Revista evangélica: Como dar crédito a uma publicação que faz isso? - Sergio Viula

Nome apagado de propósito para dar a César o que é de César...


VEJA ABAIXO COMO O JORNALISTA DESSA REVISTA EVANGÉLICA ME ABORDOU PELO FACEBOOK PARA OBTER A ENTREVISTA.

NENHUMA DAS MINHAS RESPOSTAS FOI PUBLICADA.

A REVISTA SE RESTRINGIU A COLOCAR UMA FOTO MINHA COM UM DEPOIMENTO QUE PODERIA TER SIDO TIRADO DO MEU PERFIL NO FACEBOOK OU NO TWITTER. 

OBVIAMENTE, ELES ESPERAVAM QUE PUDESSEM ATACAR ALGO QUE EU DISSESSE, MAS COMO NADA DO QUE EU DISSE NA ENTREVISTA PODERIA SER APROVEITADO PARA O ACHINCALHE, ELES NÃO SE ATREVERAM A PUBLICAR O CONTEÚDO (PARCIAL OU INTEGRAL) DAS MINHAS RESPOSTAS.

COM A COLOCAÇÃO DA MINHA FOTO, ELES PRETENDEM DAR UM AR DE IMPARCIALIDADE, MAS NÃO PASSA DE MAIS UM TRUQUE DESSA MÍDIA EVANGÉLICA PARA SE PROMOVER E ENXOVALHAR OS HOMOSSEXUAIS MAIS UMA VEZ.

UMA COISA É CERTA: QUEM NÃO DEVE NÃO TEME. ESSE É O MEU CASO: NÃO DEVO E NÃO TEMO. POR ISSO, FALO O QUE PENSO QUANDO QUERO E PARA QUEM BEM ENTENDER.

SÓ UMA COISA MAIS: SÓ DEI ESSA ENTREVISTA PARA O JORNALISTA ABAIXO, PORQUE CONHEÇO O MESMO HÁ MAIS DE 20 ANOS E DECIDI CONCEDER O BENEFÍCIO DA DÚVIDA, SÓ PARA CONFIRMAR QUE NÃO DÁ PARA LEVAR ESSE SEGMENTO EVANGÉLICO FUNDAMENTALSITA E HOMOFÓBICO A SÉRIO MESMO.

CONFIRAM.









LEIA A ABAIXO A ENTREVISTA (NÃO PUBLICADA)
NA ÍNTEGRA:


1) Sua "saída do armário" fui ruidosa em face de seu passado como militante evangélico - inclusive, no Moses - e como pastor de uma denominação evangélica conservadora, a Batista. Passado todo este tempo desde que assumiu a homossexualidade, como você se sente em relação a esta decisão, sob o ponto de vista religioso? Você diria que abandonou aquela fé ou ainda crê em Deus - e, se sim, de que modo expressa essa devoção?

Meus questionamentos sobre a validade das doutrinas cristãs como "a verdade" começaram bem antes da minha saída do armário. Inicialmente, eu tentava evitar colocar certas pretensões de verdade e seus discursos totalizantes em cheque, porque sentia o que a maioria dos crentes sente: medo de descrer ou de pecar contra o Espírito Santo. Porém, até essa restrição passou a ser uma questão com o tempo: E se essa ameaça de juízo a quem blasfemasse contra o Espírito Santo fosse apenas um artifício autoral ou posteriormente adicionado por tradutores para evitar justamente os questionamentos que eu fazia então, e que milhões provavelmente fizeram antes de mim, justamente porque os próprios autores ou tradutores percebiam a fragilidade de suas declarações sobre o que as escrituras cristãs declaram como "a verdade"?



