Governo do RJ: Dia da Visibilidade Trans



Uma iniciativa do Rio Sem Homofobia, da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos

Com o lema “Respeitar é... reconhecer que as pessoas são diferentes e ao mesmo tempo são iguais em direitos”, ação educativa marca Dia da Visibilidade Trans.
 O evento foi realizado no teatro da Biblioteca Parque Estadual e contou com participações artísticas, compartilhamento por pessoas transexuais e travestis, além de discursos de várias autoridades.
Tendo a linda e simpática Marcia Vilella como mestre de cerimônia, o evento começou pouco depois das 15:00. 

Jani Di Castro fez as duas primeiras apresentações musicais, mas não deixou de dar seu recado. Jani, que se identifica como travesti, arrancou aplausos ao dizer o seguinte:

"Em vim de uma realidade tão difícil que ao ver uma coisa como essa, o que dizer? Vencemos!"

Entende-se melhor o que ela quis dizer com isso quando mais adiante ela mesma diz que na década de 1960, bastava sair às ruas "vestida como mulher" para ser presa pelo delegado Padilha, conhecido por sua sanha em retirar travestis da visão pública e perseguir homossexuais. Jani conta que foi presa várias vezes, pernoitando na cadeia geralmente das oito horas da noite até o meio-dia do dia seguinte. 

Casada há 49 anos com o mesmo homem, Jani só pode oficializar o casamento civil em novembro de 2014.

Depois de sua apresentação musical, a mestre de cerimônia Marcia Vilella leu um poema de Carlos Drummond de Andrade. O poerma é intitulado Verbo Ser:

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
 Marcia também fez lembrar que o Dia da Visibilidade Trans começou com uma iniciativa de 2004, sob o lema Travesti e Respeito, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, como resposta a uma demanda do coletivo.

Em seguida, Denise Thayná fez uma belíssima apresentação de dublagem com características afrobrasileiras deliciosamente acentuadas por gestuais inspirados no Candomblé. Denise é a mesma pessoa que eu já elogiei num outro post aqui no Blog Fora do Armário pela qualidade de seu atendimento na sede do Rio se Homofobia. A foto dela está na campanha (veja no final desse post).

Vivian Fróes, aluna da escola de música da UFRJ

Vivian Fróes, ao teclado, apresentou a belíssima ária Sposa son disprezzata , escrita por Geminiano Giacomelli e usada por Vivaldi  na ópera Bajazet, mas apresentada pela primeira vez no carnaval de Veneza em 1735. Em seguida, cantou uma versão belíssima de My Immortal, do grupo Evanescense.
Um making of da campanha educativa pelo respeito às pessoas trans também foi exibido no telão. As fotos estão no final do post. 

Foram 18 pessoas ao todo. Destas, somente 10 puderam participar do evento hoje. Cada uma teve a oportunidade de compartilhar um pouco sobre si mesma e ler uma citação de algum pensador famoso. Essa parte do evento foi coordenada por Almir França, presidente do Grupo Arco-íris.



 Almir França


Julio Moreira, presidente do Conselho LGBT, enfatizou que a participação de qualquer cidadão ou a apresentação de quaisquer demandas da comunidade LGBT são bem-vindas e ajudam o Conselho a formular propostas que poderão se transformar em políticas de governo.
 Julio Moreira, à esquerda, e seu marido Clayton

Cláudio Nascimento, coordenador do programa estadual Rio sem Homofobia destacou que hoje, dia 29 de janeiro de 2015, os canais de comunicação do Rio sem Homofobia estavam todos com o banner do Dia da Visibilidade Trans. Não apenas isso, mas todos os canais de comunicação do governo do Estado do Rio de Janeiro também fizeram o mesmo - o que demonstra o nível de comprometimento governamental com a população transexual e travesti do estado.
 Claudio Nascimento
Diversas autoridades estiveram presentes. Entre elas, Vera Scherer, que é responsável pelas bibliotecas estaduais. Sua fala foi encantadora do início ao fim, mas a parte que mais mexeu comigo foi:
 "A rede de bibliotecas do estado do Rio de Janeiro está à disposição para levar essas ações para o interior do estado."
Ela também destacou que a diretora da Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro também dirige a da Rocinha, a de Niterói e a de Manguinhos. Segundo Vera, não haverá a menor dificuldade de levar esse tipo de ação para esses lugares, mas ela também fez questão de citar outros municípios do estado do Rio de Janeiro.
Tudo o que foi apresentado, seja em forma de prosa, verso ou canção, foi traduzido para os linguagem brasileira de surdos pelo jovem Hector Calixto, com exceção do hino nacional brasileiro, que foi apresentado por Alessandra Ramos para dar um descanso ao rapaz.
Hector Calixto, intérprete de LIBRAS
 Sharlene Rosa destacou os avanços na luta das travestis e transexuais, bem como seu trabalho com o Centro de Referência do Programa Rio Sem Homofobia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Sharlene celebrou o fato de ter conseguido a mudança de nome na certidão de nascimento através do Rio sem Homofobia.

