Adolescente Transexual que cometeu suicídio havia citado os pais cristãos em blog

(H/T: lazerprincess) Leelah Alcorn


Texto publicado pelo Progressive Secular Humanist
Quem lê bem em inglês encontrará muita coisa interessante sobre humanismo secular nesse site. Recomendo.


Traduzido por Sergio Viula para o Blog Fora do Armário


Adolescente Transexual que cometeu suicídio havia citado os pais cristãos em blog


Depois de anos de abuso e rejeição por parte de rígidos pais cristãos, uma adolescente transexual de Ohio cometeu suicídio atravessando diante de um caminhão.

Leelah Alcorn, também conhecida como Joshua Alcorn, foi atropelada e morta por um caminhão que passava pela southbound Interstate 71, estrada que corta a a comunidade de Union Township, domingo de manhã. A tragédia parece não ter sido um acidente, mas suicídio.

Em seu blog no Tumblr, Leelah deixou uma comovente nota de suicídio, detalhando uma vida de dor e rejeição, uma vida dominada por pais cristãos que se recusavam a entender, ou simplesmente não conseguiam compreender , que sua preciosa criança era uma menina em corpo de menino.

Em seu último post no blog Leelah escreve:

Se vocês estão lendo isso, significa que eu cometi suicídio e, obviamente, não pude deletar esse post da minha sequência.

Por favor, não fiquem tristes, foi para melhor. A vida que eu viveria não valeria a pena... porque eu sou transgênero. Eu poderia entrar em detalhes explicando porque me sinto assim, mas essa nota provavelmente seria longa como, de fato, já está. Simplificando, sinto-me como uma garota presa no corpo de um garoto, e tenho me sentido assim desde que tinha 4 anos. Eu nunca soube que havia uma palavra para esse sentimento, nem que era possível que um garoto se tornasse uma garota, então eu nunca contei a ninguém e simplesmente continuei a fazer as coisas tradicionalmente consideradas como "de menino" para tentar me encaixar.

Quando eu tinha 14 anos, entendi o que significa transgênero e chorei de felicidade. Depois de 10 anos de confusão, eu finalmente entendi quem eu era. Imediatamente, contei à minha mãe, e ela reagiu de modo extremamente negativo, dizendo-me que isso era uma fase, que eu nunca seria uma garota de verdade, que Deus não comete erros, que eu estou errada. Se vocês estão lendo isso, pais, por favor não digam isso a seus filhos. Mesmo que vocês sejam cristãos ou contrário às pessoas transgêneras, nunca digam isso a alguém, especialmente a seu filho. Isso não fará outra coisa, senão com que eles se odeiem. Foi exatamente isso que fez comigo.

Minha mãe começou a me levar ao terapeuta, mas somente terapeutas cristãos (que eram todos tendenciosos), então eu nunca recebi a terapia de que eu precisava de fato para curar-me da minha depressão. Eu só recebi mais cristãos me dizendo que eu era orgulhoso e errado e que eu devia buscar a Deus por ajuda.

Quando eu tinha 16 anos, entendi que meus pais nunca se aproximariam e que eu teria que esperar até os 18 anos para começar qualquer forma de tratamento de transição, o que absolutamente quebrou meu coração. Quanto mais você espera, mais difícil é a transição. Eu me sentia desesperançada, porque eu apenas pareceria como um homem drag pelo resto da minha vida. No meu aniversário de 16 anos, quando eu não recebi consentimento dos meus pais para começar a transição, eu chorei até dormir.

Eu formei uma atitude do tipo "foda-se" para com meus pais e me assumi gay na escola., achando que, talvez, se eu preparasse o caminho para sair do armário como trans, o choque seria menor. Apesar da reação dos meus amigos ter sido positiva, meus pais ficaram furiosos. Eles sentiram como se eu estivesse atacando a imagem deles, e como se eu fosse um embaraço para eles. Eles queriam que eu fosse seu perfeito garotinho cristão heterossexual, e isso, obviamente, não era o que eu queria.

Então eles me tiraram da escola pública, tomaram meu laptop e celular, e proibiram-me de participar de qualquer mídia social, isolando-me completamente dos meus amigos. Isso provavelmente aconteceu na minha vida quando eu estava mais deprimida, e fico surpresa de não ter me matado. Eu fiquei completamente solitária por 5 meses. Nenhum amigo, nenhum apoio, nenhum amor. Só o decepção dos meus pais e a crueldade da solidão.

