Focinho de porca não é tomada: ilusão e autoengano.

Fonte da ilustração: Tiago Nepomuceno

Por Sergio Viula



É possível vivermos sem ilusão, sem nos enganarmos a respeito de nós mesmos e de tudo o que nos cerca? 

Muita gente responderia que sim, acreditando piamente que não se engana ou que o faz muito raramente. Mas, esse pensamento mesmo é apenas mais um truque do autoengano, pois engana-se mais quem pensa que não se engana.

Ontem, durante uma aula, eu decidi fazer a seguinte assertiva para que meus alunos discutissem se concordavam ou não com ela:

"Nós nos enganamos o tempo todo e a respeito de tudo - da autoimagem à política. E não há exceções. Tudo entra aí. Tudo mesmo. Inclusive as mais cotidianas relações como o casamento."

Vi muitas cabeças balançarem afirmativamente antes da discussão começar, mas fiquei me perguntando se eles haviam capturado mesmo a extensão da coisa. Explico o que quero dizer com isso.

Costumamos nos enganar a respeito de nós mesmos. Pensamos que somos mais do que somos de fato (complexo de superioridade) ou pensamos que somos menos do que somos de fato (complexo de inferioridade). Muitos chegam a se achar absolutamente indispensáveis ao funcionamento do mundo, esquecendo-se que 100 anos - se tiverem a 'sorte' de viver tanto - não representam praticamente nada no contexto dos universos que nos cercam.

Nos enganamos a respeito das relações afetivas. Alguns esperam príncipes e princesas sem perceberem que os príncipes e as princesas  - quando existem - geralmente querem exatamente a mesma coisa, ou seja, outros príncipes ou princesas. E suspeito que isso exclua mais de 90% da população mundial. Pior ainda, muito provavelemente não fazemos parte dos afortunados 10% (numa quantificação bastante otimista). 

Por outro lado, podemos já ter o melhor logo ali na nossa cama, mas não reconhecemos ou agimos injustamente, desperdiçando uma excelente - quiçá única - oportunidade de termos alguém tão especial.  Outras vezes, porém, estamos 'amarrados' a um verdadeiro traste, mas juramos que trata-se da mais pura nata da humanidade. Inventamos desculpas para cada disparate do sujeito - tudo em nome da ilusão de estarmos muito bem parados ou do medo de ficarmos sozinhos.

Sem contar aqueles casos em que o simples fato de alguém sorrir para nós ou nos adicionar numa rede social já parece um pedido de casamento ou uma oportunidade para uma boa transa. Nossa, como é cansativo explicar 'trocentas' vezes que não se trata disso. Pessoalmente, já tive que fazer isso muitas vezes: "Desculpe, mas meu objetivo no Facebook não é arrumar namorado, ficante ou peguete. Podemos ser amigos se quiser." Já perdi as contas de quantas vezes tive que dizer isso. Não somente isso - às vezes, a cantada é a pior possível: "passivo ou ativo?"; "o que você gosta de fazer?"; "tem skype?". Vejam bem, essa é geralmente a primeira ou segunda frase que o sujeito diz pelo inbox do FB. 

Nos enganamos a respeito da família. Acreditamos que nossos pais sejam as pessoas mais fantásticas do mundo, só que a mesquinhez de alguns pais (biológicos!!!) fariam a madrasta da Cinderela parecer a Princesa Diana. Em outros casos, temos pais maravilhosos, porém não lhes damos o devido valor. Nem mesmo abraçamos ou beijamos esses que podem ser nossos melhores amigos de toda a vida. Também pensamos que quando tivermos nossos filhos, eles serão a cereja do bolo da história da humanidade, mas esquecemos que todo mau-caráter tem pai e mãe, e que os nossos podem se revelar piores do que os do vizinho que tanto criticávamos. Outras vezes, são filhos excelentes, mas nunca são bons o suficiente para nossos soberbos padrões de qualidade.

Curioso ver como tem LGBT pensando que os pais nem desconfiam que ele seja sexodiverso ou que tenha uma identidade de gênero que não corresponda ao sexo biológico. Às vezes, os pais só estão esperando que ele fale, para finalmente dizerem "sempre soubemos e te amamos, filho". Outras vezes, os pais criticam as pessoas LGBT o tempo todo na frente do filho, tentando se convencerem da frase que mais gostam de repetir: "meu filho não é gay como esse filho do fulano". Só que lá, no fundo, sabem exatamente que ele também é.  São aqueles pais que se enganam, jurando - contra todas as evidências - que têm um filho heterossexual ou 'perfeitamente' cisgênero, e que ele vai se casar e lhes dar netos no mais 'perfeito' estilo tradicional.

Outro engano muito comum é o de dois gays ou duas lésbicas, namorando ou casados, desfilarem como amigos ou amigas, primos ou primas, irmãos ou irmãs, achando que enganam todo mundo ao redor. Isso acontece muito em festas e outras reuniões familiares/sociais. Nem percebem que, enquanto fazem esse teatrinho, todo mundo ri da pobre ingenuidade deles, dizendo: A quem eles/elas pensam que estão enganando? A resposta é simples: a si mesmos. Seria tão mais nobre dizer com a própria boca o que todo mundo já comenta pelas costas...

