GRETTA: NOTA SOBRE CAFETINAGEM, TRÁFICO DE PESSOAS E REPÚDIO À REPORTAGEM DO SBT

GRETTA – Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia


NOTA SOBRE CAFETINAGEM, TRÁFICO DE PESSOAS E REPÚDIO À REPORTAGEM DO SBT


A entidade de defesa dos direitos humanos GRETTA – Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia, que tem como uma de suas finalidades promover a cidadania e saúde plena de travestis e transexuais, combater os estigmas socialmente construídos, bem como construir paradigmas que realmente representem a realidade das travestis e transexuais do Estado do Pará, vem publicamente expressar sua opinião acerca da entrevista realizada pelo programa SBT Repórter acerca do fechamento de ONG que abrigava travestis em São Paulo.

Antes de expormos nossa opinião sobre o tema, queríamos publicizar nossa indignação com o repórter Darlisson Dutra que durante toda a matéria desrespeitou a identidade de gênero feminina das travestis com termos como “um travesti” ou “o travesti” e sem contextualizar a situação de vulnerabilidade das pessoas trans, bem como a promotora pública que cedeu entrevista ao repórter transfóbico e que citou as pessoas vivendo com HIV/AIDS como “Aidéticos” reforçando o preconceito a estas pessoas e a criminalização dos mesmos. 


Por tudo isso Consideramos a matéria Transfóbica e reforçando conceitos conservadores e excludentes que nos colocam a margem do processo de acesso a cidadania. EXIGIMOS RETRATAÇÃO PÚBLICA DO SBT.

Sobre a declaração da Coordenadora de Proteção a Livre Orientação Sexual, Bruna Lorrane, ao SBT, achamos que a citação foi descontextualizada da realidade em que vivem as travestis e transexuais e sugerimos retratação. Em seu facebook Bruna justificou ter sido vítima da má edição da reportagem e alegou não ter sido esta a sua intenção.

Sobre a repercussão da matéria e sobre o Tráfico de Pessoas Travestis e Transexuais, gostaríamos de ressaltar que:

1. Cerca de 95% de toda a população de pessoas Trans do Brasil vivem da prostituição, por inúmero motivos: exclusão familiar, social, educacional ou mesmo por opção. O fato é que esta é nossa principal profissão e a falta de uma regulamentação profissional pelo Ministério do Trabalho infere em vulnerabilidade e violência, não acesso a direitos trabalhistas;

2. A exclusão de travestis e transexuais do mercado formal de trabalho é um assunto de extrema importância, porém vale ressaltar que a intenção não é discriminar a prostituição nem as prostitutas, mas defender o direito à escolha profissional para travestis e transexuais a partir de políticas públicas que combatam a transfobia e garantam o acesso e a permanência na escola.

3. Vale comentar que as palavras “travesti” e “transexual” sequer aparecem nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), nem na parte intitulada Orientação Sexual, nos Temas Transversais.

4. A discriminação efetivamente barra a maioria das travestis do sistema educacional e de carreiras de classe média. O mercado formal de trabalho é basicamente fechado às travestis. Uma minoria bem pequena tem formação superior ou qualificações profissionais. As travestis muitas vezes são rejeitadas pelas famílias e expulsas de casa;

5. Vale ressaltar que cafetina ou cafetão, é aquela pessoa que tira proveito da prostituição alheia participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça, muitas das vezes coagindo a vítima com agressões físicas e extorsão financeira. Porém, sendo a prostituição uma das únicas alternativas para a maioria das travestis brasileiras, cria-se uma rede solidária de companheiras que alugam moradias a baixo custo para aquelas que querem viver da prostituição de maneira digna, sem extorsão ou mesmo obrigação de qualquer tipo de atividade por parte das alojadas. Defendemos esta prática e condenamos a pratica da cafetinagem.

6. Entendemos que somente a regulamentação da profissão de prostitutas pode extinguir este tipo de violência praticada pelos exploradores do sexo que utilizam estas travestis, além de garantir direitos trabalhistas a esta parcela da população que quase nunca ouve falar em direitos e se sujeitam a todo tipo de mazela para sobreviver.

7. Defendemos políticas de inclusão das Travestis e Transexuais na escola, bem como no mercado de trabalho, queremos acesso aos projetos sociais do governo como BOLSA ESCOLA, BOLSA FAMILIA e outros.

Nesse mesmo ânimo, a GRETTA reafirma a sua posição absolutamente contrária a qualquer movimentação ou prática que criminalize as Travestis e Transexuais e impeça que seres humanos sejam felizes e exerçam sua afetividade e sexualidade, em função de moralismos hipócritas que devem ser combatidos por cada um de nós, cotidianamente.

Renata Taylor Andrade
Presidenta da GRETTA
(91) 8140-5989

VISITE A PÁGINA DO GRUPO NO FACEBOOK:

Comentários

  1. Olá! É uma pena que a nossa reportagem tenha soado discriminatória para este grupo. Somos jornalistas e, na premissa básica, ouvimos todos os lados envolvidos. Ministério Público, Organizações ligadas ao fato, pessoas envolvidas no caso e até quem chamamos na reportagem de "cafetina". Entendo o ponto de vista de vocês e concordo que há mesmo má interpretação de alguns órgãos de imprensa e do público em geral e a mídia, na maioria das vezes, corrobora com a manutenção desse estigma. No caso do uso do gênero "o/a" travesti, como foi colocado aqui mesmo, não consta no PCN a nomenclatura correta a se usar. Mas agradeço a correção e vou apresentar aos nossos editores que, junto com o repórter, são tão responsáveis pelo produto final quanto. Os argumentos aqui apresentados podem virar reportagem futuramente, pra tratar das dificuldades enfrentadas pelas travestis e transexuais.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe suas impressões sobre este post aqui. Fique à vontade para dizer o que pensar. Todos os comentários serão lidos, respondidos e publicados, exceto quando estimularem preconceito ou fizerem pouco caso do sofrimento humano.