Basta um Dia: Como foi a exibição do filme e a mesa na ABIA.


Sergio Viula na entrada do sede da ABIA 
Av. Presidente Vargas, 446 - 13º andar - Centro -Rio de Janeiro
Katia Viula na entrada da Sede da ABIA.

Da esquerda para a direita: Kátia Viula, Sergio Viula, Margarida Estela do Nascimento, Vagner Almeida e Lucas Pinheiro

Vagner Almeida, produtor do documentário Basta um Dia.



Da esquerda para a direita: Marcos Ribeiro, Margarida Estella do Nascimento, Vagner Almeida e Adriano Dias.


Marcos Ribeiro e Margarida Estella do Nascimento


Vagner de Almeida comenta três dos diversos livros de Marcos Ribeiro


Vagner de Almeida e Adriano Dias









Margarida Estella entrega placa em nome da OAB - Campos dos Goytacazes a Vagner de Almeida pelos trabalhos prestados no combate ao HIV e na promoção da cidadania LGBT.



Projeção do filme "Basta um Dia", produzido por Vagner Almeida, seguida de uma mesa composta por Margarida Estela, Marcos Ribeiro e Adriano Dias, e dirigida pelo próprio Vagner. O dia foi 06 de junho de 2014. O local foi o auditório da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar da AIDS).




O filme já foi exibido mais de 30 mil vezes no mundo inteiro, inclusive em lugares tão inusitados como Hanói, capital do Vietnã. Além disso, tem sido utilizado na imigração do Canadá e dos EUA quando as vítimas de ameaças de extermínio pedem asilo naqueles países. Consta também na biblioteca do Canadá e é referência sobre a violência estrutural no Brasil. Outro fato curioso: a Columbia University, nos EUA, apresenta esse vídeo todo início de período.

Eu e minha irmã Kátia tivemos o privilégio de ver esse filme e ouvir os mesários e os demais expectadores do filme fazendo preciosos comentários. Abaixo, segue uma transcrição da fala dos componentes da mesa. A gravação feita a partir de um celular não teve qualidade suficiente para publicação aqui, mas o que foi possível ouvir (com muita dificuldade) poderá ser lido a seguir.

Margarida Estela,advogada atuando na OAB Campos dos Goytacazes e empenhada na promoção dos direitos LGBT:

O "Basta um Dia" deveria ser "Basta de Covardia"; "Basta de Sofrimento e de Covardia"". Não só o Basta um Dia", como todo o elenco de filmes de Vagner de Almeida, vem nos reportar a altas reflexões, e não só a altas reflexões, como também a um posicionamento: O que é que eu estou fazendo? O que nós estamos fazendo? Essa questão da morte, dessa truculência contra as travestis, é algo antigo. Não é de hoje. E isso acontece em vários locais. Em Campos dos Goytacazes (RJ), por exemplo, as travestis têm algum emprego, mas são uma ou duas. E a gente tem que parar de achar que a travesti se sente mulher; ela é mulher. Quando elas dizem “eu sou mulher de pau e de peito”, elas estão apenas demonstrando sua irritação porque as pessoas não conseguem admitir que ela é uma mulher, e muito mulher. 

"Basta um Dia", para mim, é apenas um S.O.S. de que eu não aguento mais viver com a sensação de que amanhã não estarei viva. É um pedido de socorro.  E um pedido de socorro para que a gente saísse daqui dizendo o que cada um nós vai fazer no sentido de evitar que essas mortes e essa truculência continuem. O que nós estamos fazendo? Toda essa chamada, todos os documentários do Vagner de Almeida são chamadas; são S.O.S.; são convites, mas o que é que nós vamos fazer depois de sairmos daqui? Que trabalho a gente está efetuando em relação a esse pedido de socorro?  É isso o que eu tenho para falar. 

Marcos Ribeiro, sexólogo, autor, consultor do portal do Ministério da Saúde, da UNESCO e da Fundação Roberto Marinho, colunista da revista Caras:

Meu ‘boa noite’ mais uma vez. Eu estava vendo o filme e os vários links do que ocorreu; da violência que a gente viu no filme, mas outras questões estão ficando muito nítidas. É como se nós não tivéssemos resolvido a violência contra os homossexuais e as travestis – nós não resolvemos – e já está entrando outra vertente, que é o fundamentalismo religioso. Então, quer dizer que além de serem assassinados e assassinadas, o fato de pertencerem a religiões como a Umbanda e o Candomblé parece que é o outro desvio, ou seja, além de ser considerado desviante (o comportamento homossexual), nós ainda temos o desvio do Candomblé e isso tem tomado uma forma tão séria que a gente tem mais de uma coisa para pensar: a questão da sexualidade e a questão da religiosidade. E junto com tudo isso tem a questão da própria família. 

