MENINGITE MATA GAYS EM NOVA YORK? – O que isso quer dizer?

MENINGITE MATA GAYS EM NOVA YORK? – O que isso quer dizer?

Por Sergio Viula
Rio, 20/07/2013



A impressa tem divulgado uma notícia oriunda de Nova York, segundo a qual homens gays estariam sendo contaminados por meningite bacteriana do tipo C, ou seja, aquela conhecida como meningite meningocócica. Como sempre suspeito de notícias vinculadas à doenças que façam recortes alarmantes de grupos populacionais, especialmente quando estes são estigmatizados por normatizações moralistas, decidi investigar um pouquinho.

A Folha de São Paulo reverberou a notícia, ressaltando que havia o cuidado para não enfatizar a noção de que a homossexualidade fosse a causa dos contágios por si mesma. De qualquer modo, a questão já havia sido problematizada na própria manchete: “Surto de meningite atinge gays em Nova York.” E isso não foi incidental (como poderia ser?), pois o texto ainda se ocupa em dizer que pessoas que marcam encontros através de aplicativos de celular/internet para homens estão em grande risco, como fica claro a partir de uma citação atribuída ao Departamento de Saúde de Nova Iorque:

"Recomendamos a vacinação aos homens que tenham contato íntimo regularmente com outros homens por meio de encontros marcados pela internet, aplicativos digitais ou em festas e bares.”

Como tudo o que acontece nos EUA afeta o Brasil, mesmo que apenas psicologicamente. Achei que seria uma boa ideia observar como estão os casos de meningite no Brasil e como a doença tem se distribuído. Já que lá se fala num grupo social (os gays), como será que andam as coisas por aqui? Cada realidade é uma, mas se a doença desconhece orientação sexual, por que rotular – a partir de 11 casos (7 deles em 2010, ou seja há três anos) – a comunidade gay como se algo exclusivamente homossexual estivesse ocorrendo? Isso cria dois problemas: deixa as pessoas não gays com a sensação de que estão fora de risco e cria uma sensação de pânico entre aquelas pessoas que sejam gays. Um tiro em cada pé.

Só em 2011, o Brasil apresentou 20.781 casos confirmados de meningite. Destes, 1.307 foram notificados pelo Estado do Rio de Janeiro, sendo 670 ocorridos na capital, conforme registrado pelo Departamento de Informática do SUS e acessado em 06/03/2013, conforme indicado pelo Boletim Epidemiológico 44.

Parece que não são apenas os brasileiros que viajam para Nova York que precisam tomar cuidado, mas gente do mundo todo que pretende vir ao Brasil para os grandes eventos internacionais – sem falar no reveillón e no Carnaval, duas festas que atraem centenas de milhares de turistas estrangeiros para cá.

SETE homens gays morreram há três anos e outros QUATRO apresentaram um quadro de meningite esse ano (2013) em Nova York. Enquanto isso, o Brasil identificou VINTE MIL E SETECENTOS E OITENTA E UM casos da doença em gente de todas as faixas etárias, gêneros, orientações sexuais e classes sociais no Brasil. Isso não dispara um alarme do tipo: Opa, o que eles querem dizer com esse alarmismo? É óbvio que se precisa tomar os devidos cuidados de higiene, vacinação e tratamento, mas há razão para reduzir o suposto ‘surto’ a um grupo: o dos homens gays?

Ora, dependendo do que se quer encontrar, muitos recortes diferentes são possíveis.

Portanto, se você é gay, lésbica, heterossexual ou bissexual, você pode ser contagiado pelos vírus ou bactérias causadores das meningites (são diversos os tipos). Não se sinta condenado nem isento dessa possibilidade por causa de sua orientação sexual. Procure vacinação, seja cuidadoso com a higiene e nunca adie uma visita ao médico em caso de qualquer sintoma de doença, especialmente se forem semelhantes aos da meningite. 

DOIS CASOS DE MENINGITE NA FAMÍLIA DESTE BLOGUEIRO: 

Compartilho agora uma experiência pessoal da família da minha ex-mulher e outra ocorrida no meu própri núcleo familiar.

O primeiro caso foi com a primeira filha dos meus ex-sogros. Ela morreu de meningite ainda bebê. Mais tarde, eles tiveram outras três filhas, sendo que a primeira delas foi minha esposa durante 14 anos. 

O segundo caso foi com meu filho, aos três anos de idade, que foi prontamente atendido, porque a mãe, que sempre ouviu a história da irmã que havia falecido antes dela nascer, ficava sempre atenta quando nossos filhos tinham qualquer febre. Graças ao pronto atendimento e à insistência da mãe junto aos médicos para que fizessem a punção lombar (tirar líquido da espinha, como se diz popularmente), ele foi salvo sem que houvesse qualquer sequela da doença. Ele fez inúmeros exames depois de curado para conferir a parte neurológica, motora, etc. - TUDO em perfeito estado.

Conclusão: Nos dois casos familiares, uma coisa fica clara: Conhecimento e ação correta fazem a diferença entre a morte a vida.

Ressalto que os dois casos se referem a um bebê e uma criança de 3 anos de idade. Portanto, ninguém está livre da possibilidade de ter meningite. 