No trabalho, a gente jura que é o melhor profissional do ramo. A verdade, porém é que temos muito a aprender com os outros. Também há quem pense que nunca será demitido, só para descobrir, no dia seguinte, que não pertence mais ao quadro de funcionários da empresa. Pasmem, muitas vezes, depois de uma bonificação por bom desempenho. Vai entender...

O engano não perdoa nem as crenças. Aliás, nada mais enganador do que crer. O indivíduo acredita que se pedir aos deuses ou que se tiver pensamentos positivos, conseguirá tudo o que deseja ou o que precisa. Isso vale para provas para as quais não estudou, competições para as quais não se preparou, problemas de saúde que não cuidou, e por aí vai. A verdade é que todos os dias morrem pessoas que acreditaram no poder da fé ou dos deuses em vez de buscar o auxílio da medicina. E há quem busque os médicos só para depois atribuir os bons resultados do tratamento a alguma divindade desocupada e sem qualquer relação com o êxito do processo terapêutico. O pobre do médico que se mata de trabalhar para salvar o paciente ainda tem que ouvir do covalescente: "Foi deus quem me curou". Dá vontade de responder, então nem entra na fila do hospital. Vai direto para a igreja, ou o templo que seja, e leva mais alguns contigo. Só que os loucos que tiveram a 'coragem' de fazer isso, acabaram encontrando a cova mais cedo. Eu podia contar alguns casos do meu conhecimento pessoal, mas deixa pra lá.

Na política, adoramos nos enganar. Já elegemos presidente porque era bonitinho, só para depois dar-lhe um impeachment. Já elegemos acadêmico que tentou privatizar o ensino público superior. Já elegemos líder de movimento sindical que vivia falando em reforma agrária, mas depois de oito anos de governo, deixou os sem-terra e outras minorias vulneráveis clamando por justiça social. Já elegemos uma ex-combatente contra a ditadura que acabou se revelando mais conservadora que todos os presidentes desde a saída de João Figueiredo. E olhem que estou apenas me referindo ao Executivo Federal. Se pensarmos no Legislativo, só não tem barata exercendo mandato, porque a Justiça Eleitoral não permite a candidatura de representantes da família da Blattaria ou Blattodea. E quem é que coloca essas pragas lá? Um bando de iludidos e autoenganados que se deixam levar por qualquer frase de efeito ou ameaça apocalíptica. 

No sexo, enganam-se os que pensam que uma orientação sexual seja superior a outra, quando todas são apenas manifestações das inúmeras possibilidades erótico-afetivas do ser humano.

No gênero, enganam-se os que hierarquizam o masculino e o feminino. Também enganam-se os que esquecem que esse binarismo não dá conta da experiência de gênero vivida pelo homo sapiens. 

Nas relações sexuais, enganam-se os que pensam que o único problema do sexo sem camisinha seja o HIV, ou que os homossexuais sejam os únicos vulneráveis ao seu contágio, ou que o casamento seja proteção suficiente contra o HIV e contra outras doenças sexualmente transmissíveis, ou que a virgindade garanta que uma pessoa não seja portadora de nenhum desses vírus ou bactérias, quando milhões de pessoas herdam diversos deles durante a gestação, parto ou amamentação.

Em relação à vida, gostamos de pensar que haja alguma coisa para além desse mundo, desperdiçando grandes oportunidades de felicidade e de realização, seja por medo ou por culpa. Aliás, não há coisa mais contrária à natureza do que o conceito de santificação e os métodos empregados pelos que aspiram por ela. São geralmetne pessoas que rejeitam a corporalidade e suas funções em alguma medida, sublimando tudo isso, na expectativa de se tornarem mais aceitáveis diante de uma divindade qualquer ou de alguma ordem 'superior' de existência para além da morte. 

Também gostamos de pensar que viveremos até ficarmos velhos, mas muita gente que pensava assim ontem jaz, hoje, num cemitério qualquer. Sem contar os que nunca tiveram a 'sorte' de ter o corpo indentificado. Os necrotérios estão cheios de indigentes. Nem mesmo o empenho da polícia dá conta de localizar todos os que tombam por morte natural ou por morte provocada por acidentes e ataques deliberados contra a vida.

A questão central é: será que podemos viver sem ilusões, sem nos autoenganarmos? 

Geralmente, não consigamos sequer identificar onde é que nos enganamos antes que uma completa decepção se instale. 

Uma  prática saudável, porém,  é desconfiar, duvidar, procurar compreender as razões que nos motivam a pensarmos ou a nos sentirmos desta ou daquela forma sobre o que quer que seja. Não é só desconfiar dos outros. É também desconfiar dos outros. Mas é principalmente desconfiar de si mesmo. Em boa medida, isso pode ser muito salutar. Seremos mais humildes diante da vida e do que nos cerca. Seremos mais realistas a respeito de nós mesmos, nosso potencial e limitações. Poderemos aproveitar mais o que a vida nos proporciona, desde um simples gole d'água na hora da sede até o mais incrível orgasmo no amor. A vida, mesmo sendo cruel, é linda!

Bem, talvez eu mesmo tenha me enganado quando pensei que, ao escrever esse post, poderia colaborar para expurgar um pouco do meu próprio autoengano, assim como daquele que acomete os meus leitores. Será que me enganei?

Bem, não custa tentar. :)

Comentários

  1. Ai, que soco delicioso acabei de levar na cara!! Amei.

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    1. Enilson, so vc mesmo. kkkkk Obrigado pelo carinho. Te adoro!

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