Equador: Jovem sequestrada e torturada a pedido de seus pais por ser lésbica

Equador: Jovem sequestrada e torturada a pedido de seus pais por ser lésbica

Traduzido por Sergio Viula com pouca adaptação
de artigo com o mesmo título em espanhol
do jornalista Bruno Bimbi de 16 de junho/2013


Quando Zulema decidiu contar a seus pais que era lésbica, sua vida se transformou num inferno. Convencidos de que a homossexualidade é "uma enfermidade", eles a levaram a uma psicóloga, que lhes disse que eles estavam enganados e que deviam aceita-la como ela é. A própria Zulema (uma estudante equatoriana de 22 anos que cursa o último ano de psicologia clínica na Universidade Católica) já havia explicado isso a eles, mas eles não lhe deram ouvidos.
Zilema decidiu ir viver com Cynthia, sua noiva, 21 anos, cujos pais lhe ofereceram a aceitação que seus próprios pais não haviam lhe dado.
Mas no mesmo no dia em que se foi, começou a receber chamadas de sua mãe e pai, que a ameaçavam. "Terei que tuitar sobre minha vida pessoal, porque será a única prova do que está me acontecendo e de que poderá me acontecer," escreveu Zulema quando já havia passado dois fora de casa, e relatou que seu pai havia ameaçado fazê-la deixar seu trabalho, encarcera-la ou fazê-la desaparecer, e até matar sua noiva. “E, lamentavelmente, pode fazer tudo isso, porque tem poder econômico e político e é amigo do presidente do Equador”.
— Eu não pari um lésbica — disse-lhe sua mãe por telefone —. Pari uma senhorita que gosta de homens. Não me desafies, Zulema, que sou tua mãe e estou atuando como Deus. A situação se colocava cada vez mais tensa e ela decidiu grava-la.
Assustadas,no dia 30 de março, as garotas foram à polícia fazer a denúncia por ameaças e apresentaram a gravação. Dois dias depois, Zulema disse no twitter que havia acontecido uma "negociação" e as ameaças "por agora" haviam parado. Do mesmo modo, em 9 de abril, o delegado Richard Gaibor ordenou que se abrisse uma investigação.
Em 17 de maio — ironia da vida: é o dia internacional da luta contra  a homofobia —, Zulema recebey um chamado de seu pai, Guillermo, que a convidava para almoçar, “para apaziguar as cosias”. Disse-lhe que era "pela paz”, que queria “aparar as arestas”. E ela pensou que, por fim, tudo voltaria a ser como antes. Estava feliz. Mas, como suspeitava sua noiva, era uma armadilha. “Por favor não vá sozinha”, disse Titi —assim Zulema chama sua garota —, mas ela não deu ouvidos. Confiava em seu pai.
Seu último tweet dizia: “Apesar dos problemas, família é família”.
Quando saiu do trabalho, seu pai passou para busca-la de carro. Mas, na metade do caminho, freio abruptamente e um grupo de homens a tiraram à força, arrancando-lhe parte da roupa durante o ataque, enquanto seu pai observava tudo. Dominaram-na e a colocaram em outro carro para leva-la ao Centro Recuperación Femenina para Adolescentes “La Esperanza”, um centro de tortura física e psicológica para jovens homossexuais localizado na cidade de Tena, na região  centro-norte do Equador, onde ficou sequestrada durante três semanas com a cumplicidade da própria família.
Foram sete horas de viagem e vinte e um dias de tortura.
Ela foi recebida numa espécie de capela. Ali, um grupo de mulheres uniformizadas lhe advertiram que as regras do lugar eram claras: era proibido escapar, roubar e ser lésbica. Designaram-lhe uma vigilante, Paulina, 34 anos, viciada em remédios e uma companheira de quarto, Miriam, de 14 anos, internada por vício em álcool e drogas. Como esse tipo de centro está proibido por lei no Equador, funcionam sob a fachada de clínicas de reabilitação para viciados, controlas pela máfia evangélica fundamentalista. Em agosto de 2011, o Ministério da Saúde e a Defensoria do Povo do Equador fecharam 30 clínicas de "cura gay" que estavam assim habilitadas, burlando a lei. A novela "Un lugar seguro contigo”, do escritor equatoriano  César Luis Baquerizo, conta como são. 