Decidi levar adiante essa minha inquirição pelas bases de tudo o que eu mesmo havia construído até então. Eu era pastor batista tradicional, de acordo com certas classificações que se popularizaram no meio evangélico -, mas já havia sido pentecostal; era co-fundador do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia), editor do Jornal Desafio das Seitas (do Centro de Pesquisas Religiosas); professor do Seminário Betel (RJ); e tinha um ardoroso espírito missionário que me levara a deixar tudo para trabalhar com a  Operação Mobilização (OM), antes mesmo de ser pastor. Apesar de tanto para fazer, não conseguia evitar os questionamentos que se acumulavam sobre a suposta faticidade dos relatos bíblicos, especialmente aqueles que se referiam a milagres, assim como a eticidade de certos mandamentos ou ordenanças, que não fazem jus à ideia de um deus perfeitamente bom e justo. 

A primeira etapa da minha inquirição foi concluída e o resultado é sabido: descartei as escrituras cristãs como verdade ou revelação genuinamente divina. A segunda etapa foi justamente inquirir sobre que razões eu teria para acreditar que há um deus ou mais de um deus de fato. Ou seja, haveria evidência inquestionável ou necessidade lógica incontornável que me permitisse afirmar que "há um deus" ou que "há deuses"? Se não, por que permanecer num ministério que não corresponde àquilo que penso? O caminho mais honesto seria renunciar esse ministério. E foi o que fiz. Mas, por que continuar indo à igreja se deixei de crer no objeto de sua adoração? Por isso, pedi exoneração do rol de membros também. 

Acontece que outra questão (não a mesma questão) estava posta havia muito tempo também e eu havia tentado evitar, de todas as formas, confronta-la. A questão era simples: Por que as pessoas homoafetivas que procuram os grupos e/ou "terapias de reversão" não mudam de fato? Eu havia passado 18 anos na igreja. Durante esse tempo, havia lançado o MOSES juntamente com João Luiz Santolin e Liane França em 1997, e trabalhado seis anos com eles. Apesar de tudo, não via mudança na orientação sexual de ninguém, nem mesmo na minha. A homoafetividade continuava constituindo minha personalidade e identidade, apesar de meus 14 anos de casado, dois lindos filhos e ministério eclesiástico frutífero. 



Um segundo questionamento abre caminho pela trincheira de defesa pessoal que eu havia construído contra qualquer coisa que se interpusesse entre minhas crenças e minha prática. O questionamento foi o seguinte: Por que uma pessoa homoafetiva deveria deixar de viver e amar do seu jeito para se adequar a uma suposta normatividade heterossexual (ou como se diz, à "heteronormatividade"), para início de conversa? A resposta é simplesmente: Não deveria. 

Toda a justificativa construída pelos segmentos evangélicos que condenam a homoafetividade (nem todos o fazem) se baseia em apenas seis passagens bíblicas. Vícios de tradução acumulados ao longo de milênios e anacronismo histórico-crítico agravam o equívoco dessas interpretações. Além disso, as escrituras cristãs não são capazes de demonstrar sua superioridade diante de qualquer outro livro sagrado. A título de exemplificação, basta comparar o Corão e a Bíblia, e observar do que são capazes certos muçulmanos em nome de seu livro sagrado e do que são capazes certos cristãos em nome das escrituras cristãs. Deuses diferentes, escrituras distintas, mas comportamentos semelhantes. E me refiro ao comportamento do dia a dia. 

Destaco que, à ideia de que alguns muçulmanos são terroristas, contraponho a ideia de que alguns cristãos também o são. E, caso a memória de alguns tenha se enfraquecido ao longo do tempo, destaco o grupo IRA da católica Irlanda, e a protestante Ku Klux Klan dos originalmente protestantes EUA, a título de exemplificação. Há outros fatos históricos mais antigos que também poderiam ser colocados aqui. Se alguém pode dizer que eles não são cristãos de verdade, também seria possível dizer que os terroristas islâmicos também não são muçulmanos de fato. Todavia, os dois livros sagrados dão margem ao terrorismo tanto quanto à homofobia, se interpretados conforme as tradições mais extremistas. Agora, se cristãos e muçulmanos esclarecidos podem (e devem) evitar o terrorismo, também podem (e devem) evitar a homofobia.

