A história por trás das palavras

Felizmente, na minha sala de aula as crianças não tem que mirar as nucas umas das outras. Elas podem se olhar nos olhos, e isso produz tanta interação bacana!

A história por trás das palavras

Um aula no dia 03/11/14
 
por Sergio Viula

Aí, você está dando aula para uma turma de pré-adolescentes e alguns já na adolescência. Trata-se de uma revisão. Na folha que eles estão usando para revisitar alguns pontos principais, encontram-se cinco verbos que se referem aos cinco sentidos: look, smell, taste, sound, feel. Eles tem que olhar para as figuras e fazer uma frase descrevendo-as, mas usando um desses verbos. Uma delas é a de um grupo de meninos dando altas risadas. As frases esperadas eram:

They look happy.
They look enthusiastic.
They look joyful.

E por aí vai.

Um menino, em tom bem maroto, diz: They look gay. 

A turma imediatamente cai na risada. 

Um ou outro faz um comentário mais abusado, não tão inocente, e de gosto duvidoso.

Daí, um aluno vira para a turma inteira e diz:

- Ih, gente, vocês estão incomodados porque os garotos gostam de algo diferente do que vocês gostam?! Dá um tempo, minha gente.

Gostei da ousadia desse aluno. Mais do que isso: Adorei ver a clara demonstração daquele espírito orgulhoso que não coloca o rabinho entre as pernas e volta para o tapetinho. 

Eles provavelmente pensaram que eu fosse dar algum chilique daqueles que 'mestres' costumam ter diante de qualquer comportamento ou fala que fuja à sufocante norma dos bons modos em sala de aula. Mas por que deveria ser considerado ruim dizer "Eles parecem gay"?

Assim como vinha escrevendo as frases deles no quadro, escrevi essa também: They look gay. Virei para turma e disse: Concordo. Eles parecem gay. Eles parecem felizes, pois é justamente isso que a palavra gay originalmente significava: feliz. Não disse a eles, mas meu livro "Crônicas de um Casal Duplamente Gay" brinca exatamente com esse significado. 

Continuei: 

- Vocês sabiam que para cada palavra há uma história? [nem disse que o nome disso é filologia, porque não interessava no momento] Pois é, a palavra gay também tem uma história. E essa história tem apenas umas quatro décadas. Ela costumava significar apenas feliz, alegre. Eu poderia dizer muito bem que estava vivendo um "gay day", ou seja um dia feliz, sem significar um dia de evento voltado para as pessoas que amam alguém do mesmo sexo. 

As orelhinhas ficaram em pé, em completa atenção. Aí, eu disse:

- Vocês sabem por que o sentido mudou? 

Eles perguntaram: 

- Por quê?

- Porque a palavra homossexual foi inventada por um sexólogo para se referir às pessoas que se sentem atraídas por pessoas do mesmo sexo, mas ela acabou sendo usada para desqualificar essas pessoas. Então, quando essas pessoas cansaram de ser discriminadas e maltratadas, criaram um movimento de luta por seus direitos e escolheram a palavra gay para mostrar que elas não eram infelizes. Pelo contrário, estavam de bem consigo mesmas e com a vida, e queriam respeito. E hoje, em qualquer lugar do mundo, se você diz que é gay, todo mundo entende que você ama alguém do mesmo sexo. Não é incrível como o novo sentido pegou mesmo?

Aí, um menino vira e diz:

- E tem a bandeira do arco-íris.

E eu digo:

- Sim. Mas por que o arco-íris? Porque um arco-íris se faz de muitas cores. Não há arco-íris de uma cor só. Assim, também o mundo é diverso, e as pessoas são diferentes, mas podem viver harmoniosamente, cada uma tendo o seu valor, sem deixar de ser quem é.

Conversamos mais um pouquinho sobre machismo e racismo também, e depois voltamos à revisão. 

Moral da história: Quando a relação professor-aluno é de confiança mesmo, tudo o que acontece em sala de aula pode ser transformado em oportunidade de crescimento pessoal para todos. E ninguém se sente à vontade para fazer bullying contra o colega. E foi exatamente isso o que aconteceu nesse episódio ontem. 


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