Quais americanos são responsáveis pelo ódio russo?

Quais americanos são responsáveis pelo ódio russo?


Onde foi que a Rússia aprendeu tamanha intolerância? Dê uma olhada em nossos ativistas anti-gays caseiros.

Opinião no The Advocate reverberada pelo The Huffington Post


Por DAVE STALLING - 03 de setembro de 2013

Traduzido por SergioViula (www.foradoarmario.net). NT: A palavra gay, quando usada num contexto como esse, refere-se a tudo o que diga respeito a LGBTQI, etc. Na tradução, em fidelidade à escolha do autor pelo termo, ela foi mantida.


Obama e Putin - fonte: "The Advocate"
Como muitos americanos, particularmente nós americanos gays, tenho assistido alguns vídeos que estão circulando mostrando neo-nazistas, na Rússia, brutalmente enganando, perseguindo, assediando, fazendo bullying, torturando e humilhando adolescentes gays. Fiquei especialmente perturbado e irado com uma foto mostrando dois caras de aparência durona posando orgulhosamente ao lado de um jovem humilhado, a quem eles haviam aparentemente torturado, como se fossem caçadores posando ao lado de seu troféu.

Gays ativistas russos relatam um crescimento dramático da violência contra gays nestas últimas semanas, levada a cabo por pessoas motivadas e inspiradas por palavras, atitudes e políticas anti-gays. Não somente o presidente russo Vladimir Putin fala asperamente contra gays e apoia leis anti-gays, como também o Patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa, refere-se aos casais do mesmo sexo como um "sinal do Apocalipse." Tais palavras e políticas enérgicas podem provocar ações horríveis. Algumas semanas atrás, um homem de 23 anos foi assassinado em Volgograd. Garrafas de cerveja foram enfiadas em seu ânus, seu pênis foi exitrpado, e sua cabeça foi esmagada com uma pedra.
Como o colunista Neal Broverman da revista The Advocate ressalta  num recente texto opinativo, atrocidades semelhantes estão acontecendo em outros lugares do mundo. Ele fala da convocação do presidente do Zimbabwe Robert Mugabe pela decapitação de gays. Um ativista gay dos Camarões foi recentemente torturado e morto. Na Nigéria, onde ser gay ainda é ilegal, uma lei está sendo considerada, a qual levaria pessoas à prisão por 14 anos se flagradas em relacionamento com alguém do mesmo sexo.    
É enfurecedor e frustrante ler e assistir a tantas violações horrorosas contra os direitos humanos sendo infligidas contra pessoas inocentes em terras tão distantes, simplesmente por causa de quem são e de quem foram geneticamente propramadas para serem, e ainda sentir-me desamparado, sabendo que não há muito que possamos fazer.
Ironicamente, eu nutro arrependimento sobre políticas das quais eu ingenuamente participei enquanto servia como jovem fuzileiro da marinha americana durante a assim chamada Guerra Fria, quando a Rússia foi considerada o "Império do Mal" pelo então presidente Reagan. Fomos equipados para a guerra por todas as razões erradas. Agora, os fuzileiro em mim deseja que se pudessem enviar tropas bem treinadas para a Rússia para protegerem vidas inocentes. Eu seria o primeiro a me voluntariar. Mas eu também sei que respostas violentas geralmente abastecem mais violência. Violência induzida por fantasias geradas pela raiva não adianta.
Mas o que fazer?
Muitos de nós fazemos o que podemos para, ao menos, promover conscientização. Chamadas a boicotar a vodka Russa e as Olimpíadas estão, de alguma forma, certametne atraindo a devida atenção sobre as atrocidades que estão ocorrendo na Rússia. Mas nós, americanos, não podemos realmente esperar exercer muita influência direta sobre políticas exteriores, certo?
Pelo menos, isso é o que eu pensava. Um cidadão americano chamado Scott Lively diz o contrário.  
