Sobre a raridade da vida e a sociedade brasileira

A VIDA É TÃO RARA.
Por Sergio Viula


Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

(Paciência – por Lenine)



Lenine tem razão: a vida é realmente muito rara. É intrigante que a βιος (bios = vida) só tenha sido encontrada em nosso planeta até o momento. Surpreende ainda mais que essa esfera, não tão perfeitamente redonda, tenha cerca de 4,6 bilhões de anos, e só tenha gerado vida há aproximadamente 3,8 bilhões de anos, quando surgiram os primeiros estromatólitos, originados no oceano. 


Entre os estromatólitos e as esponjas (primeiros invertebrados), rolaram milhões de anos. Os primeiro vertebrados teriam surgido há cerca de 520 milhões de anos. Perto deles, a espécie humana é um bebê, tendo se estabelecido entre 125 mil e 250 mil anos atrás. De lá para cá, nossa espécie evoluiu até chegar à configuração física e neural que conhecemos hoje.


Graças a esse histórico evolutivo, a vida ganhou formas, cores e movimentos mais variados do que jamais seremos capazes de catalogar. Alguns deles já extintos. Por sua aparente abundância, esquecemos que a vida é, na verdade, raríssima. Cientistas já vasculharam milhões de anos-luz ao nosso redor, mas não encontraram sequer um organismo unicelular que pudesse satisfazer nossa ambição de encontrar vida em outros planetas.


É espantoso e constrangedor que o ávido interesse dos seres humanos em encontrar vida em outros planetas, conquanto legítimo e estimulante, não tenha a contrapartida do amor e do respeito pela vida que ele já conhece aqui.


Essa semana, fiquei estarrecido com a crueldade de numerosos moradores do Pará (Santa Cruz do Arari), que, segundo o Jornal Hoje, estariam capturando e matando, com requintes de crueldade, cachorros abandonados na cidade. Essa macabra ação de “higienização” teria sido ordenada pelo prefeito, com a promessa de 10 reais como recompensa por cachorro capturado e morto. As pessoas envolvidas nessa versão interespécie de caçada às bruxas lançavam os pobres cães ao rio para que morressem afogados. Além da tortura que esse tipo de extermínio infligia aos animais, esses criminosos também contaminavam o rio, que acabava infestado de cadáveres caninos. Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem. É muito provável que seja mesmo, mas a recíproca dessa amizade não é sempre verdadeira. Meros 10 reais foram suficientes para inverter essa aparente relação. Tenha partido ou não da prefeitura, o que fica disso tudo é o que se depreende dos atos desses indivíduos: o povo brasileiro que tanto se gaba de sua amabilidade não é tão amável assim. Fosse um caso isolado, poderíamos dizer que nunca na história desse país se viu tamanha injustiça, mas não é o caso.


Em todo o território brasileiro, coisas que deveriam revirar nossos estômagos e nos desafiar a construir uma sociedade melhor acontecem todos os dias – indo da violência doméstica às decisões desastradas de um governo que pensa mais em estabilidade do que em justiça social de fato.


A sociedade brasileira tem uma longa caminhada pela frente até poder ser considerada uma sociedade desenvolvida, seja ética, política ou culturalmente. Basta observar o modo como lidamos com o meio-ambiente, com os direitos dos animais, com os direitos das minorias, entre outros. 


Uma sociedade justa e progressista não daria crédito a certos indivíduos que só se tornaram “celebridades,” graças à ignorância e ao preconceito de seu fã clube. Esse é o caso das marchas promovidas por pastores homofóbicos que só têm dois objetivos: O primeiro, impedir a garantia de direitos fundamentais para os cidadãos LGBT. O segundo, para o qual este é também um meio, promover futuras candidaturas que perpetuem o engessamento dessas injustiças.


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não admitiria que um Ministro da Saúde fosse demitido por dar voz a um segmento desprezado pela sociedade – o das profissionais do sexo. O nobre objetivo de prevenir doenças sexualmente transmissíveis foi ofuscado pelo lobby fundamentalista e conservador que prefere ver tais pessoas mortas a garantir seus direitos básicos. 


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não admitiria que projetos de combate ao bullying – como o Projeto Escola sem Homofobia – fosse vetado pela presidenta. Uma iniciativa que pretendia educar a comunidade escolar para a boa convivência com as diversas sexualidades e identidades de gênero que compõe seu universo foi bombardeada por indivíduos e grupos cujo maior divertimento é o achincalhe da dignidade dos cidadãos LGBT. 