2) Hoje, como você se relaciona com antigos amigos de igreja e com sua família, que é evangélica? Passados estes anos todos, alguém ainda tenta, digamos, "reconvertê-lo" ao Evangelho? Como você reage - ou reagiria - a isso?

Minha convivência com antigos amigos da igreja é rara, porque não frequento os mesmos espaços dominicalmente, mas muitos falam comigo pelas redes sociais ou quando visitam meus pais. Existem, porém, alguns que evitam até chegar perto de mim (risos). Meus pais há alguns anos convivem bem comigo e com meu parceiro, inclusive. Estamos juntos há seis anos (desde 2007). Meus filhos sempre conviveram maravilhosamente comigo e tenho muito orgulho da postura dos dois. Agora, isso não é esmola. Isso é uma questão lógica, ética, racional. Se eu sempre fui um pai presente, atuante, apoiador, protetor, encorajador, o resultado deveria ser esse mesmo - ter filhos amáveis, carinhosos, parceiros. Se fosse diferente, lamentaria, mas seguiria em frente. Ninguém é obrigado a conviver comigo, mas eu também não sou obrigado a correr atrás de ninguém. Felizmente, nós três nos amamos e nos orgulhamos uns dos outros. Quanto aos meus pais, inegavelmente, eles gostariam que eu ainda acreditasse no evangelho, mas não pregam mais para mim, porque consideram que eu já sei o suficiente e porque preferem minha companhia ao distanciamento. Eu também prefiro a convivência construtiva e carinhosa. Isso não quer dizer que eles tenham que pensar como eu ou que eu tenha que pensar como eles. Não sou intolerante. Por exemplo, minha mãe sempre ora antes das refeições, e eu respeito seu costume. Meu filho vai à igreja regularmente. Lá, ele toca guitarra, violão, canta, participa de atividades de jovens. Minha filha não curte a programação da igreja, mas acredita na maior parte das doutrinas bíblicas. Quanto às pessoas que tentam pregar para mim (geralmente são as que não sabem do meu passado eclesiástico), tomo a seguinte postura: Se elas puxam conversa sobre religião, dou minhas razões para não crer e procuro encerrar antes que se torne uma discussão inútil. Desafiar a crença dos outros não é meu esporte favorito. Não debato o que as pessoas creem, a menos que isso interfira nas liberdades de outras pessoas, principalmente nas minhas (risos).  Agora, se o indivíduo fica me importunando nas redes sociais, mesmo depois de toda minha "etiqueta", deleto o que ele disse. Se insistir, bloqueio qualquer contato com ele. E a vida continua. Ouvido não é lugar de pentelho. Perguntas honestas, por outro lado, nunca são ignoradas.

3) Nos últimos meses, uma indisfarçada animosidade tem colocado em campos opostos setores da Igreja Evangélica e do movimento gay. Embora personagens caricatos como Malafaia e Feliciano não expressem a totalidade do pensamento da Igreja, é evidente que os evangélicos médios sentem-se incomodados com a popularização e até com a valorização de um estilo de vida liberal no quesito da sexualidade - sentimento expresso toda vez que um artista como Daniela Mercury faz a defesa do comportamento homossexual, por exemplo. Nesse ambiente, propostas como a do PL 122/06 chegam a assustar, uma vez que poderia haver, realmente, uma cultura favorável à restrição de discursos ou posturas avessos à homossexualidade - o que, naturalmente, feriria a democracia que os grupos gays dizem defender. Como homossexual e personagem ativo na difusão de ideias inclusivistas e crítico da chamada homofobia, como você se posiciona diante desta animosidade? Você não acha que a "balança" tem pendido mais para um lado quando se olha a mídia, a academia e o establishment?

