Gargalhada de Tristeza por Junior Lima.

Junior Lima: autor

Crônica "Gargalhada de Tristeza"


Dizem que minha gargalhada é alta
É verdade.
É alta mesmo.
O som da minha gargalhada emite a intensidade da tristeza que eu tenho sentido.

Tristeza em ver meus amigos morrendo em Uganda
Tristeza em ver políticos promovendo cura daquilo que não é doença.
Tristeza em ver um pai ensinando o ódio ao seu filho.
Tristeza em ver um pai matando o próprio filho por fanatismo.

Já se passaram mais de dois mil anos de perseguição
Muitos corpos foram queimados, enforcados
Decepados.
Começaram com os negros (e ainda continua).
Depois com a mulher (e ainda continua).
Depois com os gays e ainda continua.

Dói ver uma realidade sombria para os meus sobrinhos
E para os futuros filhos dos meus sobrinhos
Dói muito ser julgado por amar
Dói muito ver alguém ser aplaudido por matar em guerra
Dói ver minha sexualidade sendo discutida como um objeto a ser escolhido.
Dói,
Dói
E dói.

E como cantava Renato Russo na banda Legião Urbana:

Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira

E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção

(“Há Tempos”, Legião Urbana, As Quatro Estações, 1989, EMI.)

Enquanto lutamos para sermos reconhecidos “iguais” nas leis
Enquanto lutamos por respeito à nossa diferença
Muitos estão morrendo nas ruas
Vítimas de um ódio institucionalizado
Vítimas de uma sociedade primata, hipócrita e covarde.
Uma sociedade cristã “seletiva” que humilha e matam os diferentes.
E estão matando cada vez mais
Porque estamos saindo da condição de subalternos
E estamos exigindo respeito à nossa constituição tão sangrada.
Estamos exigindo a nossa dignidade humana.
E nada mais.
E isso dói.
Dói muito mais do que alguém possa imaginar.

Ser gay não dói.
Me dói o preconceito que alimenta o ódio e a violência “santa”.
Me dói saber que ao sair na rua eu poderei ser agredido novamente
Por ser gay somente.
Me dói ver uma mãe expulsar seu filho de casa
Me dói ver instituições religiosas pregando “abominação” com toda a sua “liberdade de expressão”.
Me dói querer amar publicamente e com liberdade mas temer o soco, o chute, o braço quebrado e um olho roxo.
Roxo de ódio que plantamos quando dizemos “Isso é coisa de menina meu filho”
“Isso é coisa de bichinha”
Como se fôssemos alienígenas querendo destruir o planeta.

O planeta está destruído há muito tempo e ninguém se importa.
A Terra está cada vez mais aquecida pelo Sol e pessoas estão morrendo por causa disso.
Vítimas e agentes da nossa “sagrada” ignorância.
Políticos que deveriam defender direitos humanos estão pregando a ditadura.
E a gente ainda alimentando a ignorância.
Como disse Buda “A luta não é entre o Bem e o Mal, é entre o Conhecimento e a Ignorância".

Enquanto a sexualidade for vista de maneira pérfida
Como temos visto há mais de dois mil anos
A nossa história estará repleta de corpos caídos
Sangrando e suplicando por amor, por respeito às diferenças
E em seu último suspiro:
Por esperança.

Enquanto não cuidamos dessa geração “Google”
Na qual até a violência está conectada
Redes de ódio se juntam e se misturam pessoalmente
Para limpar a cidade da “imoralidade” da “sujeira” do ímpio.
São os justiceiros de Cristo, que segundo o próprio livro que o inventa
Diz que devemos “amar uns aos outros”
E que não deixou Madalena ser morta por apedrejamento.
Porque ninguém é santo.
Mas podemos ser uns monstros quando queremos.

Então por vezes me sinto infeliz
Infeliz por saber que podemos ter mais dois mil anos de cultura machista, sexista, homofóbica, misógina e pior: hipócrita.
Enquanto o tempo passar com o ódio sendo aplaudido no nosso jornalismo brasileiro
Enquanto o nosso tempo passar em meio à violência que sofremos por sermos diferentes em amar,
Muitos cairão ao teu lado
Ao meu lado
Sangrando
Clamando por amor e respeito
Clamando por dignidade e esperança.
E por isto temos que lutar.
Não só pelo sangue derramado mas por amor àqueles que estão indo e não poderão voltar.
Estão indo e não podem mais falar.
Então eu falo, grito e choro com estas palavras a minha tristeza tão gritada em minha gargalhada.
Então eu gemo de dor por saber que amanhã poderei ser morto pelo ódio que alimentamos todos os dias em nossas casas, em nossas escolas, em nossas igrejas e em nossa forma de fazer política.

Então eu não me calo, mas arrisco-me a minha própria morte por falar.
Mas o que fazer quando somos minorias né?
Já que a pena de morte não é legal, a pena de morte já está dada não é mesmo?
Os dados do Grupo Gay da Bahia estão a um clique.
Os dados de mulheres mortas no Brasil e no mundo estão a um clique.
Os dados de negros mortos no Brasil está a um clique.
Mas preferimos não clicar e fomentar a nossa decadência progressista.
Desordem e retrocedência é o nosso lema.

E como todo brasileiro orgulhoso vamos comemorar!
É tempo de Carnaval e temos muitos dados a brindar!
É tempo de alegria nas avenidas
É tempo de festas, fantasias na qual nós já não precisamos
Pois já vivemos disto.
Fantasiamos o amor, a alegria e praticamos ódio, violência desde a frase machista, sexista e homofóbica até a travesti queimada em praça pública.
É tempo de alegria gente!
Vamos comemorar a nossa hipocrisia!
Vamos comemorar a nossa falta de esperança e as crianças exploradas sexualmente!
Vamos comemorar as nossas crianças mortas de fome, jogadas na miséria.
Vamos comemorar a nossa falta de humanidade e a crença da decadência.
Vamos comemorar nossa maldade.

Termino agora com uma outra letra da banda Legião Urbana ( E comemorem, pois há muito o que se comemorar!):

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos covardes
Estupradores e ladrões
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

(“Perfeição”, Legião Urbana, O Descobrimento do Brasil, 1993, EMI.)


Crônica por Júnior Lima

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