PEZÃO ganhou, mas a luta não acabou.



PEZÃO GANHOU NO RIO DE JANEIRO CONTRA CRIVELLA
Menos um fundamentalista religioso no poder – isso é bom. Mas é suficiente?

Durante as eleições, especialmente no segundo turno, coloquei minha posição muito claramente nas redes sociais: Voto no melhor possível dentro do contexto atual, mas esse está longe de ser o melhor ideal. Isso vale para a Presidência da República e para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Aqui, a disputa final foi entre Pezão, representante do atual do governo, e Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, sobrinho de Edir Macedo, e claro oponente aos direitos LGBT. Cito essas características, porque tenho como princípio não votar em pastores/sacerdotes e nem em discriminadores de qualquer espécie, principalmente minorias sexuais e de gênero.

Alguém pode dizer “mas isso não seria intolerância?”. Eu respondo francamente e sem rodeios que a única intolerância tolerável é a intolerância contra os intolerantes, desde que se preservem seus direitos básicos, que são direitos humanos, para usar um termo mais abrangente. Portanto, não tolero a intolerância. Sim, exatamente isso. 

Aí, me perguntam: “Mas o Malafaia não ofereceu apoio ao Pezão?” E eu respondo que ele tem tanto direito de oferecer apoio ao Pezão quanto qualquer outro cidadão, porém algumas coisas precisam ser levadas em conta aqui. Enumero estas para facilitar a compreensão:

1.       Um patife puxa-saco de governador não é o mesmo que transformar outro patife teocrata em governador;

2.       Malafaia tem sérias desavenças com Crivella e qualquer outro representante da ‘empresa’ disfarçada de igreja de Edir Macedo desde a década de 1990, quando se macomunou com eles com a finalidade de atacar Caio Fábio, então pastor presbiteriano, presidente da Visão Nacional de Evangelização (VINDE) e fundador da Fábrica de Esperança (projeto social na favela de Acari, Rio de Janeiro). Além disso, era escritor e conferencista extremamente solicitado por diversas denominações. Foi presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB), com sede em Niterói, RJ. Claro que Malafaia não faz nada de graça, e a Universal logo abriu espaço para ele (nunca antes e nunca depois para qualquer outro) em sua emissora de TV, a Rede Record. Não durou muito. Foi só o tempo que eles precisaram de Malafaia como idiota útil. Assim que ele já não era mais necessário, porque o ministério de Caio Fábio já havia sido destruído na configuração que tinha então, deram-lhe um pé na bunda, do qual ele se ressente até hoje. Por isso, odeia Crivella e sua turma.

Em termos de aprovação, é preciso que se diga que o Governo Cabral-Pezão não anda nada bem. Manifestações enormes e contínuas fizeram com que o governador Sergio Cabral entregasse o governo a Pezão antecipadamente, na qualidade de vice-governador.  Cabral se retirou (temporariamente) da cena política. Pezão seguiu com os projetos do Governo e houve as tensões se amainaram um pouco. 

A evidência de que muita gente não aprova o Governo atual, mas também se recusa a votar num traste fundamentalista teocrata foi o número de votos brancos e nulos.  Foram quase um milhão e cento e dez mil abstenções., quase 23% do total de eleitores. Isso é grave. Isso aponta para uma completa desesperança com relação ao Governo do Estado do RJ. Isso quer dizer que a maioria esmagadora dessas pessoas não quer o governador que está aí, mas também rejeita terminantemente o projeto de poder teocrata. Menos mal. Porém, não resolve. 


 Durante o Governo Cabral-Pezão, muita coisa ficou a desejar: melhoria no salário dos professores, policiais, bombeiros, médicos, e do funcionalismo em geral. A relação truculenta da polícia com a população, especialmente manifestantes deixou muito a desejar. Por outro lado, nunca houve tanta prisão de policiais corruptos, bandidos mesmo. Beltrami, o Secretário de Segurança do Estado do RJ, tem procurado limpar os quadros das polícias militar e civil de bandidos fardados ou com distintivo.
Foi nessa gestão que a Chefe de Polícia Marta Rocha, agora eleita Deputada Estadual, fez um trabalho fantástico voltado para a violência contra a mulher, contra LGBT, entre outros.

Foi nesse governo também que foi implementado o maior programa de combate à homofobia e transfobia e de promoção dos direitos LGBT no Estado.  Desde a descoberta da Baía de Guanabara, à margem da qual a cidade que também deu nome ao estado se organizou, foi descoberta pelo explorador português Gaspar de Lemos em 1 de janeiro de 1502. Claro que eu me refiro à descoberta pelos invasores portugueses, uma vez que índios já habitavam aqui desde tempos imemoriais.  Pois bem, desde então, nunca um programa como o Rio sem Homofobia havia sido implantado no Estado. O programa tem servido de inspiração a outras administrações na federação.

Foi o governador Sergio Cabral que, no uso de suas funções como chefe do Executivo estadual, solicitou ao Supremo Tribunal Federal que julgasse a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, para reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo. O próprio site do STF diz o seguinte: As ações foram ajuizadas na Corte, respectivamente, pela Procuradoria-Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. 

Tudo sem falar nas obras e melhorias no Estado do RJ, principalmente na cidade do RJ. Vide os trens, as obras de infraestrutura, as melhorias e criações de vias expressas, e muitas outras em parceria com o prefeito Eduardo Paes e com a presidenta Dilma Rousseff.

Também foi nesse Governo que alguém finalmente tentou fazer alguma coisa articulada para deter o domínio do tráfico nas favelas. As UPPs levaram esperança e condições melhores para muita gente. Os eventuais abusos praticados por policiais isoladamente foram enfrentados rigorosamente por seus superiores. Foi nesse governo que um batalhão inteiro foi devassado pela polícia e pela justiça porque seu comandante explorava o crime através da farda numa intrincada rede de corrupção e violência. E isso demanda coragem e competência da parte do Governo, que as teve, felizmente.

Agora, foi durante esse governo também que EUZINHO aqui fui para as ruas pergunta “onde está o Amarildo?”. Também foi nesse governo que professores levaram porrada em vez de serem recebidos em gabinete para uma audiência com o governador Sergio Cabral. Foi nesse governo que teve bombeiro sendo preso porque protestou contra o salário de miséria que recebia. 

Nenhum desses avanços teria sido feitos por um teocrata por motivos que dispensam detalhamento aqui. Não quero subestimar a inteligência dos meus leitores. 

Agora, é preocupante que Crivella tenha alcançado mais de 42% dos votos. Isso também diz muito do eleitorado fluminense. Diz principalmente que essas pessoas não percebem o risco que significa um governo fundamentalista, inclusive para elas mesmas que são adeptas ou simpatizantes dessas igrejas totalitárias. Isso aponta para diversas deficiências nas políticas do próprio Estado: educação, principalmente, mas também políticas de promoção social que acabem com os oportunismos messiânicos que tanto seduzem os desesperados e ignorantes.

Agora, será que podemos descansar? Não. Pezão foi eleito. Felizmente, não foi Crivella. Porém, precisamos continuar dialogando e protestando se for preciso. Precisamos ficar de olhos abertos e exigir que o que foi colocado no programa de governo seja cumprido. E, podem ter certeza, eu farei isso. E você?

O Rio de Janeiro tem que ser cada vez mais um estado de bem com a vida!



Comentários