Penso que a ideia de que pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) devem ser toleradas, desde que não falem, não casem, não exijam respeito é indigna de quem pensa em categorias humanistas. Quem defende posturas que passem por essa política de invisibilização e silenciamento da população LGBT não pode ser levado a sério. O mundo, de um modo geral, está avançando nessa compreensão. Os setores ou segmentos religiosos que respiram o ar viciado de seus próprios templos, sem olharem o que acontece à sua volta com genuíno interesse em compreender essas mudanças, estão perdendo o bonde da história e tornando-se cada vez mais obsoletos, para não dizer prejudiciais aos que aceitam acriticamente o que eles insistem em afirmar como essencial e necessário, quando está claro que suas ideias excludentes da parcela LGBT da população não são essenciais e nem necessárias à vida comunitária de suas próprias agremiações religiosas.

Quanto à academia, esta deve trabalhar com dados científicos. Se a pergunta passa, por exemplo, pela "pseudo-psicologia" de pretensos "curandeiros" da homossexualidade, a academia faz muito bem em verificar suas premissas, procedimentos e conclusões e descarta-los na medida em que fica cada vez mais claro que não passam de doutrinas religiosas maquiadas com terminologia sofisticada (às vezes, nem tão sofisticada também), sem qualquer fundamentação ou demonstração científica. 

Já a mídia deve, no melhor das suas forças, trabalhar pela informação responsável, ou seja, verificada e confirmada como factual. Além disso, a mídia tem responsabilidade social. Ela pode veicular o que dizem os extremistas de qualquer espécie, mas não pode legitimar esse discurso, caso contrário ela prestaria um desserviço à sociedade, para dizer o mínimo. 

Além disso, as diferentes pregações evangélicas já ocupam muito espaço na  mídia. O que deveria ser questionado é por que outras religiões não têm as mesmas oportunidades. Seria interessante ver budistas, candomblecistas, hindus terem as mesmas oportunidades. Mais ainda, seria interessante ver quem não se enquadra em religião alguma falar sobre temas de interesse geral - ateus, agnósticos, céticos, etc. O resumo da ópera é: de que reclamam os evangélicos em relação à exposição na mídia? Até rede de TV (concessão pública!!!), o crentes possuem. Sem falar nas rádios, jornais, revistas, etc.  E se isso é feito com dinheiro próprio, quanto dinheiro próprio essas organizações têm acumulado! E por que não pagam impostos já que movimentam tantas cifras? Essas questões deveriam ser colocadas. 

Sobre o establishment, este ainda não evoluiu tudo o que precisa. Existem pessoas destacadas na política, na economia, nas artes, nas ciências, na educação, na saúde, etc. trabalhando pela inclusão. Não se confunda visibilidade com inclusão. Há uma tendência dos inimigos dos direitos das pessoas LGBT em misturar os dois conceitos. Muito precisa ser feito em termos de inclusão até que os direitos sejam realmente iguais. Agora, se isso é necessário é porque essa parcela da população a quem chamamos LGBT ainda não foi devidamente incluída. Quando tiver sido, não será mais preciso falar em inclusão. 

Sobre o PLC 122/06, trata-se de um projeto de lei que visa reduzir a violência contras as pessoas sexodiversas. Não consigo imaginar o Jesus representado pelos evangelhos se opondo a isso. Se ele disse "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", penso que não veria problema na paráfrase: "Ao Estado o que é do Estado, e às igrejas o que é das igrejas". O princípio do Estado laico é bom para todos, inclusive para os crentes pessoalmente, pois terão a certeza de que sempre poderão cultuar sem perseguição, mesmo quando esta venha de outros crentes. Afinal, o Estado laico, democrático, de direito e pluralista garante a liberdade de culto sem determinar como, quando ou se - sequer - devemos cultuar. A igreja deve respeitar o mesmo princípio e não ficar tentando impedir que o Estado faça seu trabalho, que inclui a proteção dos grupos político-sócio-economicamente vulneráveis, quer estejam em pequeno ou grande número.