Sharlene Rosa
 Em seguida, Helio Ricardo Pereira Batista, vereador na Câmara Municipal de Quatis, agora presidindo aquela Casa, falou sobre os desafios que têm sido enfrentados pela comunidade LGBT e os avanços conquistados. O vereador parabenizou as pessoas transexuais e travestis pela sua luta e reafirmou a confiança de toda essa comunidade na administração da Secretária de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, a Sra. Teresa Cosentino.

Vereador de Quatis Helio Ricardo Pereira Batista


Jô Lessa, guarda municipal há 16 anos e autor do livro "Eu trans - a alça da bolsa. Relatos de um transexual" tributou crédito a João W. Nery, outro homem transexual e autor de "Viagem solitária", por tê-lo ajudado a compreender sua própria transexualidade. 

Pessoalmente, considero um privilégio ter visto Jô Lessa olho no olho e ser apresentado a sua esposa. Foi emocionante abraçar e beijar pessoas tão fantásticas.


Jô Lessa
Um dos momentos mais empolgantes dos discursos foi a fala do Coronel Ibis Silva Pereira, Comandante da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. 

Veja um pequeno trecho de seu emocionante discurso:

"Vítimas de homicídio doloso - esse que se manifesta com o desejo, o intento de matar. De onde vem todo esse ódio? Não tenho dúvida que um evento tão bonito como esse renova nossa disposição para seguir em frente, para continuar trabalhando por uma sociedade democrática com D maiúsculo. Democracia não combina com invisibilidade. Democracia combina com direitos."
 
 Coronel Ibis Silva Pereira

A última fala foi de Teresa Cosentino, responsável pela Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro agradeceu a todos pela confiança depositada nela, mas ressaltou que "essa vai ser uma gestão participativa."

Teresa disse o seguinte:

"Não acredito em pessoas fechadas em gabinetes arbitrariamente dizendo que a política será essa ou aquela."

"É urgente construirmos uma cultura de paz. A cultura do direito humano baseada no respeito."

"A Secretaria está de portas abertas para vocês para que construamos uma política participativa."

Depois de mais algumas considerações pelos organizadores, Vivian Fróes e Kathyla Katheryne apresentaram mais duas músicas (teclado e violão). E Jani Di Castro apresentou o hino nacional e outro número musical. Para não fugir à rotina de black outs que no fim da tarde ou início da noite no Rio de Janeiro, faltou luz no meio do último número, mas Jani que é estrela, e como toda estrela, tem luz própria, cantou o restante da música à capela no escuro mesmo para delírio dos que ficaram até o final.


VEJA AS PESSOAS TRANS QUE PARTICIPARAM DA CAMPANHA EDUCATIVA PARA O RESPEITO ÀS TRANSEXUAIS E TRAVESTIS:








































































RIO SEM HOMOFOBIA
0800 0234567



----------------------------------------------------------------------------------------------------------
UM DESTAQUE IMPORTANTE AQUI:
Depois do evento, houve uma concentração na Cinelândia para celebrar o Dia da Visibilidade Trans. E na parte da manhã de hoje, a CEDS-Rio, ligada à Prefeitura do Rio de Janeiro, fez um belíssimo evento (pelo que me contaram) para celebrar a data. O responsável pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual é Carlos Tufvesson. Não pude estar com eles pela manhã e nem seguir para  concentração no final do dia. Mas tiro o chapéu para esse trabalho belíssimo que a CEDS-Rio vem fazendo com travestis e transexuais, especialmente o Projeto Damas.

Comentários