Outro detalhe, apesar de termos convivido com ele antes da medicação - já com a bactéria - nenhum de nós foi contaminado, nem mesmo a irmã com quem ele sempre brincava. Mas, isso não quer dizer que as pessoas com quadro de meningite não devam ser isoladas. Pelo contrário, a doença é contagiosa até o final das primeiras 24 horas de medicação específica para o caso.

Veja abaixo as orientações do Dr. Drauzio Varella sobre a doença e os procedimentos relacionados a ela:

DR. DRAUZIO VARELLA EXPLICA:

O Dr. Drauzio Varella informa o seguinte sobre a meningite:

Meningite é uma infecção que se instala principalmente quando uma bactéria ou vírus, por alguma razão, consegue vencer as defesas do organismo e ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. Mais raramente, as meningites podem ser provocadas por fungos ou pelo bacilo de Koch, causador da tuberculose.

Sintomas

a) Meningites virais

Nas meningites virais, o quadro é mais leve. Os sintomas se assemelham aos das gripes e resfriados. A doença acomete principalmente as crianças, que têm febre, dor de cabeça, um pouco de rigidez da nuca, inapetência e ficam irritadas. Uma vez que os exames tenham comprovado tratar-se de meningite viral, a conduta é esperar que o caso se resolva sozinho, como acontece com as outras viroses.

b) Meningites bacterianas

As meningites bacterianas são mais graves e devem ser tratadas imediatamente. Os principais agentes causadores da doença são as bactérias meningococos, pneumococos e hemófilos, transmitidas pelas vias respiratórias ou associadas a quadros infecciosos de ouvido, por exemplo.

Em pouco tempo, os sintomas aparecem: febre alta, mal-estar, vômitos, dor forte de cabeça e no pescoço, dificuldade para encostar o queixo no peito e, às vezes, manchas vermelhas espalhadas pelo corpo. Esse é um sinal de que a infecção está se alastrando rapidamente pelo sangue e o risco de septicemia aumenta muito. Nos bebês, a moleira fica elevada.

Importante: os sintomas característicos dos quadros de meningite viral ou bacteriana nunca devem ser desconsiderados, especialmente em duas faixas etárias extremas: nos primeiros anos de vida e quando as pessoas começam a envelhecer. Na presença de sinais que possam sugerir a doença, a pessoa deve ser encaminhada para atendimento médico de urgência.

Diagnóstico

Todos os tipos de meningite são de comunicação compulsória para as autoridades sanitárias. O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica do paciente e no exame do líquor, líquido que envolve o sistema nervoso, para identificar o tipo do agente infeccioso envolvido.

Se houver suspeita de meningite bacteriana, é fundamental introduzir os medicamentos adequados, antes mesmo de saírem os resultados do exame laboratorial. O risco de sequelas graves cresce à medida que se retarda o diagnóstico e o início do tratamento. As lesões neurológicas que a doença provoca nesses casos podem ser irreversíveis.

Prevenção e vacinas

A vacina contra o Haemophilus influenzae tipo B também protege contra a meningite e faz parte do calendário oficial de vacinação.

A vacina contra a meningite por pneumococo, embora tenha sido lançada na Europa e nos Estados Unidos, onde as características da bactéria são um pouco diferentes, fornece boa proteção também no nosso País.

A partir de 2011, a vacina conjugada contra meningite por meningococo C  faz parte do Calendário Básico de Imunização.  O esquema de vacinação obedece aos seguintes critérios: uma dose deve ser aplicada aos três meses; outra, aos cinco meses e a dose de reforço, aos doze meses.

Tratamento

O tratamento das meningites bacterianas tem de ser introduzido sem perda de tempo, porque a doença pode ser letal ou deixar sequelas, como surdez, dificuldade de aprendizagem, comprometimento cerebral. Ele é feito com antibióticos aplicados na veia.

Assim como para as outras enfermidades causadas por vírus, não existe tratamento específico para as meningites virais. Os medicamentos antitérmicos e analgésicos são úteis para aliviar os sintomas.

Meningites causadas por fungos ou pelo bacilo da tuberculose exigem tratamento prolongado à base de antibióticos e quimioterápicos por via oral ou endovenosa.

Recomendações

* Cuidados com a higiene são fundamentais na prevenção das meningites. Lave as mãos com frequência, especialmente antes das refeições;

* Alguns sintomas da meningite podem ser confundidos com os de outras infecções por vírus e bactérias. Não fique na dúvida: criança chorosa, inapetente e prostrada, que se queixa de dor de cabeça, precisa ser levada, o mais depressa possível, para avaliação médica de urgência.

COMPLICAÇÕES DA DOENÇA SEGUNDO O MINISTÉRIO DA SAÚDE:

De acordo com o Ministério da Saúde, a vigilância da doença meningocócica é de grande importância para a saúde pública em virtude da magnitude e gravidade da doença, bem como do potencial de causar epidemias. Dentre as complicações principais das meningites bacterianas são: perda da audição, distúrbio de linguagem, retardo mental, anormalidade motora e distúrbios visuais. 

Desnecessário dizer que, se não for tratada a tempo, a meningite pode levar a morte, obviamente.



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