Como humanista, alegra-me ver que diversos setores religiosos estão despertando para a violência simbólica e institucional praticadas por suas organizações ou outras, e estão corrigindo isso, além de se engajarem na luta por mudanças que só tornarão a vida mais feliz e mais leve para todos e todas.

 
4) Para você, a queixa evangélica de patrulhamento nessa questão corresponde à realidade? Por quê? Caso contrário, a quem interessaria a disseminação da ideia do risco de uma "ditadura gay"?

A ideia de patrulhamento pró-LGBT como se isso fosse equivalente a um patrulhamento anti-evangélico não corresponde à realidade. Trata-se de uma falácia para confundir as discussões que realmente interessam a todos. Entretanto, é legítimo que organizações não governamentais respondam a declarações ou ações abusivas contra a comunidade LGBT. Seria uma omissão injustificável que pessoas declaradamente anti-gays ou anti-direitos LGBT (o que para mim dá no mesmo) se organizassem para impedir a efetivação de direitos que viabilizam uma biografia feliz e produtiva a milhões de pessoas sexodiversas, e as pessoas diretamente afetadas, nesse caso, LGBT, ficassem caladas. Quando as pessoas afetadas recorrem às instâncias que podem (e devem) defender o cidadão, logo surge um punhado de fundametalistas ressentidos de sua impossibilidade de concretizar uma agenda de silenciamento e invisibilização da população LGBT alegando que trata-se de uma ditadura gay. Isso me faz imaginar um punhado de nazistas ressentidos da falência de seu projeto de extermínio de judeus reclamando que haverá o risco de uma "ditadura sionista" se os judeus passarem a ser tratados em pé de igualdade com os demais cidadãos alemães.

Muita gente repete essa falácia criada por fundamentalistas evangélicos americanos e divulgada por um certo escritor homofóbico brasileiro, agora vivendo nos EUA, copiada por um pastor milionário que fez fortuna falando mal de outros pastores, igrejas, grupos sociais, e repetida por um ou outro psicólogo de formação precária embevecido de preconceitos, entre outros. 

Esse tipo de terrorismo psicológico foi feito também quando se pensava na abolição da escravatura, tanto no Brasil como nos EUA. Quem diria - se fosse hoje - que, se os negros forem libertos, os brancos morrerão de fome? Ou que se os negros ascenderem socialmente, eles se vingarão dos brancos? Ninguém diria, porque depois de tantos anos, ficou demonstrado que essa retórica era apenas uma tentativa dos violadores de manter a violação dos direitos dos negros. Não havia qualquer razoabilidade em seus questionamentos contra as liberdades civis dos negros e seus descendentes. O mesmo vem acontecendo com os direitos das pessoas LGBT na boca de alguns pregadores do ódio. Cabe aos membros e líderes esclarecidos da igreja levar suas instituições a se autorregularem em relação a esses absurdos antes que caiam em descrédito total diante do restante da sociedade, que já vem percebendo a infâmia dessas posturas e pregações caluniosas baseadas na retórica do pânico social. 
5) Você tem a experiência, digamos assim, dos dois lados da trincheira. Quando militante do Moses, que equívocos você acha que cometeu?

O primeiro equívoco foi pensar que eu deveria deixar de ser eu mesmo. A premissa de que eu deveria ser heterossexual a todo custo foi meu primeiro erro. Outro erro foi ter participado do grupo teatral ArteFé, que foi embrião do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia). Em 1997, estávamos João Luiz, Liane e eu em plena Parada do Orgulho Gay de Copacabana distribuindo o folheto "Tem bicha que morre, mas não vira purpurina" (testemunho do João Luiz). Isso também foi um erro.