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não admitira que mendigos e usuários de drogas apodrecessem à luz do dia nas ruas das grandes cidades. Em vez disso, exigiria das autoridades governamentais um plano de ação nascido de políticas eficazes para a prevenção ao uso de entorpecentes, à recuperação de dependentes químicos e à reintegração social dos que já se encontram marginalizados.


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não aceitaria que projetos como a “bolsa-estupro” fossem aprovados na Câmara dos Deputados e no Senado como forma de calar as mulheres vitimadas por estupradores. Em vez disso, exigiria que fossem assegurados os direitos dessas mulheres ao próprio corpo e à própria dignidade, e que elas tivessem toda assistência, fosse para interromper a gravidez decorrente do estupro ou para seguir com a gestação, caso desejassem. A decisão deve ser única e exclusivamente da mulher.


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não admitira que empresas, grandes ou pequenas, poluíssem o solo, as águas e o ar com resíduos de toda ordem. Não admitiria o desmatamento para a construção de parques industriais, áreas de lazer, fazendas de criação de gado, construção de hidrelétricas ou para a construção de usinas atômicas. Antes, encontraria alternativas que não destruíssem o pouco que nos resta desses biomas. 


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não relegaria comunidades inteiras ao esquecimento nas regiões centrais e setentrionais do país, que só são lembradas quando interesses de terceiros passam a fazer parte do jogo de forças. Basta que esses núcleos populacionais sejam considerados obstáculos ao lucro de uma minoria econômica e politicamente poderosa para que sejam removidos, sem direito à terra, à preservação de sua cultura ou aos serviços básicos que deveriam ser garantidos pelo Estado.


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não trataria os índios como fantoches, ora manipulados pelo governo, ora usados pela oposição, sem que suas demandas fossem seriamente avaliadas e seus direitos garantidos. Em vez disso, estaria atenta aos índices de alcoolismo, suicídio e prostituição infato-juvenil a que essas vulneráveis populações indígenas são continuamente expostas, graças à invasão de suas terras por não-índios.


Se a sociedade brasileira fosse realmente justa e progressista, não daria atenção ao destino de jogadores com salários milionários, mais do que ao destino miserável de milhões de jovens sem salário ou idosos incapazes de trabalhar que imploram por uma aposentadoria para a qual contribuíram por vários anos.

Assim como a macabra caçada de cães no Pará, fico impressionado com a crueldade que tem caracterizado alguns assaltos em São Paulo. A lógica é a mesma: dinheiro justifica tudo. Na edição deste 08 de junho, o Jornal Hoje noticiou o caso de um homem que foi abordado por mendigos ao sair de um caixa eletrônico em São Paulo. Os assaltantes sequestraram a vítima em seu próprio carro, e como ele só tinha 100 reais, os bandidos jogaram combustível sobre o homem e passaram a brincar com fogo para tortura-lo. Por fim, atearam fogo ao corpo da vítima, que pulou do carro em movimento. O homem foi socorrido por um taxista e continua hospitalizado com graves ferimentos. Bandidos fizeram coisa semelhante com uma mulher, porque não ficaram satisfeitos com os 30 reais que ela tinha na bolsa.

Coisas banais têm sido motivo para atrocidades, inclusive de pais contra filhos e vice-versa. E engana-se quem pensa que a igreja será fonte de apoio emocional ou espiritual. Um só pastor está sendo investigado por 20 denúncias de estupro. Um número enorme de meninas e meninos abusados em paróquias católicas também deveria ser motivo suficiente para que se suspeitasse de homens de batina e mulheres de hábito que geralmente lidam pessimamente com o sexo.