Não tem jeito, nós temos que partir para uma ação. Que ação é essa? A passeata ou parada gay, que é tão importante, mas não é suficiente? Nós temos que tomar uma ação mais pontual e mais coletiva. Que políticas públicas nós vamos tentar mais concretamente? Vai ser pegar uma cópia do vídeo e levar ao prefeito da cidade na Baixada? Vai ser pegar o vídeo e levar para a porta dos deputados? Vai ser levar para o Secretário de Segurança Beltrami, mesmo sabendo que ele já está quase saindo?  Eu acho que levar isso ao secretário é fundamental para que o secretário tome providências. 

Eu trabalho muito com fóruns e tenho percebido que essa questão do preconceito, da discriminação que eu vejo, está ficando muito evidente. Então, conversando com adolescentes, a gente descobre que um garoto hoje não namora uma menina gordinha por vergonha dos colegas. Então, é assim: ela tem duas opções  ou vai ficar sem ninguém ou vai para a academia. Então, imagina: se o garoto não namora uma menina gordinha por causa da zoação dos colegas, ele não vai fazer bullying com o colega gay? Vai mesmo. Já tem pesquisa mostrando que a maior parte dos professores não gostaria de ter um aluno gay. Então, nós devemos pensar nessas coisas e começar a fazer algo a respeito disso. 

Eu vou dar dois exemplos para vocês. Esse livrinho aqui é de 1990 [ele se refere ao livro "Menino Brinca de Boneca?"]. Uma advogada, cujo nome nem lembro mais, colocou no Youtube (lembro que a religião dela era evangélica) várias coisas relacionadas à homossexualidade como coisa do demônio, dizendo que o livro era um incentivo à homossexualidade. Aí, veio um vereador e colocou num ‘santinho’ de campanha a capa do livro com a seguinte frase: “Isto é o que querem implantar no Brasil.” E dizia que o material era pertencente ao famoso ‘kit gay’. 


O livro saiu há 24 anos, mas para meu ‘azar’, o prefácio era da Marta Suplicy. Foi aí que ele ‘confirmou’: Está vendo? É ela que está por trás dessa manobra. Na época, a Marta não era nem deputada, mas enfim... Aqui , a gente vê as articulações maldosas elas estão no presente em nível absurdo. 

Este outro livro aqui [ele se refere ao livro Somos Iguais Mesmo Sendo Diferentes]tem uma parte que fala de dois homens que decidem adotar um filho, formando uma família de dois pais. Eu procurei ampliar, colocar outras famílias, para caracterizar que não se tratava nem de um casal gay. Poderiam ser dois irmãos cuidando de um filho, tios, enfim, poderia ser tudo. Aí, eu decidi publicar o livro com a Editora Moderna, mas já afirmando claramente que eram gays. Eles aceitaram. Quando mudei para a editora Moderna, coloquei mais ainda: famílias de dois pais ou duas mães nem por isso podem ser discriminadas

Que política de educação nós vamos fazer? Todo mundo passa pela escola, teoricamente, porque a gente sabe que nem todo mundo, infelizmente. Como vamos poder levar uma discussão para a escola para a gente poder dar um outro olhar sobre essa questão em cima dessa questão? E isso interessa a todos nós, independentemente da orientação sexual.

Obrigado, Vagner de Almeida. Obrigado a todos.


Adriano Dias, militante dos Direitos Humanos na Baixada Fluminense, fundador da ONG ComCausa:

Boa noite a todos. Como o Vagner falou, a gente já usou muito esse filme. Ter trabalhado com elas foi relevante para a minha vida, mudou toda a minha forma de pensar, especialmente a construção que vem da religião. Apesar de eu ter ido à cena do crime naquele dia, eu só percebi que as primeiras balas apresentadas no documentário do Vagner estavam direcionadas depois que eu conversei com a mãe de Rafael Silva. Eles foram primeiro aos pontos em que as travestis se prostituíam. E pelas falas, a gente vê que foi um ataque homofóbico. Para quem não conhece a história, muito rapidamente, eram seis policiais que estavam num bar e que queriam fazer uma ação impactante depois que polícias em levante jogaram duas cabeças no pátio do Batalhão da PM, mas não conseguiram derrubar o comandante da área. Eles pegaram a via Dutra, onde mataram as travestis, depois entraram num bar que era um ponto de venda de drogas, onde mataram outras pessoas e dali em diante passou a ser aleatório. Aí, já foi o rapaz saindo da casa da namorada e outros mais. Total de vinte e nove mortas.  