Se fosse crente, pensando de modo mais maduro hoje, eu teria formado um grupo que ajudasse pessoas sexodiversas a viverem sua diversidade sem constrangimento, em comunhão com o restante do que biblicamente se chama "corpo de Cristo". Aliás, as igrejas só têm a ganhar com a abertura para a sexodiversidade: Mais gente participando da vida comunitária das igrejas, famílias homoafetivas enriquecendo a experiência cotidiana das comunidades de fé, mais alegria por parte dos pais que têm filhos homoafetivos e que acabam vendo-os deixar as comunidades eclesiásticas por não se sentirem bem-vindos do modo como são, etc. Não basta "aceitar" uma pessoa na comunidade. É preciso inclui-la em todos os sentidos - os mesmos direitos com os mesmos nomes para todos e todas.

Agora, se alguma comunidade eclesiástica decidir manter suas restrições, que o faça no seio de sua agremiação, sem espalhar ódio no meio da sociedade.

6) Você já se sentiu, em algum momento, discriminado ou tratado de maneira indigna por algum evangélico? Pode falar sobre isso?

Sim. Meu canal no Youtube vive recebendo mensagens de ódio de crentes mal resolvidos, mas uma tecla resolve tudo:  "Delete". Aprendi a não deixar minhas plataformas de comunicação serem usadas para a promoção de ódio por parte dos que passam o dia catando uma nova vítima na internet. O meu blog costumava ser alvo disso também, mas isso tem se tornado mais raro. Esses mal-informados ressentidos percebem que é perda de tempo, que eu não gasto minha saliva ou "digitais" para discutir com gente mal-educada ou tapada. Agora, uma coisa faço: converso com gente que se esforça por ser intelectualmente honesta, qualquer que seja o segmento, inclusive o evangélico.


7) É comum, no segmento evangélico, a tese de que uma pessoa é homossexual devido a algum trauma psicológico, abuso ou desajuste emocional ocorrido ao longo da vida, sobretudo na infância e adolescência. Você passou por algo assim? Se sim, poderia falar sobre isso? E concorda que isso de fato ocorra com frequência?

Essa tese parte do princípio de que existe apenas uma forma de sexualidade sadia: a heterossexualidade. Daí, o nome do MOSES. Isso é um equívoco motivado por preconceitos promovidos no Ocidente por certos setores do cristianismo que prevaleceram desde Constantino. A afetividade sexual entre pessoas do mesmo sexo não era vista como perversão em culturas anteriores e mesmo em certas culturas contemporâneas. Houve e há crenças que até celebram a relação entre pessoas do mesmo sexo e a transexualidade sem nunca terem conhecido um grupo de ativismo pelos direitos LGBT, por exemplo (risos). O fenômeno que chamamos de sexualidade humana é naturalmente variado e não passa necessariamente pela questão de qual genitália os indivíduos exibem em sua constituição orgânica.

Pessoas passam por sofrimento psicológico desde sempre e em todas as áreas da vida. Isso não determina a quem o indivíduo vai devotar amor ou que tipos de pessoas despertarão o interesse sexual de cada um. E falando em abuso sexual, a maioria esmagadora dos abusadores é heterossexual e tem história de abuso na infância ou adolescência também. Ou seja, o abuso não os transformou em gays ou lésbicas. Sobre o fato de serem abusadores, pedofilia não tem nada a ver com a homoafetividade ou a heteroafetividade. E quem usa a pedofilia como argumento contra a sexodiversidade já demonstra que não sabe do que está falando ou que está agindo com base em pura má-fé.

8) O deputado Feliciano está tão questionado no cargo que ocupa que, ainda que não seja afastado, já criou um case político e comportamental, no sentido de fomentar o questionamento ao acesso de pessoas conservadoras (aqui, novamente, não estou levando em conta o fato de ele ser tão caricato, mas a sua existência no cargo, ok?) a cargos daquela natureza. Se, por um lado, o debate é saudável do ponto de vista ideológico e da defesa dos direitos humanos, não existe, por outro lado, um recrudescimento de tamanha reação pelo simples fato de ele ser pastor? Em outras palavras, se fosse um tacanho como Severino Cavalcanti ou Jair Bolsonaro (figuras igualmente trogloditas, mas não religiosas) no cargo da CDH, você acha que a grita seria a mesma?


