NOÉ NADA DEMAIS... NOÉ MESMO.



NOÉ NADA DEMAIS... NOÉ MESMO.

Hoje foi aniversário de um querido amigo – Ricardo Rebelo. Almoçamos com ele e sua família. Detalhe: antes de sabermos do aniversário, minha irmã e minha cunhada haviam nos convidado (Emanuel e eu) para almoçarmos em outro lugar. Como somos todos amigos, decidimos juntar a galera toda e ir para um restaurante mais próximo, porém com opções ao gosto de todos.

Depois do almoço, cada um tomou um rumo diferente. Emanuel e eu fomos ao cinema, porque ele queria ver Noé – o que, confesso, está longe de ser meu tipo de filme favorito. Mas, como dizem: O que a gente não faz para agradar o marido? kkkk

Fomos os dois lá para Botafogo, então.

O filme, obviamente, é baseado no mito bíblico do dilúvio. Até aí, nada de novo. Desde crianças, as pessoas que frequentam igrejas ou têm parentes da religião católica ou de outras ramificações cristãs ouvem falar da bicharada que foi salva graças ao engenhoso Noé, sua esposa, seus três filhos e as mulheres deles. Poderia ter sido o primeiro cruzeiro gay, mas a bicharada não era gente. Alega o texto bíblico que eram animais de TODAS as espécies, em pares, mas nem sempre formando apenas um par, como a maioria pensa. Quem já leu com atenção o texto sabe que dos animais considerados ‘limpos’ (pensamento mosaico anacronicamente imposto ao texto), sete pares entraram na arca, em vez de dois. Ou seja, foram 14 de cada espécie considerada limpa e quatro das não limpas. Diz o Gênesis:

“Dos animais limpos e dos animais que não são limpos, e das aves, e de todo o réptil sobre a terra, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara.” (Gênesis 7:8-9)

Vejam que de dois em dois não significa somente dois de cada espécie. Veja também que todos os animais, aves e répteis do mundo chegaram ali. Observe o que eu disse sobre número de pares anteriormente:

“De todos os animais limpos tomarás para ti sete e sete, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea.” (Gênesis 7:2 – grifo meu)  

Era muito bicho para pouco espaço, sem falar na impossibilidade de alimentar tudo isso sem deixar que eles comessem uns aos outros. Afinal, foram meses e meses até que as águas baixassem.

O mito é tão batido que dificilmente poderia ser renovado. Hollywood bem que tentou, mas nem mesmo o talento inquestionável de Russell Crowe, Anthony Hopkins, Jennifer Connely, Emma Watson, entre outros no elenco, foi suficiente para salvar a trama – o filme é chato pra cacete!

As adaptações para aproximá-lo de filmes como Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia também não foram suficientes. As duas horas e dezenove minutos de Noé exigem muita determinação por parte do expectador. Eu só fiquei porque estava acompanhado e queria ver se podia piorar, já que paguei 25 reais pelo meu infeliz ingresso. Por fim, Emanuel mesmo me disse que não curtiu o filme, ressalvando que os atores deram o melhor de si e que merecem reconhecimento por seu desempenho. Parece que tivemos as mesmas impressões.

Sinceramente, não entendi porque tinha gente chorando no cinema. Seria culpa? Medo? Ansiedade? O que será que esse povo andou fazendo no verão passado? Digo isso porque o fio que alinhava o filme é o mesmo que caracteriza as religiões abraâmicas: pecado, medo, culpa, juízo, saudosismo do mítico Éden, castigo. 

Agora, justiça seja feita: a mulher de Noé e a mulher de Sem chegaram a mencionar amor e beleza – dois conceitos que não aparecem em momento algum do relato bíblico. Isso certamente se deu, porque Hollywood não suporta a ausência desses dois – beleza e amor – qualquer que seja o enredo. Mas, de novo: por que teve gente fungando ao meu redor? Não era cocaína. O que teria motivado o funga-funga, então?

A pergunta pode parecer bobagem. Afinal, Hollywood faz a gente chorar com desenhos animados. Teve muita gente que chorou com O Rei Leão. Eu fui um dos tais. E ainda choro quando o vejo pela enésima vez. Simba, sem uma palavra sobre deuses, paraísos e juízos, emociona sempre. A diferença aqui é que muita gente leva a sério esse blá, blá, blá de pecado, castigo e redenção. Mais grave ainda: muita gente gostaria de fazer o papel de justiceiro de Deus nos dias atuais. 

Certamente, há quem inveje o Noé de Russell Crowe. São aqueles indivíduos que ao identificarem qualquer coisa fora da cartilha bíblica deles, acham que precisam acusar, perseguir, corrigir e até eliminar o suposto “infiel”. Sentem-se como os queridinhos escolhidos de Deus, e a humanidade inteira que se exploda. Basta dar uma olhada no modo como pensam, falam e agem os fundamentalistas de qualquer linha, seja do segmento judaico, católico, muçulmano ou protestante (em ordem cronológica). Detalhe: todos eles acreditam no dilúvio e no ‘profeta’ Noé.


Então, o que posso dizer? Bem, poderia dizer muitas coisas  entre elas que o criacionismo se enterra sozinho , mas vou ater-me a uma: se você não chegar à conclusão de que esses relatos bíblicos não passam de invenção de uma mente neurótica, você terá que concluir que ninguém é mais neurótico do que esse deus retratado no dilúvio e em outros mitos do mesmo quilate – e isso só para dizer o mínimo. Se é para crer num deus, que seja um deus melhorzinho, porque perto desse, satanás (outro mito) poderia ser uma irmã de caridade.

Felizmente, conheço cristãos, judeus, espíritas, budistas e ateus que, em termos de justiça e ética, deixariam Noé e outros profetas endeusados por muitos na poeira.

Comentários