Eliseu Neto: O Silêncio do Brasil sobre os direitos dos gays nas Olímpiadas

Foto: Sergio Viula



Eliseu Neto: O Silêncio do Brasil sobre os direitos dos gays nas Olímpiadas




Por: Eliseu de Oliveira Neto 

A Rússia veta uma referência aos direitos dos gays em uma resolução na ONU que tem como objetivo promover os direitos humanos nos Jogos Olímpicos e volta a causar polêmica no mundo diplomático e dos esportes. O texto acabou sendo aprovado na última quinta-feira com uma outra linguagem, mas causou mal-estar entre delegações. O Brasil foi um dos copatrocinadores do texto russo.  (http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,texto-russo-na-onu-nao-tem-referencias-aos-direitos-dos-gays,1079209,0.htm)

Não é de hoje que, se por um lado o governo petista flerta com o movimento LGBT, por outro, alia-se descaradamente a partidos que agregam líderes religiosos descompromissados com a fé que apregoam e usam a questão dos direitos dos homossexuais para manobrar as camadas mais ignorantes da nossa população. Partidos notadamente homofóbicos como o PSC - que tenta derrubar a conquista do casamento gay na justiça - e o PP - famoso pela absurda propaganda "família = homem + mulher", ganham cada vez mais força a partir destas alianças.

Foi por culpa do seu partido, o PT, que um pastor homofóbico e racista assumiu o cargo mais importante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, mas nossa presidenta nunca nem sequer tocou nesse assunto. Devemos supor que ela avaliza essa situação descabida?

Internamente, Dilma já deixou bastante claro o seu descaso com os LGBTs ao afirmar que seu governo "não faria propaganda de orientações sexuais” (como se isso fosse uma escolha) e ao vetar o kit de combate à homofobia (que este ano cresceu 40% no Brasil). Agora, endossando o veto aos direitos gays na Rússia, o Brasil se posiciona internacionalmente, dando suporte indireto ao genocídio dos homossexuais, chancelando uma resolução deturpada, que não faz mais referência aos direitos gays, num momento em que sabemos da situação de perseguição e tortura que se apresenta na Rússia.

A Rússia se revelou-se uma nação de homofóbicos xiitas, onde gays são perseguidos e espancados, onde campos de concentração voltaram a existir, em que caçadas aos homossexuais vêm acontecendo como algo natural, e até os turistas gays estão sendo expulsos. Os direitos de cidadão dos indivíduos homossexuais vêm sendo censurados por atos de extrema violência, violando o que propõe a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aquilo que parecia ser coisa do passado ou de filmes, ressurge de forma avassaladora e chocante.

Então, como pode o Brasil, país campeão em morte de homossexuais, que enfrenta a homofobia diariamente em seus estados, com um governo que se autodenomina popular e democrático, ousar calar-se diante da retirada de um item que protege seres humanos de serem – reforçamos - caçados, torturados, mortos e ainda expostos através vídeos na internet, em cadeia mundial?

Claro, o Brasil tem um governo petista, que é apaixonado pelo dinheiro e influencia da Rússia. Talvez tenha se solidarizado depois de enfrentar a "revolta do vinagre" contra os gastos absurdos com a Copa das Confederações. Pelo visto, os lenientes e os homofóbicos se entendem muito bem.

A cena descrita é a Noruega pedindo clareza sobre a proteção aos homossexuais, a Rússia se aliando ao Islã para que isso não ocorresse e o total silencio do Brasil.

Tudo que um de nossos embaixadores pode nos dar como resposta foi: "Não sei como ficou o texto"
Embora sejamos um país que ainda precisa lutar contra seu próprio obscurantismo e violência, os homossexuais aqui estão lutando – e conquistando - seus direitos. Têm voz, capacidade de articulação e são identificados como cidadãos. Não podemos nos curvar diante da morte de milhares, como bem pontuou a Federação Internacional de Direitos Humanos.

O núcleo LBGT do PPS rechaça esse posicionamento do governo brasileiro, e segue firme na ideia de que devemos proteger nossos atletas, nossos turistas. Sugere ainda que o país boicote as Olimpíadas de inverno na Rússia. O partido analisará a proposta do núcleo que ainda propõe aprovar no Congresso uma moção de repúdio ao silencio leniente do Governo Brasileiro e a não participação do Brasil no evento esportivo.



"Neutro é o que já se decidiu pelo mais forte"

Max Weber




Eliseu de Oliveira Neto PPS/RJ – Psicanalista membro do Núcleo LGBT do PPS e do Comitê Carioca da Cidadania LGBT

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