No final do ano escolar, meus pais finalmente se aproximaram e me devolveram meu celular e me deixaram voltar às redes sociais. Fiquei animada, eu finalmente teria meus amigos de volta. Eles estavam extremamente entusiasmados em me verem e falarem comigo, mas só de início. Por fim, eles perceberam que não me davam a mínima, e eu fiquei ainda mais solitária do que antes. Os únicos amigos que eu achava que tinha só gostavam de mim porque me viam cinco vezes por semana.

Depois de um verão praticamente sem amigos, somado ao peso de ter que pensar sobre a faculdade, economizar dinheiro para sair de casa, manter minhas notas altas, ir à igreja toda semana e me sentir como um merda, porque todo mundo lá era contra tudo aquilo pelo que eu vivia, decidi que era suficiente. Eu nunca vou conseguir fazer a transição com sucesso, mesmo quando eu sair de casa. Eu nunca serei feliz do jeito que me pareço ou falo. Eu nunca terei amigos suficientes para me satisfazerem. Eu nunca terei amor suficiente para me satisfazer. Eu nunca encontrarei um homem que me ame. Eu nunca serei feliz. Terei que viver o resto da minha vida como um homem solitário que queria ser uma mulher ou viver minha vida como uma mulher solitária que odeia a si mesma. Não há jeito de vencer. Não há saída. Já estou triste o suficiente, eu não preciso que minha vida se torne nada pior. As pessoas dizem “it gets better” (melhora), mas isso não é verdade no meu caso. Piora. Piora a cada dia.

Aí está o essencial, porque eu quero me matar. Desculpem se essa não é uma razão suficientemente boa para você, ela é suficientemente boa para mim. Por minha vontade, eu quero que 100% das coisas que me pertençam legalmente sejam vendidas e o dinheiro (mais o meu dinheiro no banco) sejam doados para grupos de apoio e movimentos de direitos civil transexuais, não me importa qual. O único modo para que eu descanse em paz será se um dia as pessoas trangêneras não forem tratadas como eu fui, se forem tratadas como humanas, com sentimentos corretos e direitos humanos. Gênero precisa ser abordado nas escolas, quanto mais cedo, melhor. Minha morte precisa significa algo. Minha morte precisa ser ser contada entre as pessoas transgêneras que cometeram suicídio esse ano. Está tudo fodido. Consertem. Consertem a sociedade. Por favor.

Adeus,
(Leelah) Josh Alcorn

Apesar do Leelah ter pedido que não ficássemos tristes, devemos estar tristes. Essa foi uma tragédia evitável. Tudo o que era preciso era um pouco mais de educação, e um pouco menos de fanatismo.

Chris Seelbach, membro do City Council (espécie de Câmara de Vereadores) de Cincinnati, que fez história em 2011, quando se tornou o primeiro político assumidamente gay eleito para o City Council de da cidade, discutiu o suicído de Leelah em sua página no Facebook, noting:

a verdade é que…. ainda é extremamente difícil ser uma pessoa transgênera jovem nesse país. Temos que fazer melhor que isso.

Pela leitura de sua carta, Leelah deixa claro que ela quer que sua morte ajude, de alguma maneira, os "movimetnos de direitos civis trans".

[Nota do Tradutor: O autor desse artigo em inglês convocou doadores]

Por favor, juntem-se a mim fazendo uma doação (investimento em nossas crianças) agora mesmo para o TransOhio.
Invista clicando aqui: http://www.transohio.org

Leelah se foi, mas não será esquecida – agora ela é mais um símbolo do sofrimento inefável e muitas vezes silencioso de tantos jovens, LGBT e ou não, forçados a sofrer opressão e abuso por seus pais encegueirados por superstição religiosa e fanatismo.
  
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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO

Até quando preconceitos valerão mais que vidas humanas, ou dogmas mais do que filhos, ou a opinião da família, dos vizinhos, da congregação, do pastor mais do que os laços familiares?

Ame seu filho/filha, pai/mãe, irmão/irmão, avô/avó, tio/tia, primo/prima, cunhado/cunhada, sogro/sogra, e quantos outros parentes você tiver, seja ele/ela gay, lésbica, bissexual, transexual ou tenha ele/ela qualquer outra maneira de ser e de amar. Não há justificativa para a transfobia, a homofobia ou qualquer outro preconceito. Viva e deixe viver. Ame e deixe amar. 

E se você sofre com esses preconceitos, especialmente por parte de seus familiares, procure ajuda especializada e capaz de lidar com a diversidade afirmativamente. 

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