Um advogado, pastor, auto-proclamado "consultor em direitos humanos", fundador e presidente do Defenda a Família Internacional (Defend the Family International) e presidente do Ministérios Verdade Permanente (Abiding Truth Ministries) em Springfield, Massachussets. Lively conduziu um tour de palestras através de 50 cidades da Rússia seis anos atrás, e ele diz que as atuais leis anti-gays refletem políticas que ele advogava naquele tempo quando ele incentivava a Rússia a "criminalizar" o que ele chama de defesa pública da homossexualidade (uma política que ele tem tentado promover nos Estados Unidos também, mas sem sucesso).
“O propósito da minha visita era levar uma advertência sobre o movimento político homossexual que tem feito muito para mudar meu país", escreveu Lively numa carta aberta aos cidadãos russos. "Este é um câncer social de crescimento muito rápido que destruirá os fundamentos da família em sua sociedade se vocês não agirem imediatamente e efetivamente para impedir isso.” 
Ele disse que tais ações fariam da Rússia uma "sociedade-modelo pró-família" e sugeriu que "pessoas do Ocidente começariam a emigrar para a Rússia da mesma maneira que os russos costumavam emigrar para os Estados Unidos e para toda a Europa.” (Lively também é co-autor de um livro chamado The Pink Swastika: Homosexuality in the Nazi Party (A Suástica Rosa: Homossexualidade no Partido Nazista), no qual ele alega que "homossexuais foram os verdadeiros inventores do Nazismo e a força condutora por trás das atrocidades nazistas.”)
Lively não é o único cidadão americano alimentando as chamas da discriminação, da intolerância, do ódio, e da violência contra os gays na Rússia e em outros lugares.
Peter LaBarbera, presidente do Americanos pela Verdade a respeito da Homossexualidade (Americans for Truth About Homosexuality), com base em Naperville, Illinois, escreveu: “Os russos não querem seguir a promoção da confusão de gênero, da perversão sexual, e das ideologias anti-bíblicas para os jovens da decadente e irresponsável América.”
O Congresso Mundial das Famílias (The World Congress of Families), com base em Rockford, Illinois, está planejando executar sua oitava conferência internacional no Palácio dos Congressos do Kremelin, em Moscou, no ano que vem. 
“A Rússia, com seu compromisso histórico para com uma espirtualidade e moralidade profundas, pode ser uma esperança para os defensores da família natural em todo o mundo,” diz uma declaração no site da organização.
Austin Ruse, presidente do Instituto da Família Católica e dos Direitos Humanos (Catholic Family and Human Rights Institute) [sim, o grupo realmente tem a audácia hipócrita de usar as palavras "direitos humanos" em seu nome], lamenta o fato de que tais leis não tenham sido aprovadas em nossa nação.
“Você admira algumas das coisas que eles estão fazendo na Rússia contra a propaganda", diz Ruse. O Instituto, que tem escritórios em Nova York e Washington, D.C., está buscando reconhecimento das Nações Unidas, ainda que alegue que a ONU está "arriscando sua credibilidade" por pressionar em favor dos direitos gays. Contudo, Ruse planeja viajar para a Rússia e encontrar-se com oficiais do governo e com líderes civis. “Queremos que eles saibam que o que eles fazem tem, de fato, tem apoio entre as ONGs americanas que trabalham com temas sociais", diz ele.
Stefano Gennarini, também do Instituto da Família Católica e Direitos Humanos (Catholic Family and Human Rights Institute), fala favoralmente das novas leis anti-gays da Rússia, e refere-se às paradas, concentrações e protestos em apoio à igualdade gay como "comportamento ridículo e perturbador exibido em praças e ruas da Europa e da América.” (Eu não pude achar comentários dele sobre o comportamento perturbador de perseguição, assédio, espancamento, tortura, e assassinato de pessoas gays inocentes nas praças e ruas da Europa.) Em vez disso, ele diz que pessoas em outras regiões, como a África e o mundo islâmico, poderiam "olhar para a Rússia como um exemplo positivo quando considerarem suas próprias leis.”