A sociedade brasileira nunca se manifestou contra a presença de pastores na política. Por isso, não considero coerente ou justo dizer que ele é perseguido por ser pastor. Isso é o que ele adoraria que as pessoas pensassem para jogar uma cortina de fumaça no que realmente interessa. Agora, a própria igreja deveria repensar a eleição de pastores para cargos políticos. O indivíduo tem um chamado pastoral ou uma vocação política? A igreja católica não deixa pároco exercer cargo. Ele tem que se licenciar da paróquia enquanto exercer o mandato político. Essa é uma prática que os evangélicos deveriam considerar para evitar abusos por parte de seus líderes.


Além disso, é importante se questionar por que uma bancada que vive propalando a ideia de "moral e bons costumes" está mergulhada em escândalos de corrupção e processos para todo lado.  Será que isso não acende uma luzinha vermelha na cabeça dos crentes? Se uma faxina ética fosse feita no Congresso e no Senado, quantos membros da bancada evangélica sobrariam? cri...cri..cri..cri...


9) Por favor, diga-me como devo qualificá-lo. Professor de inglês? E qual sua formação acadêmica?

Formado e pós-graduado pelo Seminário Teológico Betel (Rocha - Rio de Janeiro), formado em Filosofia pela UERJ, atuando como professor de inglês, autor de Em Busca de Mim Mesmo, e blogueiro no www.foradoarmario.net.

Comentários

  1. Sérgio, você é o cara! Adorei a entrevista, de verdade. Abraços!

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  2. Sergio adorei sua entrevista! É uma pena que ela não esteja na íntegra na mídia evangélica, pois eles iriam aprender muito com sua experiência de promoção a cidadania e humanidade. Infelizmente sabemos que muitas pessoas utilizam-se para fins pessoais, e isso não vai mudar tão fácil! Sua honestidade e sabedoria, com certeza, ajudará muitos, mesmo que está entrevista fique somente em seu blog. Gostei muito do texto, mas o que me chamou atenção foi seus arrependimentos, pois eles se transformaram em ferramentas fortíssimas contra tudo aquilo que se mostrava real, mas que na verdade não passava de enganos. Isso lhe fez mais forte e coeso em suas verdades mais intimas. Parabéns e continue a ser este mensageiro humanitário que és.

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  3. Sergio, gosto muito do que você escreve. (Já tive oportunidade de lhe dizer isso outras vezes. Sua entrevista foi bastante esclarecedora. Pena que o veículo ao qual você deu a entrevista não a tenha utilizado. Acho que eles têm é medo de que evangélicos possam se esclarecer diante de suas palavras. E, sabemos bem, religião não admite questionamento. Questionou, tá fora. isso aconteceu comigo, que fui criado no catolicismo, tendo sido coroinha durante muitos anos, (embora jamais tenha sido abusado por nenhum padre - Oh, que novidade!), quando questionei sobre a tal "virgindade mariana", fui "convidado" pelo meu confessor a não aparecer mais na sua paróquia, "pra que, com minhas ideias, não contagiasse outros paroquianos". Amei seu livro "Em busca de mim mesmo" e adoro ler o que você escreve! Um beijo e um grande abraço!

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    1. Muito obrigado, Jackson. Que bom começar o dia lendo um depoimento carinhoso como esse. Obrigado por compartilhar sua experiência aqui e por prestigiar esse blog e o livro. Isso me encoraja muito. Obrigado pelo carinho de sempre. Como é bom ter amigos assim. Um beijo pra vc também, querido.

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