A Repressão Anti-Gay Russa - Leitura Obrigatória


Vladimir Putin 




A Repressão Anti-Gay Russa


Por HARVEY FIERSTEIN
Published: July 21, 2013
The New York Times (opinion)

Tradução: Sergio Viula


O presidente da RUSSIA, Vladimir V. Putin, declarou guerra aos homossexuais. Até agora, a maior parte do mundo permaneceu calada.


Em 3 de julho, o Sr. Putin assinou uma lei proibindo a adoção de crianças russas não apenas por casais gays, mas também por qualquer pessoa solteira vivendo em qualquer país onde exista igualdade no casamento sob qualquer forma.

Alguns dias antes, apenas seis meses antes da Rússia ser escolhida para hospedar os Jogos de Inverno de 2014, o Sr. Putin assinou uma lei permitindo que policiais prendam turistas e estrangeiros que suspeitem serem homossexuais, lésbicas ou “pró-gay” e detenham-nos por até 14 dias. Contrariando o que diz o Comitê Olímpico Internacional, a lei poderia significar que o atleta, treinador, repórter, membro da família ou fã que fosse gay – ou suspeito de ser gay, ou apenas acusado de ser gay – fosse para a cadeia.

Anteriormente, em junho, o Sr. Putin assinou outra lei anti-gay, classificando “propaganda homossexual” como pornografia. A lei é ampla e vaga, de modo que qualquer professor que fale aos alunos que a homossexualidade não é maligna, que pais que dizem a seus filhos que a homossexualidade é normal, ou que qualquer outra pessoa que faça declarações favoráveis aos homossexuais que seja acessível a qualquer pessoa menor de idade está agora sujeita à prisão e multas. Até o juiz, advogado, legislador não pode defender a tolerância publicamente sem a ameaça de punição.

Finalmente, há rumores de que o Sr Putin esteja pronto a assinar um édito que removeria crianças de suas próprias famílias se os pais fossem gays ou lésbicas, ou suspeitos de serem gays ou lésbicas. A polícia teria autoridade para remover as crianças de lares adotivos tanto quanto de seus pais biológicos.

Não espanta que alguns gays e lésbicas já estejam começando a planejar sua fuga da Rússia.

Por que o Sr. Putin está tão determinado a criminalizar a homofobia? Ele tem defendido ações dizendo que o índice de nascimentos russos estão diminuindo e que as famílias russas, como um todo, estão em risco de declínio. Pode ser. Mas se esta for a preocupação real, ele deveria abraçar gays e lésbicas que, no meu universo, estão se gerando como coelhos. Hoje em dia, raramente encontro um casal gay que não esteja criando filhos.

E se o Sr. Putin pensa que está protegendo o casamento heterossexual ao renegar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, ele não tem acompanhado as pesquisas. Estudos da Universidade Estadual de San Diego compararam as uniões civis homossexuais e os casamentos heterossexuais em Vermont e descobriram que os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo demonstram índices mais elevados de satisfação, realização sexual e felicidade. (Vermont legalizou same-sex marriages em 2009, depois que o estudo já estava completo.)

 [Nota de Sergio Viula: Esse achado não indica superioridade de um em relação ao outro. A alegria de um direito recém-adquirido influencia os resultados, mas isso prova que as uniões entre pessoas do mesmo sexo aumenta os índices de felicidade, sem dúvida.]

O Sr. Putin também diz que essa proibição contra a adoção foi efetivada para proteger as crianças de pedófilos. Mais uma vez, as pesquisas não sustentam a retórica homofóbica. Cerca de 90 por cento dos pedófilos são homens heterossexuais.

Os motivos do Sr. Putin estão em outro campo. Historicamente, esse tipo de bode expiatório é usado por políticos para solidificar suas bases e desviar a atenção de suas políticas fracassadas, e não há dúvida de que esse seja o caso na Rússia. Contando com a oposição ‘natural’ contra o sucesso do casamento igualitário ao redor do mundo e recrutando apoio de organizações religiosas conservadoras, o Sr. Putin mergulhou nessa batalha, acreditando que sua única oposição viria da esquerda, seu bicho-papão favorito..

A campanha do Sr. Putin contra lésbicas, gays e bissexuais é para distrair, uma estratégia de demonização de uma minoria para obter ganho político, diretamente extraída da cartilha nazista. Podemos permitir que essa guerra contra os direitos humanos siga sem uma resposta? Apesar do Sr. Putin pensar que possa controlar sua criação, a história demonstra que não: suas condenações são permissão para que se cometa violência contra gays e lésbicas. Em maio, um jovem gay foi assassinado na cidade de Volgograd. Ele foi espancado, seu corpo violentado com garrafas de cerveja, suas roupas incendiadas, e sua cabeça esmagada com uma pedra. E parece que isso é só o começo.

Todavia, restante do mundo continua quase completamente ignorante da agenda do Sr. Putin. A adoção de restrições tem chamado alguma atenção, mas tem sido largamente limitada às pessoas envolvidas em adoção internacional.

Isso tem que mudra. Com a Rússia em vias de hospedar os Jogos de Inverno em Sochi, o país está aberto à pressão. Líderes americanos e mundiais precisam falar contra os ataques do Sr. Putin e a violência que eles promovem. O Comitê Olímpico tem que exigir uma retração dessas leis sob ameaça de boicote.

Em 1936, o mundo participou das Olimpíadas na Alemanha. Poucos participantes disseram uma palavra sobre a campanha de Hitler contra os judeus. Gente que apoia aquela decisão aponta orgulhosamente para o triunfo de Jesse Owens, enquanto eu aponto com horror para o Holocausto e a Guerra mundial. Há um preço para a tolerância à intolerância.


Harvey Fierstein é ator e roteirista de teatro.

Publicado em inglês no The New York Times.


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Estamos do lado dos cidadãos e cidadãs da Rússia, e exigimos que o governo deixe de perseguir lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans, alimentando o ódio e a violência.

Pedimos que lideranças russas e de todo o mundo trabalhem para eliminar leis homofóbicas e para proteger todos os cidadãos e cidadãs da violência e da discriminação na Rússia.

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