanto isso, aqui está um grande papa e um grande homem, que continua a ser um respiro de ar fresco para muitas, muitas pessoas ao redor do mundo.


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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO

O texto acima é de autoria de uma ativista pelos direitos da mulher, traduzido por mim, sem qualquer alteração, exceto a inclusão de uma nota do tradutor entre colchetes.

Tenho uma amiga, a quem prezo muito, católica, por cujas opiniões eu tenho o maior apreço, chamada Cristiana Motta Luvizaro de Assis Serra. Não é apenas uma paroquiana fiel às missas de domingo. Trata-se de uma estudiosa, pensadora e ativista pró-LGBT que promove a inclusão através de ações cotidianas e conta com o apoio de irmãos e irmãs de fé que exigem nada menos que igualdade.

Cristiana faz parte do Diversidade Católica. Saiba mais aqui: www.diversidadecatolica.com.br 

Para falar com ela e com o Diversidade Católica, escreva para: contato@diversidadecatolica.com.br

O texto que transcrevo abaixo é uma análise dela feita num comentário numa postagem minha no Facebook, depois de trocarmos algumas breves ideias. Pedi autorização a ela para colocar o comentário como adendo a esse post, e ela concordou. O comentário entra aqui  às 22:10, aproximadamente, de 14/01/2015.

Falávamos sobre o que o Papa quis realmente dizer com "quem sou eu para julgar?".


Cristiana Motta Luvizaro De Assis Serra Essa fala do Francisco "quem sou eu para julgar?" é lida muito fora de contexto. Ela foi dita em resposta a uma pergunta da Ilze Scamparini na entrevista que ele deu no avião voltando da JMJ 2013, no Rio, para Roma. O link para a entrevista na íntegra, em português, é este:
Ops, desculpe, o link correto: http://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130728_gmg-conferenza-stampa.html
Encontro com os jornalistas durante o voo de regresso à Roma (28 de julho de 2013)

A Ilze não pergunta sobre direitos gays nem sobre militância gay, mas sobre a indicação de um certo Monsenhor Ricca, sobre quem havia boatos de que seria homossexual, para um cargo de confiança. A pergunta em questão é "Queria pedir licença para fazer uma pergunta um pouco delicada: outra imagem que também girou um pouco pelo mundo, foi a de Mons. Ricca e as notícias sobre a sua intimidade. Queria saber, Santidade, que pensa fazer em relação a este assunto? Como enfrentar esta questão e como Vossa Santidade pensa abordar toda a questão da lobby gay." - e a imprensa por todo o mundo editou para pegar só o finalzinho "como Vossa Santidade pensa abordar toda a questão da lobby gay?"
Sobre isso, é preciso fazer o seguinte esclarecimento:

É a ultima pergunta, da Ilze Scamparini, correspondente da Globo na Itália. Ela se refere ao monsenhor Ricca, esse que falei.

É importante entender que essa expressão, lobby gay, é tão louca que só mesmo numa instituição fechada em si mesma como a cúria de Roma ela poderia fazer sentido. Nós que somos normais e estamos no mundo aqui fora tendemos a achar que quando eles falam em lobby gay, estão falando da comunidade LGBT lutando pelos seus direitos aqui fora. Nada disso. Essa expressão surgiu no contexto do Vatileaks, sugerindo que a culpa dos escândalos de corrupção no IOR seria de um grupo organizado de gays no Vaticano (hahahahahahaha só na cúria hahahahahahaha essa é a pior teoria da conspiração que eu já ouvi).  Não à toa, a pergunta veio da Ilze, que é macaca velha de Roma e não duvido que tenha formulado cuidadosamente a pergunta, terminando com "lobby gay" e fazendo uma referência obscura a um tal Ricca que ninguém de fora sabe quem é, para gerar repercussão com a resposta, qualquer que fosse ela.
E a pergunta vai prontinha para as mesas de edição: "O que você acha do lobby gay?" Sabendo que o mundo inteiro de pessoas normais vai achar q isso significa a comunidade LGBT lutando pelos seus direitos.

Por outro lado, claro, o Bergoglio também é macaco velho e essa resposta dele "quem sou eu pra julgar?", depois de ser a primeira vez que um papa usa a palavra "gay" (
isso, para a ICAR, foi extraordinário - embora aqui fora pareça tão banal que fica dificílimo entender o quanto é extraordinário. Mas foi.), é espertíssima. Ele sabia a repercussão que teria. E ter escolhido falar disso aqui nesta pergunta, depois de se esquivar do tema numa pergunta mais direta, foi de uma matreiragem política assombrosa. O cara fala isso depois de reafirmar a doutrina da igreja, e, afinal, ele só está falando do Ricca. Os conservadores não podem chiar. Mas falou, e mostrou uma atitude completamente nova. E os moderados e liberais fazem a festa.

Então, é preciso tomar muito cuidado para não se dar a dimensão errada ao q se diz e faz na ICAR (Igreja Católica Romana). Sem um entendimento correto de como as coisas funcionam, é muito fácil criar expectativas e frustrações e deixar passar os verdadeiros sinais de abertura.

Por exemplo, nessa mesma entrevista, ANTES, tem uma pergunta direta sobre gays, e ele responde que é filho da igreja, e que a posição dele é a da igreja. Mas, ao mesmo tempo, tem um contexto maior, que é quando ele diz que quis focar em coisas mais importantes e outras declarações dele de que a igreja não tem de ser uma alfândega moral nem viver julgando nem fechar as portas. O cara, antes de discutir sobre mudar a doutrina da ICAR sobre gays, está fazendo algo muito maior, que é mudar a atitude da ICAR; ele diz que a igreja não pode se reduzir a uma ideologia moralizante, que é o que acontece se se perde o evangelho de vista. Isso, meu amigo, é muito mais revolucionário do qualquer mudança na doutrina moral – porque simplesmente reduz muito a autoridade da instituição sobre moral. É quase algo como: gente, o que importa é que nós sejamos boas pessoas, dane-se se somos gays ou divorciados, a igreja não tem que se meter nisso.

Por isso insisti no meu comentário aqui: porque assim como o papa não demitiu o cardeal por ser homofóbico, o "padre Beto de Bauru", esse picareta, também não foi excomungado "por defender os gays". Simplesmente não é assim que as coisas funcionam. As pessoas ficam frustradas com o documento de trabalho do sínodo da família porque é uma linguagem tão antiquada que não dá para perceber o grau de avanço que está acontecendo ali, numa coisa de linguagem. Está todo mundo louco para ver mudanças concretas, mas está acontecendo uma revolução na ICAR que, aliás, é maior do que "só" a causa LGBT, mas a gente aqui fora tem muita dificuldade para entender isso.

Ajudei? :-)))

 

Sergio Viula Cristiana, você é formidável!

Sergio Viula Você me autoriza a publicar esse teu comentário como um adendo à matéria ou uma nova publicação no Fora do Armário sobre isso?

Cristiana Motta Luvizaro De Assis Serra Fique à vontade, querido.

Comentários

  1. "... aqui está um grande papa e um grande homem, que continua a ser um respiro de ar fresco para muitas, muitas pessoas ao redor do mundo.".
    Leslie Salzillo e Sergio Viula texto magnifique!
    Papa Francisco um grande Homem que sabe nos transmitir, de fato, a Simplicidade no Respeito do Amor de Deus.
    Francisco o senhor me representa!

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    1. Obrigado pelo comentário, Franklin.

      Abração.

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