As vítimas prioritárias foram as travestis, caracterizando crime de ódio motivado por questões subjetivas. E geralmente a gente tem uma investigação, um trabalho, antes de fazer o levantamento de qualquer história. A gente vê lá qual foi o nível de brutalidade, e a gente já percebe que aquela motivação não foi apenas uma discordância. Lamentavelmente, a gente tem um pico de violência diferenciado na Baixada e quando se trata de homossexuais, esses crimes têm se ampliado.

Alguns candidatos ainda mantém algum diálogo, excetuando-se o Garotinho. E o momento para se colocar esse tema nos programas de governo é esse momento. É preciso colocar essa questão da reeducação para os direitos humanos. 

Nota deste blogueiro: A fala do Adriano foi a mais difícil de ouvir. Por isso, algumas partes foram omitidas, mas o principal está aí. 


Vagner de Almeida, Coordenador de Projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS:


Alguns terreiros ou roças de Candomblé abrem espaço para essas travestis viverem em grupo, porque em grupo elas são mais fortes. Eu estava falando com uma amiga, antes do filme, que 90 por cento dessas meninas estão mortas hoje.  E nenhum dos casos levantados foi resolvido. Não se prendeu o assassino. Outro aspecto dessa violência é um que a gente tem discutido muito o que é o HIV-AIDS. Essa população convive com o HIV-AIDS e não está se tratando. Não tem como se tratar. O hospital da Posse não pega essa população. Essa população não vai a esse hospital. Elas não têm um ponto de referência nesses locais.  Por isso, eu pedi ao Chico Buarque que cedesse os direitos da música dele “Basta um Dia”, porque o que eu aprendi e estou aprendendo com essa população é que ela vive day by day, ou seja, dia a dia. 

Como o professor Serginho (hoje não sei por onde ele anda) sempre registrou com as meninas, elas compram um pãozinho francês e duas fatias de mortadela... porque  elas não compram meio quilo de mortadela, elas não compram um quilo de arroz e de feijão. Elas não fazem um rancho – como dizem – da semana, porque elas não sabem... de manhã elas chegam em casa, hibernam. Como a própria Yone disse no filme, elas ficam dentro de casa, porque têm medo de se expor durante o dia e, à noite, elas vêm se expor àquela violência do tiro, violência enquanto espera o cliente, quando o cliente é o algoz. 

Outra coisa que eu aprendi é que muitos policiais compram armas novas e vêm testar as armas.  Alguns deles vão testar essas armas nas travestis. Então, teve uma até que disse: “Olha, o cara passou aqui e deu um tiro na gente... a bala não  pegou, mas o estilhaço pegou nas minhas costas. 

Então, a realidade sobre a violência estrutural, a violência física, a saúde mental dessas meninas ou desses meninos – porque dentre essas vítimas também existe um menino que era garoto de programa e estava na hora fazendo programa na Via Dutra, entende? Tem um espaço lá só para rapazes também. Então, como nós sabemos, aquela população foi escolhida, e depois eles foram ampliando essa chacina. Enquanto tinha bala, eles continuaram. 

Site oficial do Vagner de Almeida: www.vagnerdealmeida.com.



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Para quem ainda não compreende bem o conceito de "crime de ódio", cito um caso que foi apresentado durante a projeção. Trata-se de pessoas que frequentavam casas de Candomblé, entre elas um ogam que mantinha um relacionamento com o babalorixá. Dois homens arrastaram esse ogam, atiraram nele e o deixaram na linha de trem para que este o dilacerasse quando passasse. Os maníacos que fizeram isso cometeram outros crimes semelhantes. Não há indícios de que tenham sido presos até hoje.


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Para denunciar crimes ou ameaças homofóbica ou transfóbicas DISQUE 100.

No Rio de Janeiro, entre em contato com o Rio sem Homofobia. 

0800 0234567

A ligação é gratuita. 

No Rio de Janeiro, travestis podem contar com o Projeto Damas da Coordenadoria da Diversidade Sexual, prorrogado até 2015. Saiba mais aqui: http://www.cedsrio.com.br/site/noticias/2013-04/projeto-damas-e-prorrogado-ate-2015

E aqui: http://www.cedsrio.com.br/site/noticias/2012-01/estao-abertas-as-inscricoes-para-o-projeto-damas.


Comentários

  1. Obrigado pelo excelente artigo sobre a exibiçnao do filme e das falas apresentadas
    Uma honra tê-los conosco na ABIA.
    Um beijão
    Vagner de Almeida

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    Respostas
    1. A honra e o privilégio foram nossos, Vagner.

      Beijos, querido.

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