E em meio a todo esse horror, tem gente que vem com o jargão simplista de que “a família é ideia de Deus” – como se isso fosse um fato demonstrado. A insistência no esquema pai-mãe-prole, que todo mundo sabe, por experiência própria, ser perfeito apenas quando emoldurado e colocado sobre o móvel da sala, não é a resposta para todos os problemas da sociedade e nem é o único modelo de família possível e desejável. Toda família tem seus problemas, mas há aquelas em que segredos terríveis são mantidos a salvo do olhar externo por muito tempo. Essa é mais uma das muitas contradições hipócritas dessa sociedade que, se fosse realmente justa e progressista, não acreditaria em contos de fada como solução para problemas imaginários, enquanto os verdadeiros problemas continuam aí, à espera de soluções reais. Essa mesma sociedade que jura se preocupar com a infância e adolescência, e valorizar a vida familiar, é a mesma que prefere que crianças e adolescentes fiquem sujeitos à violência doméstica ou à violência das ruas, em vez de acolhidos em lares equilibrados, nos quais possam ser realmente amados, respeitados e estimulados ao desenvolvimento físico, emocional e intelectual.



Somado a tudo isso, um engodo vem sendo apregoado nos círculos do poder. Trata-se da ideia de que defender os direitos das minorias e proteger a integridade física, mental e moral dos indivíduos e grupos minoritários é ativismo, como se ativismo fosse algum tipo de doença infecciosa a ser prevenida por todos os meios disponíveis e imagináveis. Essa estratégia sórdida, lançada por moralistas e fundamentalistas religiosos, que rotulam qualquer inciativa pró-inclusão e pró-igualdade como ativismo tem funcionado no Legislativo e no Executivo Federais, fazendo calar qualquer tentativa de interlocução justa e progressista.

Ativistas são pessoas que, de fora do governo, protestam e intercedem junto às autoridades por segmentos sociais cujas demandas não são consideradas por legisladores e administradores públicos. Por definição, quando um determinado tipo de ativismo se faz necessário, isso demonstra que algum direito não está sendo respeitado ou garantido. 



Infelizmente, quando a demagogia tem prioridade sobre o que é justo, é mais fácil – não melhor – silenciar. E nisso o governo atual é recordista, infelizmente. Poderia ser promotor de mudanças justas e progressistas, mas prefere fazer o jogo dos que pretendem manter as históricas e retrógradas injustiças que têm caracterizado a sociedade brasileira e o Estado desde sua fundação. Injustiças que podem ser claramente identificadas no trato que esse governo e essa sociedade dispensam às mulheres, às crianças, aos adolescentes, aos negros, aos índios, às pessoas LGBT, aos animais, ao meio ambiente. 


Além do lobby mórbido que setores fundamentalistas e conservadores fazem junto às autoridades, outra instituição que tem sido usada para manter os níveis de ignorância é o sistema educacional – o mesmo que deveria mudar a realidade da população, mas que acaba colaborando para mantê-la em seu pior estado. As três principais alegadas razões são: péssimas condições de trabalho, incompetência e má vontade da parte dos governantes e dos próprios educadores. 


Para que a sociedade brasileira se torne justa e progressista, ela precisará se livrar da corrupção nas instituições, garantir os direitos de todos e de todas, levando em conta a especificidade de cada grupo social, promover conhecimento científico entre crianças e jovens nos diversos campos do saber, gerar empregos remunerados de forma digna e com boas condições de trabalho, não tolerar discursos de ódio, especialmente por parte de líderes religiosos, de políticos e da mídia, aprender a respeitar a natureza mais imediata e mais distante. Deixar de se vangloriar do famigerado "jeitinho brasileiro" que nada mais é do que a cultura do golpe, da trapaça, do suborno, que vai do furar uma fila no banco até a compra de carteiras de habilitação falsas, de diplomas ou gabaritos de provas de concurso público.


Enfim, precisamos de uma revolução nos costumes e na maneira de encarar a vida. Precisamos de uma mudança profunda na forma de ver o outro e de se relacionar com ele: seja humano, animal, vegetal, mineral; esteja em estado sólido, líquido ou gasoso, porque tudo na natureza merece respeito. E nada é mais nobre do que a realização de si mesmo num mundo em que todos tenham possibilidades de se realizarem, de serem felizes a seu modo. 

Vida assim é ainda mais rara.



Comentários

  1. Texto simplesmente perfeito.

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  2. É isso aí Viula.
    No "Mutação e criação - além do arco - íris" de 2010, aponto essa raridade da vida / de Gaia.
    Gilmar dançou essa música no lançamento.
    Bjaí
    Juão Tavares

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    Respostas
    1. Vlw, Juão! :)

      Que lindo! Imagino que beleza, que leveza essa dança do Gilmar.

      Teu livro é massa!

      Beijo, querido.
      Viula

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