A Magia do Encontro

NATURAL WONDER.
Dois rapazes admirando a vista do Grand Canyon - obra do artista Michael Breyette. 


A Magia do Encontro

Por Sergio Viula
 

Quantidade ou qualidade? Profundidade ou superficialidade? Permanência ou transitoriedade? Compromisso ou desprendimento? É interessante como pensamos aos pares, especialmente quando o assunto é relacionamento(s): 

É melhor ter vários ou só um? Profundos ou superficiais? Manter relacionamentos que duram ou simplesmente colhê-los avulsos? 

Essas perguntas, por si só, despertam uma série de pensamentos e reações nas pessoas. Cada uma com sua própria fórmula sobre o que é certo, ou bom, ou simplesmente mais satisfatório. 

Particularmente, penso que todas as maneiras de viver os relacionamentos afetivos e/ou eróticos podem ser certas, boas e/ou muito satisfatórias. E, na maioria das vezes, as coisas acontecem  à revelia de nossos planejamentos e expectativas. Pelo menos, muito mais frequentemente do que gostaríamos de admitir. 

Relacionamentos começam, duram e terminam independentemente de nosso (falsamente chamado livre) arbítrio. E para ficar só no campo da vontade, isso se dá porque não depende só de uma das partes. Em alguns casos, não depende de nenhuma das duas, mas de configurações, condições ou contextos que estão muito além do poder de decisão e/ou das possibilidades dos parceiros.

Mas o que é que torna algumas pessoas tão especiais e tão aparentemente indispensáveis em certos momentos de nossas vidas? Algumas até pelo resto da vida? 

O que é e como se dá essa ‘coisa’ que faz com que uma pessoa passe quatro horas ao telefone, de madrugada, conversando com alguém que está fora do alcance de suas mãos, de seus olhos, de seus lábios, e mesmo assim extrair e dar prazer como este raramente acontece na vida? 

Por que algumas relações são absolutamente incandescentes, enquanto outras simplesmente não produzem faíscas sequer? 

Como acontece isso que faz com que duas pessoas transem por quase seis horas seguidas, acreditando que estivessem há apenas duas horas do primeiro beijo? Sim, porque só depois de olharem para o celular é que se deram conta de que estavam ali por três vezes mais tempo do que seria um tempo acima da média? Afinal, quantas pessoas podem realmente se dar ao luxo de passar duas horas na cama numa noite em pleno meio da semana? Quanto menos seis horas inteiras!!!

O que é isso que faz com que olhemos, desejemos e amemos, por pouco ou muito tempo, profunda ou superficialmente, essa determinada pessoa entre 7 bilhões de outras – e, geralmente, alguém cuja existência - até outro dia - era completamente desconhecida para nós?

Por isso, não deixo de me espantar e encantar com a magia do encontro, especialmente quando ela é acompanhada dessa indecifrável dinâmica que combina tesão e ternura, transformando o que poderia ter sido (e sido deliciosamente) apenas um encontro para sexo numa oportunidade de autoconhecimento e profundo desnudamento de si e do outro, mas refiro-me àquele desnudamento quando já nenhuma roupa resta para cobrir o mais íntimo pelo pubiano. 

Refiro-me àquele desnudamento que brota da troca desarmada, que só acontece quando duas pessoas, sem o menor receio de si e do outro, determinam-se a transformar aquela "partícula" de tempo, não importando se haverá outras ou não, numa das maiores e mais deliciosas experiências de suas vidas, qual seja, a de entrar em perfeita simbiose psico-afetiva-erótica com alguém que poderia ter simplesmente passado a toda a existência sem experimentar esse momento, no qual tudo parece conspirar a favor da felicidade, desdenhando retumbantemente de nosso supostamente livre arbítrio e nossa mais visceral solidão.  E nessa hora, o que menos interessa é pensar no devir. A gente só quer saber daquele “átomo de tempo” em que parecemos conectados com o outro numa frequência e numa profundidade totalmente novas e irresistivelmente sedutoras.   
Poucas coisas conseguem devolver à vida a magia que ela costumava ter antes que nos déssemos conta de nossa irremediável solidão, seja no imenso mundo que nos cerca ou no profundo abismo que nos constitui logo que nos tornamos unidades autoconscientes. 

E por isso mesmo, cada um desses momentos é precioso demais para que nos perguntemos o que significa, quanto vai durar, e se vai se repetir.

Viver é o que há, mas não dura para sempre. Não admira que todo encontro seja único. Mas, indubitavelmente, alguns são inexplicavelmente especiais. ;)

Comentários

  1. LIndo, poético e verdadeiro. Viva o amor e a afetividade! Viva cada momento especial que vivemos uma única vez ou milhares de outras com cada ser especial com quem compartilhamos os nossos momentos mais íntimos! Bjs.

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    1. Obrigado, Katita! Vc é uma irmã nota 1000!!!

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  2. A mesma sensação de estar lendo um poema de Manoel Bandeira...

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    1. Nossa, Ivan! Que honra ler essa comparação. Obrigado pelo carinho.

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