No país da Copa, vida aos 45 é fim de primeiro tempo

Sergio Viula, Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Não sou fã de futebol. Não estou satisfeito com putaria que se faz com o dinheiro público em torno da Copa da FIFA. Contudo, no país do futebol, nenhuma metáfora para a vida poderia ser mais instantaneamente compreendida do que essa: a de um jogo dividido em dois tempos.

Sou daqueles que acreditam que a vida pode chegar razoavelmente bem aos 90 anos de idade. É preciso um pouco de 'sorte' e de cuidado de si. Caso isso venha a ser verdade para mim, deverei considerar que acabo de encerrar o primeiro tempo - sem intervalo, porque a vida não é exatamente como futebol. Começa agora mesmo o segundo tempo. Será que ele será melhor que o primeiro? Como calcular o bom e o mau? Como julgar o que é melhor, quando esse possível 'melhor' está no passado ou no futuro. O que vem por aí será melhor do que o que já passou? Como saber? 

Aliás, que desperdício ficar tentando adivinhar ou calcular isso! A vida acontece no presente do indicativo e na primeira pessoa do singular: VIVO. E enquanto vivo, vou 'gerundiando' um monte de coisas, tipo: estou TRABALHANDO; estou PENSANDO; estou me DIVERTINDO; estou TRANSANDO; estou ENVELHECENDO - o que é apenas eufemismo para estou MORRENDO.

Olhando para o primeiro tempo que termina hoje, posso dizer que tomei alguns gols, mas marquei outros também. Parece que o placar ainda está empatado. O segundo tempo, se jogado até o final dos 45, será a oportunidade de golear. Por isso, quero driblar o que me atrasa e avançar para o que me faz crescer como pessoa - aquilo que possa aumentar minha alegria e minha potência de agir, para falar em termos spinozistas e nada futebolísticos. ;)

Nem tudo hoje (e me refiro de 7 para 8 de maio) foi só alegria. A vida não respeita aniversários. Ela vem com tudo: alegrias e tristezas. Uns dias, ela traz mais de uma. Outros dias, mais da outra. Sacanagem é quando no dia do seu aniversário, alguma coisa faz com que a tristeza se torne igual ou maior que a alegria. Senhor de si é o homem, porém, que não se deixa levar pelas afecções (“estado de um corpo quando ele sofre a ação de outro corpo), mas se cerca ativamente daqueles 'corpos' que lhe proporcionam os melhores afetos. 

Quero jogar o segundo tempo como técnico de mim mesmo. Aliás, isso é o que todos fazemos, com ou sem reflexão a respeito disso, porque vivemos e morremos sozinhos, no final das contas. Todos, por mais queridos que sejam, são plateia. Aqueles mais fiéis podem ser considerados torcida. ;)

Obrigado a todos os que torcem por mim.


Sergio Viula
45 anos em 08/05/2014.

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