Ficharam Zulema como alcoólatra e drogada e obrigaram-na a seguir o tratamento como se realmente o fora. “Não sou viciada em nada", dizia ela, e lhe respondiam que o lesbianismo é "uma aberração" e que, em seu caso, era consequência de seu vício em álcool e drogas. Davam-lhe a comer papas com gusanos, falavam até à exaustão da Bíblia, diziam-lhe que "Deus nos fez homem e mulher," e lhe asseguravam que a manteriam ali "entre seis meses e um ano" e não a deixavam ir ao banheiro por mais do que poucos segundos, sempre com a porta aberta e observando-a.
Zulema não aparecia e sua noiva estava desesperada. Não sabia o que fazer. "Quero que tudo isso seja apenas um pesadelo," tuitou Cynthia um dia depois do sequestro. E em 22 de maio: "Daria tudo para ver-te sorrir, por saber que estás bem”.
“Era um pouco depois do meio dia e eu estava trabalhando em meu computador com o relaxamento antecipado de quem sabe que lhe esperam três dias de feriado. De repente, me chegou uma mensagem direta pelo twitter. Juan Pablo Argüello me dizia que a noiva de uma amiga muito querida havia desaparecido havia quase uma semana sem deixar rastro. Suspeitava-se que a família a houvesse internado, contra sua vontade, numa clínica, pois havia poucos meses ela havia contado a eles que era lésbica e desde aquele momento sua vida havia se transformado num pesadelo em sua casa. Dei a Juan Pablo meu celular para que a noiva da garota desparecida entrasse em contato comigo imediatamente. Pouco depois, recebi outra mensagem de Argüello, que dizia que sua amiga estava horrorizada. Ela havia sido ameaçada pela família de sua noiva, suspeitava que seu telefone havia sido grampeado. Não podia comunicar-se comigo. Não agora," relatou  no Gkillcity.com a advogada equatoriana Silvia Buendía, que decidiu tomar o caso. Era quinta-feira, 23 de maio.
A Dra. Buendía também recebeu mensagens pelo twitter de companheiras da faculdade de  Zulema, que estavam assustadas por seu desaparecimento. Haviam ido à sua casa e o pai lhes disse que a garota estava viajando em Costa Rica e que não assistiria as aulas durante  o semestre.
— Mas não poderá graduar-se… — disseram-lhe.
— Ela não se importa — respondeu o homem secamente, e elas não acreditaram. Zulema era uma excelente aluna e estava empenhada em terminar a faculdade esse ano. Não podia ser verdade.
Na quarta-feira, 5 de junho, a Dra. Buendía finalmente conheceu Cinthya Rodríguez na Defensoría del Pueblo de Guayaquil. “É uma menina delgada, bochechas rosadas, grandes olhos negros, tristes; abundante cabelo muito longo, castanho claro, como as princesas das histórias que a minha filha lê. Disse-nos que estava decidida a lutar para encontrar sua noiva, que já não tinha mais medo, que Zulema era sua vida e não pararia até resgata-la”, relata a advogada. Junto a seu colega Marcos Pacheco, da Defensoría del Pueblo, Lía Burbano, da ONG Mujer y Mujer, e da ativista Verónica Potes, criaram uma estratégia legal para libertar Zulema Constante. Além de fazer a denúncia à delegacia (a princípio, não queriam recebe-la) e na Defensoria,tornariam o caso público através das redes sociais e dos meios de comunicação. O hashtag #Zulema tornou-se o trending topic no twitter.
A família, enquanto isso, desmentia tudo. Diziam que a denúncia era uma invenção, que Zulema estava bem e que tudo isso era mentira de quem queria prejudica-los.  Billy Constante, um de seus irmãos, se comunicou com a polícia e até com a governadora para dizer que Zulema não estava desaparecida. Mas um amigo de Billy denunciou que este havia confessado que sua irmã estava internada numa clínica "para lésbicas". Também chegaram outras denúncias e versões contraditórias: que haviam tirado a moça do país, que estava em casa sedada, que estava em outra província.
A repercussão pública do caso assustou a família e provocou a intervenção do governo. Segundo conta a Dra. Buendía, a governadora de Guayas, Viviana Bonilla, chamouo o pai da jovem para pressiona-lo: queria saber a verdade. Os pais telefonaram para Zulema no centro onde estava sequestrada e disseram que a libertariam, mas que tinha que dizer que havia estado num retiro espiritual por vontade própria. O diretor do centro chamou um táxi no meio da noite e ela, desconfiada do que podia acontecer, convenceu o taxista a lhe emprestar o celular e ligou para sua noiva, contando tudo e pedindo ajuda.