Como esses supostos cristãos conseguem dormir à noite? Eles esquecem, negam, ou ficam realmente satisfeitos com a discriminação, a intolerância, o ódio, a violência, e o sofrimento com os quais suas palavras e ações contribuem? Eles realmente acreditam que o Cristo que eles cultuam - o Cristo que, conforme meu entendimento, defendia a paz, o amor, o não julgamento, a tolerância, a aceitação - estaria satisfeito com eles?  
Eu nunca defenderia a violência contra essas pessoas, nem negaria a elas o direito constitucional à livre expressão ou à liberdade religiosa. Mas, poderiam eles ser - deveriam eles ser - responsabilizados de alguma maneira?
O presidente Obama disse que tornaria os direitos gays uma parte de sua política externa, e o secretário de Estado John Kerry diz: “Só precisamos continuar defendendo a tolerância e a diversidade.” Talvez, eu esteja apenas irado e frustrado demais, e eu sei que estou pisando em solo perigoso, mas quando os cidadãos americanos e as organizações viajam a países estrangeiros e ajudam a promover ou incitar a intolerância, a discriminação, o ódio, e a violência, não estão violando alguma lei dos Estados Unidos? Podem eles trabalhar legalmente contra os interesses e política externas de nossa própria nação? Não estão essas pessoas "ajudando e sendo cúmplices do inimigo"? Podem suas ações ser consideradas traição? Não deveria ser ilegal exportar discriminação, intolerância, ódio e violência anti-gay a partir dos Estados Unidos?
Scott Lively já foi processado na corte federal dos Estados Unidos por um grupo de defesa dos direitos gays em Uganda, que o acusou de promover e influenciar leis para perseguir homossexuais naquele país — algumas versões [dessa lei] sob consideração convocavam a pena de morte em alguns casos. Lively está trabalhando para encerrar o caso. Talvez, esta seja mais uma das minhas fantasias de vingança induzidas pela raiva, mas espero que o caso não seja encerrado. Espero que ele perca uma considerável soma em dinheiro e credibilidade. Eu espero que outros processos semelhantes sejam movidos contra ele e outros. Eu quero tanto que essas pessoas sejam responsabilizadas pelo sofrimento pelo qual são parcialmente responsáveis. Será que eles podem ter, ao menos, seu status de organização sem fins lucrativos, e livre de impostos, caçado?
Além do boicote à vodka e às Olimpíadas, devíamos fazer tudo e qualquer coisa possível para ajudar a chamar a atenção e conscientizar as pessoas a respeito das consequências apavorantes de palavras e ações de gente como Scott Lively, Peter LaBarbera, Austin Ruse, e Stefano Gennarini e as organizações para as quais eles trabalham - pessoas e organizações bem aqui em nosso país.    
Se nada mais, eu quero que eles nos digam como se sentem. Eu quero ver e ouvir suas reações. Eu quero ver a expressão de seus rostos e ouvir seus pensamentos, se ou quando eles assistirem os vídeos que circulam na Internet mostrando neo-nazistas na Rússia brutalmente enganando, perseguindo, assediando, fazendo bullying, torturando, e humilhando adolescentes gays. Eu quero saber o que acontece quando eles olham a foto que mostra dois caras com aparência durona posando orgulhosamente ao lado de um jovem humilhado a quem eles aparentemente torturaram como se fossem caçadores posando ao lado de seu troféu, e ouvi-los com respeito a um homem de 23 anos sendo morto, tendo garrafas de cerveja enfiadas em seu ânus, seu pênis extirpado, e sua cabeça esmagada com uma pedra.
Só porque ele era gay.
O Cristo deles aprova?   

DAVE STALLING é um ex-enrustido fuzileiro da marinha. Ele é escritor e um apaixonado defensor dos direitos gays, e um protetor profissional da vida selvagem. Ele mora em Berkeley, Califórnia. Leia mais sobre seu trabalho em seu blog, Out Into the Wilds (em inglês).

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