Quem quer ter um filho gay? - Por que essa pergunta é burra?


Comentário de uma mulher no Facebook sobre uma declaração preconceituosa a respeito da possibilidade de ter um filho gay feita por Cláudia Leite ao dizer que seu filho seria bem criado.

"Não conheço uma mãe ,que quando o filho diz: Sou gay ela responda: Nossa que bom meu filho, seja muito feliz. Estou orgulhosa da sua escolha. Mãe aceita porque ama, e porque a opinião dela não vai mudar muita coisa mesmo, a verdade é essa"

O que essa mulher lá do Facebook e outras pessoas como ela nunca se perguntam é por quê. Porque pensam assim? De onde vem esse constrangimento, raiva, tristeza? Dizem isso como se esses sentimentos fossem tão naturais quanto a cor dos olhos ou da pele. Não entendem como discursos de danação, criminalização e patologização foram se sobrepondo ao longo da história ao ponto de criarem uma espécie de 'inconsciente coletivo', que felizmente já não é de muita gente. Pensam que com essa fala acabam com a discussão, mas só revelam como são 'acríticas", mal-informadas, distraídas, sem o hábito de pensar para além do que vem à cabeça como primeira reação. 

A gente poderia parafrasear esse pensamento para entender melhor a estupidez dele. 

Vamos traduzi-lo para a cultura chinesa: "quem quer ter uma filha?" 

Como os chineses só podem ter um, e as filhas geralmente só dão prejuízo, eles preferiam aborta-las ou mata-las logo ao nascer. 

Ou então, traduzamos para a cultura de várias tribos do Xingú: "quem quer ter filhos gêmeos?"

Se nascem gêmeos, eles matam pelo menos um. Há indícios de que nos últimos quatro anos, 500 crianças indígenas tenham sido sacrificadas pelas mais variadas crenças.

Eu poderia fazer outras comparações para demonstrar como a própria cultura circundante influencia e muitas vezes determina os sentimentos e as ações deles decorrentes sem que haja qualquer dado natural nisso tudo. E nem mesmo a natureza tem a palavra final sobre o que quer que seja. Se tivesse, construiríamos pontes. Acreditaríamos que o rio está ali demarcando um limite que não deve ser transposto. 

 Então, não repita essa estupidez "quem quer ter um filho gay?". 

Pare para pensar de onde vêm as distorcidas noções que fazem você acreditar que essa pergunta aparentemente retórica encerre a questão. Na verdade, para começo de conversa, o simples fato de fazer da homossexualidade uma questão já é questionável.

Insurja-se contra a cultura do preconceito, do ódio e da morte, seja ela voltada contra gays, meninas, gêmeos ou quaisquer outros seres humanos. Do mesmo jeito que você acha que as mães chinesas deviam amar suas meninas e que as mães indígenas deviam amar seus gêmeos, ame seu filho ou filha gay, lésbica, bissexual ou transgênero. Porque, no final das contas, os motivos para despreza-los são todos construídos com base no erro, mas para ama-los nenhum motivo é necessário. ;)





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