Avisadas por Cynthia, a Dra. Buendía, Potes y Lía criaram um esquema para resgata-la. Houve um momento de pânico, quando por vola das 7:30 da manhã, o celular de Zulema ficou sem bateria e perderam contato, mas por fim tudo ficou bem. A garota pediu ao taxista que parasse no caminho, com a desculpa de ir ao banheiro, e dali entrou no carro de Lia, que estava esperando, e escaparam. As autoridades estavam avisadas e intervindo (Verónica Potes comunicou-se, através de um assessor, com o Ministro do Interior, José Serrano, para que lhes garantisse proteção) e Zulema recuperou finalmente sua liberdade. Foram direto à Defensoría del Pueblo de Guayaquil, de onde tornaram pública a denúncia.
“Sou Zulema e estou livre desde ontem”, tuitou a jovem em 7 de junho, logo depois de se encontrar com Titi. “A primeira coisa que fazem nesses centros é tratar de baixar tua autoestima, com muitos insultos, tratamento degradante, dizendo que você não vale nada, que faz sua família sofrer. Te obrigam a limpar os banheiros com a mão, a comida que te servem está infestada de gusanos," contou logo numa entrevista na televisão. Agora, junto com os que a resgataram, denuncia onde possa tudo o que lhe passou, para que não aconteça a outros.
“Estamos aproveitando a repercussão desse caso para que se fechem todos esses centros de tortura. Não é o primeiro caso. Isso tem que acabar, não pode acontecer nunca mais," disse a advogada Silvia Buendía ao site Tod@s.
— Abriram alguma investigação penal na justiça contra os pais e os administradores do centro onde ela esteve sequestrada?
— Eu iniciei a denúncia com Titi em 5 de junho pelo desaparecimento de Zulema — explica a advogada —. Mas o quadro mudou quando resgatamos e Zulema teve que dar uma nova versão à polícia. Hoje a Advocacia Geral da Nação (Fiscalía General de la Nación) declarou o caso como de comoção nacional e decidiu que quem o assumiria seria um promotor especial de Quito. Assim, essa é a terceira confirmação e o terceiro processo.
— E os pais?
— Zulema não deseja apresentar acusação particular contra seus pais e irmãos, mas o braço da lei também os alcançará, isso é inevitável e ela sabe disso. Por outro lado, as ameaças nos têm deixado muito preocupadas. A “clínica” pertence a uma máfia religiosa muito perigosa. Isso é um pesadelo para as meninas, somente seu amor, que é imenso e consistente, tem podido mantê-las inteiras.
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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO
No Brasil, Marco Feliciano e seu séquito fundamentalista, com o apoio das 'psicólogas cristãs' Rozângela Justino e Marisa Lobo, e de pastores  como Silas Malafaia, tenta aprovar um projeto do Deputado João Campos, outro pastor fundamentalista, que visa banir a resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia que proíbe exatamente esse tipo de coisa - tentar curar homossexuais. 
A sociedade brasileira e o Parlamento brasileiro não podem se deixar enganar pelas falácias desses desequilibrados. O que eles querem é abrir caminho para a legalização da tortura que pretendem impetrar às famílias de homossexuais e aos próprios homossexuais através de 'programas de cura gay,' que poderão ir de atendimento em gabinete 'psicológico' a clínicas de 'reabilitação'.
DIGAM NÃO AO PROJETO DE CURA GAY DE JOÃO CAMPOS.
DIGAM NÃO A MARISA LOBO E ROZÂNGELA JUSTINO.
DIGAM NÃO A SILAS MALAFAIA E SEUS ASSECLAS.
DIGAM NÃO A MARCO FELICIANO E À BANCADA EVANGÉLICA.
DIGAM SIM AOS DIREITOS CIVIS PLENOS DAS PESSOAS LGBT.
DIGAM SIM AO CASAMENTO IGUALITÁRIO.
DIGAM SIM AO PROJETO DE LEI QUE CRIMINALIZA A HOMOFOBIA E A TRANSFOBIA.
DIGAM SIM À DIGNIDADE DOS CIDADÃOS LGBT.
DIGAM NÃO À HOMOFOBIA E À TRANSFOBIA!


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